Obsessiva- O que te intriga... É o que te excita!
22 Quando se sente
Notas iniciais
Estava sentada, recostada a árvore enquanto tentava entender aquele objeto chamado "livro" que Santana havia me mostrado da última vez que a vi. Aquilo era tão complicado de se entender. De tantas pessoas que eu conhecia, somente Santana sabia decifrar aquilo. E o padre Castillo da paróquia da minha cidade, eu acho. Embora eu ache que ele seja caduco.
Eu ia menos a missa do que deveria, na verdade. Minha mãe sempre dizia que eu era a única da família que iria para o inferno se continuasse nisso. Mas eu detesto aquele lugar. É chato demais, tedioso e acho besteira sem limite alguém apontar o dedo na cara de outra pessoa e medir seu valor, é injusto. Isso quem define é a própria pessoa, as escolhas que se toma para si, conscientemente. E eu aposto que se eu entendesse o que estava escrito nesse troço velho que Santana me deu, com toda certeza seria uma pessoa melhor. Porque ela é.
Santana é inteligente, bondosa e tão… Ah, ela é linda demais. Parece uma princesa latina. Não que eu já tenha visto muitas, mas tinha umas pinturas na paróquia também. E... Ah. Por que tudo ficou tão quente de repente?
Respirei fundo e voltei a atenção para o tal livro. Tinha algumas imagens, só assim eu pude entender o conteúdo. Me sinto tão burra perto de Santana. Ela é tão esclarecida, tão mais adiantada nas palavras. Eu sou só a filha de camponeses que provavelmente casará com um e terá uma penca de filhos para cuidar e vacas para ordenhar. Por que eu não era mais como Santana?
—Porque você é única, senhorita.
Me levantei tão rápido que o livro voou uns três metros a minha frente, parando nos pés descalços da pessoa cujo meu ser revirou ao ver.
Por que ela sempre tinha que estar mais linda toda vez que a via? Espero que não seja pecado assim achar uma mulher linda desse jeito, porque meu santo pai celestial.
—San-Santana, Olá. Você estava aí esse tempo todo?- disse embaraçada. Parecia que ela podia ler pensamentos e isso me assustava. Ela sorriu lindamente. Aqueles buraquinhos na bochecha.
—Acabei de chegar. Vejo que estava tentando entender o livro que deixei para você- ela pegou o livro do chão e o acariciou delicadamente.
—Essas palavras são complicadas de entender. Ainda não consigo juntar os símbolos para entender.
—Letras. São letras. Você não andou estudando o que eu te passei, não é? Não é lá tão complicado assim. Só precisa de empenho. – fiquei emburrada logo. Odeio sermão.
Ela veio deslizando com primor até mim. Tudo parecia em câmera lenta. Meu corpo estremeceu com a proximidade. Ela cheirava a um campo de rosas.
—Vamos tentar novamente?
—E que tal só conversamos? – sugeri com um sorriso amarelo. Eu detestava esse negócio de estudar. Mas amava conversar com ela.
—Tudo bem. Mas ainda estudaremos.
—Você é difícil de dobrar. – bufei.
—Eu sou mais maleável que se imagina, senhorita- seus olhos caíram em mim, penetrantes. Senti uma pontada no ventre e me contraí. Santana respirou fundo e olhou para baixo, como se tivesse feito algo errado. Eu quase tombo ladeira abaixo com aquela respiração quente perto de mim. Ela apoiou uma mão na minha cintura e levou mais perto. Pai Cristo, o que há, Brittany? – Você me deixa tonta.
—Você me deixa tam-também- onde ela tocava, queimava como carvão em brasas. Mesmo o tempo tão frio a ponto de já esperamos neve. Ela umedeceu os lábios, acompanhei esse movimento sem perceber que fazia o mesmo.- O que é isso, San?
Ela balançou a cabeça diversas vezes até me soltar. Meu corpo reclamou pela distância.
—Nada. Podemos caminhar enquanto conversamos?- perguntou, simpática. Seu olhar se distanciou do meu. Me deparei com seu perfil esculpido como de uma santa de igreja.
—Por onde você andou todo esse tempo? – perguntei sem rodeios. Santana aparecia e desaparecia como por feitiçaria. Que Deus me perdoe. Ela estava longe de ser uma serva do demônio.
