Oceano

6 Inexpressivo como a escuridão


– Ok.. Quem é você? E como sabe meu nome?

Digo essas palavras e depois tampo a boca. Não quero parecer grosseira nem estúpida perto daquele ser que eu não sei ainda o que é. Eu só queria mostrar curiosidade. Acho que falhou.

– Não vou machucar você, calma – A voz grave, como de um garoto quase entrando na fase adulta toma conta da escuridão que me cerca. A luz do sol já está bem longe e os pássaros aqui parecem cantar uma música de morte. Estou alucinada. – Sua mãe fala bem alto no telefone, sabia?

Ele me pegou de surpresa. Pisco os olhos e lanço a cabeça para trás, fazendo meus finos fios de cabelo ondulados se mexerem e voltarem ao lugar. Como ele sabia que eu falava com minha mãe no telefone? Não sabia que ele me observava tão de perto.

– Ahh – Ele diz, vendo a preocupação nos meus olhos, ou sei lá o que ele pensou, só sei que aquilo para ele pareceu responder minhas perguntas, mas mal ele sabia que agora eu tinha mais a fazer – Eu consigo ouvir de longe, graças ao dom que recebi de meu pai.

– O que....? É que... – Eu tento falar, mas as palavras estão perdidas na mesma escuridão em que estou cercada. Estou sonhando ainda? Estou deitada no hotel, esperando o dia amanhecer para ver o sol e as lindas paisagens de Los Angeles?

– Tudo bem, Leona – Ele diz – Só me siga por favor. – Ele continua – Está na cara que não quero fazer nenhum mal a você. Só quero te passar a mensagem que foi me dada e explicar algumas coisas que você estiver com dúvida.

– Que cara? – Eu pergunto – E que dúvidas? Como sabe quem eu sou? Eu... conheço você?

– Não – Diz ele – Mas acho que somos primos ou algum parente distante... Estou brincando. – Ele diz rapidamente quando de alguma forma vê minha cara de espanto.

– Você também enxerga no escuro? – Pergunto, intrigada – Além de ouvir a longa distância?

– Sim – Ele começa – Como adivinhou? Todos esses dons eu herdei do meu pai. Gosto deles, eles são bem úteis quando precisamos procurar alguém do Oceano que ainda acha que é qualquer um por aí.

– O que você quer dizer com isso?

– Quero dizer que você tem que me seguir, e assim terá todas as respostas das perguntas que cabem nessa grande pequena cabeça que só sabe perguntar e nunca ouve.

– Quem disse que eu sou assim?

– Você mesma acabou de provar isso para mim e para você.

Calo a boca por um instante. Ele sabe jogar. Mas ele sabe dar as cartas?

– Por que eu não gritaria nesse exato momento pedindo ajuda, e falando que tem um louco vestindo cosplay de um anjo e mandando segui-lo?

– Isso não iria ajudar nem a mim, nem a você. – Ele me olha nos olhos. Mesmo no escuro sinto o peso que isso causa em mim. – Até a ajuda chegar aqui eu com certeza poderia estar bem longe e você seria tachada de louca. Se só seu trauma não fosse o bastante.

Aquilo quase me derrubou no chão. Senti as pernas bambearem e agora o medo tomou conta de mim. Pensei que não fosse tão nitidamente assim meu medo de água. Pensei que era algo que só a família Parker tinha em mente.

– Você deve estar se perguntando o porquê eu sei disso, não é? – Ele pergunta-me.

– Eu acho que está claro isso. – Digo, secamente. Meu peito está tão revirado quanto meu estômago.

– Siga-me e tudo será resolvido. Pense em mim como um anjo curador que pode te tirar o trauma. Você ainda vai me agradecer e eu posso te roubar um beijo. E quem sabe algo maior.

– Você é um psicopata que está me seguindo desde minha cidade, ou desde que eu cheguei aqui, não é?

– Com certeza sou um psicopata. Bem psicopata mesmo. Daqueles que colocam asas para caçar suas vítimas. – Ele ri debochando de mim – Você não consegue enxergar os fatos.

– Eu não consigo nem enxergar você! – Digo quase suplicando.

– Eu gosto do escuro, mas em outras ocasiões – Ele diz – Agora siga-me, por favor. Não quero pega-la no colo.

