Obsesso
26 25. O importante para cada um
Notas iniciais
— Nagato?
O ruivo desviou o olhar do computador para a mulher.
— Sim?
— Fazendo o quê?
Konan estava de roupão. O amigo voltou novamente os olhos para a tela, e a garota parou atrás dele para ver o que fazia. Observava várias fotos de Naruto com Sasuke no parque. Os pequenos filhos de Itachi também estavam lá… Ela sentiu pena deles. Tão pequenos, e já destinados a passarem pelo que ela passara quando menor; a orfandade. E depois a morte (metafórica para ela).
— Parece que Sasuke não acredita que Naruto tenha matado Itachi.
Havia uma foto bonita, apenas de Naruto e Aya. O loiro era mais carinhoso com ela do que Sasuke jamais seria.
— Eles estão tendo um caso? – perguntou, ao perceber que Nagato não faria nenhum comentário a respeito do que dissera antes.
— Acho que não… Sasuke não é o tipo que namora.
— Como você sabe? – ela perguntou bem-humorada.
— Porque eu também não sou.
Konan sentiu o sorriso morrer em seus lábios. Sim, ela sabia muito bem daquilo.
— Yahiko não gostaria de vê-lo assim.
Nagato sentiu raiva, mas controlou-se.
Quis gritar que ela não sabia como Yahiko gostaria ou não dele vê-lo, mas não podia. Não podia, porque era mentira. Além dele, Konan era a única que realmente conhecera o garoto de cabelos cor-de-laranja. Ela conhecera-o de verdade, porque os três eram uma unidade. Eram quase como uma única alma separada em três. Mas Fugaku Uchiha matara Yahiko, e Nagato sentia que sua alma inteira morrera com o amigo, não apenas um terço dela.
— Ele não está aqui pra gostar ou não.
Konan sentou-se em uma cadeira ali perto. Detestava se sentir tão carente e indefesa, mas ela o estava naquele dia.
— Eu sinto falta dele.
— Isso não o trará de volta.
Konan normalmente se manteria calada, mas talvez fossem seus hormônios exaltados, talvez fosse algo que ela ainda não sabia o que era, mas resolveu falar. Queria expulsar tudo o que sentia, e era exatamente aquilo que faria.
— E essa sua vingança idiota vai? Essa nossa missão quase suicida vai trazer Yahiko de volta?
— Não, mas vai vingá-lo.
— Assim como também vai destruir tudo que ele acreditava! Estamos matando a memória dele ao fazer isso. Itachi tudo bem, porque ele estava nos traindo, mas me explica o que essas crianças têm a ver com tudo!
Ela quase chorava. Konan nunca chorava. Ignorou o que ela disse e observou-a. Estava mais magra e pálida, malcuidada.
— Comeu alguma coisa hoje?
— Não fuja do assunto!
— Não há o que discutir. Você sabe que eles precisam morrer para que Sasuke sofra tudo o que nós sofremos. Nunca haverá paz em nossos corações a menos que ele sofra.
— Ele está sofrendo! E quem matou Yahiko foi Fugaku, não Sasuke.
— E nada quebraria mais Fugaku do que saber o que estamos fazendo com a preciosa família dele.
— Quando isso deixou de ser justiça para ser vingança?
— Nunca foi justiça.
Konan sentiu o estômago embrulhar com aquelas palavras, e provavelmente teria vomitado se tivesse o que vomitar. Nagato largou o computador e se aproximou devagar. Precisava cuidar dela. Prometera a Yahiko que o faria.
— Você precisa comer alguma coisa.
Ela negou com a cabeça.
— To vomitando. Não consigo manter nada na minha barriga.
— Vamos a um médico amanhã.
— Me deixa, Nagato.
Ela levantou para ir embora, e ele a segurou pelo pulso.
— Você é a única que me conhece, Konan. E eu sou o único que te conhece. Eu sei que tem algo errado.
