Obsesso
5 04. A manhã perfeita
Notas iniciais
Naruto sentou-se à mesa de Sai e começou a analisar os casos passados dele – o moreno pedira que fizesse isso, como se o Uzumaki nunca tivesse ido a campo antes. De canto, observou Sasuke colocar o telefone no gancho e balançar irritadamente os cabelos. Arregalou os olhos. Sasuke estava demonstrando emoções?! Entretanto, quando o Uchiha voltou a erguer a cabeça, nenhum traço da raiva que antes parecia sentir se mostrava presente. Naruto bufou, sem conseguir esconder seus próprios sentimentos. Como alguém podia ser assim tão insensível?
Continuou lendo os casos de Sai, mas um olho sempre se mantinha em Sasuke. Tudo o que ouvira a respeito dele se mostrava verdadeiro, e não sabia se isso o animava ou decepcionava. A princípio realmente queria que o Uchiha fosse como diziam os boatos, porque parecia simplesmente surreal trabalhar com o diabo, porém conviver com alguém que mal lhe dirigia o olhar se mostrava menos excitante do que aparentara.
O telefone tocou na mesa de Sai, e Naruto parou por um momento, sem saber exatamente o que fazer. Após o terceiro toque, Sasuke levantou o olhar.
— Eu… eu atendo?
O olhar meio debochado que recebeu fez com que a mão de Naruto voasse para o telefone, e ele o atendesse.
— Departamento de polí…
Mas a voz do outro lado o interrompeu.
— Socorro. Assalto, aqui em casa.
— Pode nos passar seu endereço?
A voz era de uma criança, e aquilo apenas aumentou a ansiedade de Naruto. Com toda a calma do mundo, o Uzumaki anotou o que lhe era informado – afinal, não era a primeira vez que atendia a uma chamada daquelas. A ligação caiu, e o loiro olhou ao redor; Sasuke também falava ao telefone.
— …Não demore.
O Uchiha levantou e começou a andar para a porta. Naruto procurou outro policial com os olhos, sem saber exatamente o que fazer. Nunca antes estivera sozinho em uma situação como aquela – não naquela delegacia, pelo menos. Perto da porta, Sasuke voltou seu olhar para ele.
— O que está esperando?
— Hãn?
Naruto estava confuso. Sasuke nunca antes falara com ele por vontade própria, e a atitude do moreno não parecia fazer sentido para o looiro.
— Somos os únicos policiais da unidade, e não há mais ninguém para atender. Realmente achou que eu permitiria que fosse sozinho?
Naruto piscou duas vezes e então correu até o lugar onde Sasuke estava. Seguindo a linha de raciocínio do Uchiha, a ligação que fizera anteriormente fora para que alguém viesse à delegacia, impedindo-a, assim, de ficar completamente abandonada.
— Desculpe, Uchiha-san, não sabia que você ainda ia a chamados como esses. – murmurou novamente corado.
Sentiu vontade de se encher de porrada. Por que sempre corava? Não conseguia nem ao menos deixar de se constranger em frente a ele. Por que o diabo conseguia fazê-lo se sentir daquele jeito? Sentia prazer em envergonhá-lo? Ao olhar para o lado, percebeu que não era isso. Na verdade, Sasuke não parecia sentir prazer com nada.
Naruto o acompanhou até a viatura que estava estacionada na garagem. Corriam, e Sasuke foi direto para o lado do motorista. O loiro não reclamou, e simplesmente entrou no lado que sobrara. Sasuke abriu o portão e saiu para a rua, e então voltou a encará-lo. Naruto observou os olhos negros e sentiu seu rosto voltar a esquentar. Quis gritar. Detestava se sentir como uma garotinha de dezesseis anos saindo em seu primeiro encontro, porém o olhar de Sasuke era penetrante demais.
O Uchiha quis bufar ao perceber que o loiro ao seu lado nada fazia além de corar. Se fosse Itachi ao seu lado, ambos já estariam no local, e ele já poderia voltar a analisar a autópsia e o caso que o irmão investigava. Detestava ter que explicar aos outros o que fazer; Itachi entendia tudo apenas com um olhar.
— O endereço.
Naruto arregalou aos olhos ao ouvir a voz inexpressiva novamente. Passou o endereço a ele, entretanto controlou a vermelhidão que o queria dominar. O que estava acontecendo ali?! Agia como um policial estúpido e inexperiente. Era como se não possuísse anos de serviço.
O Uzumaki colocou o cinto de segurança, e se virou meio vitorioso para o chefe, pensando que finalmente poderia repreendê-lo (ou, ao menos, não parecer um completo imbecil), mas seu queixo quase caiu ao chão quando percebeu que ele já estava devidamente preso ao banco. Quando fizera aquilo? Olhou para a velocidade do carro, e percebeu que estavam exatamente no limite – nem mesmo um pouquinho a mais. Como ele conseguia fazer tudo de forma tão… perfeita?
