Obsessiva- O que te intriga... É o que te excita!
5 Provando que querer não é poder
Notas iniciais
...Segurei seu braço e ainda de olhos fechados, murmurei.
–Talvez não seja isso que eu quero, apesar de tão errado- abri os olhos, sentindo todos os efeitos de seu olhar agora me devorando por completo. Santana cerrou os olhos, tomando uma postura tão fria quanto a noite estava agora- Talvez eu quero que me toque.
Nos encaramos por infinitos segundos sem nada dizer. Santana em nada havia mudado sua feição, porém nela havia também uma pitada de um ar questionador. Deveria estar confusa por esses meus súbitos momentos de indecisão... Vai, não vai... Quero, não quero... Sou, não sou. Porém muita coisa estava em jogo agora... Muitas coisas, e uma delas era minha índole e mais ainda minha carreira. Deveria estar agora com a cara de cãozinho indefeso precisando de um abraço, pois ela desatou um olhar de loba faminta prestes a atacar, lentamente passando a língua nos lábios, os umidecendo. Começou a andar a passos curtos e sinuosos a minha direção.
Me assistia como um policial reprime um criminoso... As sobrancelhas antes juntas de um cenho franzido, soltaram-se, restando uma erguida enquanto a outra comprimia o olho, que em somente sua composição transpassava tanto pecado da carne, a ponto de eu me sentir quase uma meretriz. E agora, o que fazer?
Estava em um conflito grandioso dentro de mim, onde minha conciência e satisfação física, vulgo vontade de transar loucamente, empunharam espadas e duelaram entre si.
Ela agora estava perigosamente perto... A cada passo que dava, o ar de meus pulmões iam diminuindo e daqui a pouco eu racharia o concreto com as unhas de tanto que apertei-as contra a proteção do prédio. Santana logo alcançou minha cintura com uma mão e a puxou forte para si, causando-me um gemido de boca aberta pela violência do toque ousado. A outra mão repousou em minha nuca, um ato próprio de sugar a vida em um beijo ardente que deixaria até o diabo excitado. De abdomêns fundindo-se, em que os quadris se riscavam a quase ponto de sair faísca, Santana se inclinou para selar nossos lábios- e isso com certeza me faria ter um pré-ataque fuminante- mas no momento que seu nariz tocou no meu, um estalo de consciência me fisgou.
–Espera!- desviei no último instante. Ficamos apenas de testas coladas, onde eu sentia sua respiração forte e quente roçando em minha pele- Me desculpe, mas não posso ir adiante- ela apertou os dentes no lábio inferior com força, como se algo que desejasse lhe fosse negado, mas mesmo assim ainda queria muito aquilo- Eu de verdade não sei bem o que quero agora, porém não me exaltei quando disse que talvez queria que me tocasse- procurei seus olhos, mas se mantinham fechados com força- Minha ética me impede que eu faça isso e me arrependa depois- apesar da freada que dei em seus atos, ela não recuou. Soltou minha cintura para apoiar as mãos na proteção atrás de mim, prensando mais forte ainda seu quadril ao meu. Não estava doendo, porém isso piorava nossa situação de tensão, infelizmente, sexual. Logo Santana tombou levemente seu rosto em meu pescoço e sugou minha pele em uma cheirada devassamente rude. Arfei, me arrepiando enquanto ouvia um rouco gemido de satisfação vindo dela- E-Eu não sei o que é isso que temos, ou se temos alguma coisa, mas acho que deve ser somente uma fase. Fases logo passam. Você é jovem, bonita, inteligente... Logo encontrará alguém para se relacionar mais profundamente. Pra se curtir, namorar, humm... Fazer amor- Santana soltou uma risadinha irônica pelo nariz- O que foi?
–Eu não faço amor- sussurrou em meu ouvido e enfim me encarou de olhos bem abertos, no seu jeito sexy e perigosamente obscuro- Eu fodo- roçou os lábios em meu queixo sensualmente, deslizando-os até parear sua boca na minha- E fodo gostoso, com força... Até sentir seu corpo desfalecer de gozo debaixo do meu.
