Notas iniciais
Olá, queridos e queridas mafagafas... Como vão, seus transudos? Nem sei se demorei, mas eis aqui uma nova intriga...É só o que faço mesmo, né? rsrs. Espero que se agradem do cap e eu tenha um bom retorno, porque se tem uma estória que dá um nó na cuca para escrever, é essa. Enfim... Para vocês,com carinho e muito tchuplec tchuplic no ratiofly

Santana exibiu um olhar dos mais confusos que eu já havia presenciado. Ficou por me olhar por alguns minutos, como se estudasse minhas feições e franziu a testa por fim, dando uma coçadinha no queixo. Parecia intrigada e desacreditada ao mesmo tempo. Eu continuei.

—Você quer?- sorri, esperançosa pela resposta.

—Não sabia que estávamos no primeiro dia de Abril- passou a mão na franja solta de seu coque, que geralmente eu via que usava para treinar. Apesar de sua resposta ser banhada na ironia, aquele gesto misturado a seu olhar devorador e diabólico de sempre, não deixou de ser sexy... E quando vai deixar? Santana era o diabo com 17 anos... Na sua forma mais insidiosa e provocante.

—Por Deus, Santana, me leve a sério, não estou brincando. É em prol do seu bem estar.

—Não me lembro de tê-la contratado como conselheira, tampouco como terapeuta, então, não aja como tal. Está sendo ridícula- olhou-me séria, mais do que o habitual, virando-se para sair. Segurei seu braço para impedí-la, acabando por sentir queimar no local. Ela parecia estar com uma febre alta de tão quente.

—O que você quer que eu faça, Santana? Por acaso acha que... Por Deus, você está muito quente- fui tocá-la no rosto, para conferir melhor a temperatura, ela segurou minha mão e a jogou para o lado, porém com delicadeza.

—Quero que você, seja você. Está cheirando a covardia e esse cheiro é podre... Não era para ser assim. Você nunca foi assim- cruzou os braços, na sua marra por revolta. Era gritante, apesar da calma irritante de sempre.

—Eu sou apenas um ser humano, Santana... Eu fraquejo-apontei para meu peito e engoli o nó que se formava na garganta.

—Talvez seja essa a falha esse tempo todo- nos olhamos por um tempo, seu olhar me acusava de algo que eu sequer tinha conhecimento do teor- Que cheiro é esse vindo de você? Está realmente me incomodando- ela falou do nada, resolvendo se aproximar de mim, captar o que queria mais de perto, porém sua testa se comprimiu assim como seus lábios em uma careta de grande desagrado.

—Que foi?- perguntei, sem entender sua expressão.

—Esse cheiro... -fungou perto de mim, avaliando o tal cheiro que vinha eu sei la de onde- Que horrível!- sua careta ficou cada vez pior. Eu discretamente, só que não, cheirei meu cabelo, axila, chequei o hálito e estava tudo OK. Pelo menos era o que eu achava. Seu semblante logo mudou para surpresa- Você fez!

—Fiz o que?- não achei possível ficar mais confusa como agora.

—Não deveria ter feito.

—Dá para parar de falar coisas desconexas e me explicar o que você tem?-já estava ficando irritada. Ela torceu o maxilar, como se aquilo fosse uma tortura de dizer- Por Deus... Fala logo, pombas!

—Você deixou ele te tocar? Ele... Que merda, anjo- apesar da revolta, era como se sussurrar a impedisse de surtar de vez. Notei que ela mordia com força o canto da boca. Seus olhos cintilavam como um animal feroz ferido.

—Quê? Como você... — ela balançou a cabeça negativamente, saindo daqui sem me dar nem uma explicação sequer-Como assim? Você não pode sair assim sem... E ela foi- deixei os ombros caírem, vendo a latina partir com se em seus pés houvesse uns trinta quilos de chumbo em cada. Um de seus colegas se aproximou dela para comentar algo e a mesma simplesmente o ignorou, passando direto e entrando no que deveria ser o vestiário. Ouvi algo quebrar lá dentro, em um barulho horrível. Sam gritou por ela, mas mesmo assim, ignorou o chamado e ele me encarou, como se me questionasse pelo olhar sobre o motivo da revolta de sua pupila. Levei a mão aos olhos.

—Por que será que eu não vou cuidar só da minha vida?

***

“-uuhhh, e com um soco cruzado seguido de um gancho esquerdo no queixo, Santana Lopez leva sua adversária para as cordas e a castiga no clinch com joelhadas pesadas no estômago.

