Obsesso
21 20. Nem tão errado
Notas iniciais
O domingo passara sem grandes novidades. Shikamaru ainda não tinha nada a lhe oferecer – o que realmente irritara Sasuke –, e Gaara e Ino haviam ido almoçar em sua casa. A loira estava radiante, e felicidade demais o deixava quase doente. Até Gaara parecia feliz. Não que Sasuke não quisesse o melhor para os amigos, queria, mas não achava justo eles se sentirem tão felizes enquanto ele próprio ainda estava um pouco miserável. Mas talvez devesse olhar para o quadro geral e ficar feliz por alguém ainda conseguir ser feliz naquela merda de situação. Talvez.
Deixou os sobrinhos na creche e pegou seu telefone, discando o número pessoal de Gaara. O ruivo atendeu no segundo toque.
— Hey, Sasuke.
— Eu vou me atrasar hoje. Preciso resolver com o Uzumaki a situação sobre o dinheiro dele.
— Tudo bem, eu cuido de tudo por aqui.
Sasuke assentiu com a cabeça, mesmo que Gaara não pudesse ver, e desligou o telefone. Estava estressado, e aquilo era óbvio. Há menos de quatro dias Naruto fora envolvido em todo o seu drama, e ainda não confiava o suficiente no Uzumaki para deixá-lo a par de tudo o que acontecia.
Estacionou em frente à casa dele, e tocou de leve o dinheiro que levava no bolso. Não gostava de gastar seu dinheiro daquela forma – mesmo que não fosse uma quantia significativa –, entretanto não tinha muita escolha. Naruto estava envolvido naquilo tudo e não tinha culpa.
Tocou a campainha e esperou. Ouviu barulho de passos correndo, e ouviu a voz do loiro antes que o visse.
— Não sabia que vocês eram tão ráp… – cortou-se ao perceber que era Sasuke quem estava ali.
O Uchiha levantou uma sobrancelha, confuso. Naruto o recebia com a camiseta amassada e uma calça de moletom, completamente informal.
— UCHIHA-SAN! – assustou-se o loiro.
Sasuke suspirou.
— Esqueceu que eu vinha?
Naruto não admitiria que sim. Depois de sair da casa de Tsunade falara com Karin, que lhe disse que havia um seriado muito interessante. Naruto começara a olhar Arrow no domingo, e já chegava ao final da primeira temporada. Há menos de uma hora comprara as barras de ferro e o suporte que Oliver Queen – ele não sabia o nome do autor – usava na série. Queria fazer aquele exercício também.
— Claro que não, Uchiha-san. Por favor…
Naruto abriu espaço para Sasuke entrar na casa, e o Uchiha entrou sem dirigir a Naruto um segundo olhar. Observou a casa com cuidado. Era pequena, mas confortável. Obviamente morava sozinho, pois ninguém mais conseguiria viver naquela baderna. Naruto entrou e atirou nem-tão-discretamente algumas roupas que estavam sobre o sofá para trás deste.
— Sinta-se à vontade.
Sasuke não sorriu ou agradeceu, apenas ficou parado no meio da sala. Naruto ia sentar, porém desistiu ao ver que o chefe não parecia ter a intenção de fazer o mesmo.
— Tá meio bagunçado, mas…
— Não me importo. Explique-se.
Por um momento, Naruto pensou que Sasuke estava pedindo explicações sobre a bagunça, porém então se recordou do telefonema que dera a Gaara. Sentiu o rosto avermelhar-se ao relembrar sua idiotice.
— Eu entrei em pânico, ok? Não sei se o Sabaku-san sabe ou não sobre o Itachi, então eu tentei fazer com que você fosse ao telefone…
Naruto continuou falando e gesticulando. Sasuke franziu levemente o cenho, mas o Uzumaki não percebeu a mudança na expressão facial do moreno. Estava ocupado demais andando de um lado para o outro, tentando explicar a Sasuke o porquê de ter-se fingido de mulher. Depois de quase dois minutos, Sasuke finalmente compreendeu o que Naruto dizia. Sentiu vontade de dar um soco no loiro, mas se controlou.
— Uzumaki. Sobre seus documentos.
Naruto piscou, e então acabou sorrindo sem graça. Bagunçou os cabelos, e Sasuke manteve seus olhos preso no rosto dele. O outro não aparentava sentir medo dele, apenas estava levemente constrangido pela situação. Talvez fosse o lugar, mas Naruto parecia mais confiante. Estranhou, tentando entender como ele podia estar com um humor tão bom.
— Então, eu fui no mercado, porque eu tava sem rámen aqui em casa, sabe? E daí o cartão não passou.