–Céus!- aquilo saiu bem mais como um protesto. Por que ela me fazia ficar assim? Estava fora de mim... Respira, respira... O que era respirar mesmo? Desconhecia tal palavra. Nunca ninguém em toda minha vida hhavia me deixado tão desnorteada por cada palavra que saía de sua boca, daquele jeito sombrio e perigoso mais ainda. Acho que devo ter ficado congelada por aquilo, pois Santana entortou a cabeça para o lado, em quase um gesto infantil de confusão, o que só piorou o estado de minha calcinha. E minha vergonha só aumentava- Isso por acaso é algum jogo doentio para você?
–Pareço alguém que faria isso?
–Com toda certeza- ela sorriu por minha franqueza. Acho que era o primeiro sorriso verdadeiro que dava essa noite. Geralmente era um torto e irônico.
–Jogos só prestam quando mais de um jogador participa.
–Mas nesse caso um dos jogadores perderá bem mais que pontos no jogo.
–Prometo que nem pensará nisso quando eu estiver entre suas pernas, fazendo você gritar meu nome enquanto te provo sem limites.
–Isso não se fala em uma conversa civilizada- resmunguei com o rosto ardendo. As pernas sentiram bem o efeito de tais palavras. Não se diz isso a uma mulher que há tempos não tem uma boa noite de sexo. Principalmente desse jeito tão devasso, de voz rouca e olhar pecaminoso contido que ela me enviava- Precisa procurar alguém de sua idade para se relacionar, não sua professora.
–Se eu quisesse, compraria aos montes desses- trincou o maxilar- Mas como você não se encontra em qualquer prateleira.
–Por que?
–Porque contida encanta e faz desejar- dividia-se entre encarar meus lábios com uma vontade desmedida de tê-los, para meus olhos azuis assustados e pelo visto emanando excitação- Porém sinto que quando solta na cama... Vai de gata para leoa em apenas um toque, arranhando toda gota de luxúria que banha o desejo pelo corpo a você tomado.
–Está me chamando de prostituta?- indaguei vermelha em um misto de raiva e vergonha por Santana estar me lendo daquela forma.
–Não- voltou a segurar minha nuca, aproveitando para arranhá-la- Estou te chamando de gostosa- nada mais foi dito depois daquilo, pois logo um estalo de lábios se provando foi escutado. Aquilo começou feroz. Só pude perceber que ela estava ali, sugando meu ser em um beijo, quando as mãos morenas firmes foram até meus seios e os apertaram com desejo, me fazendo arfar forte, enquanto a língua trabalhava contra a minha, lutando por posse. Não vou negar que aquilo foi sim muito gostoso, porém não poderia continuar. Antes que ela enterrasse as mãos por debaixo de meu vestido- e já estava quase- e me encontrasse naquele estado catastrófico de molhada excitavelmente, eu reuni todas as forças de meu ser e a empurrei com força, acertando um tapa seguro e estralado em sua face esquerda.
–Não faça mais isso- apontei em sua direção ameaçadoramente, também ofegante, ajeitando meu vestido todo amassado. Santana passou alguns segundos com o rosto virado para o outro lado devido o forte tapa. Depois que notei os cinco dedos marcados em sua bochecha esquerda, acordei para o que eu havia feito- Céus! Santana me...
–Brittany?- ouvi Sugar me chamar da porta que dava ao terraço. Quando me viu, veio em passos vacilantes até mim- Procurei você por todo lugar, sua fujona. Eu... — notou Santana mais ao lado- Santana?
–Oi, Sugar!- acenou para minha amiga, que a encarava intrigada.
–O que vocês fazem aqui?- era agora que eu dançava.
–Eu...
–A senhorita Pierce me fazia companhia por aqui, pois estava sentindo minha bronquite apertar- repousou a mão no peito, cinicamente.
–Uhmm... Ok, então- Sugar deu de ombros, deixando aquilo de lado- Tia Maribel procura por você, acho bom ir logo, senão ela explode- espera... Tia?
–Já estava de saída- o semblante da latina havia ficado inóspito e fechado como sempre. Aquele ar gótico havia voltado com força e ela apenas me olhou trancada por alguns segundos e saiu. Aquela transfusão de tensão havia me deixado desnorteada.