Mais uma vez seguro o impulso de correr. Agora meu medo está se controlando e uma leve camada de excitação está por cima de todos os meus outros sentimentos. Vamos lá.

Meu dedo ainda tá na página em que eu parei de ler quando levantei e caminhei até o ser estranho. Coloco o marcador e tento carrega-lo bem apertado, para o caso do “anjo” querer me atacar e eu ter algo para me defender. Mesmo que seja inofensivo. A não ser pelo horrível começo que mata qualquer um do coração.

Sigo o rastro do ser enquanto ouço seus pés farfalharem no chão cheio de folhas. Queria muito poder ver suas asas, mas agora está tão escuro que meus olhos precisam se abrir e fechar várias vezes para me acostumar. Queria que o sol queimasse as folhas de cima das árvores nesse exato momento.

Uma pequena luz cresce na nossa frente, e antes que eu pudesse prestar atenção em suas asas, o ser já está todo formado e nítido, embaixo da luz do sol, num local circular, onde devia ter uma árvore tampando a luz do sol, mas que não existe.

Meu coração parou nesse segundo algumas milhões de vezes, e de repente voltou a vida como uma ressurreição.

Ele com certeza tem asas. Ele com certeza tem poderes sobrenaturais. E olha que sei disso só olhando-o.

O homem deve ter uns 1,80 de altura e a pele toda bronzeada. Ele não usa camisa o que possibilita-me ver o perfil de sua barriga. Não é totalmente definida, mas é de um jeito perfeita, e que não há como colocar defeitos. Ele usa uma calça branca com amarras de palha. Está descalço e sua pele bronzeada reluz tanto na luz do sol. Tanto.

E agora Leona está olhando fixamente para o rosto dele. Ele tem o maxilar e o queixo quadrado, o formato de rosto que todo mundo inveja. Seus olhos são cor de palha e sua boca está entreaberta – ela consegue ver seus dentes por trás dos lábios. Ele tem cabelos louros mais puxado para o castanho, e algumas partes do cabelo que cai na frente da cabeça deve ser descolorido. Engraçado. Um “anjo” que vai ao salão.

A parte que mais me chamou a atenção são suas asas. Brancas, mas puxadas para o cinza, e em cima de cada uma, uma garra de prata está fixada para o lado correspondente da asa. Elas estão junto ao corpo, como os braços. Ele não sorri. É tão inexpressivo quanto a escuridão.

– Ainda acha que eu sou um psicopata que caça suas vítimas com asas de mentira? – Ele pergunta, mas já sabe a resposta.

– O que você quer comigo? – Eu falo. Ele simplesmente dobra os braços junto de si e fala como se tudo aquilo fosse uma música que todo mundo conhecesse.

– Prazer, meu nome é Riba. Sou filho de Éolo, o deus dos ventos, mas diferente de você, eu sempre soube que não era qualquer um. Eu sempre soube que era um sereiano aéreo.

Ele para de falar para coçar o queixo, e eu percebo que em poucos dias uma barba vai se formar ali. E continua:

– Eu cresci junto a meu pai, no nosso palácio acima das nuvens, mas sempre ficamos embaixo do Oceano, onde Poseidon e Éolo comandavam de alguma forma em uníssono. No começo tínhamos poucos sereianos, tantos aéreos quanto aquáticos, mas mesmo assim conseguimos formar uma nova... sociedade, o Oceano. Ele é governado por Éolo e Poseidon, mas os dois não tem muito tempo então deixaram seus filhos deuses para cuidar de cada palácio pertencente ao pai. No meu caso, quem é o “prefeito” do palácio dos céus é Zéfiro, mas ele não é filho de Éolo, apenas deve um favor a ele, e então Éolo o direcionou a essa tarefa, mas fique tranquilo, ele é muito distraído e pouco aparece. E no caso no palácio das águas, quem toma conta é Tritão, filho de Poseidon, que de certa forma, é desagradável, mas que nunca deixou o Oceano na mão. Agora você deve estar se perguntando... o que você tem a ver com isso? E é aqui que eu te falo, Leona, você, assim como eu, não é qualquer uma. Você é um sereiano.