Obsessiva- O que te intriga... É o que te excita!
16 Espaço tempo
Notas iniciais
Em um perfeito solstício de dezembro, fez-se as sombras perfeitas bailarinas à luz de velas. Em um lençol de seda pura, tão macio quanto o manto da pureza, repousava o corpo em demasia de prazer, tão delicadamente branco, tão apaixonadamente delicado, que de ínfimas sensações, transformaram-se em um bombardeio delas, onde traçavam curvas perigosas que iam de inocência à despudor em milésimos de segundos.
De bruços, estava ela, a delicadeza em pessoa, dona dos olhos azuis celestes mais angelicais de todos os cosmos, capaz de atrair a criatura mais solitária e sofredora do universo, fazendo-a assim à mercê de seus efeitos aterradores. O lençol, num tom marrom, cobria-lhe até somente a cintura, deixando assim a curva do bumbum perfeitamente desenhado, assim como o restante acima, completamente desnudo.
Lábios carnudos foram traçando caminhos de beijos pelas costas nuas e brilhantes de suor do anjo humano repousado sobre a cama. Enquanto fazia esse mimo, ia deslizando com as pontas dos dedos pela lateral da coxa, parando no ombro, onde tirou um punhado de cabelo que ali se espalhava e aplicou um breve beijo, tão morno quanto o Sol tocando-lhe a face ao nascer.
—Adoro quando faz isso- expôs, sob gemidos que cortavam sua voz.
—Gosto de cuidar de você, senhorita Pierce.
—Me chame de Eleonor, já pedi. Somos tão íntimas já- virou-se para a outra e a fitou, reflexiva- Assustadoramente íntimas.
—Assim funciona o amor- pegou a mão da outra com delicadeza e a beijou, sem tirar o olhar negro dos azuis de sua companheira.
—Você é um sonho... Dos mais perfeitos. Mas não sei por que vejo medo em cada linha de suas expressões- tocou no rosto moreno que se aninhou em sua mão, como um bichano carente.
—Receio perdê-la. Não tenho essa sorte de poder ser feliz por tanto tempo.
—Você me tem até o fim... Dou-lhe a minha palavra, meu querido amor- Eleonor encostou a testa contra a de sua amada e fez-se imersa no mais profundo amor. A outra também estava sim, mas o temor parecia ter impregnado em sua alma- Obrigada por existir, Santana.
—Não é você que tem de dizer isso, senhorita Pierce. Eu que carrego essa alegria.
—Que meigo! Mas, por favor, queira pronunciar meu nome. Isso me dá vertigem.
—Quem dera eu fosse dona de tal privilégio, doce anjo. Não posso dizê-lo.
—Você tem uma alma linda, querida. Não fale assim- a outra não disse nada, apenas suspirou. A loira então deitou-se sobre o peito da latina e passou a fitar o teto tão cheio de requintes e desenhos de anjos e outros símbolos intrigantes, que Santana explicou vagamente serem runas antigas, e se vislumbrou do quão lindo e triste ao mesmo tempo era tudo isso... Santana... Sua casa... O que elas tinham agora- Esse foi o melhor trabalho de meu pai. Ficou tudo tão perfeito.
—Tens razão. O segundo será arrancar-me a cabeça por ter tomado a esmo a pureza de sua linda filha- Eleonor deixou escapar uma risadinha.
—Não se preocupe, latina- ergueu-se, apoiando uma das mãos ao abdômen desnudo de sua amante e assim podendo lhe fitar, com luxuria no olhar- Antes que pensasse em ganhar meu coração... Ele pulou direto a você sem que percebesse.
—Fuja comigo- aquilo pegou a loira de surpresa.
—E minha família?
—Deixarei uma bela quantidade de bens que os deixará livre da fome por uma eternidade.
—Então vai me comprar?
—Não... Será como um dote. Vou desposar você- deixou um selinho no queixo de sua amada, que pareceu estática- Case-se comigo. Não te prometo os céus... Mas lhe garanto um paraíso só seu... Ao meu lado.
—Então diga... Diga, San, o que tens por mim?
