Notas iniciais
Não. Não é miragem o que estão vendo. Sim, não é que apareceu capítulo novo após um milênio de espera? Kkkk eu literalmente espremi minha cabeça e me desafiei tentar de novo. Espero que agrade a quem ainda espera por isso e o que só tenho a dizer é: Me desculpe. Estou tentando aos poucos. Parece que nunca escrevi na vida hahahaha Espero que gostem

Então eu me senti como um filhotinho frágil. Minha cabeça ainda doía como se tivesse tomado uma marretada no cocuruto, um pontinho enervado tiquetaqueando diretamente no meu cérebro.

Uma enfermeira deu um rasante ainda agora por aqui. Obrigada Deus por eu ter conseguido tirar Santana daqui antes que alguém visse o corpo nu dela jogado do meu lado, na cama de hospital. Espero que neste exato momento a senhorita encrenca esteja devidamente assistindo suas aulas, ou me sentirei devidamente culpada pela instrução que ela anda perdendo por minha causa.

Aquele sonho bisonho me causou um certo pânico até agora. Parecia tão real tudo. Como uma pintura surrealista escabrosa pintada na minha linha de visão com intuito de me perturbar. E assim fiquei. Calada estou, calada estarei. Deixo que meus pensamentos falem mais que a mulher do leite por mim.

Tinha um prato generoso de arroz com abóbora e frango empanado à minha frente. Um salada linda e colorida disposta ao lado, suco de laranja puro tilintando de gelado. Não é querendo reclamar nem nada, mas isso não me parecia comida de hospital, não. Um prato lindo e bem preparado, cheirando tanto que meu nariz comeu primeiro que eu. Aposto um rim que isso era obra de Santana Lopez, a mulher diaba.

E que diaba, meus amigos!

Não fiz cerimônia, logo estava de boca cheia mastigando como uma britadeira já que não tinha ninguém me filmando com olhar nesse momento. Estava morrendo de fome, desde ontem não comi nada mais substancioso. O acidente e a fome de Santana por meu corpo desgraçado me exauriu. Essa comida maravilhosa na minha frente, claro que eu não me faria de arrogada. Só queria saber como ela sabia que esse era meu prato preferido.

Mas esperar o que de Santana Lopez e sua bola de cristal? Já eu nasci com essa bola de cristal enfiada no...

—Pirulitona!

—Xúúgar!- disse eu de boca cheia, caindo um pedaço de frango entre os seios. Podia nem comer em paz.

—Pronta para ir? Vim buscar você e esse teu traseiro magro- ela arregaçou os dentes e se apoiou na beirada da cama.- Tem frango nas suas tetas, percebeu?

—Sugar!- acertei um tapa na sua mão que vinha na direção dos meus maracujás sob uma camisetinha fina que o hospital me dispôs- Não encosta. Cadê minha mãe?

—Ainda não voltou. Mas eu avisei tudo, inclusive que estou cuidando de você.

—E ela não surtou e correu para cá na mesma hora?

—Rá... Não. Infelizmente seu tio deu uma piora e sua avó precisou muito dela. Eu a tranquilizei que foi só um susto contigo. Ela já conhecendo a filha estabanada que tem, relaxou. Lhe enviou melhoras e que preste mais atenção na próxima vez. Hum, suco de laranja- me roubou o copo e deu uma generosa golada. Mamãe não veio me ver...- Esse é dos bons, hein? Quando eu vou parar no hospital, sempre me servem coisas que parecem ter sido raspadas de uma sola de sapato velho.

—Eu já fui liberada?- resolvi afastar certos pensamentos de minha mente. Mas o mundo não gira ao meu redor, afinal.

—Sim. Como eu disse, foi só um susto mesmo. Nada que uns antibióticos e alucinógenos não resolvam. Eu te empresto alguns meus.

Deus me livre, pensei.

—Ah, que bom.

—E eu já cuidei de tudo- colocou uma pilha de papéis sobre minha cama. – Fiquei como sua responsável, aliás. Embora suas despesas médicas terem sido prévias e misteriosamente pagas- fez um gesto com as mãos como se fizesse magia.

—Pagaram as despesas do hospital?

—Previas e misteriosamente pagas- ela tornou a repetir o gesto, puxando as últimas letras das palavras-Sabe, acho que seu médico quer me comer.

—Sugar!

—Mas é sério- pegou a bandeja a minha frente e pôs numa poltrona perto- Ele passou por mim ainda agora e falou: você gostaria de medir sua pressão agora? Sexo!

—Ele só pode estar preocupado porque você está pálida como gesso.

Ela me olhou como se eu tivesse deixando escapar a coisas mais óbvia do mundo.

—Sexo, minha filha.

—Você está com cara de doente.

—Já se olhou no espelho, por acaso? Alguém aqui parece que tomou uma sova de pau.