–Hey, Brittany... Estava te procurando feito uma doida lá dentro. Achei que tinha sido sugada pelo vaso- sorri levemente.
–Precisava tomar um ar.
–Mas agora vai tomar todas comigo, porque eu já to muito louca e quero que me acompanhe.
–Espera- me soltei dela- Por que não me disse que era prima de Santana?
–Porque você não me perguntou, dah!- Sugar bateu a palma da mão na testa. Cruzei os braços, emburrada.
–Sugar, fiquei falando de sua prima na sua cara e nada me disse.
–Você não falou nenhuma mentira. Muito menos eu. Qual o grilo nisso? Ela te fez alguma coisa? O que quer me contar?- suspirei, me sentindo tentada a revelar os acontecimentos entre mim e Santana, porém optei guardar isso pra mim. Pelo menos por enquanto. Não que eu não confiasse nela, mas se antes eu não queria contar a ela, agora mesmo que não iria, pois Santana é sua prima. Vai que ela ficasse com raiva de mim?
–Não, nada.
–Pois então relaxa e goza- me pegou pelo braço e saiu nos arrastando, andando meio torta por conta de seu teor alcoólico. É hoje que ela volta pra casa carregada e eu psicologicamente afetada.
~°~
–I WILL SURVIVE, HEY HEY! ihuuuu, acaba não, mundão- Sugar gritava empolgada, cantando e dançando uma música que sequer estava tocando. Algo suave soava ao piano e ela cismou que era aquela tocada geralmente em bares gays. Não sei o que era pior. Se era Sugar cantando horrivelmente, com uma voz semelhante ao de um gato desesperado caindo do telhado em cima de cacos de vidro, bêbada, dançando feito um avestruz com cólicas menstruais e todo mundo estar vendo aquilo fazendo careta, ou se era o fato de eu estar recordando a cada minuto o que havia acontecido no terraço. Era como se meu mundo agora respirasse tais vontades que eu deveria tanto reprimir. Nunca destruiria minha carreira tão trabalhada com assuntos carnais moralmente repreensíveis daquela forma. Sugar avistou um rapaz passando por perto- Oh lá em casa, brincando de uni-duni-tê comigo! Como é mesmo aquela música brasileira?- colocou a mão no queixo, pensativa- Ah... Nossa, nossa...Assim você me mata. Ai se eu te pego! Ai ai, se eu te pego- não sabia se eu deveria rir da bebisse de minha amiga com aquela coreografia ridícula e desajeitada, ou se ficava com pena do rapaz vermelho de vergonha saindo de fininho pelo salão. Resolvi intervir antes que a coisa ficasse pior.
–Sugar, já chega. Você bebeu demais.
–Sai, cara de palmito... Agora estou me divertindo- ela desviava de mim para não deixar que eu tomasse o copo de bebida de sua mão- Vem cá, dance comigo! Tuti tuti tuti tuti tuti ehhhhh, ihuuuuuu- começou a rodar, me puxando para dançar com ela sua música eletrônica imaginária- Vamos lá, branquela, sinta a batida, isk dum isk dum.
–Sugar!- eu ri, tentando arrancá-la de minha cintura- Pára, solte isso- tentei mais uma vez tomar seu copo, porém ela rodopiou e me impediu. Não sei como conseguiu fazer aquilo, levando em conta seu estado bêbado.
–O que está acontecendo aqui?- uma voz grossa indagou mais atrás. Quando me virei, dei de cara com o responsável de trazer ao mundo aquele ser que tanto me atormentava desde que cheguei em Nova York. Ernesto Lopez nos olhava de maneira questionadoramente repreensível. Ia dar caquinha, eu já sentia.
–Vixe... Aqui de repente começou a feder, fumm- abanou o nariz olhando para Ernesto, que trancou o cenho zangado- Late, papagaio.
–Fale direito comigo, sou seu tio.
–É tio do capeta, meu nada- fez cara feia para ele- Vaaaaza daqui!
–Está envergonhando sua família desse jeito- apontou zangado para Sugar, que deu de ombros- Pare com essa bebedeira agora.