—Eu amo você, senhorita Pierce- por um beijo fofo na bochecha, Santana selou seu sentimento mais puro por sua jovem amada, que sorriu de uma maneira tão serena, tão apaixonada, que a latina só teve a reação de tomá-la como sua novamente, girando os corpos para que ficasse entre as pernas delicadamente brancas que formava um contraste tão perfeito com sua pele caramelada.
—Vide àquela que mergulha na penumbra da existência do algoz que vem da luz e adormece seus olhos. Àquela que o toque aquece, rasteja pelo corpo e assola a alma escura e turva, firmada do grito daqueles que padecem pelos pecados da carne e da mente, em que se mesclam a natureza do ser em se alinhar as trevas e coexistir com a luxúria. Àquela que os olhos formam um manto escuro, nublado, em que a alma se esconde e teme cujo outros olhos a cobiça, e usa de entreliça os lábios tão macios como plumas a um travesseiro ao tocar nos seus- rastejou com os dedos pelos lábios carnudos de Santana, provando sua textura em um beijo profundo, de bocas se provando com um deleite aterrador- Eu vejo seu penar, àquela de quem luto contra o luto sombrio... Cujos braços me aquecem, o corpo me inunda de prazer, mas a alma nunca poderei salvar, pois a quem pertence, o núcleo do mal fora o criador- Santana olhou-a, franziu o cenho e teve novamente sua boca coberta. Soltou dos lábios finos e deliciosos da outra para retroceder com os beijos banhado em desejos agora pelo colo e ventre de sua amada proibida, e esta, mordia os lábios agradada a sensação de êxtase que tudo aquilo se tornava- Quero-te com o dia o Sol e a Lua a noite negra e turva.... Pois teu corpo és meu leito- apesar da voz falhada, ela não parou. Santana sentia o peito em chamas pelas palavras com tantos sentimentos empregados, mas ela também não parou com o que fazia- E meu coração teu escudo contra seus próprios demônios, meu doce então demônio confuso. Onde em suas asas negras eu repouso...- acariciou os cabelos negros de Santana, que havia parado para ver-lhe terminar- Em toda nossa eternidade de vidas.
—Isso foi tão lindo! Foi você quem escreveu?
—Fiz para você. Tive necessidade de mostrar-lhe isso, pois não tem idéia do tornado que instaura em minha mente e como faz de meu corpo um ventríloquo de prazer.
—Mil perdões.
—Não se desculpe... Não estou por reclamar... Necessito de seu amor para obter batidas reais daqui- tocou no peito e sorriu- Me ame, amor- sem mais delongas, as duas se uniram a luz de velas que pintavam as paredes de sombras resultantes do amor naquela cama luxuosa. Era nítida a natureza daquele sentimento, mas o que se tinha questão era que, algo lindo pode tornar-se trágico?
Acabei por acordar aflita. Fora o sonho mais real e agonizante de minha vida.
—Saia de minha mente, Santana Lopez- passei a mão por entre os cabelos dourados, sentindo o suor impregnar a meus dedos. Olhei para a janela... As cortinas abertas mostravam que ainda não havia amanhecido, deveria estar por volta das 3 da manhã. Me virei para o lado, Sam estava esparramado na cama, os cabelos semi-compridos, tão loiros quanto os meus, estavam jogados por seu rosto, apenas os lábios proeminentes do professor podiam ser avistados. Sorri nervosa, deu vontade de soltar um palavrão daqueles bem cabeludos. O sexo com Sam foi muito bom, devo admitir, mas não foi o bastante para tirar aquela latina intrigante de minha cabeça. Não me julguem, só Deus sabe como isso foi preciso. E que sonho louco foi aquele? Algo em mim gritava para ir em busca desse mistério, tentar obter essas respostas que estão roendo meu cérebro, assim dando enfim um término para toda essa agonia.
Contudo, me pergunto se ela também estaria pensando em mim agora. Se tem esses problemas de seguir com a sua vida depois que nos envolvemos. Porque, bem, Santana é praticamente uma criança ainda, o quão isso pode estar sendo difícil para ela?