— Tudo está errado! Você devia estar aproveitando a sua vida ao invés de ficar preso nesse quarto, querendo vingança pelo homem mais pacífico que eu já conheci! Yahiko nos odiaria se soubesse o que estamos fazendo. Planejando o assassinato de crianças!
Nagato suspirou e soltou o pulso dela. Konan estava angustiada, mas ele não achava realmente que fosse relacionado às crianças Uchiha. Havia algo além.
— Konan…
Mas a mulher piscou, confusa, e teria caído se Nagato não se jogasse no chão para segurá-la.
— Konan!
Konan desmaiara.
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— Tio Sasuke, eu quero sair!
Aya andava de um lado ao outro pela casa, como um gatinho enjaulado. Ela estava apenas há dois dias sem poder se desviar do trajeto escola/casa e ficava louca. Sasuke realmente não compreendia. Antes de decretar que ela e Naoto não poderiam sair, eles viviam a mesma rotina e o Uchiha nunca ouvira uma reclamação.
— Aya, sua vida não mudou tanto assim. Eu preciso trabalhar, vai olhar televisão quietinha, ok?
— Antes você não pegava a gente tão cedo! Agora eu não tenho nada pra fazer.
— Eu já disse que é perigoso ficar muito tempo na escola.
— Mas eu gosto…
Naoto dormia profundamente no sofá, e a discussão era feita em voz baixa.
— E eu gosto de ficar na delegacia. Nenhum de nós está feliz.
A menina paralisou. Os olhinhos negros encheram-se de lágrimas e ela sentiu uma escorrer.
— Vai trabalhar, tio. Fica aí com seu amado trabalho, vou parar de te fazer não feliz.
Ela não sabia dizer “infeliz” ainda, e o que saiu foi aquilo. Sasuke suspirou. Para variar, ela entendia tudo errado.
— Aya…
A menina deu-lhe as costas e saiu correndo até seu quarto. Bateu a porta com força, e Sasuke suspirou cansado. Como se já não tivesse problemas suficientes.
Observou novamente a reportagem de jornal que Shikamaru conseguira depois de muita pesquisa. Finalmente entendia o porquê de o tal Orochimaru odiá-lo tanto, e saber não lhe causava a tranquilidade que deveria. Deixava-o ainda mais alerta, verdade fosse dita.
Observou Naoto, dormindo tão calminho no sofá, e quis que Aya fosse um pouquinho mais dócil, como ele. Depois acabou rindo ao pensar na palavra. Ino o mataria se ouvisse o adjetivo. “Dócil”. Ela não era um animal de estimação, era uma garotinha. Em breve seria uma mulher. Um ser humano com seus próprios pensamentos e ideias, e não alguém que Sasuke pudesse manipular a seu bel prazer. Precisava se lembrar disso. Precisava lembrar que ela não aceitaria suas imposições para sempre.
Lembrou-se de outra que tampouco aceitava todas as suas imposições e pegou o telefone. Precisava falar com ela.
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Karin ria desesperadamente do loiro. Era terça-feira, e finalmente conseguia tempo para visitá-lo. Ficara bêbada em Worcester, junto com Kiba e Shino, mas nada além de cervejas e conversas recheadas de comédia e filosofia acontecera. Naruto acabara de lhe contar sobre Aya.
— Não acredito que você achava que a Aya era namorada do Sasuke!
Naruto formou um bico com os lábios.
— Como que eu ia saber que ele tá cuidando dos sobrinhos? Ele tem cara de quem mora com criança, por acaso?
Karin riu ainda mais, e o Uzumaki afundou um pouquinho no sofá. Não merecia ser maltratado assim. Não merecia mesmo.
— Podia ter me perguntado. Eu conheço Aya.
— Como eu ia saber que você conhece ela? E eu não queria parecer ciumento.
Karin abriu um sorriso malicioso e mordeu o lábio inferior.
— Tava com ciuminho, é? Sasuke namorando te incomoda, hm?
Naruto jogou uma almofada contra ela, e Karin riu mais ainda.
— Cala a boca. Já falei que é atração. Uma foda boa com ele e eu nunca mais penso no idiota.