–Meu filho, a vida é minha, bebo se eu quiser. Se meu fígado estragar, o rabo é meu também pra aguentar. Vá chupar um parafuso!
–Ora, sua...
–Senhor Lopez- me coloquei entre os dois para acalmar os ânimos- Sou Brittany Pierce. Lembra-se de mim?
–Filha de Robert?- confirmei- Ah, claro que lembro. Se tornou uma linda mulher... Linda mesmo- me olhou de cima à baixo, fazendo eu me sentir enojada por isso- Como anda meu velho amigo?
–Velho e rabugento- ele riu- Papai vai muito bem. Sua firma só cresce a cada dia.
–Robert é um ótimo advogado. Seguiu os passos dele? Deve ser, hum, a quarta ou quinta geração para advocacia.
–Não, pra infelicidade dele me formei em literatura. Leciono na Memphs juntamente com Sugar.
–Minha sobrinha não faz jus a esse cargo.
–Não sou sua sobrinha, seu pederasta- Sugar apontou raivosa para Ernesto, que somente riu- Já mandei vazar daqui... Vou te acertar com esse copo naquele lugar onde não se deve ser nomeado- ameaçou, sacudindo freneticamente o copo.
–Sugar, tenha modos- pedi, segurando-a.
–Ela desconhece tal coisa, Brittany.
–Eu te perguntei alguma coisa, seu peste? Rala peito- Sugar gesticulava para que senhor Lopez se retirasse.
–Acho bom tirá-la daqui. Steven não merece tal vergonha.
–Ela já vai, senhor Lopez.
–Senhor Lopez é meu pai, me chame de Ernesto- sorriu galantemente e eu somente retribui com um sorriso forçado- Se quiser sair pra jantar qualquer dia desses, ficarei mais que honrado por tê-la como companhia.
–Eu... — antes mesmo que eu me saísse de suas conversas, Santana apareceu, tocando no ombro do pai.
–Professores não se agradam por política, papai- apesar do tom sério, seu pai riu.
–Às vezes me animo falando com os mais jovens, minha fuerte.
–Sei bem como o vinho lhe inspira, senador- sua feição estava trancada como quando a conheci. Ernesto sorriu grandemente para a filha, então concluí que era natural essa forma dela falar com ele- Mamãe e Lalo o aguarda para irem.
–Tudo bem. Vai conosco?- ela negou- Ok, até amanhã- Santana apenas assentiu, recebendo um aperto cordial no ombro pelo pai- Boa noite, Brittany.
–Boa noite, Ernesto- ele sorriu pra mim e saiu. Santana me encarava com a sobrancelha arqueada. Ignorei isso, voltando-me a Sugar que tentava equilibrar o copo em seu traseiro à vacuo- Vamos, Sugar. Você precisa ir dormir.
–Eu preciso é de sexo... SEXO- gritou bem alto, atraindo a atenção dos demais.
–Vem logo, deixa de ser criança- puxei ela pelo braço, porém a mesma foi relutante. Santana passou por mim.
–Seu cabelo está horrível assim, Sugar!
–O quê? Meu cabelo?- ela parou bruscamente, encarando a latina séria.
–Sim, parece um ninho. Acho bom seguir sua amiga- a latina confirmou cinicamente, fazendo bico. Sugar arregalou os olhos, levando as mãos para a cabeça.
–Corre, Brittany... Ninguém pode me ver assim- saiu correndo por entre as pessoas feito uma barata tonta.
–Obrigada pela a ajuda- agradeci com sinceridade- Sugar quando quer ser pentelha, é mestre nisso.
–Disponha, senhorita Pierce- eu ouvia todo dia, quase toda hora os alunos me chamarem assim, porém quando era ela, soava pra mim quase como erostismo. Suspirei, retirando sua jaqueta.
–Agradeço pela gentileza de ter me doado sua jaqueta pelo frio no terraço. Tome de volta.
–Eu dei ela a você- cruzou os braços recusando a peça.