—Santana Fuerte Lopez nunca decepciona quando o assunto é dar um show nos ringues americanos... Essa garota tem um futuro nos combates pelo o mundo. E só tem 17 anos de vida...". Disse outro.

—Mas faz coisas que você ficaria chocado- complementei enquanto assistia a luta de Santana em Seattle pela televisão. Já haviam se passado dois dias depois de nosso último encontro fiasco na sala de treinos e agora eu me retorcia assistindo mais uma de suas lutas violentas pela TV, onde nesse mesmo instante Santana era jogada para o lado por sua adversária, que finalizou com um chute circular em suas costelas e, agora, tentava nocauteá-la com socos, assim que ela havia se desequilibrado pelo golpe anterior.

—Falou alguma coisa, filha?

—Nada, mãe. Estava pensando alto aqui- sorri fraco para ela, que estava ao meu lado, fazendo croché enquanto eu estava desesperadamente agarrada a uma vasilha grande de pipoca- Mamãe, posso lhe fazer uma pergunta?

—Claro, Susan. O que quer saber?

—Quando você lecionava, em todo esse tempo, algum aluno já se interessou por você?- perguntei, sem desgrudar os olhos da TV e de Santana agora sendo golpeada com várias joelhadas seguidas. Por favor... No abdômen não!

—Bom, sim. É algo normal, por mais incrível e fatídico que seja, um aluno vir a se interessar por um ou mais de seus professores algum dia- ela explicou, concentrada em mais pontos cruz, pontos altos e baixos pelo crochê, habilidosamente. Mamãe era ótima com artesanatos, enquanto eu não sabia nem fazer um avião de papel conseguir voar sequer 30 centímetros para o alto-Tem a ver com compatibilidade, simpatia. Isso tem mais chances de ocorrer quando o professor é o mais queridos de todos- continuou.

—Sim, isso de fato acontece, mas, o que a senhora fazia pra contornar a situação?

—Conversava com eles. Mostrava que estava errado, era proibido, mas que eu tinha muito carinho por cada um.

—E funcionava?- mordi o canto da unha, falhando miseravelmente na tentativa de não parecer nervosa com aquilo, pela primeira vez tirando a atenção da TV.

—Sim, mas caso contrário, eu ia lá e falava diretamente com seus pais- não se seria essa a melhor saída com Santana. Pensei sobre- Por que esse questionamento todo? Algum problema com isso?

—Não...- falei pausadamente, como uma preguiça bocejando, o que saiu mais parecido com um “naummmm”.Ela cerrou o cenho para mim, desconfiada. Soltei uma risadinha sem graça.

“-E mais um vez Santana Fuerte Lopez leva a adversária para o chão em um maravilhoso nockdown, depois de uma joelhada voadora perfeitamente aplicada no rosto da outra. Ela realmente parece furiosa. Mau dia pra sua adversária que a pegou nesse fogo todo de raiva. A platéia vibra por seu nome agora!". A voz excitada do locutor cortou minha explicação, deixando a mim aérea por um tempo ao observar Santana rodear a adversária como um leão policia sua presa, ofegante a fim de que todo ódio fosse expulso em cada puxada de ar para os pulmões que ela dava, acredito eu. Por um instante ela olhou pra câmera, como se adivinhasse que eu assistia. Deu um sorriso debochado de canto, como os que geralmente me doava, do mais diabólico e assim que sua adversária se pôs de pé e disse que podia continuar, Santana correu, deu dois rodopios longos e rápidos, sendo que o último foi no ar e finalizou a outra com um chute no estômago e em seguida uma cotovelada no rosto. Fim da luta pra ela. Rapidamente desliguei a televisão. Mamãe parecia confusa com minhas atitudes e assustada com a violência gratuita. Enfiei um monte de pipoca na boca e sorri daquele jeito para ela.

:-!

Já era noite... Perto das dez, acho. Estava sentada, frente ao computador, enquanto acertava algumas atividades a corrigir e preparava o segmento de aula do dia seguinte. Já estava há horas nisso, sequer havia jantado. Embora o cansaço que isso proporcionava, eu estava satisfeita. Assim eu enchia minha cabeça com o trabalho e a ocupava com milhares de pensamentos que me afastavam de Santana e suas complexidades... O que eu mais estava necessitando agora.

