​O amanhecer em Tara surgiu sob uma névoa densa, como se o próprio céu estivesse vestindo o luto pelo Velho Leão. O silêncio da cidade era absoluto, quebrado apenas pelo toque rítmico e profundo do sino da catedral, que dobrava a cada minuto em sinal de respeito.

​A Procissão de Honra

​O corpo de Dominic foi colocado sobre um afuste de canhão antigo, coberto com o estandarte de Tara — o leão dourado em campo carmesim. Marcos liderava a guarda de honra, montado em seu garanhão negro, com a armadura polida até brilhar como prata, mas o rosto era uma máscara de pedra. Atrás dele, Luan e Michael caminhavam a pé, seguidos por Anastácia, Maya e Catarina, cujos véus negros ondulavam ao vento.

​Enquanto o cortejo atravessava as ruas principais, o povo de Tara, que Dominic tanto amara e protegera, alinhava-se nas calçadas. Não havia gritos, apenas um mar de cabeças baixas. Milhares de pétalas de rosas brancas foram lançadas das janelas, cobrindo o caminho como uma neve perfumada. O som dos cascos dos cavalos contra as pedras da rua ecoava como um batimento cardíaco lento, o coração de um reino que se despedia de seu arquiteto.

​No Coração da Rocha: O Elogio de Luan

​Ao chegarem às Criptas Reais, onde as tochas iluminavam as estátuas dos antepassados, o caixão foi depositado diante do sarcófago de mármore. Luan deu um passo à frente. Ele olhou para o rosto sereno de Dominic pela última vez antes que a tampa fosse fechada.

​Luan tentou começar, mas a voz ficou presa na garganta. Ele olhou para Anastácia e para Marcos, e a dor de perder o pai que o escolhera quase o derrubou.

​— Dominic Mackenzie não nasceu com o sangue de Tara nas veias, mas ele o forjou em cada batalha e em cada ato de justiça — começou Luan, a voz falhando e recuperando-se com esforço. — Ele me ensinou que a coroa não é um privilégio, mas uma servidão. Ele foi o homem que nos uniu quando estávamos quebrados. Ele... — Luan parou, as lágrimas escorrendo livremente agora. — Ele foi a minha bússola. E hoje, o mundo parece um lugar muito mais escuro sem a sua luz. Descanse, meu pai. Sua guarda terminou.

​O Discurso de Ester: A Verdade da Druida

​Após a cerimônia oficial, conforme o pedido de Ester, a família permaneceu a sós na cripta. O silêncio era profundo, cortado apenas pelo estalar das chamas das tochas. Ester, apoiada no braço de Anastácia, caminhou até a cabeceira do sarcófago. Ela não parecia frágil naquele momento; parecia uma rainha ancestral invocando o passado.

​— Todos vocês o conheceram como o General, o Regente, o Leão — começou Ester, sua voz ecoando suave, mas firme, pelas paredes de pedra. — Mas eu o conheci como o estrangeiro atrevido que cruzou o meu caminho quando eu era apenas uma jovem mística que acreditava que o mundo era pequeno demais para o meu orgulho.

​Ela sorriu, uma lembrança distante iluminando seu rosto marcado pelo luto.

​— Eu o esnobei. Ah, como eu o tratei com desdém! Eu via nele apenas mais um homem de armas, rústico e implacável. Mas Dominic... ele não era como os outros. Ele não queria me possuir; ele queria me entender. Ele se mostrou um homem de uma dignidade tão profunda que me desarmou. Ele não apenas me fez sua esposa, ele me fez sua Rainha, dando-me um lugar que eu nunca ousei sonhar.

​Ester olhou para Luan e para a memória dos que se foram, com os olhos brilhando intensamente.

​— Mas o que me fez adorá-lo para sempre, o que selou a minha alma à dele, foi como ele lutou. Quando eu trouxe meus gêmeos ao mundo, frutos de um passado de sombras que todos queriam esquecer, Dominic levantou sua espada contra o mundo inteiro. Ele rugiu para que eles fossem legítimos, para que carregassem o seu nome com honra, como se fossem do seu próprio sangue. Ele não amou apenas a mim; ele amou a minha história e curou as minhas feridas.

​Ela pousou a mão sobre o mármore frio, fechando os olhos.

​— Eu fui grata a ele em cada amanhecer desses últimos sessenta anos. Eu o amei com a fúria de uma tempestade e a adoração de uma devota. Vá em paz, meu senhor, meu marido... meu homem. Eu te seguirei em breve, mas saiba que o seu legado de amor é o que realmente manterá estas paredes de pé.

​Um silêncio sagrado caiu sobre a cripta. Anastácia soluçava baixinho no ombro de Marcos, que apertava sua mão com força. Luan sentiu que, através das palavras de Ester, ele finalmente entendera a verdadeira extensão do homem que acabara de enterrar.