—Segura esse forninho, Brittany. Porque estou sentindo que ela vai cair bem no meio da sua cabeça- tampei o rosto com a mão e bufei- Preciso dormir... Eu preciso dormir e esquecer tudo isso. Vou me deitar bem aqui e fingir que tenho uma vida normal, que estou com sono, que o abraço do meu “namorado marombado” vai me acalmar e eu vou sonhar com pôneis rosas distribuindo doces na terra do caramelo- sorri do jeito mais falso do universo, puxando o braço de Sam para me envolver, então grudei meu corpo ao dele ainda nu, e graças aos céus ele estava quente já que o frio estava de matar nessa madrugada- Agora, boa noite, Santana. E fique onde está... Seja lá na terra do abismo ou no seu quarto cheio de criaturas mortíferas.
***
—Então você dormiu com o seu namorado só pra esquecer Santana Lopez?
—Se você colocar desse jeito vai parecer que eu sou algum tipo de vadia louca- o investigador me olhou com uma sobrancelha erguida na maior cara de “miga, você É uma vadia louca!"- Foi apenas uma defesa pra confusão que estava minha vida. E ele nem era meu namorado na época.
—Usar alguém dessa maneira é antiético. Não importa o vínculo.
—Você faria diferente em uma situação como essa?
—Eu falaria com alguém de confiança. Quem sabe assim encontraria uma solução tendo uma conversa franca sobre o assunto? Um psicólogo, talvez. Certas coisas não se devem enfrentar sozinho.
—Meu querido, minha única pessoa de confiança fica porre com café, anda com uma bolsa porrete em formato de cachorro e acha que a bibliotecária é um duende ogro maligno comedora de criancinhas. Aliás, você já teve uma amostra grátis da minha “pessoa de confiança".
—É, faz sentido ter ficado calada. Já vi pessoas sob efeito de LSD que dão menos problemas e não vão tão longe em fantasias- ele fez careta lembrando-se da confusão que Sugar causou no dia que foi me buscar na delegacia e hoje quando foi me deixar. A segunda foi mais ou menos assim:
—Como assim eu não posso entrar como meu cachorro bolsa nessa delegacia mijada do caralho pra deixar minha amiga?
—Desculpa, senhorita, mas não pode entrar com os itens em sua bolsa por se tratar exatamente de uma delegacia. Aqui tem pessoas presas... Elas podem te matar com isso. E ainda é suspeito- explicou calmamente.
—Você é retardado, não é? Ou só foi picado por um carrapato na cabeça?
—O que você tem contra mim, senhorita? Já é a segunda fez que implica com o que eu falo- questionou o atendente da delegacia.
—Porra, você que implica comigo. Me deixe passar.
—Não. Se retire, por favor, ser humano pequeno.
—Ora, seu filhote de tartaruga, comedor de donut do caralho- Sugar saltou não sei como no balcão e só não esganou o atendente porque alguns policiais a seguraram- Eu vou comer a sua alma e cuspir na tua avó, filhote se jubarti.
—Tirem ela daqui, por favor- seu semblante era de cinismo, fazendo um sinal com a mão como se enxotasse Sugar da sala de espera. Quando todo mundo achou que ela tinha ido, eis que surge Sugar correndo pra sala, onde ficou girando o cachorro bolsa horrendo dela e o atirou no atendente, que caiu da cadeira, levando um monte de papel consigo para o chão.
—Eu vou comer teus donuts, vou comer você... Eu vou comer a TUA mãe e você não vai poder fazer nada, seu frouxo. Ninguém me manda sair de onde não quero- os policiais voltaram e tentaram pegá-la, porém Sugar ficou fazendo cobrinha pela sala, pulando nas coisas, derrubando outras.
—Vai acabar sendo presa.
—Não me pegarão viva!- passou uma velhinha num carrinho motorizado, onde Sugar pulou na garupa e gritou: Fuja pra bem longe. Ela ficou apontando para a porta de saída e a velhinha acelerou o carrinho, só que, era um veículo para idosos... Não devia passar de uns 20 por hora- Não se fazem mais velhinhas de fuga como antigamente.
