Verônica sabia bem como tudo aquilo funcionava. Ela já havia estado em uma sala de interrogatórios antes, porém era como principal testemunha e não como acusada. Verônica estava sentada à mesa e do outro lado estavam Clarice e César.

— então deixa eu ver se eu entendi, o seu cabelo foi encontrado na cena do crime e você me diz que não estava lá, que estranho, mas então esse caso está nas mãos erradas – ela se virou para César – chama o pessoal do arquivo X que esse caso é deles.

— sim, eu já estou com a Scully na linha – completou César. O deboche deles era irritante.

— foi a Flávia, ela armou pra mim. Desde a morte do Antenor eu fiquei pensando o dia todo em qual era o motivo e agora tudo faz sentido, ela estava armando pra mim!

— suponhamos que seja verdadeira essa afirmação, posso saber como o seu cabelo foi parar na cena do crime? — perguntou Clarice, mas então um homem invadiu a sala de maneira repentina e ela reagiu – o que está acontecendo aqui, quem é você?

— eu sou o representante da senhora Verônica, posso ver a intimação que a mantém aqui e saber qual é a acusação? — disse o homem ao colocar sua maleta sobre a mesa.

— claro, César, mostra pra ele – ordenou Clarice e César o fez.

— posso ter alguns minutos a sós com minha cliente? — perguntou o advogado.

— não tem necessidade, eu não tenho nada pra esconder, quero responder logo as perguntas da polícia, eu não devo nada a ninguém e não preciso esconder – interveio Verônica.

— ótimo, é só o que queremos – respondeu Verônica.

— a qualquer momento você poderá se recusar a responder qualquer pergunta Verônica, ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo – advertiu o advogado.

— eu quero esclarecer logo o que aconteceu, pois teve um momento na festa em que eu fiquei fora da mesa e antes que os policiais saibam por outras pessoas, é melhor que saibam por mim – disse Verônica.

— ótimo, vamos começar então. Me conte todos os detalhes daquela noite…

Noite da Festa.

bom, foi um prazer conhecer vocês e revê-la Verônica – disse ele colocando a mão sobre o ombro de Verônica – preciso tenta achar a organizadora desse evento maluco. Acho que ano que vem eu contrato vocês, porque olha, eu não tenho talento pra essas coisas.

Todos riram e Antenor voltou a andar pelo salão.

Verônica então ficou olhando pela multidão e movendo a cabeça, olhando para todos lentamente como que seguindo alguém com seu olhar.

tudo bem Verônica? — perguntou Carolina.

tudo bem sim, eu apenas preciso ir ao banheiro. Eu já volto – disse ela levantando-se da mesa.

quer que eu vá junto?

não Carol, obrigada, eu logo volto – ela sorriu gentilmente, então virou-se e começou a andar com o olhar fixo para frente, parecia que ela estava seguindo alguém.

Flávia havia acabado de entrar no banheiro e em seguida Verônica entrou.

Verônica? — Flávia virou-se para Verônica – o que você quer? Vai fazer outro escândalo pra eu perder meu emprego daqui também?

pode parar com essa palhaçada e vamos direto ao assunto, quanto você quer pra sumir daqui?

o que?

não se faça de desentendida Flávia. Você não tem nada o que fazer aqui, todo mundo nessa cidade te despreza, se você quer mesmo começar uma vida nova como diz, você só tem a ganhar aceitando a minha proposta. Vamos, me diz o quanto você quer pra sumir daqui.

Verônica olha, eu sei que você tem muita mágoa de mim e tem toda razão do mundo, mas eu preciso do seu perdão pra poder seguir minha vida em frente, deixa eu te provar que eu mudei. Desde que eu conheci Deus eu sou uma pessoa melhor.

Deus? Quem é você pra falar em Deus sua assassina?

Deus me perdoou Verônica, ele sabe que meu coração é bom.

seu coração? Uma pessoa que mata outra com um tiro a queima-roupa e ateia fogo em uma casa com uma mulher grávida dentro não tem coração, não me venha com essa conversinha furada, você pode enganar a idiota da Beatriz com essa historinha de arrependida mas a mim você não engana, eu e conheço e sei que dento de você só existe inveja e ódio – ela então se aproximou de Flávia e as duas ficaram frente a frente – fala logo qual é o seu preço pra sumir daqui.

se dentro de mim só tem ódio e inveja dentro de você só existe ressentimento e abandono, você nunca aceitou que o Ricardo não te queria mais e só voltou pra você porque você engravidou – disparou Flávia.

aí está ela, essa é a Flávia que eu conheço, vai , fala, continua!

você se acha grande coisa mas sabe que o Ricardo nunca teria voltado pra você se não tivesse engravidado, que aliás, que golpezinho baixo hein, engravidar pra segurar macho é tão anos 70 – então Flávia parou de falar e mudou completamente sua expressão de ódio para uma expressão de arrependimento – não, eu não sou assim, essa não sou mais eu, me perdoa Verônica, eu não queria falar essas coisas, meu Deus, me perdoa e me ajuda a não ser mais a antiga eu.