—Cristo! Não me lembre das leseiras que eu me ponho- empurrei as cobertas com as pernas para poder me retirar- Vê se me espera aqui sem enlouquecer ninguém. Eu já volto.

—Pipi popó- debochou enquanto me encarava sair e me enfiar no banheiro.

—Sobre o assunto “Rachel”... – ousei gritar lá de dentro enquanto trocava de roupa- ainda não me dei por vencida sobre conversar contigo acerca.

—Se você tiver afim de ir andando até sua casa, experimente tocar nisso.

—Não aja como se não tivesse existido. Principalmente depois de vir me contar sobre. Isso está afetando essa sua cabeça já afetada.

—Passado, pirulitona. Você não ensina literatura? Não tem nenhum livro que ensine a esquecer o passado e viver o agora?- Sugar rebateu, emburrada.

—Eu nunca vi você tão afetada com uma coisa assim- me agachava com dificuldade para por uma calça jeans que aparentemente estava ficando pequena em mim. Pronto. Só o que me faltava eu não caber mais nas minhas coisas.

Fucei na mochila com algumas peças de roupas que Sugar havia me trago e encontro um vestido... Da minha mãe.

— Não quero mexer com isso. Ponto.

—Tudo certo, então- empurrei a porta para sair- Quando você estiver pronta, estarei aqui para te ouvir. E, olha, desde de quanto eu me visto como uma senhora de 55 anos?

Sugar me mirou de cima abaixo e segurou uma risada.

—Foi a primeira coisa que eu vi, desculpa.

—No quarto da minha mãe?

—Talvez... – aquela doida ponderou sob um sorrisinho medíocre – Até que ficou bom em você.

—Sugar Roberta!

—E soy rebelde!

Arremessei a primeira coisa que encontrei em direção a sua cabeça.

—E essa calça aí é minha.

—E você , sei lá, cogitou em trazer algo meu para eu vestir?

Ela então não aguentou. Sugar explodiu numa gargalhada afobada e saiu gritando pelo corredor da ala de recuperação. Essa menina me faz cada uma.

Cerca de meia hora depois eu já estava devidamente em casa, banhada e escorrida feito macarrão em minha cama de adolescente, sob efeito de um analgésico potente. Espremi Sugar sem pudor até que ela me contasse sobre o paradeiro do taxista que eu imprudentemente prejudiquei no acidente e ela me informou que ele só sofreu escoriações. Que havia também tentando me processar naquela mesma noite, porém, magicamente, assim como minha estadia no hospital, foi sanado. Ele simplesmente desistiu do processo e foi embora com um sorriso no rosto.

Não sei porquê, sabendo o porque, isso me cheira a Santana Lopez. Falando nela, aquela fujona ainda me devia respostas. Ô se devia.

E o que deu em mim para me declarar daquela maneira? Eu não sei. Vivenciar tudo aquilo, sentir o que senti, me fez deixar escapar algo que me atormentava pensar antes, cogitar. Por que tão rápido e repentino? Por que Santana? Ela era quase uma criança, não era? Eu nunca fui assim.

Mas então e essa sensação de nostalgia sempre que estava com ela? Os sonhos? As situações? Era tudo muito coincidente para tão pouco tempo. E ela me disse que traria as respostas no tempo devido. Eu esperava que tal tempo fosse agora. Claro, depois da minha sonequinha.

Não sabia se era tarde ou noite quando despertei novamente. Uma bola de pelos preta estava esparramado sobre minha barriga, roncando como um bi trem. Fiz um carinho manso em sua cabeça e ele escorregou pela coberta, caindo de pernas abertas do outro lado. Soltei uma risada e me arrependi porque minha cabeça reclamou de enxaqueca logo então.

—Acho que isso é um momento perfeito para um outro comprimido, hum?

—Ah, que susto, Santana!- quase pulo da cama exasperada. A latinha me olhava do outro lado do quarto, sentada com as pernas cruzadas como um interrogador do FBI. Seu semblante era sério mas tinha um resquício de ternura no olhar.

—Me perdoe por isso- levantou-se e andou ate a mim com um copo de água e um comprimido na palma da mão. Seus lábios escorregaram suavemente ensaiando um sorriso, que eu tentei retribuir como pude, tomando o medicamento com um grande gole de água.

—Como você entrou?

—Pela janela, como um bandido.

— Engraçadinha- agarrei-lhe o pulso e a fiz sentar do meu lado.

Engatinhei como uma gatinha da para ferida e me aconcheguei a seu peito macio e confortável. Santana pareceu surpreendida pelo ato.

—O que foi?

—Senti sua falta- fui sincera. Seu calor me era tão confortável, a sensação de segurança que eu sentia com ela e não mais ninguém, aquele cheiro convidativo e tranquilizador. Santana para mim, sua presença, as vezes torrente, as vezes perigosa para meus sentidos, estava cada vez mais se tornando meu porto mais seguro.

