Oceano
9 Sereia negra
Joguei-me contra Coral, sem nem pensar duas vezes, e antes mesmo de eu e ela cairmos na areia, sua expressão era de surpresa e terror.
Peguei-a pelos cabelos e tentei de alguma forma impossível arrancá-los, na verdade eu só queria descontar minha raiva. Ela se agarrou a mim segurando meus braços com os dentes cerrados, percebi que ela tem uma espécie de piercing no dente. É bonito, mas adoraria tirar aquele piercing da forma mais dolorosa possível.
Ela xingou minha mãe e isso eu não admito. Mesmo que ela possa ter mentido para eu todos esses anos, ela ainda é sangue do meu sangue, e se fez isso, era por medo ou por insegurança, e quantas vezes eu não me escondia pelo medo que eu tinha?
Quero acabar com a carinha dela. Quero feri-la.
Seu rosto está tão vermelho que por um momento acho que ela irá morrer, isso me faz agarra-la menos. Não quero cometer um crime. Surpreendo-me a mim mesmo, falando essas palavras:
– Nunca fale dos meus pais – Ofego de dentes cerrados – Você não tem nem o nível para chegar perto deles.
– Gringo – Coral chama, por um momento reflito sobre aquilo e percebo que é o nome de alguém. – Warthia!
Vejo duas silhuetas correndo até nós. Eles me agarram por trás, sinto um pesar no meu estômago, ele está sendo puxado junto com o resto do meu corpo. Solto Coral, mas antes uso toda minha força para lançar um tapa em seu rosto. Estou descontrolada. Totalmente. Nunca fiz isso em toda minha vida.
Gringo e Whartia – que é uma mulher, mesmo daquele tamanho – me seguram pelos braços, e eu tento me desvencilhar dos braços deles, mas parece impossível. Toda minha força bruta foi gasta com aquela víbora. Riba aparece junto com mais dois meninos do mesmo porte físico dele. Eles tentam me tirar dos braços fortes e conseguem. Riba me coloca para trás e puxa-me de lado. Eu sei que ele me acha uma estúpida agora.
– Você acabou de descabelar e arruinar a maquiagem da nossa ex-líder – Ele disse, parecendo perplexo – Todos vão ter uma imagem ruim de você.
– Ela disse que minha mãe era uma espécie de... vadia – Digo, nervosa.
– Ela poderia dizer qualquer coisa – Ele está me olhando fixamente – Vivemos numa sociedade com modos, não numa jaula de selvagens...
– É ISSO AÍ, LEONA – Ouço a voz de Lylha que está acenando das pedras no horizonte. Todos olham, inclusive Coral, que está tentando arrumar os cabelos e a maquiagem, enquanto se levanta. Gringo e Warthia estão ao lado dela.
– Era só o que me faltava, mais uma idiota na sociedade – Ela diz – Poseidon está fazendo um trabalho tão ruim...
Eu começo dizendo algo, mas Riba me manda calar a boca de um jeito não tão ruim. Foi mais para a minha proteção, do que uma falta de educação.
– Eu não vou levar essa adolescente problemática para Tritão – Coral me olha feio, seus olhos estão com toda a maquiagem em volta borrada, ela parece um palhaço assim. Estou morrendo de rir por dentro. Riba me olha feio também.
– Mande Lylha e Mar levarem essa daí para falar com Tritão – Coral diz olhando para Riba – E mande alguém dar um remédio para ela, ou melhor, uma camisa de força.
– Já está bom Coral – Diz Gringo – Você também disse algumas coisas um pouco...
– Eu meço todas as minhas palavras antes de falar algo – Ela diz, agora olha feio para todos aqui na areia. Sinto um nojo que não para de crescer. – E eu só disse verdade. Você sabe. – E aponta para mim.
Não mexo nem um fio de cabelo, mas minha mente está tentando achar as piores e mais sangrentas mortes para Coral. Não posso pensar isso, mas é tentador.
Coral se vira e caminha em direção a água, e quando eu menos espero, ela mergulha e eu posso ver a ponta de sua cauda, o que me faz dar um passo para trás. Ninguém parece fazer isso, como se fosse a mesma coisa que um nada, mas aquela cauda negra me lembrou as piores coisas do mundo. Era mais negra e fosca que os olhos e os cabelos dela. Ela não era qualquer uma com certeza.