Dispensei Sam de vir em casa hoje, neguei um pedido de balada de Sugar (onde eu ouvi centenas de palavrões em que, muitos deles, eu sequer tinha noção da existência), e até mesmo minha mãe eu mantive fora dos meus planos de hoje, deixando que ela fosse para a igreja sozinha... Se bem que eu não era lá tão religiosa assim mesmo, ia mais por causa dela. Só queria ficar comigo mesma, ao menos por hora, ocupando a cabeça com meu trabalho, e se desse tempo, poria a leitura em dia. Havia uma pilha de livros que eu trouxe da Inglaterra que estavam gritando para serem explorados.

Senti sede, enfim. Resolvi descer até a cozinha para um bom copo de leite bem gelado. A noite estava ficando abafada e seria um belo alívio. Bem que poderia tomar um copo grande de água, em vista de que eu só deva ter tomado dois ou três o dia inteiro, mas, sempre que podia, trocava por outro líquido, leite na maioria das vezes. Certamente no dia em que eu tiver uma pedra nos rins do tamanho da minha cabeça ou um problema renal grave, dê fim nessa minha mania horrorosa. Mamãe sempre ralhava comigo por isso.

Ao abrir a geladeira, fiquei um tempo encarando todo o conteúdo em seu interno, tentando me convencer de que eu deveria comer qualquer coisa que desse sustento ao meu organismo, mas não me senti lá tão tentada. Mesmo assim peguei uma maçã e pus entre os dentes, enquanto escavava pelas jarras à procura da que continha leite.

—Cadê você, danadinha?- falei, com a voz abafada pela fruta na minha boca-Humm, vamos ver... Aqui! Achei você- puxei a pequena jarra com o líquido branco mais gostoso do universo e fui na procura de um copo para despejar um pouco, porém, um barulho vindo do segundo andar me fez frear pelo caminho. Parei por alguns segundos... Será que eu estava ouvindo coisas? Pensei comigo... No entanto, mais uma vez o barulho se apresentou, fazendo eu me assustar e assim deixar cair a maçã da boca, bem, mas bem, de forma certeira... No meu pé que estava descalço- Au!- gemi, fazendo careta, porém evitando barulho. Deixei a jarra sobre a mesa, antes que a derrubasse também no pé. Meu corpo inteiro gelou de medo... A maçã rolou pelo chão até parar no que seria a minha melhor arma agora: A vassoura!

A pus entre as mãos, seguramente agarrada a ela como um jogador de basebol a seu taco. Meu celular havia ficado lá em cima, o único telefone daqui debaixo estava com defeito, então ou eu saia correndo desesperada pela rua, gritando pela minha mãe, ou subia e tentava pegar meu aparelho telefônico e buscar ligar para a polícia o quanto antes, correndo o risco de levar um tiro no traseiro, ou até mesmo só descobrir que deixei a janela aberta e entrou um esquilo no meu quarto e provavelmente agora ele devorava as tarefas dos alunos que eu deixei sobre a escrivaninha.

—Brittany... Sua azarada!

Forcei as pernas trêmulas a andar o mais cautelosa e silenciosamente possível pelas escadas, pela altura do medo, que pareciam nunca chegar ao topo. Com as mãos já tão suadas, eu temia que se fosse um ladrão e eu tivesse que lhe cacetar na cabeça, a vassoura escorregasse delas e eu fosse a nocauteada da vez. Parecia algo que minha sorte proporcionaria.

Lá estava a porta do meu quarto... Fechada... Eu a havia deixado semi aberta. Dei três passos... Parei e respirei tão fundo que quando expirei, jurava ter sentido o pulmão querer passar pela garganta. Já na porta, hesitei quinhentas vezes até encostar a mão à maçaneta, então gelei por mais minutos... Eu daria uma péssima heroína. Outro barulho lá dentro, a cadeira caiu, senti que aquela era a hora e, mesmo temendo por minha miserável vida, eu entrei com tudo, parecia aquelas policiais de filmes americanos, só que no meu caso eu apontava uma vassoura velha e “descabelada”, ao invés de uma arma de fogo (coisa que eu já deveria há tempos ter arranjado).

—Parado, eu estou armada!- gritei, de olhos fechados, sacolejando o cabo da vassoura de um lado para outro, acertando um aquário vazio recém comprado, o que é fez virar milhares de cacos de vidro por meu chão. Felizmente eu ainda não tinha comprado o peixe. Salvei uma vida... Eu acho.

O barulho me fez abrir os olhos mais que rapidamente, a tempo de ver um bater de asas negras escapar pela janela do quarto e um arrepiante grito como um intenso apito de chaleira romper o silêncio da noite lá fora. Corri para trancar a janela e logo a mesma estava devidamente vedada. Era ele... Eu reconheceria em qualquer lugar... O pássaro negro que me aterrorizou no ônibus quando voltávamos do acampamento, esteve no meu quarto e só o Pai lá de cima sabia o motivo.