—Por aí- respondeu com um sorrisinho divertido e misterioso.
—Vamos lá, não seja vaga assim. Sabe que sou meio lerda.
—Você não é lerda.Não fale assim. – repreendeu a mim, depois suavizando seu tom pegou minha mão e pôs entre as suas- A senhorita é muito especial. Muito mesmo. Se pudesse se enxergar como eu lhe enxergo.
—Meu nome é Brittany, San. Brittany, você sabe. Eu lhe disse. Umas 550 vezes desde que nos conhecemos- ri do jeito bobo dela.
—Não mereço tal privilégio pronunciar seu precioso nome, senhorita. Mas é um grande presente poder a ti me direcionar. Estar perto. Finalmente.
—Do que você está falando, San? Está cada vez mais estranha- recolhi a mão, cruzando os braços- Não vai me contar mesmo por onde andava?
—Servindo, senhorita. Eu estava servindo.
—Você sempre fala isso. Servindo o que? A quem, Santana? A igreja, porque você bem que parece uma beata- a risada que Santana deu fez meu sangue esquentar meu ser. Aquela voz rouca, os lábios que me lembravam morangos recém colhidos, até seus dentes brancos como neve mexiam comigo.
—Não sou uma beata, acredite. Meu trabalho é mais direto.
—O papa, então. – ela riu mais forte ainda e voltou a pegar minha mão e por entre as suas. Todo aquele frio matinal foi embora com ela por perto.
Mordi o canto do lábio vendo seu busto descer e subir com suas gargalhadas. Eu só podia estar ficando doente. Santana então parou de repente e me olhou. Pela primeira vez vi seu olhar tão escuro,como o breu da noite. Aquilo chegou a me assustar, pulei pra longe. Ela se assustou com isso.
—Seus olhos, San. Estão negros. Como pode?
Santana pareceu perturbada. Correu até o poço próximo e observou seu reflexo na água. Ela se revirou, sua expressão estava num misto de medo e confusão.
—Eu preciso ir.
—San-Santana?
—Preciso ir.
Então saiu correndo. Fui rápido atrás. Uma rajada de vento me cegou atrás das folhas secas da macieira onde sempre nos encontrávamos. Ela havia sumido. Como sempre, envolta de um mistério.
Santana era um real mistério pintado de anjo.
... Alguns surtos depois...
Estava em choque.
Simplesmente chocada, eletrocutada, mastigada e regurgitada que nem uma cobra cheia.
Meleca... Uma grande e bem asquerosa. O suor deslizava por meu rosto como um picolé na areia quente. Aquela voz demoníaca ainda pairava na minha cabeça, indo e voltando , fazendo meus nervos, membros ficarem mais duros que pau.
Lá ao longe, do outro lado do mundo, ouvia Sugar gritando para que eu explicasse o que aconteceu, mas eu simplesmente não peguei mais no tranco. Estanquei.
Ela me sacudiu a ponto de meus órgãos quase virar suco e foi assim que voltei a realidade. Agarrei Sugar pelos ombros e sacudi de igual forma.
—Sugar, me dá a chave do carro?
—Hein?- ela me encarou espantada.
—Me da a porra da chave do carro, Sugar Motta- enfiei a mão no seu casaco e peguei eu mesma. Sugar ficou sem reação e me acompanhou correndo.
—B, você tá me assustando.
—Estou assustando você?- ri nervosamente que nem uma maluca- Essa é boa. Eu assustando você? Pergunte pra tua prima o que é assustar de verdade.
—Quê?
—Queijo.
—Brittany, você não está falando coisa com coisa. Melhor voltarmos para o hospital.
—Que Deus me ajude- disse deixando para trás as preocupações de Sugar. Aquela aparição, aquele sonho acordada. Será sonho mesmo? Só entrei no carro dela, dei partida, Sugar pulou pela janela, já com o veículo em movimento e eu acelerei pelas ruas de Nova York.
Paramos em frente a uma grande praça, a ponta da paróquia do padre Joseph. Eu o conhecia desde a infância. Me batizei com ele. Mamãe sempre acompanhava suas missas, soube que chegou a estudar no Vaticano antes de se mudar para a cidade. Não havia alguém melhor que pudesse me ajudar nesse instante. Pessoas normais não me entenderiam.