Gringo, Warthia e mais uns três sereianos, seguem-na para a água, e mergulham também. Todos com caudas. As dos homens, sobem mais na superfície enquanto mergulham, devem ser maiores por serem tritões.
O resto do pessoal que sobrou ali – sete pessoas, tirando eu – são todos sereianos aéreos, ou anjos como prefiro chamar. É mais melodioso, mas eles não têm nada de melodioso e delicado como achei que anjos seriam. Eles parecem mais gladiadores com asas, do que anjos bonzinhos bombados. Os sete ali são homens, e todos olham para Riba.
– Podem seguir pessoal – Ele diz, olhando-os – Levarei Leona para Lylha e Mar, e depois esperarei para leva-la para a casa. Não posso deixa-la ir sozinha, não é mesmo?
Todos concordam e a cena a seguir é tão linda que meu peito encolhe.
Os seis anjos começam a alçar voo, e suas asas batem no vento que ao sol parece uma pintura a óleo muito bem desenhada e acabada. Pouco mais de um minuto, todos sobem as nuvens e somem na imensidão que é o céu.
Essa então são as duas características que tornam o céu e o mar tão próximos. Suas imensidões.
Caminhamos lado a lado na areia, e percebo que ele sabe andar bem em todos os lugares, enquanto eu pareço estar andando em pneus, tão desleixada quanto pareço ser.
Já deve ser umas 14 horas da tarde, e não posso demorar, não quero preocupar mamãe e papai – será que aquilo tudo era verdade? Eu estava vivendo sob um teto de mentira, e que simples palavras poderiam acabar com tudo?
Resolvi tirar isso da cabeça. Tudo tem seu tempo e sua hora. E a hora não é agora.
– Aliás, eu gosto de mulheres marrentas – Riba fala subitamente, me tirando dos pensamentos.
– Ah... — Eu só consigo resmungar. Não tenho palavras para usar na boca agora. Falo a primeira coisa que consigo pensar. — A praia aqui é linda. Como conseguiram cerca-la?
– Essa parte da praia foi encantada por Poseidon e Éolo, se alguém que não for sereiano tentar passar pelo bosque fica inteiro molhado por um balde enfeitiçado cheio de água gelada, ou as vezes é levado por um vento forte para trás. Os dois deuses pensam.
Rio ao saber disso. Não sei se é verdade, mas não sou uma humana para tirar a prova. Prefiro continuar como se tudo estivesse ocorrido perfeitamente.
– Acha que eu me encrenquei de verdade?
– Talvez... mas eu estou aqui para ajudar sempre que precisar. – Ele me olha sorrindo – Só se for Poseidon quem quiser te dar um castigo, aí sim eu vou estar voando bem longe de você.
– Até parece que você conseguiria fugir tão rápido...
– Eu sei – Ele diz – E não subestime minhas habilidades...
– Mas porque disse que eu talvez possa estar encrencada?
– Todo sereiano aquático é capaz de amaldiçoar o que for. Tirando os deuses, claro. Mas quando você amaldiçoa por crueldade, Poseidon de alguma forma sabe e castiga quem foi o amaldiçoador. Ele tem poder e direito para isso. – Ele me olha como se eu fosse uma criancinha e ele um professor – Foi por isso que disse talvez, pois se Coral te amaldiçoar, não será a primeira vez que ela faz uma coisa parecida com essa.
– Então você quer dizer que ela já amaldiçoou alguém?
– Ah... com certeza.
– E quem foi essa pessoa?
– Ninguém sabe exatamente... só Poseidon, e por Coral ter sido uma boa líder, ela não foi exilada – porque é isso o que acontece quando você amaldiçoa alguém.
– Então qual foi a punição dela?
– Já viu a cauda dela?
– Sim... por que?
– A cauda dela é negra... como os olhos e os cabelos. Ela carrega a escuridão, e isso de alguma forma a torna uma pessoa pior, uma pessoa cheia de maldade. Coral é detestável até para os peixes, até eles mantem-se longe dela. Ela não consegue mais ser feliz.
Por um momento não sinto mais raiva dela. Só consigo sentir pena.
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