Enquanto Naruto narrava seu incidente, começou a jogar as roupas que estavam sobre o sofá e o chão para um canto, querendo removê-las do caminho. Deixou o cobertor e o travesseiro que lhe fizeram companhia no final de semana sobre o sofá. Pensara que Sasuke não se sentava por não ter onde fazê-lo.
— E aí eu cheguei em casa, todo desesperado, procurando minha identidade – parou brevemente a narração e apontou para o sofá que acabara de limpar. – Pode sentar, Uchiha-san.
Sasuke olhou para o sofá e para a bagunça que compunha o aposento. Ele tinha duas crianças em casa e conseguia ter um lugar mais limpo e organizado. Sentiu vontade de suspirar, mas não o fez. Sentou-se onde lhe foi indicado e viu Naruto sentar-se no sofá de frente ao seu.
Antes que Naruto recomeçasse a falar, Sasuke o interrompeu ao estender a mão direita.
— Deixe-me vê-los.
— Pera aí.
Naruto levantou num pulo e foi até seu quarto, em busca dos documentos falsos. Estavam em sua carteira, que estava em algum lugar.
Sasuke ficou na sala, esperando. Sentiu vontade de ligar para uma empregada; não suportava bagunça e desordem. Como podia um policial viver em um caos tão grande? Viu pacotes de rámen instantâneo espalhados por todo o chão e mesas, além de copos e roupas… revistas, livros, jornais. Nada ali tinha um lugar?!
Naruto voltou com o sorriso de quem havia acabado de encontrar a resposta para todos os problemas da humanidade, e entregou seus documentos a Sasuke.
— Eu esqueci que tinha colocado na mesinha, pra quando o senhor viesse.
Sasuke observou cada objeto com o maior cuidado. Olhou as dobras, a tinta, cada detalhe que seus olhos leigos pudessem identificar. Era tudo muito perfeito. Se não soubesse que eram falsos, não acreditaria.
— Como você sabe?
Naruto o olhou com os olhos confusos. Como sabia o quê?
— Que são falsos. Como você sabe?
— Nenhum dos cartões funciona, e eu me cortei uma vez na minha identidade. Tinha sangue da original. Nessa, não.
Sasuke assentiu com a cabeça, interessado. Sabia que aquela era uma possibilidade, mas a Akatsuki estava muito adiantada ao que ele imaginara. Para estarem assim tão preparados, deviam ter marcado Naruto como alvo há muito tempo. Sasuke sentiu seu estômago revirar. Quem mais estaria na mira deles?
— Sua identidade foi roubada. Isso significa que todas as suas contas serão congeladas, e você fica sem dinheiro.
Naruto bagunçou os fios loiros, sabendo que era exatamente aquilo. Sentou-se novamente no sofá, e seu sorriso vacilou um pouco. Tsunade já lhe deixara um cartão – que ele usara para comprar o equipamento de ginástica –, porém não queria abusar muito. Ela tinha dinheiro, ele sabia, entretanto era o dinheiro dela, e ele não tinha nada que ficar gastando. Devolveria cada centavo depois, só não sabia exatamente como…
— O que eu faço? – deixou escapar em um murmúrio, voltando a mexer em seus cabelos.
— Eu vou te dar dinheiro. Só até tudo isso acabar.
Naruto arregalou os olhos. Não, tinha orgulho próprio. Aquilo não aconteceria. Começou a protestar.
— Senhor Uchiha, não há…
— Sim, há. Você consegue sobreviver bem com cinco mil dólares por mês?
Naruto quase engasgou. Como Sasuke podia ser tão tranquilo quanto àquilo?! Cinco mil dólares?! Era mil dólares a mais do que ganhava mensalmente. Não podia aceitar. Como Sasuke bancaria seu salário (com o extra, ainda por cima)?
— Senhor Uchiha, não há necessidade de…
— Uzumaki, você precisa de dinheiro.
Naruto sabia, mas não podia aceitar.
— É muito dinheiro. Como você vai ficar? Não posso pegar seu dinheiro assim.
Sasuke segurou uma risada – mas Naruto, obviamente, não percebeu o quanto a frase divertida o Uchiha –, e tentou compreender como alguém podia ser tão ingênuo. Não sabia se era brincadeira ou apenas burrice, mas resolveu ser paciente.
— Dinheiro não é problema.
Naruto não sabia se ele dizia aquilo por orgulho ou por realmente ter um dinheiro sobrando. Independente, o Uzumaki não podia aceitar ficar com o extra de Sasuke. Não importava o quão culpado o Uchiha se sentia, ele não abusaria assim da boa vontade dele.