Pulei do carro antes mesmo de parar. Sugar no desespero tratou de puxar o freio de mão e desligar o veículo. Ela corria deslizando no suor do sapato, pulando as passadas para poder acompanhar os passos da girafa Brittany.
—B, está estranha. Você acabou de sair de um quase coma, quebrou o coco. Vamos voltar para o hospital. Agora!
—Sugar!- gritei, me soltando de sua mão que agarrou meu braço- Eu preciso fazer isso. Confie em mim, por favor. Volte para a escola. As crianças precisam de você lá. Não seja negligente.
—Perceba, Evair, a petulância do cavalo- ela pôs as mãos na cintura, em sinal de revolta- Mas é o cocô falando do papel cagado. Você tá surtada, Brittany. Seriamente.
—S, por favor. Eu preciso ver o padre Joseph.
—E essa vontade de orar agora, Brittany? Você já tomou água benta da tua mãe quando encheu a cara uma vez. Religiosa não é.
—É sério, Sugar. Eu prometo que vou para casa logo então. É pra me fazer melhorar, prometo. Me deixe.
Ela me olhou profundamente. Não sei quem estava pior das duas em suor e cabelo bagunçado.
—Tudo bem, eu vou confiar. Mas eu vou ligar para sua mãe vir te buscar, ok?- respirei fundo e confirmei com um aceno- Eu até entraria aí com você, mas do jeito que eu sou mundana, capaz de pegar fogo na porta da igreja.
Eu ri. Só Sugar para me fazer rir uma hora dessas.
—Obrigada, S.
—Sabe que eu te amo, não é? E me preocupo.
Nos abraçamos. Sugar logo se despediu. Respirei fundo ao adentrar na igreja. No último degrau, uma sensação intensa me tomou. Meu pé ficou paralisado naquele degrau, a nuca ardeu. Lentamente virei para trás. O céu foi se tornando escuro, como se uma chuva daquelas estivesse prestes a cair. Lá estava ela. Na ponta da escada, encarando o chão como de costume. Sua postura retraída, o corpo aparentemente tenso porém sem deixar de transparecer aquele jeito irritadoramente reflexivo, longe. As mãos estavam escondidas atrás do corpo, vestia seu preto costumeiro, num elegante terno. Ela estava assustadoramente linda daquele jeito... No entanto, a sensação foi de medo.
—Não continue- sua voz saiu tranquila, mais rouca que de costume- Não continue, Brittany.
—Me deixe- foi o que consegui dizer. Uma lágrima escorreu por minha bochecha. Minha expressão deveria ser de um total estupor- O que você é? O que é isso tudo?
—Você veio buscar respostas no lugar errado- disse, sua postura mais dura- Não entre aí.
—Por que, Santana? Por que não devo entrar aqui e acabar descobrindo o que de verdade você é? O que você fez com a Marissa? De verdade, acontecerá o mesmo comigo?
Seu rosto se moveu por um súbito. Ela me encarou. Os olhos estavam negros novamente... As laterais avermelhadas. Eu vi fogo naquele olhar. Por segurança subi mais um degrau. Ela subiu outros mais. Trazia uma bengala de madeira negra e prata reluzindo na ponta, um cabo em forma de serpente. Os primeiros pingos da chuva caíram e começaram a provocar o cheiro gostoso De terra molhada.
—Está equivocada- continuou. Havia vento, e se fortificava, porém seus cabelos negros continuavam intactos enquanto eu ficava parecendo um cacto. Deus, aquilo me cheirava a coisa muito ruim- Eu posso ajudar você a entender.
—Não!- disse firme- Você está me deixando surtada. Não a quero mais perto. Sempre soube que havia algo de errado com você. Não dê mais um passo.
Santana sorriu com uma certa maldade.
—Eu vou devorar você, Brittany. Sua alma será minha e não há quem possa me impedir dessa vez. Nem mesmo ela. – uma língua bifurcada escapou de sua boca. Eu dei um grito assustador, corri para a igreja porém esta não se abriu. O que era aquilo, Deus?
—Alguem, por favor- soquei a madeira, forte, não fui ouvida. Meus pés formigando, pegando fogo. Senti a pior sensação do mundo, estava sendo queimada viva.