–Ainda vai continuar com isso? Já disse o que penso e como me sinto sobre tudo que me propõe- tentei me manter estável a situação, expondo tudo que me cabia em um tom apaziguador. Tinha que lidar com aquilo da maneira mais adulta possível. Santana se mantinha neutra a minhas palavras.
–Seu espaço nunca foi violado.
–Não? E quando me agarra do nada?
–Você me pede.
–Como, se eu sequer tenho palavras para lidar com você?
–Você me pede com os olhos- deu um passo pra frente. No mesmo instante dei um pra trás. Ela sorriu de canto, vitoriosa a sua teoria- Ou quando reage, como dessa forma, a meus gestos. A forma que lhe afeta minhas investidas- fiquei encabulada, ruborizando- Isso alimenta o que tenho por você.
–Não deveria, pois nada compartilho com você.
–Veremos!- me enviou um olhar firme e desafiador.
–Sei de mim, minha cara. E sei mais ainda que, além do fato de eu sequer deveria estar falando com você sobre isso, eu a agredi sem pensar. Se estivesse no seu lugar, ficaria com raiva de mim por ter estragado as coisas.
–Mas não estou- deu de ombros, observando algo mais ao lado- Você só deixou as coisas mais interessantes.
–Me respeite, por favor- droga, eu explodirei a qualquer segundo.
–Eu respeito, loirinha. Caso contrário não estaríamos conversando tanto... Bem, você não conseguiria falar nada- por que tão rude e sacana?
–Escute aqui, sua...
–Shii, eu já estou de saída- Santana me cortou falando macio. Voltei a lhe oferecer a jaqueta e dessa vez ela pegou, porém quando eu achei que sairia, deu um passo pra frente, me encarando de perto. Nada disse, apenas parecia querer enxergar minha alma pela profundidade do olhar. Delicadamente passou a jaqueta por meus ombros e se aproximou de meu ouvido para sussurrar- Não fica vermelha só de vergonha, também de frio. Se acha que faço isso para mexer com você, está errada. Percebo de longe alguém com problemas respiratórios, e quando vi sua bolsa no chão no beco quando te ajudei, nela tinha uma bombinha, então ou tem ou já teve asma. Esse frio pode fazer mal a você- ela preocupava-se comigo, é isso?- Nada farei contra sua vontade, e se isso te faz tanto mal, eu paro por aqui. Mas se me quiser e eu sinto que quer.. Sabe onde me encontrar- ela então se afastou de mim- Tenha uma boa noite, senhorita Pierce.
–Você também, Santana- suspirei, não sei como, mas contida. E minha última visão daquela festa foi o olhar imerso em sombras de Santana. Parece que consegui o que eu queria agora... Que ela se afastasse.
~°~
Voltando ao tempo presente...
–Então quer dizer que você além de não prestar queixa contra os homens que lhe agrediram, manteve em segredo que uma aluna a assediava?- Perez perguntou de cenho franzido.
–O que esperava? Eu havia acabado de chegar na cidade que tanto quis voltar, enfim tinha conseguido o emprego de meus sonhos e ainda de quebra poderia ficar perto de minha mãe. Como ninguém se machucou naquele dia do beco, pelo menos não gravemente, eu achei que não seria preciso ir à polícia- ele me encarava como se fosse um crime não ter prestado queixa aquele dia. Respirei fundo para continuar.
–Centenas de crimes acontecem porque as pessoas simplesmente acham desnecessário prestar queixa quando passam por algo como você passou e saiu ileso- suspirei irritada.
–Quer que eu continue a contar a história ou vai ficar aí me julgando?- o investigador tentou falar algo, porém o cortei- Do jeito que minha cabeça está doendo, eu acerto essa cadeira em você. Nem ligo se for presa por isso.
–Calma, senhorita. Apenas fiz uma observação.
–Me desculpe por ter sido indelicada. Mas estou com muita dor de cabeça e faz muito tempo que me prometeram uma aspirina, e nem um copo de água ganhei- apoiei a testa na mão, sentindo a cabeça pesar. Eu havia sido atendida por um enfermeiro na delegacia mesmo, pois além de alguns hematomas, aranhões e a vontade de xingar até minha mãe, eu estava fisicamente bem, porém com um emocional de uma onça na TPM.