— Não há necessidade, eu tenho um dinheiro guardado.
Sasuke nunca vira alguém recusar dinheiro com tanta veemência. Ou Naruto tinha um caráter que ele nunca vira antes, ou suas suspeitas de que ele era burro estavam se comprovando. Se tivesse que apostar, diria burrice.
Começaram uma leve discussão. Sasuke, na verdade, apenas se repetia. Naruto era quem discutia. O Uchiha estava mais interessado nos documentos. Eram bem feitos, ou seja, não deviam ser descobertos.
O Uzumaki acabaria ficando, eventualmente, sem saída. Sasuke sempre ganhava.
— Eu te pago os quatro mil que ganhava antes, ok? Assunto encerrado. Vou ficar com isso, inclusive.
Naruto não teve alternativa a não ser assentir com a cabeça. Cartões clonados e documentos falsos de nada o ajudariam. E, querendo ou não, precisava de dinheiro. Não sabia como alguém podia manter uma discussão com uma expressão de tédio constante, mas Sasuke tinha o dom.
Sasuke pegou sua carteira e começou a remexer ali. Quando Naruto percebeu, o Uchiha já retirara a quantia combinada da carteira. Quem andava com quatro mil dólares na carteira?!
— Imaginei que algo como isso pudesse acontecer – Sasuke deu de ombros.
Naruto detestava ficar devendo, mas não tinha opção. Pegou o dinheiro, ainda que meio contrariado. Sasuke estava ocupado analisando sua identidade.
— Eu vou pagar cada centavo de volta, Uchiha-san. Prometo.
Sasuke apenas assentiu com a cabeça. Precisava mandar Shikamaru analisar aquilo. Até mesmo os cartões haviam sido incrivelmente bem-feitos.
— Como eles sabiam quais cartões clonar? – Naruto quebrou o silêncio, curioso.
— Provavelmente clonaram todos os mais famosos. E estavam te vigiando já há algum tempo.
Era a explicação mais completa que recebia, e Naruto sentiu que podia abusar mais um pouco. O tédio o estava matando. Apesar de ter descoberto uma nova paixão por seriados, ainda era preferível prender os meliantes, não olhar um pseudo-herói fazê-lo.
— Eu posso ajudar de…
— Não.
— Mas…
— Não.
Naruto continuou contrariando Sasuke apenas para observar a língua dele subir ao céu da boca ao pronunciar a negativa. Sexy. A conversa com Karin realmente não lhe fizera nenhum bem. Agora, ao olhar para Sasuke, realmente se deixou apreciar o corpo tenso que continuava examinando seu rosto na identidade. E a boca dele estava relaxada, quase entreaberta. Extremamente sexy.
Balançou a cabeça, querendo afastar os pensamentos. Karin era uma péssima influência.
— Eu passo aqui uma vez ao mês, para lhe entregar o dinheiro.
Naruto sentiu todo o tesão passar. Era como se tivesse doze anos novamente, e estivesse recebendo uma mesada de Jiraya. A diferença era que a mesada era bem maior naquele momento.
— É injusto eu receber meu salário sem ajudar em nada!
— Você vai ajudar ficando longe do meu caminho e do deles.
— Mas eu posso…
Sasuke, que já saía, virou-se bruscamente. Finalmente expressava alguma reação, e era raiva.
— Acho que você ainda não entendeu. É uma guerra, ok? Eles contra mim. E eu vou ganhar, de um jeito ou de outro. Não vou deixar você ficar no meu caminho.
— Fui treinado para ser um soldado – desafiou Naruto.
— Não preciso de soldados.
Sasuke virou-se e foi embora, sem permitir que Naruto o acompanhasse até a porta. O Uzumaki derrubou uma cadeira depois que o Uchiha sumiu. Como alguém podia ser tão irritante?
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Sasuke iria à delegacia, porém Shikamaru fora mais rápido e ligara, avisando que finalmente conseguira retirar tudo o que podia do celular. Estavam na casa do Nara.
— Consegui alguns números de telefone, recuperei algumas mensagens de voz e outras escritas, mas Kisame tentou destruir essa merda antes que a gente pegasse. Não parece tão detonado por fora, mas por dentro…
E Shikamaru começou a usar muitas palavras que Sasuke não tinha interesse algum em aprender.
— Fale sobre as mensagens de voz.
Shikamaru caminhou até seu computador, sendo seguido pelo Uchiha. Passaram por um corredor largo, e chegaram à sala que pertencia apenas ao gênio Nara. Era meio escura, cheia de recortes nas paredes e livros em prateleiras. Uma completa bagunça, como a casa de Naruto.
— Aqui.