—Desça já daí, senhorita... Peguem ela!
—Calma, calma. Já estou de saída... MAS PORQUE EU QUERO, OUVIU? Sou Suuuugar!- saiu jogando beijinhos para todos no caminho, desfilando.
Bem, vocês já podem imaginar que não foi lá uma situação muito agradável. Eu só pude ficar em um canto da sala, boquiaberta e paralisada por tamanha loucura de minha “pessoa confiável", que só havia tomado um achocolatado de manhã. Pois bem, pelo menos ela não foi presa, mas tomou uma senhora advertência por conduta imprópria e ainda teve de fazer um exame de drogas que acabou demonstrando que Sugar só é doida de pedra mesmo, sem precisar de alucinógenos. Santa Sugar Motta!
—Será que você poderia repetir os problemas psicológicos de Santana Lopez? Vou precisar para acrescentar no histórico da investigação sobre o caso- Julio Perez, o investigador, me tirou daquelas lembranças embaraçosas sobre Sugar, fazendo aquela pergunta que me fez preferir ficar vendo minha melhor amiga louca executando algumas de suas besteiras clássicas do que aqui, recordando disso- Senhorita?- ele me encarava com um semblante curioso, de caneta entre os dedos e um bloquinho de anotações alinhado a sua frente.
—Ela teve depressão e sofria com problemas de ansiedade, o atormentador TAG, mas soube que ela fazia tratamento e já tinha controle disso na época.
—Chegou a presenciar alguma crise?
—Talvez? Santana é um ser bem complexado, não se sabe o que se passava naquela cabeça intrigante- crispei os lábios, brincando com um clipe de papel largado sobre a mesa. Dificilmente eu encarava o investigador... Tinha medo de que ele pudesse cavar tão profundamente meu ser e descobrir minhas sensações mais sórdidas. Não queria isso nunca mais na minha vida. Aprendi da primeira vez.
—E o que os pais dela diziam quanto a isso?Sua família?-acabei por soltar uma risadinha de deboche pela pergunta.
—Se é que se pode chamar aquilo de família- peguei o clipe entre os dedos e passei a jogá-lo de um espaço entre eles ao outro, como um jogo de concentração- Você já foi a um teatro de marionetes?
—Uma vez, quando criança. Por que?- sorri de canto, sem tirar o olhar do clipe para não errar.
—Quando você é criança, acredita naquilo como uma mágica. Assim como uma família ao olhar infantil e inocente. Os sorrisos, antes delicados e engraçados, podem ser tão macabros quanto a risada de um demônio. Tudo aquilo é uma farsa traçada por um homem a quem pertence os fios dos gestos de cada marionete daquela. E, mesmo achando que se tem o controle de tudo, algum boneco daquele pode querer o controle de seus próprios fios. O que é um fim bem pior que o próprio olhar da morte.
—O que isso quer dizer, senhorita?- Perez pareceu pasmo com minhas palavras... Mesmo sem olhar, notei fortemente isso. O clipe caiu de minha mão e foi parar perto dele. O fitei, suspensa em sentimentos e sensações ruins por repassar aquilo.
—Isso você só entende se de verdade se deparar com ela.
—Ela quem?
—A face do mal- o homem franziu o cenho- Relaxe... Se quer saber, isso está só começando.
***
Sweet dreams are made of this
(Doces sonhos são feitos disso)
Who am I to disagree?
(Quem sou eu pra discordar?)
Travel the world and the seven seas
(Viajar o mundo e os sete mares)
Everybody's looking for something
(Todos estão à procura de algo)
Some of them want to use you
(Alguns deles querem te usar)
Some of the them wanna get used by you
(Alguns deles querem ser usados por você)
Some of them want to abuse you
(Alguns deles querem abusar de você)
Some of them want to be abuse
(Alguns deles querem ser abusados )
I wanna use you
(Eu quero usar você)
And abuse you
(E abusar de você)
I wanna know what's inside
(Eu quero saber o que há dentro de você)
Mexa-se... Mexa-se... Mexa-se...