chega desse teatrinho ridículo, estamos só nós duas aqui, chega dessa balela – gritou Verônica.

me perdoa Verônica, me perdoa! — Flávia segurou o braço de Verônica – me perdoa, me perdoa se não eu não conseguirei viver!

solta meu braço – disse Verônica se soltando – se me tocar novamente eu te meto a mão na cara. Se você quer mesmo ser perdoada aceira a minha oferta e suma daqui.

mas a minha missão é ficar aqui. Eu preciso encontrar a minha redenção aqui – ela então pegou novamente o braço de Verônica – me perdoa, por favor me perdoa!

já chega – gritou Verônica, então ela deu um tapa na cara de Flávia que a fez recuar para o lado.

Flávia então agarrou o cabelo de Verônica.

você teve todas as chances mais as jogou fora, agora você esteja pronta para viver com as consequências!

tira essas patas imundas de mim – Verônica deu mais uma bofetada em Flávia que a fez soltá-la – você se acha perigosa, você acha que é louca? Eu vou te mostrar o que é ser louca. Eu já te mandei pra cadeia antes e dessa vez, quando eu acabar com a tua vida, você não vai poder voltar pra me atormentar.

Verônica então saiu do banheiro de deixou Flávia ali sozinha. Quando ela voltou a mesa, ela estava um pouco aflita ainda com o que havia acontecido, porém ela não transpareceu nada para que ninguém notasse.

o que ouve com o seu cabelo? — questionou Carolina.

a nada demais, eu tentei arrumar um fio que estava fora do lugar e me baguncei toda – respondeu Verônica sorrindo.

— e depois disso? — perguntou Clarice.

— eu fiquei na mesa a noite toda com Fábio e Carolina e isso pode ser corroborado por eles dois e qualquer pessoa que estivesse sentada em mesas próximas – respondeu Verônica.

— bom, não se preocupe que eu já encaminhei o pedido pro habeas corpus e como você não tem antecedentes você será libertada o mais rápido possível – disse o advogado – acho que por hoje já chega de perguntas policial – disse ele dirigindo-se a Clarice.

— quem decide se já chega ou não de perguntas sou eu meu senhor. Sua cliente já está na condição de suspeita eu posso fazer todas as perguntas que quiser.

— do mesmo modo que ela apenas responderá se quiser – rebateu o advogado, ríspido.

— tá bem, isso explicaria a sua ausência, mas e como os seus cabelos foram parar na cena do crime? — perguntou Clarice, ignorando o advogado e falando diretamente com Verônica.

— não é óbvio? Ela armou essa cena de me agredir pra pegar meus cabelos. Se ela quisesse me agredir ou se defender ela teria me dado tapas, como eu dei nele!

— então, além de acusar uma terceira pessoa de assassinato você ainda diz que ela armou pra você? Você entende como a minha posição é difícil aqui Verônica, escute a sua história e me diga se não parece um roteiro de filme.

Clarice tinha razão e isso era o que mais assustava Verônica. Essa trama era tão complicada que seria difícil fazer com que acreditassem nela.

— mas e que provas você tem contra minha cliente além dos fios de cabelo, que como você acabou de ouvir, já foram explicados o porquê estavam fora da cabeça da minha cliente?

— o problema não é a escassez de provas contra a sua cliente, mas sim o fato de que não exista nenhuma outra prova contra mais ninguém. Se foi a Flávia quem o matou, porque não existe “Flávia “ na cena do crime?

— como você bem pode ver, esse crime foi premeditado justamente para armar para a minha cliente, então é óbvio que não exista outros indícios contra mais ninguém além dessa prova pequena e circunstancial contra a minha cliente.

— pequena e circunstancial não, são amostras de DNA completas retiradas as mãos da vítima, DNA esse pertencente a sua cliente.

— tá, mas e agora? — perguntou Verônica – eu vou ter que ficar aqui?

— até que o juiz conceda a soltura sim, sinto muito Verônica, mas se ele ver somente amanhã, você será solta somente amanhã.

— eu não quero ser pessimista dona Verônica, mas pelo horário, muito provavelmente você só conseguirá amanhã – disse César.

— bom, chega de perguntas por hora então, eu vou dar mais meia hora pra vocês dois e peço pra alguém vir levar a dona Verônica até a cela – disse Clarice.

— espero que ela seja muito bem cuidada, pois se algo acontecer a minha cliente haverá problemas aos seu pessoal – disse o advogado – eu estou ciente do estado em que estou deixando minha cliente aqui.

— não se preocupe meu querido, isso aqui é praticamente o Copacabana Palace – disse Clarice ao bater a porta.

No momento em que a porta fechou, a ficha de Verônica caiu: ela passaria uma noite na cadeia por um crime que não havia cometido, correndo o risco de ficar presa por mais tempo.