Karin riu mais ainda, e Naruto suspirou. Era verdade. Não amava Sasuke. Não o conhecia o suficiente para amá-lo. O que sentia por Aya, que conhecera três dias atrás, era mais forte do que aquele sentimento estranho que nutria pelo Uchiha. Com Sasuke era intenso, mas carnal. Queria pular no pescoço dele e deixá-lo tomar seu corpo, mas não havia o calor que sempre imaginara que sentiria ao se apaixonar. Não havia o calor que sentira com seu primeiro amor, uma garota de cabelos cor-de-rosa que conhecera aos doze anos. Sakura… Karin dissera aquele nome.
— Karin… você falou Sakura? Semana passada, quero dizer.
A ruiva franziu o cenho. De onde Naruto conhecia aquele chiclete grudento?
— De onde você conhece essa nojenta?
— Oi? – perguntou confuso.
— Cabelo cor-de-chiclete, uma tábua sem corpo. Vozinha chata. Essa Sakura, Naruto?
O Uzumaki piscou e coçou a cabeça.
— É… mas eu não acho que ela era assim tão ruim…
— Como diabos você conheceu a esposa do Itachi?
— Ela casou? Sakura foi meu primeiro amor. Ela fez o colegial comigo lá em Worcester e depois veio pra Boston fazer medicina. Nunca mais ouvi falar dela. Era alguns anos mais velha.
Karin riu e balançou a cabeça, sem conseguir acreditar nas coincidências. Com tanta gente por aí, Naruto tinha o desprazer de se apaixonar por Sakura?
— Ela apareceu querendo o Sasuke. Uma puxa-saca desgraçada aquela lá. Faltava só ficar pelada e tentar dar pra ele.
O palavreado fez Naruto rir. Karin estava claramente enciumada.
— É sério, para de rir. A gente tava morando junto ainda quando ela apareceu, e eu nem sei como aquelazinha descobriu o Sasuke, sério.
— O pai dela era policial.
— Ah, pode ser. Enfim, ela tava quase dando o cu pro Sasuke, quando conheceu o Itachi. E eu nunca vou saber como aqueles dois ficaram juntos, porque eu só sei que ele tava sendo legal com ela, tentando convencê-la de que Sasuke não era o melhor cara de todos, e tal. Itachi sempre pegava as garotinhas que o Sasuke dispensava, sabe?
Naruto ainda ria. Tentava imaginar Itachi “consolando” as garotas que tinham seus corações partidos pelo diabo, e até conseguia saber como ele o fazia.
— E, do nada, ela começou a ir sempre lá em casa, mas nem olhava pro Sasuke. E o Itachi sempre deixava ela entrar e tudo mais. E, depois, eu fiquei sabendo que eles tavam namorando. Depois disso ela ficou suportável.
— Viraram amigas?
Karin lançou a ele seu melhor olhar cínico.
— Bem capaz. Mas a gente já tava se dando melhor. Ela até ficava conversando com a gente, e tal. E era uma boa médica, preciso admitir. Depois disso ela e Itachi noivaram, casaram… foi a história de amor mais estranha que eu já vi na minha vida.
Naruto riu, e Karin sorriu junto. Sakura não era de todo ruim, mas, ainda assim, nunca conseguira gostar completamente dela. Porém admitia que não queria que ela tivesse acabado como acabara. Morta. Itachi nunca foi o mesmo depois daquilo.
— Eles se amaram mesmo?
— Sim. Ela não amava Sasuke, só sentia uma atração louca por ele, mas Itachi… ela amou Itachi. De verdade, Naruto.
O Uzumaki assentiu com a cabeça.
— É a mãe de Aya, não?
Karin assentiu também.
— Morreu no parto. Era muito magrinha, não aguentou dar a luz a gêmeos. Era muito trabalhoso e o corpo dela sempre foi meio fraquinho.