Shikamaru apertou um botão, e uma voz feminina saiu.
— Kisame, por que essa demora? Você já devia ter entrado em contato, Orochimaru está irritado.
Sasuke franziu o cenho.
— Uma mulher. A de cabelos roxos?
Shikamaru deu de ombros.
— Eu só consegui a voz, cara. Pode ser ela, pode ser outra.
— Quando foi isso?
— Itachi ainda estava vivo. Dois meses atrás. Tava lá na sua casa de praia, lembra?
Sasuke assentiu com a cabeça. Itachi estava indo muito para lá nos últimos meses.
— Próximo.
— Sete horas a.m; perto das seis p.m.
— Esse eu não consegui identificar – reclamou Shikamaru, remexendo em seu cabelo.
— É o horário em que Itachi normalmente deixava e buscava Aya e Naoto na creche.
Sasuke estava branco, ainda mais pálido do que o normal. Shikamaru olhou para o Uchiha, e temeu que ele fosse fazer algo.
— Vou mudar os horários deles.
Shikamaru assentiu com a cabeça, e colocou a próxima.
— Você disse que Itachi estaria sozinho, mas Sasuke estava junto, não conseguimos atacar. Pare de vacilar, Kisame. Orochimaru vai ficar furioso com a gente.
Agora era uma voz masculina, que Sasuke obviamente não reconheceu.
— Eles estão planejando isso há muito tempo, Sasuke. Não consegui recuperar mais nada, apenas alguns horários por mensagens.
Shikamaru abriu uma pasta cheia de números, mas não faziam sentido nem para Sasuke. Pareciam horários. Nove e meia da manhã, sete horas da noite, meia-noite. E então outros números aleatórios seguiam.
Sasuke saiu da frente do computador e sentou-se no sofá. Esfregou o rosto, preocupado. Se fosse apenas com ele, não haveria tanto problema. Mas Naoto e Aya não conseguiam se defender sozinhos, e Sasuke não confiava em ninguém que não Gaara e Neji para ficar com eles, porém Gaara estava ocupado com seu próprio filho, e Neji andava depressivo demais.
— Mais alguma coisa? – perguntou por fim.
— Vários números da lista de contatos, mas nenhum funciona. Liguei para todos os que tínhamos completos. Outros são apenas pedaços.
Sasuke assentiu com a cabeça. Shikamaru ficou observando o irmão de seu falecido amigo, e não soube o que dizer. Não havia o que dizer, verdade fosse dita. Não podia garantir a segurança dos sobrinhos dele, principalmente por nem policial ser.
— Vamos revisar tudo desde o começo, sim? Estamos perdendo alguma coisa… – ordenou Sasuke.
Shikamaru assentiu com a cabeça e Sasuke pegou a cópia dos arquivos de Itachi que Shikamaru tinha. Começou a analisar os relatórios do irmão. Precisava haver algo ali sobre a Akatsuki.
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Sasuke estava errado, e isso fez com que se descobrisse certo. Precisava haver algo sobre a Akatsuki que não estavam vendo, porém não havia. Portanto os relatórios estavam incompletos. Isso significava apenas que Itachi os mantinha em outro lugar. O irmão jamais se infiltraria em uma organização secreta para não manter registros detalhados de tudo o que acontecia lá. Sentiu vontade de se bater por não ter percebido a relação antes.
Saiu do carro, encarando o apartamento de Itachi. Não ia ali desde o dia em que fora buscar as coisas dos sobrinhos – antes de Ino ir pegar as roupas e os ursinhos.
Suspirou, escondendo todas as emoções que tinha no mais profundo abismo de sua mente. Tinha a chave, e o porteiro já o conhecia. Subiu sem grandes dificuldades, mas parou por um segundo em frente à porta.
Sabia que estava sendo ridículo, mas esperou mais um segundo antes de entrar. A primeira coisa que percebeu foi o vazio. A casa parecia gritar em seu silêncio, e Sasuke sentiu as lágrimas escorrerem antes que pudesse evitá-las. Aquela era a casa de Itachi. O lar que comprara com Sakura para cuidar de seus filhos, o lugar mais precioso do mundo… o refúgio que o próprio Sasuke procurava em momentos de fraqueza.
Caminhou a passos rápidos. Se Itachi tinha algo naquela casa, então estava no local que ele próprio ajudara o irmão a construir – o fundo falso abaixo do piso do quarto dele.
No caminho, paralisou. A mais bela foto de Itachi e Sakura, em sua lua de mel. Sorriu com os olhos embaçados, e pegou a fotografia. Não importava a dor ou a saudade, Aya e Naoto mereciam ter uma foto dos pais. Ele próprio tinha uma em seu quarto de seu pai e sua mãe. Uchiha Fugaku obviamente não sorria, mas sua mãe ostentava o mais belo riso que ele já vira. Talvez aquilo pudesse vir a ser um consolo para os pequenos.