Será se tem algum rato morto na minha bolsa para despertar tanta atenção daquele bicho tão grotesco? O que ele queria aqui? Ou melhor... Que droga de espécie de ave era aquela? Outra hora eu jogo: ave do coisa ruim, no Google, talvez tenha uma pista sobre ela por lá. Realmente se existir um mal bem grande... Parece que passa o tempo livre zuando comigo.

—Droga, meu quarto está uma zona!- reclamei quando vi um punhado de papel jogado no chão, minha cama toda remexida assim como algumas gavetas da cômoda que estavam escancaradas para quem quisesse ver e livros espalhados e abertos perto da cadeira tombada. Uma calcinha de coraçõezinhos minha estava jogada sobre o monitor do computador- Pássaros não abrem gavetas- Franzi o cenho, retirando a peça íntima dali, envergonhada mesmo sem ninguém ter visto. Às vezes eu era muito infantil e isso era ridículo. Notei que dentre as tarefas espalhadas pelo chão, uma das apostilas que mandei os alunos dissertarem sobre as principais obras de Shakespeare, havia uma folha colorida que não pertencia a seu conteúdo. Me agachei e a peguei, intrigada, virando-a atrás de alguma informação, onde encontrei do outro lado algo escrito endereçado a mim. Antes que eu lesse a mensagem, o barulho de algo quebrando me fez ficar em alerta novamente. Logo depois algo se chocava contra uma parede e em seguida, algum móvel daqui, no segundo andar. Das duas uma: ou estão tentando destruir a casa ou escolheram o local do apocalipse que dizimaria a Terra e era aqui dentro.

Corri até minha bolsa... O celular estava lá dentro, desligado, para que ninguém me incomodasse. O peguei o mais rápido que pude, depois sai correndo em disparada para as escadas, onde do topo, antes de começar a descer, pude notar um vulto negro, como se estivesse de capa e atuasse velozmente pelo ar, atravessar o corredor na direção do quarto da mamãe... Depois outro, ainda maior que o anterior. Derrubaram a mesa que portava o jarro preferido da mamãe e ele se partiu. Meu sangue gelou, nem olhei por uma segunda vez, nem quis tirar a limpo o que acontecia ali, naquele instante, de fato, deveria buscar segurança bem longe dessa confusão. Acho que não seria nada heróico correr lá e brigar com eles por terem quebrado o presente de casamento caro da mamãe. Logo quando consegui descer as escadas, abri a porta da saída e me mandei para o mais longe dali, ligando para a polícia, que não demorou aparecer.Em menos de cinco minutos, sirenes de uma viatura era escutadas por minha rua. Saí de trás da árvore em que estava escondida, acenando para o carro de polícia, este quase passava do lugar certo, deixando-me cair sentada na grama do vizinho da frente, sem aguentar o peso do corpo, pelo grau de tremor que estavam minhas pernas.

Dois policiais entraram na casa, armados, enquanto um terceiro, uma mulher baixinha e negra, ficou ao meu lado na tentativa de me manter calma.

—Você está ferida?- escutei- a perguntar, e pelo tom mais forte, notei que não era a primeira vez que perguntara isso.

—E-Estou- saiu gaguejado. Eu tremia feito um palmito na frente de uma turbina de jato-Na verdade não. Só uma maçã que caiu no pé..

—Você viu alguém na casa?

—Não nitidamente. Só vi um vulto negro passar rápido pelo corredor, depois outro, então saíram quebrando coisas e acho que não perceberam a minha presença. Eu fugi logo então- levei a mão ao rosto, enxugando algumas lágrimas de nervosismo que escorregavam por minhas bochechas-Foi assustador.

—Posso imaginar, querida- a policial me sorriu fraco, acariciando-me no ombro- Está segura agora, não se preocupe. Vamos resolver isso para você- ela foi até a viatura, tirou de lá uma manta cinza e pôs sobre meus ombros. Estava muito frio aqui fora- Fique aqui, OK?

—Uhum... Obrigada- me deixou um aceno de cabeça e foi atender ao rádio na viatura, neste falando por alguns códigos que eu sequer tinha noção do significado.

—Susan!- era minha mãe, que gritava por mim, bem no meio dos curiosos que se espremiam por entre outros na tentativa de obter alguma fofoca sobre o acontecimento. Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar e, de fato, só ela me chamava por meu segundo nome, Susan, que foi me dado para homenagear minha avó falecida.