Olhou para o rosto de Sasuke, e se impressionou novamente, mas tentou evitar que isso aparecesse em sua expressão. O Uchiha estava tão… tranquilo. Era como se absolutamente nada no mundo pudesse atingi-lo. Como se fosse impossível para eles chegarem atrasados à casa da garotinha que acabara de ligar.
Sasuke dirigia com perfeição, e não precisou diminuir a velocidade em momento algum. A sirene ligada permitia que ele ignorasse os sinais de trânsito – desde que fosse extremamente cuidadoso, é claro – e o moreno dirigia como se nenhuma preocupação pudesse atravessar sua aura de inexpressividade. Realmente, não demoraram a chegar. O loiro pulou para fora do carro com a arma na mão. Sasuke indicou que ele deveria entrar por trás apenas com um gesto da mão, e o Uzumaki não demorou em obedecê-lo. Correndo, foi até os fundos da casa e entrou; a porta estava aberta.
Não precisou fazer nada além de observar. Um homem tinha uma mulher como refém, e encostava a arma na cabeça dela. Uma pequena garota de cabelos meio azulados – muito provavelmente a que os ligara –, correu até o loiro e lhe abraçou as pernas quando o viu. Naruto a colocou delicadamente atrás de si, para protegê-la.
— Solte a arma, ou vou atirar – avisou Sasuke.
A expressão vazia em seu rosto provavelmente estava assustando ao bandido, porque este começou a tremer.
— EU NÃO TO BRINCANDO! EU VOU ATIRAR, ABAIXA A ARMA E DEITA NO CHÃO! – gritou ele, apertando ainda mais a mulher em seu abraço.
Dois tiros foram ouvidos nos momentos que se seguiram. A garotinha e a mulher gritaram ao mesmo tempo, e Naruto sentiu seu peito acelerar. Estava de frente para Sasuke, e o corpo do homem lhe cobria a visão. Ouviu um grito masculino, e a mulher correu até Sasuke segundos depois.
O Uchiha acertara um tiro na mão no assaltante, e outro em seu ombro. A arma voara até o sofá, e repousava sobre o chão, em frente a este. Sem baixar a guarda, Sasuke apontou para a mulher atrás de si, e Naruto entendeu que ele devia proteger as vítimas. Pegou a garotinha no colo e correu até a mulher, colocando-se entre as duas. A menina, que não devia ter mais de oito anos, desceu do colo do loiro e se escondeu no peito da mãe, que a abraçou forte, chorando. Naruto tinha a arma apontada para o delinquente, e Sasuke se aproximava devagar.
O Uchiha guardou a arma – contando com a cobertura de Naruto –, e pegou as algemas em seu cinto.
— Você está preso. – e disse as palavras que era obrigado a dizer.
Quando o homem foi algemado, se apoiou contra o delegado, sentindo todo o seu corpo enfraquecido. Ao sentir o corpo do policial contra o seu, ouviu seu coração. Batia ritmado, sem alterações. O bandido quase sentiu as lágrimas invadindo-o, segundos antes de ser empurrado para longe do apoio do corpo do outro. Depois de tudo aquilo, ele nem ao menos se alterara?
— Quem é você? – perguntou assustado.
O moreno o deixou jogado no chão e apenas olhou para o outro policial, que se mantinha como barreira entre ele e as mulheres. Queria apenas comida, se ninguém o tivesse interrompido, nada daquilo estaria acontecendo. O loiro se aproximou, e o policial moreno sequer dispensou um olhar para as duas mulheres que ainda choravam de encontro ao chão.
Quando o Uchiha voltou seu olhar para o homem que era apoiado por Naruto, nenhum sentimento podia ser lido em sua expressão.
— Sou Uchiha Sasuke.
E o homem gelou por completo. É claro que já ouvira o nome dele – quem não o conhecia?! – e sentiu o suor escorrer pelo seu rosto. Ia roubar comida – e talvez algumas joias – e se encontrava com o próprio diabo? Que tipo de azar era aquele? Começou a gritar, a dor pelo tiro finalmente o atingindo por completo.
— Trate da família, eu o levo ao carro.
E o Uchiha pegou o homem dos braços de Naruto, empurrando-o sem a menor piedade até o lado de fora da casa, em direção à viatura. O Uzumaki se voltou para as mulheres com o maior dos sorrisos no rosto, e se abaixou para ajudá-las a se levantarem.
— Vocês estão bem?
— Obrigada, muito obrigada!