Naruto lembrou-se do rostinho rosado da menininha e do sorriso tímido de Naoto. Foi estranho. Uma ânsia por abraçá-los o atingiu, e ele retorceu a expressão, tentando fazer aquela vontade passar. Os dois eram tão pequenos, e já tinham passado por tanta coisa…
— Sasuke está criando os dois agora?
Karin assentiu com a cabeça.
— Pelo que eu sei, Itachi e Sasuke já tinham combinado há muito tempo que seria ele a cuidar dos dois se alguma coisa desse errado. A relação entre os dois era meio estranha, sabe? Itachi e Sasuke eram muito próximos. Não brigavam como a maioria dos irmãos, e eles pareciam se entender de um jeito que eu nunca vi antes. Eram a família mais unida que eu já conheci.
Naruto não disse nada. Nunca tivera aquilo com ninguém, e não achava que pudesse ter. Seus pais morreram quando era muito pequeno, e não tinha irmãos ou irmãs. Jiraya fora seu mais amado familiar, mas ele também morrera. Puxou as pernas para cima do sofá e as abraçou. Sentia-se um pouquinho melhor assim.
— Você acha que ele vai ser feliz de novo?
Karin olhou-o confusa.
— O Sasuke – esclareceu Naruto.
Vira-o com os sobrinhos no parque, porém ele parecia morto. Não tanto quanto no velório de Itachi, é claro, mas Sasuke parecia simplesmente perdido. Lutava por Aya e Naoto, e realmente os amava, mas… ele não parecia vivo. Era quase como um robô que tinha em sua programação algo que o tornava um pouquinho mais humano do que os outros robôs.
Karin não respondeu de imediato. Já vira Sasuke passar por momentos ruins antes, mas… o olhar dele. O desespero que identificara naqueles olhos que já conhecera tão bem…
— Eu não sei. Mas espero, de todo o coração, que sim.
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Nagato estava sentado calmamente na sala de espera. Sentia um leve pânico inundar sua alma desgastada, mas não deixava que esse pânico transparecesse. Konan era tudo o que ele tinha de seus tempos de felicidade e a simples possibilidade de ela estar com alguma doença séria o apavorava.
Um médico chegou. Nagato levantou-se para recebê-lo.
— O senhor é parente de Konan?
Nagato assentiu com a cabeça.
— Irmão adotivo.
O médico pareceu meio desconfiado.
— Posso ver seus documentos?
— O que ela tem?
— Senhor, eu posso falar apenas com a família da…
— Família? Os pais foram assassinados, a irmãzinha morreu nos braços dela e eu nunca soube de nenhum primo. Quer que eu chame um médium para o senhor falar com eles?
O médico engoliu em seco e sentiu-se envergonhado. Nagato apenas deixava o descontrole sair quando se sentia impotente, e odiava aquele sentimento.
— Desculpe. Bem, Konan está bem, mas desidratada. Ela precisa de uma alimentação mais adequada.
— Ela não comeu hoje, acho.
O médico assentiu com a cabeça.
— Preciso falar com o namorado dela.
— Konan não tem um namorado.
O médico revirou os olhos.
— Não sei como chamam hoje em dia. Quero falar com o pai da criança.
Nagato sentiu todo o seu estômago congelar.
— Ela não está grávida.
Mas a frase soou mentirosa até mesmo aos seus ouvidos. Como não percebera antes? Ela estava diferente. Mais retraída, mais depressiva… mais… assustada, talvez fosse a palavra.
— Desculpe, senhor, mas…
— Quantas semanas?
— Quase cinco.
— Não. Ela não transa com ninguém há quase dois meses.
O doutor franziu a sobrancelha e tentou conter o riso.
— Ela fez sexo. Apenas não lhe contou.
— Ela sempre me conta.
Ele querendo ou não saber, Konan contava tudo. Ele analisava cada um dos homens que se interessavam por ela, porque não era qualquer um que poderia tocar em Tenshi* – era como os pais dela a chamavam quando ainda moravam no Japão. Ela amava tanto o apelido que Yahiko fez com que todos a chamassem assim também – e ele tinha que se certificar de que o desgraçado que a magoasse fosse devidamente punido.