—Senti a sua também, meu anjo- ela afagou meus cabelos com o queixo enquanto me aninhava num abraço quente e carinhoso. Ah, eu estava amando essa San. Eu amava Santana e não sabia bem o porquê. Só que fazia sentido para meu corpo e sentidos. O que estava acontecendo comigo, Deus?- Sei que você deve estar se questionando do porquê eu estar mais confiável para você.

—Credo, Santana. Por que sempre tenho a sensação de que você lê a minha mente?- afastei um pouco para olhá-la consternada. Santana deu de ombros. Belisquei sua coxa.

—Eu já disse que é você que está na minha cabeça, não o contrário. Afinal, eu não tenho a capacidade para tal feito. Não em relação a você. O que te faz ainda mais deliciosa para mim- tive a ligeira sensação que uma mão boba apalpou meu bumbum. Ela bem que podia ter apalpado mais, aliás.

—San, isso é basicamente o que a gente tem para conversar muito ainda, não é?- seu corpo tencionou depois de minha pergunta. Entrelacei nossos dedos na tentativa de relaxá-la novamente- Olha, querida, eu te juro com toda sinceridade que não estou mais com tanto medo como antes. Depois de tudo, embora toda aquela sensação ruim, aqueles sonhos, eu estou sentindo que tem algo de muito bom rolando entre a gente. Certo que tirando toda parte ética das coisas, sendo você uma adolescente de 17 anos. Meu pai do céu- surtei por alguns segundos- Eu juro que só quero entender melhor você. Veja pelo meu lado. Isso tudo para mim é assombroso. Entende?

—Entendo, entendo- San respirou fundo e afundou o nariz em meus cabelos- Eu só peço que tenha mais paciência. Juro que tudo logo vai se clarear, mas a maioria depende de você.

—Por que de mim?- questionei confusa. Como isso pode depender de mim se o maior mistério é exatamente ela?

—Porque você me fez prometer. Antes. Uma promessa assim eu não posso quebrar. Foi por você que eu fiz.

—San...- minha garganta apertou, uma sensação ruim atravessou meu peito- Me fala. Você usa alguma coisa? Me fez tomar alguma coisa?

Santana abruptamente se ergueu e fechou os punhos. Ela parecia abalada, a respiração ficava rápida e inconstante. Percebi a merda que havia feito tarde demais. Pulei da cama o mais rápido que pude e a abracei por trás. Se eu não a conhecesse bem, diria que estava quase chorando.

— Só uma coisa que eu não entendo. Desse agora... Maldito agora. Tudo que eu faço você interpreta como ruim. Eu só quero proteger você. É impossível ver? Tudo que eu fiz e faço.

—Calma, San. Querida... Respire fundo- beijei seu pescoço e apertei o abraço. Ela se agarrou a minhas mãos e apertou, como uma criança retraída- Eu me expressei mal, me desculpe. Isso só é estranho para mim.

—Para mim também é.

—Eu sei. Por favor, desculpe essa idiota.

Santana se virou e me olhou delicadamente. Seus olhos estavam quase âmbar, hipnotizantes. Ela piscou algumas vezes e eles foram tomando suas cores normais, quentes e expressivas. Eu só podia ainda estar sob efeito dos analgésicos.

—Você quer ouvir uma história?

Meus lábios deslizaram num sorriso leve. Lá estava aquele lado meigo dela que eu estava amando conhecer.

—Eu adoraria.

—Eu vou buscar um lanche para você e conto. Tudo bem?- beijei profundamente seus lábios. Gostosos, macios, excitantes, eu podia me afundar neles e relaxar.

—Você é linda. Céus, você me excita, me intriga, mas é tão apaixonante. Menina, eu não sei o que faço contigo.

—Me ponha dentro, anjo.

—Brittany, Santana. Fale meu nome, finalmente. E você já está aqui dentro. – ela somente me enviou um combo de olhar e, gloria aos céus, um largo sorriso corajoso.

A latina sumiu aquele segundo mesmo, ignorando o fato de eu pedir que ela me chamasse pelo nome. De tudo que é mais impossível na vida, esse ato estava me mostrando o maior deles. E eu queria bem entender o por que. Não demorou e ela me apareceu com uma bandeja farta de beliscos. Me fez comer bem, encarando cada gesto que eu executava nesse processo, como uma criança observando atentamente alguém manusear algum brinquedo excitante.

Um vento agressivo chicoteou a janela e logo então uma chuva apressada caiu lá fora, trazendo consigo um frio de doer a espinha. Me aconcheguei com Santana novamente, agora debaixo da coberta, seu corpo colado ao meu me passando uma temperatura gostosa.

— A história, San- exigi ficando sonolenta com a maneira que ela me embalava, com o calor de seu corpo macio.