Fala sério... Ótima música para se tocar agora!
—Sugar, será que dá pra mudar de estação?
—O quê? Vai dizer que não gosta do Marilyn Manson mozão?- ela gracejou, dando um empurrinho de seu ombro no meu.
—Minha cota de gente estranha e maluca já está cheia, a começar por você.
—Égua, o que foi que eu te fiz, Pirulitona?- Sugar pôs a mão no peito, dramatizando estar ofendida.
—Dirija, Sugar... Só dirija.
Chegamos. Memphs High de uma furtiva segunda feira. Expulsei Sam de minha cama antes mesmo da hora do café, meu consciente ardia como lava vulcânica e com ele lá só pioraria. Desde que acordei daquele sonho estranho que, eu sequer entendia o motivo, só que lá estava Santana e eu como personagens novamente, como uma fantasia do inferno, da maneira mais grotesca possível, meu resto de sono foi como tentar empilhar cartas dentro de um carro em movimento em uma estrada totalmente esburacada, ou seja, nivel hard de dificuldade. Sam também roncava como um avião que carregava galinhas e ainda tentou me derrubar da cama umas 4 vezes por hora. Mais fácil dormir com um polvo gigante. Então, depois dessa incrível experiência de sono, que se preparassem para meu "bom humor" hoje.
—... William Shakespeare começou a escrever após seu casamento com Anne Hathaway, na época com 26 anos, enquanto e ele, apenas 18- instintivamente acabei por olhar diretamente para Santana em sua costumeira cadeira no fundo. Ela ergueu uma sobrancelha e deixou à mostra um debochado sorriso de canto e eu bem sabia que aquilo era uma provocação de sua parte. Pigarreei, voltando a minha aula- Escreveu suas maiores obras em Londres, cidade no qual mudou ao sair da sua de origem. Alguém aqui pode me dizer qual?- apenas Marley levantou a mão. Suspirei, notando Quinn Fabray por lixar as unhas e mastigar um chiclete nervosamente e com um barulhinho irritante- Senhorita Fabray?!
—Eu o que?- ela indagou avulsa ao que eu falava.
—Fiz uma pergunta à classe e gostaria que me respondesse já que está tão atenta a aula... Qual a cidade natal de Shakespeare?
—Sei lá, Faixa de Gaza? Quem se importa?- o restante da classe gargalhou pela zombaria. Apenas Santana ficou inerte, na dela.
—Muito engraçado, senhorita. Eu também vou rir muito quando colocar um zero bem redondo igual uma bomba da Faixa de Gaza na sua média em Literatura- touché. Muitos “uhs"foram escutados e o sorrisinho debochado dela murchou- E joga esse chiclete fora antes que eu a faça engolí-lo junto dessa serra de unha que já está me dando nos nervos- o sinal tocou, os alunos logo começaram a se retirar- Não se esqueçam do trabalho sobre as principais obras de Shakespeare que pedi para a semana que vem. Não me apareçam sem isso pronto... Valerá 40% da nota semestral de vocês.
—Ahhhh- alguns alunos disseram em coro. Quinn passou por mim, jogou o chiclete no lixo e saiu me olhando feio.
—Se ela souber que eu nem tenho medo de cara feia... — Marley me enviou um sorriso fraco ao esperar por Santana perto da minha mesa. Quando esta passou, pegou na mão de Marley e me olhou de maneira cômica, saindo assim com sua “amiguinha".
—Acho que alguém aqui está precisando transar- Sugar surgiu eu sei lá se onde, sorrindo pra mim- Pega leve com as crianças, branquela.
—Não vem, Sugar. Se você afrouxar, são elas que te apertam. É essa a razão.
—E passarinho que come pedra, sabe o fiofó que tem- Ergui uma sobrancelha, fazendo careta. Sugar conseguia ser pior que aqueles adolescentes- Enfim, tá' afim de almoçar comigo? Juro que pego leve com as piadas- ergueu as mãos, rendendo-se.