A mulher largou a filha no chão e se jogou nos braços do loiro, que sorriu ainda mais e retribuiu ao abraço dela. Para Naruto, aquela era a melhor parte: saber que salvara a vida das pessoas, e ser reconhecido por algo bom. Soltou delicadamente a mulher e olhou para o chão, que ainda tinha o sangue do homem.
— Desculpa por aquilo, mas o Uchiha-san não viu outra forma…
Ele sorriu desconcertado, e a mulher lhe retribuiu o sorriso. Ela parecia ser muito gentil, e tinha um sorriso realmente bonito.
— Esqueça isso, garoto. Minha filha e eu estamos vivas, esse sangue não será difícil de limpar. Sou Kaori.
— Uzumaki Naruto! – se apresentou.
Naruto voltou a sorrir para ela, e a mulher o acompanhou até a porta. Sasuke já estava dentro do carro, e o homem ainda gritava do banco de trás. Kaori voltou seu olhar para o policial sorridente e brilhante ao seu lado, e depois voltou a olhar para o diabo. Claro que sabia quem ele era.
— Garoto… como consegue conviver com alguém tão frio?
Naruto olhou para Sasuke, e viu que o moreno nem ao menos parecia se importar com os comentários obscenos que podiam ser ouvidos mesmo àquela distância. Ele não soube o que responder, e apenas disse à mulher que devia ligar a eles se qualquer problema voltasse a acontecer.
Depois do episódio, voltou à viatura e sentou-se no banco de passageiros.
— Ah, o boiolinha também vai se juntar a nós?! Pra onde vamos, Sasuke-kun? Vai me jogar numa cela pra me ver sangrando até a morte?
Sasuke não respondeu, apenas seguiu seu caminho. Naruto começou a massagear suas têmporas, mas não respondeu. Sabia que não podia deixar que o desgraçado percebesse a irritação que suas palavras causavam, mas a voz dele era realmente irritante. Olhou para o Uchiha, quase implorando a ele para mandá-lo calar a boca, porém o moreno estava sereno, como se o tagarelar irritante do outro não lhe alcançasse.
— Por que os dois estão tão quietinhos, hm? Vai me dizer que o frio diabo não consegue nem mesmo sentir raiva comigo, hm? Não consegue nem mesmo me responder, é? Você é um vadiozinho que se cala, é, Sasuke-kun? Aposto que tava morrendo de medo lá, né? Foi pura sorte a sua, ah, se foi. E agora eu to sujando todo o banco aqui, porque tenho dois tiros. Como vai explicar isso, hm? Eu vou dizer que você me desarmou e, depois de eu ter me rendido, atirou no meu peito. Vou dizer a todos que tentou me matar, e o que você vai fazer, hm? Se eu disser que tentou me matar, Sasuke-kun, o que você vai fazer?
O moreno sorriu. Naruto pensou que ficaria feliz ao vê-lo sair da típica expressão vazia, porém percebeu que estava enganado. Era um falso sorriso, e todo o sadismo presente no olhar dele o deixava com um ar… demoníaco. Pararam bem embaixo de uma sinaleira, e a sirene piscava acima deles. A luz fez com que os olhos de Sasuke parecessem meio avermelhados, e ele olhou para o homem que estava atrás deles com aquele exato sorriso.
O bandido se calou imediatamente.
— Eu vou completar o serviço.
A fala saiu com tanta tranquilidade, tanta paz, que o homem engoliu em seco. Ele tentou não olhar para o sorriso meio psicótico que enfeitava os lábios do homem que o encarava, porém o sorriso era melhor do que o olhar. Era como se Sasuke quisesse sangue.
E ele queria. Queria sangue, porque seu irmão estava morto e ele não tinha a menor pista para saber quem fora o culpado. Queria sangue, porque sentia raiva por estar cuidando de duas crianças de quatro anos. Tudo o que mais desejava era sua vida de volta, porém não a teria. Sabia perfeitamente bem disso, porque agora estava morando com duas crianças tristonhas e tinha que descobrir os podres que Itachi não revelara a ele. E, por todos esses motivos, queria sangue. Não se importava realmente com o de quem.
Naruto desviou o olhar, sentindo seu coração acelerar. E o resto do caminho foi feito em silêncio.
–-//--//--//--//--//
Husiki Yanakashi – descobriram o nome do meliante – foi deixado no hospital, aos cuidados da doutora Yamanaka. Assim que se viu longe de Sasuke ele voltou a falar obscenidades, mas não era mais problema deles. O Uzumaki prestou muita atenção à intimidade que o Uchiha e a médica demonstravam, e intimamente não gostou muito. A ideia de que Sasuke mantinha um relacionamento era incômoda, porque quebrava suas ideias de que o delegado era um ser quase idealizado.