—Mamãe!- as lágrimas correram mais fortes agora. Corri o mais rápido que pude, jogando-me sobre os braços de minha mãe e fiquei lá até que os policiais voltassem, todos com olhares intrigados, dizendo que tudo não passou de uma invasão de vândalos, que bagunçaram o segundo andar quase que completamente, porém nada parecia ter sido roubado... O que eu achei estranho. Mamãe tem jóias de valor, recebida em uma herança de família, sem falar em alguns adornos na casa que daria para ganhar um bom dinheiro vendendo por ai. Pode ser também que os bandidos se desentenderam na hora e entraram em combate físico, fugindo assim que ouviram as sirenas da polícia, o que pode não ter dado tempo de levar nada. Mas mesmo assim, aquela situação era deveras intrigante.

Nos deixaram algumas horas depois, pedindo que eu fosse ao DP no dia seguinte e prestasse uma queixa, como precaução caso eles quisessem voltar. Também pediram que instalássemos um sistema de segurança mais potente e confiável, coisa de que com certeza eu faria já bem cedo no dia seguinte. Apesar de eu achar tudo estranho, incluindo o pássaro bizarro que andava me seguindo, fiquei mais tranquila com a promessa da polícia em reforçar o patrulhamento de nossa rua. Pelo menos isso.

Felizmente tudo estava bem agora. Mamãe e eu ficamos até tarde organizando a zona que havia se formado pela casa. Eu já me preparava para dormir agora, quando deixei o papelzinho colorido que encontrei dentro da apostila jogada no chão, cair do bolso da calça que eu estava tirando do avesso para colocar no cesto de roupas sujas. Depois do banho, eu deitei em minha cama, com ele estirado entre os dedos das mãos para começar a ler, de alguma forma minha curiosidade estava me aniquilando por isso. Abri-o, estava todo amassado, continha os dizeres: “Se preferir continuar com ela, você será destruída. Eu já sei de tudo e contarei a todos do caso que você mantém com sua aluna menor idade. Isso é asqueroso!”.

Não sei o que foi pior nisso tudo. Alguém ter descoberto minhas “aventuras” impróprias com uma aluna e ter me ameaçado com isso, ou esse “alguém” certamente se tratar de Marissa Swan... Que me escreveu isso um dia antes de ser morta brutalmente depois do baile do colégio. Cristo! Isso me deixou tão arrepiada quanto um gato prevendo o perigo.

Mas essa não é a parte mais bizarra da história. Nesse mesmo dia, depois da aula e de ter pego os exercícios, do qual no dela estava o tal bilhete, lembro-me de estar andando pelo corredor, distraidamente, quando Marissa veio a minha direção e deu-se contra mim, do nada. Foi como um encontrão, quase como uma interceptação de futebol americano. Mais que a dor, eu me assustei, quase caindo. Não entendia se aquilo era uma agressão ou a garota estava passando mal e acabou por esbarrar em mim daquela forma. Por isso nem esperei me recuperar, iria atrás de sua raiz, porém ela então sumiu, do nada, como se nunca houvesse estado ali. Passei a mão na nuca, intrigada, até que então, vi de relance Santana a puxando pelo pulso e a levando para detrás do lance de armários, corri até elas, preocupada. A latina parecia brava ao ponto de querer agredir a colega. Antes que eu intervisse, freei automaticamente assim que ouvi a voz de Santana, que a essa altura mantinha uma das mãos no meio do peito da colega... Que audácia... Cheguei a ficar vermelha... Porém, o louco de tudo, apesar de eu não ser expert no assunto, era o que a morena dizia para Marissa, e a mesma a olhava como se estivesse congelada... E qual o estranho nisso, afinal? Bem, ela dizia muitas coisas, várias, em um tom ameaçador e autoritário... Mas em latim! Latim... Uma língua litúrgica tão complexa e antiga, geralmente dominada por figuras religiosas, como padres e papas, no Vaticano é a mais usada. Estranho para uma aluna do último ano do ensino médio ter tal conhecimento e tanta segurança e dominância ao proferir.