Poucos passos depois encontrou uma dele, do irmão e dos sobrinhos. Talvez aquela foto pudesse consolar seu coração ferido.
Continuou seu trajeto, parando apenas quando estava ajoelhado. As lágrimas nunca antes escorreram com tanta vontade, pois era a primeira vez que realmente se permitia chorar a morte dele. Chorou com todo o seu coração, tentando fazer com que as lágrimas levassem embora o vazio que se apossava sempre mais do coração frio. Mas, claro, não levaram. Parecia que as lágrimas apenas aumentavam o buraco na alma do jovem Uchiha, e aquilo apenas fez Sasuke chorar mais.
Quando se acalmou, Sasuke se deixou apoiar contra a cama, o chão frio não mais o incomodava. Soluçou por mais alguns segundos, tentando recuperar o controle de si mesmo. Não gostava de se perder em meio àqueles sentimentos, principalmente porque não conseguia mais parar com a dor. Com a saudade excruciante. Suspirou, tentado fazer seu corpo parar de tremer, mas não conseguiu. Abraçou as próprias pernas, e acabou escondendo a cabeça ali.
Demorou mais alguns minutos. O Uchiha realmente não soube quanto tempo ficou tentando retomar o controle. Olhou para o relógio em seu celular; já era quase hora de ir buscar os sobrinhos, e nem seu almoço ele comera. Não sentia fome. Respirou fundo, e sua respiração foi, aos poucos, retornando ao normal. Quando estava suficientemente recuperado, abriu o fundo falso. Dentro dele, um folder. Sasuke normalmente teria começado a ler ali mesmo, mas o lugar era melancólico demais, e tudo o que queria era ir embora.
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Tudo o que Sasuke queria era paz e sossego para ler o arquivo de Itachi em paz. Mas, é claro, isso era tudo o que não teria. Buscou Aya e Naoto, alimentou-os e vestiu-os. Ainda não comera, pois seu estômago estava embrulhado.
Agora que os sobrinhos estavam mais calmos, ele pensara que podia trabalhar, mas os pequenos pareciam ter outros planos.
— Tio Sasuke, lê uma historinha.
— Naoto, eu tenho mais o que…
— Por favor!
E os dois se empenharam em um coro de “por favor, tio Sasuke” que estava a ponto de enlouquecer o homem. Não teve como recusar e, de alguma forma, Sasuke se viu deitado na cama de Aya, com Naoto e a sobrinha a rodeá-lo, enquanto lia “branca de neve e os sete anões” para eles. Mantinha sua voz no costumeiro tom de tédio, e aquilo formou um bico infantil nos lábios de Aya.
— Tio Sasuke, você precisa afinar a voz quando a Branca falar! E tem que mudar as vozes dos anões!
— É verdade, tio Sasuke! – apoiou Naoto.
O Uchiha suspirou.
— Eu não interpreto personagens.
— Por favor!
— Por favorzinho! – pediu Naoto.
E os dois recomeçaram com o coro de pedidos, que irritava Sasuke ao mesmo tempo em que o levava à exaustão.
— Tudo bem, tudo bem. Só… fiquei quietos.
— EBA!
As duas crianças bateram as mãos e voltaram a se acomodar sobre o peito de Sasuke, que suspirou.
— Uma cabana na floresta, disse Bran…
— Voz fina, tio Sasuke! – ordenou Naoto.
— Uma cabana na floresta – Sasuke afinou a voz –, disse Branca de Neve.
O Uchiha suspirou. As crianças tinham os olhos brilhando, e o Uchiha revirou os olhos antes de continuar. Ao menos não havia ninguém ali para ver aquela tortura. Depois de quase uma hora lendo o mesmo livro, os dois finalmente dormiram. Sasuke os colocou sobre a cama, fora de seu peitoral, e cobriu-os com o cobertor. Inconscientemente, os irmãos se aproximaram um pouco mais e se abraçaram. Talvez fosse coisa de gêmeos.
Antes de Sasuke fechar a porta, ele observou o livrinho da Branca de Neve. Talvez estivesse sendo mudado pelos sobrinhos. Desligou a luz, mas manteve o abajur ligado. Aya tinha medo do escuro.
Sasuke sorriu minimamente antes de voltar para seu quarto. Talvez as mudanças não fossem tão ruins.
Os arquivos que Sasuke trouxera da casa de Itachi jaziam sobre a mesa, intocados.
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