—Bem, vamos lá- ela acariciou a lateral da minha cintura com delicadeza. Senti arrepios no processo- Havia uma moça. Ela era simples, porém obstinada. Acordava todo dia com o nascer do Sol, buscava leite na única vaquinha de sua modesta propriedade e dava de comer aos irmãos pequenos enquanto os pais já estavam na lavoura. Então tinha ele, um curioso rapaz, sempre a observando de cima, onde tudo pode ver. Ele sempre vivia assim, desde que pôs os olhos na simples camponesa. Seu trabalho era manter a vigilância sobre as pessoas, mas ele não conseguia mante os olhos nela.

—Que fofo!

—Sim. Um belo dia ele resolveu desobedecer e sair de seu posto. Pousou próximo a propriedade da moça, exatamente no momento que ela ia buscar leite para os irmãos. Imagine o susto que foi ver aquele ser alado cair a sua frente.

—Ele era anjo?- perguntei surpresa.

—Sim. Mas não só um anjo. Era um dos mais importantes. Um arcanjo, o mais sábio dentre os seus.

—Nossa...

—A moça, pobre, tomou um belo de um susto e derramou todo leite que havia ordenado. Ele sem entender tentou ajudar. Acabou gerando uma bela de uma confusão.

—Coitado. Ele só queria conhecê-la, não é?

—Exatamente, anjo.

—Conta mais, San- pedi, interessada. Ela bicou minha testa, abracei forte sua cintura.

—Com o tempo ela o entendeu. Porque até então ela o sentia consigo, todos os dias, sentia a presença dele ao seu lado. Como uma proteção. O seu anjo da guarda.

—Ah...

—Algum tempo depois eles já se amavam muito. Muito mesmo. Porém, apesar de quão forte isso podia ser, era errado. Ele era um ser imaculado, importante entre os seus, e quando aquilo se espalhou, foi terrível. Eles tentaram fugir juntos. Mas era difícil como ele da maneira que era. Não tinha como se esconder sendo, bem, você sabe.

—E como fizeram?

—Bom, em um ato de desespero, ele usou de uma foice para cortar as asas e poder se disfarçar entre os humanos. Ela não pode fazer nada, o encontrou num poça do próprio sangue.

Santana pausou, as palavras parecendo pesar em seus lábios.

—San... Isso é tão triste. Ele morreu? – acariciei seu rosto latino tão lindo.

—Ele preferia que isso tivesse acontecido.

—Como... Como assim?

—Quando um anjo tem as asas cortadas eles perdem suas habilidades celestiais. Porém ele pode viver com ela como era melhor para eles. Viveram anos incríveis juntos. Não podiam estar mais felizes. Porém algo aconteceu que Chamou a atenção do altíssimo. Ela engravidou. Uma criança... um nefilim. A primeira de sua espécie.

Ela engoliu pesado. Meu coração apertou.

—San, não precisa.

—Ele foi encontrado. O que havia feito foi um crime terrível contra os céus. Anjos são imaculados. Prazeres carnais não podem existir entre eles, é impuro para servos da paz, é corromper sua existência. Ele pecou contra os seus, por mais que seu amor fosse tão puro e tivesse dado frutos. Ele teve de ser punido. Fora preso e subjugado. Ainda tentou um levante contra o altíssimo, juntando forças com anjos rebeldes. Não havia mais o que fazer por ele, seu coração foi corrompido pelo ódio. – ela encarou o teto, reflexiva- não havia como ele viver mais entre os celestiais e foi expurgado dos céus. E criou seu próprio império... Lá embaixo. Com os fracos de caráter.

—o que? Você não está dizendo que esse tal anjo bondoso é na verdade o...

—Ele mesmo. Enfim... É só uma história.

—E a criança?- me ajoelhei na cama, consternada.

—Sua mãe a pôs no mundo, embora a tristeza de ter perdido seu amor a consumiu ate a morte. Temendo pela criança, o altíssimo encontrou um lugar entre seus celestiais a seu lado. E ela seguiu os caminhos que antes pertenciam ao pai.

—Ela pode ir para o céu?

—Não só isso.- Santana coçou desconfortavelmente um ponto atrás das costas e sorriu fracamente- Ela se tornou maior que ele. Mas não tanto para repetir o mesmo erro.

—Você diz...

—Sim. Ela também se tornou um caído- tocou suavemente minha bochecha. Uma lágrima solitária desceu escorregando até seu queixo- Ela também amou demais uma humana.

Notas finais
Obrigada pelo paciência. Buenas noches! E por favor, por favor, por favor, se protejam. Essa doença terrível está por aí e não pode nos vencer. Lavem bem as mãos, usem álcool e gel e não subestimem a máscara. Todo herói que se prese tem uma máscara foda. Beijão.