Antes mesmo que eu dissesse algo, Marissa fechou os olhos, abaixou a cabeça e a meneou algumas vezes. Não demorou sair, passando por mim com um olhar apagado, feições inexpressivas e distantes, visivelmente pálida. Franzi o cenho, me voltando a Santana com um olhar questionador... Mas grandemente confuso. Recebi somente um sorriso de canto dela e uma frase avulsa que dizia: “Ela precisava urgentemente de um conselho meu”. E ainda emendou um: “Está cada vez mais linda, anjo”. E antes mesmo que eu perguntasse o que havia acontecido ali, e voltasse a cor normal do meu rosto, depois de atingir a cor púrpura por desmantelo perante o elogio, Santana simplesmente me abandonou ali... Sem uma mera explicação.

Não sei o que deu em mim para não ir ao fundo disso tudo, mas, droga, por que as coisas pareciam miseravelmente se encaixar agora?

Isso tudo não era acaso... Era? Mais uma pulga se escondia atrás de minha orelha e eu estava louca para coça-la...

No que Santana havia se metido agora por minha causa?

:-

E no dia seguinte:

—O que você tem, Britt?- Sugar, delicadamente, indagou enquanto almoçávamos... Espera... Eu disse delicadamente?

—Tentaram assaltar lá em casa ontem.

—O que? Meu Deus... Você e sua mãe estão bem?- ela pasmou, tocando em meu braço. Olhou-me preocupada.

—Só eu estava na casa, “felizmente”. Mamãe estava na igreja. Apesar do susto, eu estou bem sim, obrigada- disse, com desgosto na voz e um prato de salada de repolho com abacaxi e peito grelhado de frango, feito com carinho por minha mãe, sendo afastado de mim, pois meu estômago agora estava dando voltas em um carrossel e não queria digerir nada. Percebo que logo vou acabar fazendo algum cosplay de bambu contra o vento, se não começar a comer melhor.

—Que sorte, hein, pirulitona! Pelo menos ninguém se machucou.

—Ninguém mesmo... Eu acho.

—Deveria ter me ligado. Eu iria ficar com você.

—Tudo bem, Su. Eu estou bem- a confortei. Sugar me abraçou apertado, acariciando-me os cabelos, como se assim quisesse me passar todo o conforto que eu precisava agora. Nessas horas que eu lembrava o quanto nos amávamos como amigas, o quanto sempre uma podia contar com a outra para momentos como esse. No entanto, mesmo esse gesto tão bonito de carinho por Sugar, que geralmente só falava em sexo, acabei lembrando-me do bilhete. Algo me fazia temer pelo desfecho que me levaria ao investigar a ligação de Santana à Marissa e aquela conversa em latim tenebrosa.

—Britt?

—Oi? Desculpa... Estava pensando.

—Tudo bem- a ruiva me mandou um sorriso tenro. Parecia que dessa vez ela respeitaria meu silêncio e minhas conturbações- Vou pegar um refri, você quer?

—Não, obrigada. Estou com dor de cabeça.

—Vou ver se descolo um analgésico para você com a múmia lesa da enfermeira daqui, OK?

—Pega leve com a senhora, Su!- sorri, brincalhona, ela retribuiu, deixando um beijo carinhoso em minha testa. Ela parecia estar mais quieta hoje. Os comentários ofensivos e imorais foram bem poucos até então... A não ser quando ela, na reunião dos professores de mais cedo, quando foi fazer um comentário sobre o clube do coral que Rachel dirigia,acabou comparando-a quando dançava a um “ leprechaun maquiado, com bolhas nos pés, de tanto usar saltos de vovós virgens para enganar a altura mínima”. Depois da risada geral, saiu cantando My little Poney, provocando Rachel, que fez cara feia para a ruiva e a chamou de infantil e que suas aulas de artes seriam melhores de fossem dadas por um macaco de circo. Às vezes essa guerra entre elas era até engraçada. Acabava por divertir a todos, mesmo não sendo lá um jeito muito saudável de se conviver.

Antes que Sugar saísse, ela pareceu refletir sobre algo, parando no meio do caminho. A observei de cima a baixo... Sugar estava realmente diferente hoje, menos ligada a moda, vestia-se confortavelmente, numa calça jeans simples azul com alguns rasgos charmosos e uma blusa de mangas compridas totalmente branca, sem detalhe algum . Usava all stars... Oh Santo Deus... Totalmente o oposto de seus looks glamurosos de sempre. Isso era de se preocupar. Ela não parecia bem...Só reparei agora.

—Sugar?!- chamei, por fim, ela parecia desligada agora pegando um refrigerante direto na máquina. Tive que chamar novamente- Sugar!!

—Oh... Oi, Britt. Reconsiderou sobre o refri?- apontou para a máquina.

—Você está bem?- fui direta, ignorando a pergunta anterior.