E ela não transava com ninguém desde início de novembro.
— Bem, dessa vez não contou. Ela já está acordada, e eu estava indo falar com ela agora.
— Eu falo.
O médico deu de ombros.
— Chame-me quando terminar.
Nagato assentiu com a cabeça e caminhou quase sonhando até o quarto em que ela estava. Konan não podia estar grávida. Ela não dissera nada sobre um namorado, ou encontro. Ela simplesmente não podia estar grávida. Havia um erro nos exames.
Nagato entrou no quarto. Konan encara o teto, indiferente.
— Você precisa comer mais.
— Vamos embora.
Ele subitamente teve certeza de que os testes estavam certos. Não havia barriga, obviamente, mas algo… instinto, talvez, fez com que a certeza o atingisse como um raio. Sentiu raiva por ela não ter lhe contado antes.
— Espera.
Konan revirou os olhos. Detestava hospitais. Nagato sentou-se ao lado dela, a expressão séria. Ela sentiu que havia algo de muito errado.
— O quê?
— Você transou com alguém depois de Jared?
Ela travou. Tentou controlar a respiração, para que Nagato não percebesse o que acontecia, e tentou evitar as lágrimas. Não contara a ninguém. Ele não podia saber.
— Não.
Mas ele sabia que ela mentia.
— Quem foi, Konan?
Ela não respondeu. Ele não podia saber. Ela não queria lembrar.
— Ninguém, Nagato.
— Você está grávida.
Tudo parou. Ela negou com a cabeça repetidas vezes, sentindo algumas lágrimas saírem, e agarrou sua barriga com força, como se quisesse enforcar o que quer que estivesse ali dentro.
— Não.
— Sim.
— Não!
Ele nunca a vira daquele jeito. Ela o olhou desesperada, e ele sentiu seu corpo inteiro arrepiar. Não podia ter acontecido o que ele achava que tinha acontecido.
— Me diz quem é o pai dessa criança. Você não vai criá-la sozinha.
— Tira. Nagato, tira isso de mim!
Ela começou a arranhar a barriga, e ele precisou segurar as mãos da garota para que ela não se machucasse mais. Sangue escorria do machucado feito pelas unhas afiadas.
— TIRA! TIRA ISSO, TIRA DE MIM!
— Konan, calma.
Os gritos dela chamaram a atenção dos médicos, que encontraram o ruivo na cama, segurando os braços da mulher que esperneava e gritava.
— TIRA! TIRA DE MIM, TIRA ESSA COISA DE MIM!
Ela foi sedada. Nagato não deu nenhuma explicação, simplesmente saiu da sala e caminhou até o lado de fora do hospital. Ligou para Sasori.
— Que é?
— Você e Deidara venham ao Geral de Massachusetts. Têm vinte minutos.
Ele mataria o desgraçado que fizera aquilo com ela.
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Sasuke falou com Ino e deixou combinado que ela teria o final de semana livre. Prometera que conseguiria se a loira buscasse as coisas na casa de Itachi, e ela o fizera. Suspirou, cansado. Aya ainda não saíra do quarto e o estômago de Sasuke começava a roncar. Anoitecia. Ligou para a pizzaria de sempre e caminhou até Naoto, que ainda dormia. Como ele conseguia dormir tanto, Sasuke jamais descobriria.
— Naoto.
O menino pareceu ainda mais novo ao esfregar os olhos daquele jeitinho infantil e bocejar. Pareceu chupar algo, como uma chupeta, e depois acordou de verdade.
— Que foi, tio?
— Vai avisar sua irmã que tá na hora do banho.