—Tudo bem, estou mesmo com fome. Me dá um minuto...
Não demorou muito e já estávamos na sala dos professores, nos servindo. Optei por um sanduíche de frango com queijo e um copo gigante de suco de abacaxi bem gelado. Sugar mandou ver no bife acebolado e batatas fritas.
—Achei que tinha virado vegetariana.
—Desisti. Eu sem carne é que nem o Brasil e toda aquela corrupção... Quase não existo.
—Nada de piadinhas com os problemas alheios, senhorita — ela deu de ombros, voltando a atacar seu pedaço de carne como um animal feroz- Visitou o quarto de Santana?
—O quê??- me assustei com a pergunta que acabei por engasgar com um pedaço de tomate.
—Levanta os braços e dá uns pulinhos, YUPPPP!- Sugar brincou enquanto dava umas palmadas em minhas costas. Tomei um pouco de suco pra aliviar, dando um tapa na mão de Sugar- Vai com calma aí, loira. Sabia que você era de engolir.
—Sugar, eu vou te dar um tapa.
—Parei! Foi só pra descontrair- ela fez bico- Por que se assustou com a pergunta?
—Não me assustei- tentei parecer o mais verdadeira possível.
—Então, esteve no quarto da minha prima ou não?
—Er... Sim, eu estive. Por que?- todos os santos que habitam os céus, me protejam.
—Nada. Só achei que era brincadeira dela.
—Ela te disse que eu estive lá?- mais uma surpresa. Meus olhos quase acertaram Sugar.
—Ela disse sim. Por que? Deveria esconder?
—Claro que não. Nós só conversamos.
—Sobre o que?
—Ora, sobre o que... Despertou o espírito da curiosidade hoje foi, senhorita Motta?- levei as mãos a cintura, como uma mãe repreensiva. Mas na verdade eu estava era mesmo preocupada do por que de ela estar me perguntando tanto sobre isso. Será que alguém ouviu algo? Algum empregado?
—Só estou preocupada com a San.
—O que foi?
—Sei lá... Ela está meio diferente. Uma hora se retrai como antes, outra hora até sorri com mais freqüência. Sinto que algo está mexendo com ela- engoli seco.
—Ela é uma adolescente, Sugar. É normal essa confusão toda.
—Santana não é como os outros adolescentes- ela deixou seu prato de lado e ficou reflexiva- Sabe quando ela sorri mais, de um jeito bem bonito?
—Quando?
—Quando eu falo de você.
(Barulho de carro freando com força e batendo contra um muro na minha cabeça agora).
—Que coisa, não?- sorri nervosa. Estava ferrada.
—Vejo que muitas vezes, na família dela mesmo, as pessoas ficam afirmando de que ela precisa se afastar de tudo, viajar e estudar fora, quando na verdade, eu só vejo uma coisa... Que ela precisa somente de um amigo.
—Mas ela tem Marley.
—Marley é um amor, mas menininha de mais. Santana precisa de uma amizade madura e que a coloque onde deve estar, aqui, com os pés firmes na terra. Se ela viajasse menos aqui... -apontou para a própria cabeça- ... Ela viveria melhor.
—Também acho- fitei minhas mãos no colo, lembrando-me da figura de Santana sempre sentada na mesma cadeira, muitas vezes sozinha e pensativa no fundo da sala. Olhando por esse lado, me senti uma má pessoa. Será que, ela fez tudo aquilo comigo porque queria uma amiga, sei lá, uma companheira? Pelo o pouco que eu sabia, ela sempre foi muito solitária. O irmão, muito popular, sempre tinha algo a fazer, que, pelos gostos que percebi Santana ter, não lhe chamam nem um pouco a atenção. Eu via muito coisa de mim nela quando tinha sua idade, as pessoas viam o que queriam de mim, quando na verdade, eu só queria um pedaço do mundo para ser eu mesma e fazer o que me deixava confortável. Como ler. Ela também adora ler, uns livros bem sinistros, mas tudo era cultura. Notei que tinha algo a ser feito. Minha cabeça apitava. Senti até algo bater nela, espera, não era remorso... Era Sugar atirando batatinhas em minha testa.
