Oceano
14 Do mar para o céu
Quando nos aproximamos da construção enorme e branca, paro e deslumbro a beleza do local.
As vigas brancas como papel estão posicionadas em torno da enorme casa quadrada. Ela deve ser quase do tamanho daqueles shoppings de Las Vegas e Nova York.
A casa é banhada por algas e plantas aquáticas por todos os lados. Ela poderia ser considerada uma casa submersa pela água, mas não é qualquer casa que resiste ao oceano, e por isso eu sei que ela é diferente.
Lylha e Mar me conduzem para a porta da frente, e diferente de andar sobre o chão, eu me sinto um pouco acanhada de só bater a cauda e sair rapidamente do lugar. De nenhum modo é ruim, é maravilhoso, porém diferente.
Entramos pela porta da frente que já estava aberta, e eu abro a boca pelo espanto. É tudo tão lindo e... branco.
Todos os móveis e estátuas são brancos sem nenhum sentimento, mas de alguma maneira faz sentir-me em casa. Gosto de como estão posicionadas as estátuas e cada objeto naquele enorme salão.
Sigo meus olhos e estou tão maravilhada que não percebo que Lylha e Mar já estão caminhando na minha frente. Aperto o passo para acompanha-los, mas não tiro os olhos de tudo ali. Eu poderia ter trezentos olhos, que todos eles estariam ocupados nesse momento deslumbrando o local.
A escada que subimos é em forma de curva e parece ser feita de pedra. Aqui tudo parece ser feito como uma mansão normal de humanos, mas não pisamos no chão, e então presumi que essa escada servia mais para enfeite. Sorri, debochando de mim mesma.
Quando havíamos chegado ao topo, onde um grande hall ligava a escada a um corredor claro, três silhuetas saíram do escuro e ficaram na nossa frente. Coral. Gringo. Warthia.
– Onde pensam que estão indo? – Coral disse, sorrindo.
– Estamos levando Leona para falar com Tritão... – Lylha tentou passar por ela – Se você não se incomodar...
– Infelizmente – Coral riu, e cruzou os braços impedindo a passagem de Lylha – Eu me incomodo sim.
– Saia da frente, Coral – Mar disse – Se você não percebeu, estamos indo conversar com Tritão, e ele não é um tipo de pessoa que gosta de ficar esperando muito...
– Eu fui a encarregada de mostrar o local e leva-la até Tritão – Coral disse, venenosa – Então, por favor Leona – Ela me chamou, mas eu não dei um passo – Venha antes que alguém comece a socar a cara de seus amiguinhos.
– E quem iria socar a cara deles? – Eu perguntei – Você? – Não pude deixar de rir.
– Sorte sua que estamos no palácio de Tritão, se não acabaria com sua glória nesse momento – Ela disse – Acha que essa cauda de vagalume é realmente especial? Não se ache tanto, por favor.
– Deixa que nós cuidamos deles aqui, Coral – Warthia disse – Leve-a antes que Tritão pare de querer esperar por ela.
Olhei para Lylha e Mar e não sabia o que fazer. Não sabia que eu precisava de alguém para me levar até Tritão em especial, e eu não sabia o que iria ter que fazer com ele. Eu só queria que essa parte fosse pulada.
– Vá, Leo – Mar disse, Lylha protestou, mas ele não deu atenção – É melhor que ela a leve mesmo, não queremos arranjar problemas para você logo no seu primeiro dia... estaremos aqui fora te esperando.
Olhei para Lylha que olhava para Mar incrédula, e antes que eu pudesse dizer algo, Coral me agarrou pelo pulso e me levou até o corredor. Não consegui ver mais meus amigos, mas ouvi a voz de Lylha reclamando. Depois de alguns segundos olhei para frente, e percebi que estávamos chegando perto de uma enorme porta parecida com uma de submarino. Ela era toda de pedra branca como a mansão, e eu tive que admitir que Tritão tinha bom gosto.
– Antes de entrar – Disse Coral, parando do lado de fora da porta, em frente a mim – Seja educada e não use gírias, Tritão é muito nobre e ele não vai desperdiçar todo o tempo dele com você, ainda mais se você não souber usar bem as palavras. Faça tudo o que ele mandar, e depois pode tirar sua cauda brilha-brilha daqui da mansão.
Coral não esperou minha resposta, mas minha vontade era de arrancar um grande tufo daquele cabelo negro dela. Ela ficaria bem triste e raivosa, por isso tirei qualquer ideia da mente, assim que ela bateu três vezes na porta.
O barulho retumbou pelo corredor, e eu virei para ver se tinha alguém ali. Mas não. Coral parecia estar mais ereta, e eu me endireitei também. Não quero passar vergonha e receber bronca perto de Coral, ela só teria algo a mais para me irritar.