Naoto assentiu e arrastou-se pelo corredor, sonolento. Sasuke deixou-se cair no sofá e suspirou. Ao menos Naruto não contara a ninguém sobre os dois. Não queria que o Uzumaki descobrisse a existência deles. Na verdade, não queria que ninguém descobrisse. Se pudesse, colocá-los-ia em uma jarra de vidro, a salvo de tudo e todos. Mas sabia que era impossível. Apenas temia a Akatsuki. Sasori, Hidan, Zetsu, Deidadara, Kakuzu… cada um deles teria uma forma diferente de torturá-los e matá-los. Uma forma diferente de machucar a ele. E Nagato, é claro. Segundo Itachi, Nagato era o único que torturava por gosto. Os outros o faziam como parte do trabalho, mas Nagato… Nagato torturava devagar. Era exímio nessa arte. Imaginou o que Itachi tivera que fazer para ser aceito num grupo como aquele, e então percebeu que não queria saber.
Aya apareceu emburrada, com o beicinho característico.
— Não precisa dar banho, vai trabalhar.
— Aya…
— Tio Naru não trabalha, e ele gosta da gente. Você gosta mais de trabalhar.
Sasuke sentiu uma veia querendo saltar em sua testa, mas manteve o controle. Desde que conhecera Naruto, Aya era “tio Naru isso”, “tio Naru aquilo”. Inicialmente não se incomodava, mas começava a ficar cansativo.
— Ele não trabalha porque eu não deixo. Porque eu sou o chefe, e eu sou o mais velho aqui também. E se eu não trabalhar, quem vai pegar os caras maus que machucaram Itachi?
— Pegar os caras maus vai acabar com o pra sempre?
— Não, Aya, mas…
— Então eles não são importantes.
Ela tinha aquele fogo dentro dela. Aquela vitalidade, aquele… aquela energia que Sasuke nunca tivera. Aquilo era tudo de Sakura, porque Itachi também era calmo. Não inanimado, como Sasuke se sentia, mas calmo. Delicado, gentil. Sakura não. Ele se lembrava dela. Gostara dela, depois que ficara com o irmão, claro. Ela se tornara alguém suportável. Talvez fosse influência de Itachi.
— Pro banho, vamos.
Ele não queria mais discutir aquilo.
–-//--//--//--//--//
— Sabe, loiro… eu tenho que falar uma coisa.
A segunda temporada de Arrow chegava à metade, e Karin interrompeu o episódio para falar. Naruto comeu pipoca e voltou os olhos pra ela.
— Fala.
— Eu meio que… hm…
Naruto esperou. Ela respirou fundo.
— Eu quero perder a virgindade.
Naruto caiu do sofá. Não podia mesmo estar ouvindo aquilo.
— Kaaarin! Eu já disse que não vou tirar a sua…
Mas foi interrompido por uma almofada que o atingiu no rosto. O zíper deixou uma marca logo abaixo de seu olho direito.
— SUA LOUCA, PODIA TER ME CEGADO!
— Cala a boca. Não com você, energúmeno.
Naruto não fazia a menor ideia do que era aquilo, mas parecia um xingamento.
— Com quem então?
— Meu melhor amigo. Eu meio que descobri que eu gosto dele… é que eu já gostava, mas agora mudou e…
Ela se confundia com as palavras, e Naruto riu.
— Tá apaixonada, tá apaixonada! – cantarolou.
Ela lançou outra almofada nele, mas dessa o loiro desviou.
— Nome?
— Suigetsu.
— Então eu preciso conhecer, né? – piscou maroto.
Karin riu boba, e abraçou seus joelhos. Mordeu o lábio inferior.
— É… ele não gosta muito de ti.
— Por quê?! Nem conheço o cara.
— Ele acha que você é perigoso.
Naruto riu e revirou os olhos.
— Aposto que é ciúme. Não te quero com ele. Odeio gente que julga sem conhecer!
— Você acabou de julgá-lo.
“Merda”.
— AAH! Você entendeu.
Karin riu e Naruto puxou-a para um abraço.
— Relaxa, ruiva. A gente vai comprar umas roupas bem bonitas pra ti, e te deixar tão gostosa que aquele cara vai cair babando.
Karin sorriu. Sentia-se extremamente sortuda. Com Naruto ali, parecia que tudo daria certo, afinal.
*Tenshi: anjo.
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