–Tudo bem, eu entendo. Resolverei isso pra senhorita- foi até a porta e chamou um guarda- Providencie algum remédio para dor de cabeça e algo para a senhorita Pierce se alimentar, por favor. Pronto- voltou-se a mim.
–Muito obrigada- meu estômago e eu agradecemos. O coitado até deu um suspiro de morte ainda agora.
–Pois bem, enquanto ele retorna com suas coisas, prossiga com os relatos, por favor- me sentei ereta novamente e respirei fundo para continuar com aquela tortura. Eu já estava com sono, com fome, querendo um banho e mais ainda o colo confortável de minha mãe, pois minha vontade agora, lembrando disso, era só de chorar. Não sou mimada, só tente ficar firme depois do perrengue que passei- Vi aqui na ficha de Santana Lopez que ela luta muay tai... Hã, a nível profissional- disse enquanto lia a tal ficha amarelada- E pelo o que li aqui, ela é muito boa nisso.
–Sim, uma das melhores de sua academia. Na noite da festa ela havia escapado de um treinamento para comparecer na comemoração.
–E retornou?
–Sim, ao que me parece no dia seguinte- puxei da memória- Alguns dias depois ocorreu sua competição e...
~°~
Voltando ao flashback:
–Brittany, filha... O jantar está pronto!- minha mãe avisou da sala. Terminei de colocar o meu pijama fofinho de pintinhos amarelinhos e desci correndo para a cozinha. Tínhamos o costume de assistir enquanto comíamos, então a ajudei a levar algumas coisas para a mesinha da sala. Passava na TV uma novela mexicana que a gente tanto gostava. Quase nem piscávamos assistindo- Não acredito! Helena enfim contará para Juan que está grávida do irmão dele, Emanuel.
–Minha nossa, ele vai ter um treco quando souber- levei as mãos ao rosto, quase amassando minhas bochechas por ansiedade. Quando a personagem Helena estava prestes a falar da gravidez para o amado Juan, soou aquela voz chata dizendo “Será que Helena terá coragem de revelar seu segredo para Juan? Não perca o próximo capítulo de: Amores secretos“- Ué, já acabou? Mas só teve duas partes- franzi o cenho enquanto mamãe quase enfartava por ter acabado naquela parte cruciante da novela. Antes que eu acertasse a televisão com uma maçã, o apresentador de algum programa apareceu do nada, com um sorriso enorme no rosto. Não tinha nada pra fazer mesmo, deixei rolar.
“Senhoras e senhores, a luta mais esperada do ano acontecerá daqui a pouco no..."
–Shiii, é luta. Vou tirar, odeio violência- fiz careta de desagrado, porém antes que tirasse do canal, o apresentador falou os nomes de quem iriam lutar. Meu dedo paralisou antes de atingir o botão de mudar o canal.
“Hoje a francesa Roxy Gusteau enfrentará a americana de descendência latina, Santana “fuerte" Lopez"- a platéia foi a loucura- “ As duas entram agora no ringue. Ano passado Santana lesionou duas costelas depois de levar uma joelhada de Roxy e agora tenta esse ano a revanche tão esperada. Elas... "
Depois disso rolou apenas detalhes técnicos sobre as lutadoras e mais alguns comerciais chatos. Fiquei vidrada na tv, esperando a entrada de Santana. Mamãe me encarava de uma forma engraçada.
–Não sabia que coisas desse tipo agradavam você, Susan.
–E não agradam- deixei meu prato sobre a mesa, pegando um copo de suco- Uma das lutadoras é minha aluna. Santana Lopez.
–A filha do senador?
–Essa mesmo- respondi sem tirar os olhos da tela onde mostrava agora Santana e a outra lutadora entrando no ringue.
–É uma menina muito bonita, mas muito séria. Chega a ser assustador o silêncio dela- eu ri, concordando- Seu pai trabalhou para Ernesto há alguns anos.
–Eu me lembro da vez que participamos de uma comemoração na casa deles. Os filhos ainda eram bebês.