—Headshot...Headshot... Headshot, droga, errei... Headshot... Ehhhhh- comemorou, fazendo barulho.
—Sugar!!
—Hey... Só estava usando do tempo que você estava parada aí como uma boneca loira de loja para me divertir. É chato ficar falando sozinha, viu?
—Vou deixar passar dessa vez... E nada de estragar comida- apontei para ela, que se fez de inocente, tirando uma batatinha que havia ficado presa em meu cabelo. Sugar de repente agiu como se alguém tivesse entrado com um carrinho de peixe podre pela careta de desagrado que fez. Virei para a direção que ela encarava então vi Rachel se aproximar da gente com um enorme sorriso. Sorri maliciosamente... Vamos ao teste.
—Bom dia, meninas!-nos cumprimentou alegremente.
—Bom dia, Rachel- devolvi com simpatia, sorrindo.
—É, e aí,você!- Sugar fez pouco caso, como de costume. Cruzando os braços e olhando para qualquer canto que não tivesse a pequena professora de Espanhol, que também cantava com perfeição e comandava um clube do coral do colégio. Rachel ficou encarando Sugar como se ela fosse a oitava maravilha do mundo, enquanto a outra sequer dava importância para sua existência ali, um mosquito voando perto dela pareceu mais interessante. Eu estava entre as duas, fazendo careta torta ao olhar para uma e depois a outra, sem entender nada. Pigarreei para não deixar a situação ainda mais patética.
—Errr... Você precisa de alguma coisa, Rachel?- estiquei as bochechas como uma criança embaraçada.
—Eu ganhei dois ingressos para um show em homenagem aos sucessos da banda Queen e pensei em perguntar se Sugar aceitaria ir comigo- disse de uma maneira tão meiga que me intrigava sobre o porquê de Sugar implicar tanto com a coitada, que estava até vermelha depois do pedido. Continuou olhando para Sugar, agora com expectativa, e, minha digníssima amiga (só que não)agora só cutucava em algo no celular cor de rosa e cheio de purpurina dela, sem nem dar bola para a miúda da Berry. Dei uma cotovelada no braço dela.
—Aaaai, Brittany. Que foi?
—Rachel está falando com você, sua mal educada- ralhei com ela entre dentes, e a mesma só olhou Rachel de cima à baixo, fazendo cara de desgosto.
—Que foi, brinde do McDonalds?
—Você quer ir a um show em homenagem a banda Queen comigo? Eu ganhei dois ingressos e pensei em dividir com alguém que gosta da banda. Vão tocar só aquelas que você adora- sorriu fraco, alisando o braço com evidente nervosismo. Sugar coçou a sobrancelha com o indicador.
—Vai ser um prazer.
—Sério?- a morena estava surpresa com a resposta.
—Sério... Vai ser uma honra te ajudar a encontrar alguém pra dividir isso...
—Espera... O que?
—Artie!!- Sugar se levantou de sua cadeira, passou por Rachel com um sorrisinho diabólico e foi até Artie, que estava tomando café do outro lado da sala e o trouxe para onde nós estávamos.
—Vocês precisam de algo?- o professor tímido de matemática estava vermelho por todos aqueles olhares estarem voltados a ele. Minhas bochechas caíram, já pressentindo confusão ali.
—Artie, meu chapa...Você gosta da banda Queen?
—Nossa, sou o maior apreciador dessa banda- seus olhos faltaram brilhar ao falar. Sugar então apertou os ombros do rapaz e praticamente o jogou para cima de Rachel, que estava com uma cara de morte olhando tudo aquilo que Sugar armou.
—Perfeito! Rachel quer saber se você aceita ir com ela a um show que homenageia a banda... Quando mesmo, Berry?
—No sábado- Rachel respondeu apática, como se alguém tivesse acertado-a com um dardo tranquilizante.
—No sábado- sorriu com a maior falsidade já vista em um ser humano. Desconheci Sugar ali, sentindo uma dó da Berry que meu peito ardeu- E aí?