—Por que a pergunta?- franziu o cenho para mim.

—Está diferente.

—Só cansada... Os diabinhos daqui não têm dado folga. A professora de Geografia saiu chorando ontem do último ano- deu de ombros, passando agora a brincar com a latinha na sua mão, distraidamente- Será que eu posso passar na sua casa mais tarde?

—Sem festas, Sugar... Ainda não me recuperei de ontem.

—Não... Não- ela ergueu as mãos, em negativa. Elevei meu olhar a ela enquanto reunia o que restou de meu almoço, que foi quase tudo, para dar depois a um morador de rua que ficava ao lado da escola- Sem festas... Eu só queria conversar com você sobre algo.

—Sobre o que?- ela abriu a boca para falar, porém congelou o gesto ao ver Rachel entrar na sala, segurando o braço do assistente de Sam, Mike Chang, aos risinhos e gestos carinhosos. Aquilo pareceu inquietar Sugar.

—Quero te contar algo... Posso ir?

—Claro... Janta comigo. Mamãe fará lasanha.

—Beleza!- ao dizer isso, foi em direção a porta, trombando em Mike, que acabou por quase cair sobre Rachel- Foi mal aí, Jaspion. Espero que não tenha quebrado seu PlayStation 2...Tá olhando o que, Berry? Não tem ninguém oferecendo solo aqui, não- provocou, com um sorrisinho de deboche.

—Eu sei... Principalmente vindo de alguém que não sabe a diferença entre ré, a nota, ou a ré, do carro- a baixinha rebateu, a altura- Quantas velhinhas inocentes já atropelou hoje, hum?

—Velhinhas não sei, mas tem uma senhora cabeça de batata que eu estou doida para enfiar a cabeça na privada até ela deixar de ser uma irritante bocuda... Se habilita?

—Como sempre... Uma louca varrida... Vem, Mike!- saiu puxando o asiático para uma mesa, e o coitado estava tão perdido quanto eu na conversa. Escutei Sugar bufar e uma cadeira sair deslizando pela sala quando ela chutou. Assim que minha amiga doida saiu daqui, olhei para Rachel, e esta tinha um sorrisinho vitorioso desenhado nos lábios avermelhados, porém logo em seguida olhou para baixo, pensativa e suspirando. Espero que essa conversa com Sugar esclareça logo essa batata que já estava passando do ponto de assada.

Minha última aula depois do intervalo seria com o primeiro ano. Felizmente eu só teria aula com o último ano amanhã, então tinha ainda um dia para terminar com as correções bagunçadas naquela confusão dos infernos que se instaurou lá em casa. Hoje eu pegaria carona no ônibus escolar, pois Sugar desapareceu a manhã inteira e não atendeu ao telefone quando liguei para ela... Melhor deixá-la quieta nesse tempinho, ela parecia precisar e muito.

Olhei no relógio... Faltavam dez minutos para o ônibus chegar. Tinha que correr. Só precisava passar pelo estacionamento e pronto, era só encontrar um lugar bom a janela e curtir a viagem de volta para a casa.

Assim que passei dois lances de carro, distraída, enquanto procurava meu celular dentro da bolsa, senti alguém agarrar meu braço e puxar. Meu corpo bateu contra a porta de um carro, dolorosamente. Tentei gritar, alguém pôs a mão em minha boca... Decidi mirar no autor daquele ato assustador.

—Olá, belos olhos!- era Noah Puckerman, que trazia além de um sorriso debochado, olhos extremamente negros como piche, um cheiro de maldade e perversão que eu jamais vi na vida. Encarava meus lábios como alguém morrendo de sede a um copo com água- Aonde vai com tanta pressa?

—Noah, me solte. Isso não tem graça- pedi, em agonia, me sacudindo de seus braços na tentativa de me soltar. Ele cheirou-me os cabelos e suspirou, por agrado.

—Tenho planos agora para você agora, belos olhos... Vai vir comigo primeiro.

—Não vai, não- antes que eu gritasse ou entrasse em desespero, Santana brotou do nada, bem atrás de Noah, desferindo um soco cruzado de esquerda, em seu rosto. Assim que o rapaz pendeu para o lado oposto e me soltou, a latina o puxou pelos ombros, jogando-o poucos metros para trás, o bastante para que ela girasse o corpo e lhe acertasse no estômago de forma certeira com um chute giratório, e isto, o fez cair esparramado no chão, desacordado.

—Santana!- levei a mão à boca, pasma com a ação- Você agrediu seu colega.