Claro, era apenas por isso.
Voltaram à delegacia e, chegando lá, todos os outros já se encontravam trabalhando. Era quase o horário do almoço, e Naruto estava faminto. Correu até Sai, para contar-lhe tudo o que acontecera, e voltou seu olhar para Sasuke, porém o moreno já voltara a analisar aqueles papéis de outrora. Suspirou, e deixou o moreno de lado.
–-//--//--//--//--//
Sasuke voltou a prestar atenção à autópsia de Itachi. Não havia jeito de o irmão ter lutado com alguém que não dominava ao menos dois tipos diferentes de lutas. Itachi sabia se defender muitíssimo bem, e alguns dos homens que prendera podiam jurar que ele era um ninja, e que seus olhos previam seus movimentos. Sasuke adorava aqueles comentários, porque aprendera muito sobre luta com o irmão, e sabia que era tudo verdade. Ele próprio encontrava grandes dificuldades para lutar contra o Uchiha mais velho.
Então, como o legista podia dizer aqueles absurdos? Itachi não fora assassinado por um qualquer. Voltou a analisar a ficha do tal David, e seus olhos pararam no tempo que Itachi passara o investigando. Três meses? Todo esse tempo, apenas para descobrir sobre um caso extraconjugal? Havia algo de muito errado ali.
Continuaria divagando se o telefone não tocasse. Surpreso, olhou para a tela do computador – já passava das três da tarde. Atendeu ao telefone e olhou ao redor. Apenas o policial loiro que o acompanhara no período da manhã se encontrava na sala; ele preenchia papeladas, provavelmente referentes à aventura dos dois.
— Uchiha Sasuke.
— Sou eu. Tem algo muito errado aqui, cara. O Itachi lutou muito antes de morrer, e eu não fui pelo legista, tava olhando pras fotos mesmo.
Sasuke não respondeu, apenas esperou que o outro continuasse.
— Para de brincadeira, Sasuke, e me manda a ficha do cara que o Itachi tava mesmo investigando. Não tem como ele ter apanhado pro cara que você me mandou investigar.
— É ele.
Silêncio do outro lado da linha. Após quase um minuto, o homem voltou a falar.
— Tsc. Problemático.
— Ele tava limpo?
— Não, tem muita sujeira naquele lá, mas ele não passa de um covarde. Não saberia se defender. Não de alguém como o seu irmão, pelo menos.
Ficaram em silêncio por vários segundos. Ter todas as suas suspeitas confirmadas, por algum motivo, não acalmava o coração de Sasuke. Na verdade, apenas tornava tudo pior. Saber que Itachi realmente lhe escondia um caso era terrível. Sentia-se… traído.
— Só isso, Shikamaru?
— Não. Mas acho que não dá pra falar tudo por telefone.
— Então me encontre em minha casa em meia hora.
E desligou o telefone, sem qualquer despedida. Levantou-se e chamou por Gaara, que apareceu poucos segundos depois. Disse que precisava sair e deixou o ruivo no controle novamente.
Naruto observava a cena de sua mesa, sem se mover. Encarava descaradamente o Uchiha, que caminhava até a sala de evidências. Não demorou mais de alguns segundos, e se dirigiu à porta da frente. Naruto nunca admitiria, mas sentia algo estranho. Ouvira a conversa dele; Sasuke estava indo encontrar-se com um homem, em sua casa. Tentou afastar o pensamento, sem compreender por que o irritava tanto. Nunca imaginara que alguém como Sasuke pudesse ser próximo de alguém o suficiente para simplesmente dizer “venha à minha casa”. O que poderiam fazer lá, afinal? Por que o diabo não podia tratar de tal assunto por telefone? Se fosse referido ao trabalho, é claro que seria tratado na delegacia, não?
Naruto arregalou os olhos ao perceber que se sentia irritado. Por que estava assim? Conhecia Sasuke há três dias – se tanto –, então como podia se sentir tão… incomodado?
Então se lembrou da manhã perfeita que tivera. Seu primeiro momento de ação como policial de Boston, e ao lado do homem mais frio da face da Terra. Sorriu. Entendia agora o porquê de tanta comoção quando se tratava do Uchiha. Ele era um policial exímio, o perfeito exemplo de como um oficial da lei deveria se comportar. Sorriu, sabendo que um dia também chegaria àquele nível de profissionalismo. Não que não fosse um bom policial, porque era, apenas não conseguia se manter tão frio quanto o outro. Naruto franziu as sobrancelhas ao perceber que em nada ajudara na manhã. Sasuke fizera todo o trabalho.
Abriu o maior dos sorrisos ao pensar aquilo. Da próxima vez, não seria ele quem ficaria assistindo.
Fale com o autor