—Nossa, será um prazer.
—Pois bem, trabalho feito aqui. Unam-se e perpetuem a nerdisse de vocês. Agora xô... Pretendo terminar meu lanche- saiu empurrando os dois até determinado caminho, depois voltou e se sentou do meu lado, voltando a comer seu lanche agora com certa raiva. Rachel, ainda a porta, tinha um olhar triste sobre Sugar, jurei ter visto uma lágrima escorrer por sua bochecha antes dela sumir.
—Sugar...
—Xiu, Brittany! Me deixa comer em paz.
—OK, OK...- dei de ombros e saí, pois minha próxima aula começava em dois minutos.
Mas não era bem isso que eu estava na pilha para resolver.
***
—Vamos, correndo. Sem limites de voltas- ouvi a voz de Sam já da entrada da sala onde ocorriam as aulas de muay thai e respirei fundo. Precisava de coragem para entrar ali e realizar o que tanto mastiguei na mente e, enfim, dar um basta em tantos problemas.
A sala de treinos era enorme. A maior de toda a escola. Estava equipada com diversos aparelhos de musculação, esteiras, bicicletas, sacos de areia, camas elásticas, uma pista para corrida que dava a volta em um tatame negro bem no centro de tudo, onde Sam se localizava, gritando para seus alunos correrem mais rápido. Dentre eles tinha aquela que fora a raiz de todos meus delírios e tormentos desde que cheguei a esse país truculento, mas ao mesmo tempo excitante. Ela, Santana Lopez, a latina mais quente que já conheci, dona do melhor beijo capaz de enlouquecer até os mais sãos. Com aquele corpo que deixava bem à mostra agora nesse treino de descamisados, ela podia tudo... Teria todos.
E o foco, Brittany?
Ah é... Eu tinha esquecido.
—Minha gata!- Sam gritou lá de cima, dando uma ordem qualquer para seus alunos, depois veio até mim o mais rápido que pode. Recebi seu selinho um tanto desconcertada- Sentiu saudades já? Podemos repetir aquele momento incrível hoje de novo, o que acha?
—Estou aqui como professora. Mas fico feliz em te ver- acariciei seu rosto, sem tirar o olhar de Santana agora fazendo abdominais enquanto socava uma manopla de seu parceiro que pisava em seus pés como apoio. Aquele abdômen!
—A que devo a honra de sua visita?
—Quero Santana ... Digo, vim falar com ela, será que posso?- cocei a garganta, vermelha pelo deslize. Ele franziu o cenho.
—Claro. Mas não pode demorar. Ela precisa treinar para uma luta importante, depois de amanhã.
—Tudo bem. Vai ser rápido.
—Vou chamá-la pra você. Me dá um beijo?
—Na frente dos alunos, Samuel?- fiz cara feia pra ele, que roubou um beijo mesmo assim, quase me deixando sem ar.
—Eles entendem- piscou pra mim. Passou por Santana e apontou na minha direção . Eles trocaram algumas palavras e logo ela se dirigia até onde eu estava e, como sempre, algo no chão era mais interessante que olhar para frente e não acabar dando com a cara na parede.
—Pois não?- ela enxugava o pescoço suado ao perguntar. Fiquei toda avessa com seu corpo tão belo à mostra, mas me refiz, indo direto ao ponto.
—Vim lhe propor algo. Pensei no que me falou no seu...- cocei a garganta, desconcertada- ...No seu quarto.
—Foi?- ergueu uma sobrancelha, mordendo as costas do dedo indicador. Pode ter sido algo natural, mas quando era ela, tudo parecia sensual. Vamos convir todos... Santana é um poço de sensualidade e sexualidade. Derrubaria um avião se sensualidade fosse um míssil. Eu confirmei o que eu disse com um balançar de cabeça- OK, e o que decidiu?
—Quero te dar... — ela sorriu de canto- ... A minha inteira amizade... Quero ser sua amiga, Santana. Quero que confie em mim e me deixe te ajudar. Você aceita?
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