–Os gêmeos mais lindinhos que eu já vi. A menininha, a Santana, te olhava com uns olhões curiosos, como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Chegou a apertar seu dedo e quase não soltou quando você ofereceu para ela no berço. Se lembra disso?
–Vagamente- encarei minhas mãos ao receber os flashs das lembranças que mamãe relatava, e a imagem do bebê Santana agarrando meu dedo da forma mais fofa do universo, deu lugar a dela me jogando contra um guarda-corpos, me tocando tão quente e excitante ali, que senti o corpo inteiro ir ganhando temperatura. Depois veio o beijo esmagadoramente gostoso e o tapa desmedido que dei em sua face tão perfeitamente escupida por anjos, ou, sei lá, por demônios de tão sexy e quente que é.
–Brittany?
–Que foi?- perguntei meio perdida no tempo.
–Está perdendo a luta- ela me alertou apontando para a televisão. Balancei a cabeça, afastando tais pensamentos. Mamãe saiu, me deixando sozinha assistindo a luta. As duas já haviam se cumprimentado e agora era chute e soco sem limites. Confesso que fiquei agoniada vendo a loira, que mais parecia um gorila, socando sem dó o rosto da latina. Deus, como alguém consegue praticar uma coisa como aquela? É brutal, violento, agoniante... Cruzes! A cada golpe realizado na luta eu fazia uma careta mais feia que a outra. Não entendi quase nada do que eu via, porém só sabia que tinha que bater muito e com muita força. Já estava na final, as duas pareciam cansadas, porém mais ainda determinadas a ganhar. A loira segurou Santana pelos os ombros e acertou joelhadas seguidas em seu estômago, porém rapidamente a latina se soltou, esboçando uma controlada expressão de dor. Era até uma tortura vê-la sofrendo daquela forma, apesar de não aparentar tanto. A mulher montanha começou a fazer pouco de Santana, movendo os pés como se dançasse. A morena parecia imparcial as provocações, e, quando o armário de shorts correu em sua direção para lhe chutar, ela bloqueou o golpe, revidando de forma certeira nas costelas da outra que caiu sentindo a pancada.
–Minha nossa!- murmurei perplexa. A loira se reclamou de dor no chão e Santana apenas deu um passo para trás e ficou observando a adversária fazendo careta. Ela estava ofegante, porém tranquila, e podia-se ver nitidamente o suor escorrendo por seu corpo trabalhado. O abdomên definido chegava a brilhar pela umidez. Ainda bem que mamãe não estava mais aqui para me ver suspirando feito uma adolescente com tesão por tal visão.
“É, galera... Acho que Roxy não levanta mais... Mas olha, ela tem garra! Roxy está de volta“. A platéia estava eufórica pelo combate majestoso. Eu estava pra roer os cotovelos de aflição. Santana parecia esgotada para mais uma partida contra aquele Iceberg.
Ela balançou a cabeça como se confirmasse algo consigo mesma e o combate retornou com mais pancadarias e violências desnecessárias que eu nem sei porque eu ainda estava assistindo. Minha aflição aumentou quando Santana foi atingida na coxa e caiu. Passou um tempo curvada para frente, sentindo os efeitos do chute, porém mais que rapidamente já estava de pé, mostrando-se forte, fazendo jus a forma que era chamada. A outra lutadora deu alguns pulinhos e provocou Santana novamente, que somente ficou ali parada. Deu pra perceber que a latina havia esboçado um sorriso de escárnio. A loira foi com tudo a sua direção porém ela desviou uma, duas vezes, até dar um salto para o lado, atingindo o rosto de sua adversária com o pé que a fez cair desacordada, levando a latina a vitória.
A gritaria rolou solto. O juíz analisou a loira no chão, depois foi até Santana e levantou seu braço em sinal de que ela havia ganho. Alguns homens entraram no ringue e fizeram festa pela vitória de Santana, jogando-a pro alto em intensa felicidade. Pude ver até Sam entre eles, era seu treinador tanto na natação quanto no muay tai. A câmera então focou na latina e a velha expressão de tranquilidade satisfatória pairava em seu rosto jovem e belo. Alguns repórteres tentaram entrevistá-la, porém ela apenas acenou para todo mundo e saiu escoltada por alguns seguranças.