A porta se abriu silenciosamente, mas não tinha ninguém nos esperando. Quando ela se abriu, uma quantidade grande de bolhas saiu do local, e eu tinha certeza que existia alguém naquela sala nos esperando.
Eu não fazia ideia do que esperar de Tritão. Não sabia se ele seria parte humano parte animal como os sereianos, mas a minha primeira impressão dele me causou um nó na garganta.
Ele estava nos esperando em pé encostado em uma parede, mexendo numa espécie de concha roxa e bem grande. Quando entramos na sala, sua feição era bem rígida, e seu rosto – que eu não conseguia distinguir se era humano ou não – era quadrado e aparentava raiva.
Seus cabelos longos eram de um verde-água mais escuro, e suas orelhas pontudas. Suas sobrancelhas eram da mesma cor que o cabelo. Ele tinha nadadeiras nas mãos e grandes escamas no pescoço, além de garras nos dedos. Mas ainda seu tronco e seu rosto eram de cores humanas, e acho que agora tenho certeza que ele é quase um homem humano inteiro. Ele não tem cauda como os sereianos, mas não tem pernas como humanos normais. Da cintura para baixo, suas pernas são azuis com veias saltadas, e depois dos joelhos, ele tem nadadeiras em formas de pés. Com certeza ele pode nadar e pode andar no mar.
Seu corpo está coberto de ouro, e ele usa um cinturão que cobre da cintura até perto do joelho. Ele não é bonito, mas sua beleza instiga qualquer um.
– Por que a demora, Coralline? – Sua voz era retumbante na sala escura e coberta por objetos brancos e algumas coisas de ouro e... espera, ele chamou Coral de Coralline? – Eu estava quase desistindo e voltando ao meu sono.
– Me desculpe mestre – Coral disse – E meu nome é Coral, senhor...
– Nós dois sabemos que não é bem assim.... – Ele sorriu e mostrou seus dentes dourados da boca. – Mas isso não vem ao caso agora. Deixe-a aí e volte a seus afazeres.
– Como quiser, senhor – Coral fez uma brevíssima referência e isso me deixou maluca. Eu precisava me curvar também?
– Sente-se Leona Jaly Parker – Como ele sabia meu nome? Pensei se Coral já havia falado para ele, mas ela também não sabia, e então lembrei de Odya e de que ela havia avisado ao Oceano sobre mim. Com certeza ela sabia.
Sentei-me em uma cadeira em frente a uma mesa branca de pedra cheia de tesouros dourados. Ele caminhou até atrás de uma mesa e se sentou também. Achei estranho o fato de me sentar em uma cadeira quando ainda estava em forma de sereiano, mas foi normal, como se eu ainda estivesse com as minhas pernas ali.
– Primeiro de tudo quero falar que não sou seu irmão – Ele começou – Sou filho de Poseidon, mas é de uma maneira diferente, e não é algo que você deva saber. Então vamos ao assunto.
“Você já deve saber que aqui no Oceano precisamos mudar quem somos para assim começar uma nova vida, sem problemas, e sem preconceitos. Não sei se irá ficar, mas você tem o livre arbítrio para escolher o que quer fazer de sua vida. Não sou eu quem vai mandar você fazer algo, não sou seu pai para isso. “– Ele sorriu, e eu percebi que ele também não seria alguém fácil.
“Agora quero que você me diga se tem em mente algum nome que queira usar – Ele continua – Muitas pessoas escolhem nomes submarinos para ter uma vida completamente aquática aqui em Oceano. Mas aceitamos sugestões suas.”
– Não quero mudar meu nome, senhor.. – Digo relutante, não quero que ele se zangue comigo de cara. – Isso é uma obrigação?
– Talvez, Leona – Ele me estuda, suspira e fala: — Mas aqui também podemos dar jeito nas coisas... Não quero que se sinta pressionada em escolher um nome, mas muitos dos sereianos que vem até nós, querem esquecer tudo em sua volta e focar na sua vida presente... não conheço você, mas acho que você é tanto feliz aqui, quanto é lá fora.
Eu sorrio pensando em minha família. Meu pai pode ter sido bem mal com a minha mãe, e minha mãe mentido para mim, mas eu conheço o amor real, e sei que eles me amam, mesmo que meu sangue aguado, não seja como o sangue vermelho deles. Eu sou feliz lá também, e ponto.
– Você está certo... – Digo.
– Eu sempre estou certo. – Ele diz, sem emoção. – Mas então vou te dar uma sugestão. Existia uma grande sereiana, que num passado próximo nos ajudou tanto que até hoje seu nome é falado pelos cantos do oceano. Ela se chamava Glennyst Parker, por coincidência esse é o seu sobrenome humano. Que tal você usar um nome como... Glenn?
– Você acha que eu devo? – Pergunto.