—Acorde, anjo- era a voz dela. Doce, serena. Olhei para trás. Santana me encarava perversamente interessada- Você consegue, anjo. Acorde.
Seus lábios não se mexiam, porém sua voz vinha até mim.
—Eu sei o que você está fazendo. Mas avise a ela. Vai chegar um momento que eu entrarei em seus domínios. Já cheguei bem longe , até. – levantou a mão e apoiou a bengala no ombro. Sua voz estava mudada. Já tinha a ouvido antes.
—O que está acontecendo?
Ela subiu mais alguns degraus. Senti vontade de vomitar, meu corpo inteiro estremeceu. A bengala foi apoiada contra meu peito.
—Tao delicada!
—Anjo, não escute. Siga minha voz.
—San, Santana... Me ajude.
Aquilo na minha frente não era ela. Com certeza não era. Me concentrei na voz de Santana. Uma sensação de leveza ia me esquecendo tomando conforte a voz dela ficava mais forte na minha cabeça.
O ser imitando Santana chegou perto de meu ouvido e sussurrou ali:
—O solstício, San. Já é tarde demais.
E com uma gargalhada infernal, eu apaguei novamente.
Quando abri os olhos novamente me deparei com Santana sentada no meu colo, frente a mim, segurando meu rosto.
—Meu anjo, você estava tão longe. Eu tive tanto medo.
Aqueles eram seus verdadeiros olhos, seu verdadeiro rosto, era seu jeito de falar comigo. Definitivamente era a minha Santana. Eu estava tão perturbada, com tanto medo. Mas não me aguentei e lhe agarrei pelo pescoço. Afundei meus lábios nos seus e deixei minha vontade falar por mim.
Santana tremia dos pés a cabeça. Mas não havia tempo para conversa. Eu não sabia o que estava fazendo. Mas aquela adrenalina necessitava de vazão. E aquela latina em forma de pecado estava na minha frente e tudo aquilo era um sonho infernal. Eu precisava dela. Precisava daquele sentimento. E de uma explicação, com toda certeza.
Logo eu tirava a blusa por sua cabeça e jogava por qualquer canto. Santana sequer contestou. Puxou o soro ligado a meu braço e a roupa hospitalar de meu corpo. Eu já estava nua, ela se esfregava de jeans a meu ventre. A boca engolindo a minha, o desejo engolindo a nós duas.
Logo Santana me chupava ali mesmo. As costas banhadas de suor. Eu cravei as unhas em seus cabelos e puxei com força. Ela por sua vez fez o mesmo com minhas coxas. Santana largou meu centro e me virou de costas, sentou em minhas pernas e me socou com dois dedos forte. Mordi o travesseiro, ela agarrou meu cabelo, rebolou enfiando mais fundo.
—Porra, San- gemi, agarrando o braço dela que me estocava para estimular ir mais forte-Ceus!
Senti que logo iria gozar, ela mordeu meu bumbum, puxou grande parte do meu cabelo. Logo ele veio, forte e arrastando tudo. Santana deitou em minhas costas. Seus seios suados deslizando por minhas costas de igual forma, os biquinhos eretos. Céus, essa mulher é pecado.
Nós duas respirando forte. Ambas sem entender o que foi aquilo, só sentindo. Medo, tesão, sentimentos, sonhos ruins. Recuperando o fôlego aos poucos, eu segurei na mão de San, levei ate a boca e beijei demorado.
—Eu te amo, San. Te amo. Eu sinto isso, como se fosse desde sempre, antes de existir. Como pode? Esses sonhos.
—Meu anjo... – sua voz falhou. Eu a interrompi.
—Mas San, eu preciso de respostas. Preciso. Estou perturbada. Temos que fazer isso direito. É injusto.
San demorou a responder, parecia em choque.
—Eu vou responder tudo que precisar saber. Me dê um tempo... Até você melhorar- completou mediante meu resmungo.
—Tenho sua palavra?
—Tem, meu anjo. – Apoiei o rosto a sua mão e me afaguei.
—E Não quero sair dessa posição. Você é fofa.
E pela primeira vez na minha existência, senti o mundo sendo dado pra mim, quando ouvi a gargalhada espontânea e gostosa de Santana Lopez, o mistério que há nas sombras de um pensamento profundo.
Fale com o autor