—Ele mereceu- olhava feio para Noah no chão e limpou as mãos nos bolsos da calça- Vem comigo!- estendeu a mão para mim- Não vai querer estar aqui quando ele acordar.

Eu olhei para a mão dela estendida, tão atordoada que nada mais eu conseguia filtrar, só achava que, se eu não aceitasse aquela mão quente e acalentadora a minha frente, cairia feito uma jaca podre ali no chão mesmo. Estava zonza... O mundo inteiro girava...os olhos de Santana agora pareciam um buraco negro que estava por me sugar até a última gota. Então vacilei, dei alguns passos para trás e Santana me amparou antes que minhas pernas moles feito macarrão me fizessem tirar uma soneca no chão duro.

—San... Santana...

—Hey... Você não é muito de adrenalina, não é?- comentou, com teor de bom humor. Pegou então um de meus braços e passou pelo seu pescoço, para me dar suporte- Não dorme. Conversa comigo- ela pediu, enquanto caminhávamos vacilantes pelo estacionamento.

—Você cheira a menta com tabaco- disse, delirante, ao encostar a seu corpo e cheirar a blusa por dentro de sua jaqueta. Percebi que ela sorriu de canto- N-Não devia fumar. Você é uma criança.

—Eu não fumo...- Mesmo que minha vista estivesse embaçada, avistei a moto Harley de Santana estacionada mais a frente-... Tampouco sou criança.

—É sim e eu sou horrível por querer você- ela me parou, encostada a moto, então acariciou-me o rosto.

—Respire fundo, ok? — me deu um beijo demorado, apenas sugando-me os lábios durante suas carícias atrás de minhas orelhas. Isso de certa forma me deixou melhor. Parecia que eu havia sido pesadamente drogada e não entendia o por quê de estar assim. Santana então, ao me soltar aos poucos, sentou na moto e me ajudou a subir também. Me agarrei como nunca a ela- Segure-se bem.

E foi assim que ela partiu comigo, grogue de pavor, naquela moto antiga e que só intensificava sua sensualidade. Esperava que ela não me sequestrasse e terminasse de acabar comigo... Eu estava completamente a mercê dela agora. Me encontrava em completa desordem.

—Você tem raiva de mim?- perguntei, sonolenta. Estava praticamente deitada sobre suas costas, abraçada a sua cintura como um macaquinho medroso.

—Você me faz detestá-la. Principalmente quando deixa outra pessoa tocá-la.

—Então, sim?

—Eu luto com suas melhores armas, Senhorita Pierce... Entregue o que quiser a mim e com isto eu derroto tuas barreiras- por algum motivo meu coração acelerou e esquentou meu ser- Agora aproveite a viagem.

Abracei mais seu corpo... Adorava aquele calor tão aconchegante que ninava todas as minhas preocupações.

—Realmente... Eu não sei o que você é, mas agrada meu corpo.

—Eu sou tudo o que você precisa.

—Talvez seja, mas me deve respostas.

—Eu as darei... Quando for o tempo certo.

—E quando será isso?

—Quando você cair em si.

—Então me faça cair- passamos em uma lombada, me assustei porque estava quase caindo no sono. Santana repousou uma da suas mãos sobre as minhas agarradas a sua cintura... Sempre quente.

—Deixe sua guarda cair para mim.

—Não posso... Senão...

—Senão... — me incentivou.

—Você sente algo por mim? Algo além de sexual.

—E se eu disser que sim?

—Estaremos encrencadas- senti que ela soltou uma risadinha debochada.

—Já estamos, doce anjo... Eu mais ainda-seu cheiro parecia cada vez melhor- E você... Sente por mim?

—Eu não sei- disse, sincera.

—Ok.

—Ok? Por que?

—Isso só me motiva mais.

Não sabia se era a moleza do meu corpo, mas fiquei totalmente sem palavras agora. Apenas a abracei mais forte e senti seu cheiro o quanto pude... Que realidade era aquela que uma garota de 17 anos conseguia te levar tanto as alturas e te entender melhor que qualquer pessoa que já a conheceu?

A resposta, meus amigos, a única que tinha agora, era que: Santana era um grande problema e eu acho que estava ficando ou já estava miseravelmente apaixonada por ela.

Notas finais
Eita rsrs Será se agora vai? Vocês querem que nessa conversa,Sugar conte o que houve ou há entre ela e Rachel? O que vocês acham que foi aquela confusão toda na casa da loira Pierce? uhhhh... também quero saber. Beijo molhado em cada uma. Até a próxima, sas gostosas!