–Tem alguma coisa que você não faça, Santana Lopez?- zombei para mim mesma, com um sorriso de soslaio. Desliguei a televisão, encolhendo as pernas para abraçá-las e assim também repousando o queixo nos joelhos. Fiquei naquela posição pensativa, relembrando tudo que me aconteceu até agora, sendo bom ou não. De repente meu pai tinha razão quanto a certas escolhas moldarem um caráter, porém há pessoas que sabem controlar certos impulsos, mesmo que alguns deles pareçam tão mais satisfatórios do que não fazer e se estrepar com as consequências. Sempre fui tão correta, tão ética, tão centrada com meus objetivos e com minha vida que, ás vezes, fico me perguntando se vale a pena sacrificar certos prazeres que a vida me oferece para me manter assim. Mas levando em conta o pai que eu tenho, o pai que tanto quero agradar, acho bom nem pensar tal coisa. Talvez seja aqui o lugar que enfim me fará evoluir, tanto como pessoa quanto como profissional, e com toda certeza do mundo eu farei o possível para conseguir alcançar esses objetivos... Não importa como ou o quê, eu iria mostrar para meu pai que ele estava errado.
De repente a campainha tocou. Levantei para atender, dando de cara com um rapaz franzino, de boné torto e olhar cansado.
–Posso lhe ajudar com alguma coisa?- perguntei de sobrancelha arqueada.
–Brittany Pierce?
–A própria- ele tirou algo do bolso e me entregou. Era uma caixinha de veludo preta, com uma fitinha azul formando um laço envolta dela- Quem me mandou isso?
–Ela não me disse seu nome, apenas pediu que lhe entregasse a caixinha que você saberia de quem se tratava- torci o nariz, encarando de maneira intrigada o objeto- Tenha uma boa noite, senhorita.
–Espera, não quer gorjeta?- ele sorriu abertamente.
–Não precisa. Quem me mandou lhe entregar isso já me deu uma senhora gorjeta. Vou poder finalmente comprar uma guitarra nova- gesticulou como se tocasse- Agora preciso ir. Tchau.
–Tchau- me despedi sem tirar os olhos da caixinha. O que será que tinha ali? Vai que era uma bomba?- Meu Deus, eu olho?- fiquei parecendo uma doida analisando cada partizinha do objeto- Ah, estou curiosa demais para receios- soltei o laço, abrindo cuidadosamente a caixinha, revelando minha pulseira que eu havia perdido na noite da festa ao tentar tocar um vagalume- Minha pulseira? Mas o que é isso?- havia algo diferente naquela pulseira. Junto das borboletas havia um vagalume dourado um pouco maior que elas, com pedrinhas brilhantes formando os pequenos olhos. Pequeninas estrelas quase transparentes acompanhavam cada borboleta que já havia na pulseira. Notei que no fundo da caixinha havia um bilhete azul escrito a mão em uma caligrafia impecável. O abri e comecei a lê-lo- "Para não correr o risco de cair de um prédio tentando pegar um, mandei fazer seu próprio vagalume. Apesar de ficar linda naquele terraço com a luz da Lua tocando seu rosto, odiaria saber que testou a gravidade caindo dali. Aperte o meio dele e terá uma surpresa... Lembra que o céu não tinha estrelas àquela noite? Agora pra você sempre terá... Considere isso como um pedido de desculpas“.- Céus, como ela conseguiu achar isso? Voou pra longe quando caiu... E mais ainda, o que isso tudo significava? Coloquei a pulseira no braço e a fitei, balançando a cabeça negativamente em confusão. Apertei o meio do vagalume, como dizia no bilhete, e ele começou a brilhar. Era um brilho tão lindo que parecia real, mas não de um vagalume e sim de uma luz celeste. E, céus... Cada estrelinha começou a brilhar depois, formando uma pulseira luminosa. Nunca tinha ganhado algo tão lindo-Mesmo de longe Santana consegue mexer comigo. Belo jeito de se afastar de mim- ri em ironia, porém encantada- É, Brittany... Esse será um longo, longo ano.
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