– Eu já dei a sugestão, não quer tudo de mão aberta, não é? – Isso não me pega de surpresa. Eu já imaginava esse temperamento. – E eu estou com muito sono, se puder ir mais rápido.
– Tudo bem! – Digo. – Glenn. Glenn Parker.
– Não usamos sobrenomes aqui...
– Glenn Parker, senhor.. – Eu digo, tentando não soar muito brava – ... para não ocupar mais tempo seu.
Ele pareceu pensar, e por fim disse:
– Que seja! – Ele pegou um papel que tirou debaixo da mesa, assinou algo em cima da folha e depois mais algo embaixo e entregou-o para mim, junto com uma caneta bem diferente e bonita.
– Escreva seu nome, e deixe-me dormir.
Assinei por fim, como Glenn Parker, mas uma coisa eu sabia, Leona sempre seria meu nome.
*****
Depois de mais algumas palavras, ele me mandou embora e eu nadei silenciosamente até a entrada da mansão, e encontrei Lylha e Mar conversando perto dali. Nenhum sinal de Coral e sua “gangue”.
– E então? – Lylha perguntou eufórica.
– Gleen Parker – Eu disse, sorrindo.
– Aaaaah – Lylha colocou a mão na boca, mas eu conseguia ver o deslumbre de seu sorriso – Ele deixou você usar dois nomes?
– Sim – Comecei – Mas por favor... me chame de Leo.
– Eu entendo, Leo – Mar disse, sorrindo – Foi difícil me acostumar com Mar, até porque as vezes me confundia quando as pessoas falavam do mar em si, e não de mim. Mas isso é com o tempo...
– Prefiro meu nome original – Digo – Não acho que mudar de identidade seja necessário, até porque não sei se vou...
– Isso não é conversa para agora, Leo – Lylha disse – Vamos jantar na minha casa. Vocês dois são meus convidados hoje.
Eu sorrio para ela, mas logo fico com os olhos arregalados e a boca aberta. Já estava na hora do jantar?
É claro que estava. Eu fui abençoada pelo meu pai no pôr-do-sol, então já devia ser bem mais tarde agora. Falei para Lylha e Mar que precisava voltar para a casa, e eles me perguntaram se eu não havia avisado minha mãe de que voltaria mais tarde. Mas eu não havia avisado.
Meu coração doía de tanto medo e ansiedade. Tentei nadar o mais rápido possível até a superfície, e quando emergi na praia deserta, vi Riba sentado na areia com os braços nas pernas. Tentei não olha-lo muito, não quero deixá-lo me levar essa noite. E a lua já aparecia na escuridão. Me despedi de Lylha e Mar, e eles perguntaram se eu queria ajuda, mas eu sabia que não havia como.
Corri para Riba na maior velocidade depois que cheguei até a areia. Ele me viu e se levantou.
Não pude deixar de reparar que eu estava de roupa quando saí do mar, e ainda por cima com ela toda seca. Senti os dois pingentes que havia ganhado hoje e me senti mais calma. Tentei não parece tão afobada quanto estava, mas ao ver o que Riba trazia nas mãos, meu coração se inundou de água.
– Você esqueceu seu livro comigo, Leona – Ele disse – Ou devo te chamar de outro nome?
– Não, Riba – Disse rapidamente. Minha roupa estava seca, mas meu cabelo estava encharcado e eu tremia por caso da fina brisa da noite que vinha do mar. – Vou sempre ser a Leona.
– Acho que você está encrencada, não é? – Ele me olha, sério – Seus pais não sabem nada ainda...
– Você pode me ajudar? – Eu digo. Sei o que eu quero. Sei que ele pode me ajudar. – Eu preciso ir muito rápido embora.
– Você me perguntou uma vez como era abraçar um anjo, lembra? – Ele disse.
– Sim, por quê?
– Me abrace. – Olho-o para ele incrédula – Me abrace.
Quando meus dedos tocaram suas costas e depois suas asas, a pelugem fez meus nervos reagirem e uma onda de prazer foi para cada parte do meu corpo. Seu cheiro era de árvore e sua pele lisa e macia. Suas asas pareciam nuvens brancas de perto, e eu gostei de abraça-lo. Não toquei em suas asas de novo. Não quero que pense que estou interessada só nelas.
Ele alça voo e eu agradeço-o silenciosamente por fazer o que eu queria, assim, chegaremos mais rápido no hotel.
Pela segunda vez estou tão perto de Riba que não quero que isso acabe, não quero que isso acabe, mas sei que a viagem é curta e que logo um vazio vai se abater entre nós.
Pela segunda vez estou sendo levada por Riba para casa, mas diferente da outra vez, estou indo com uma resposta a mais na minha mente. Agora eu sei como é abraçar um anjo.
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