Obsession
21 Capítulo 20 - Lucky Charm
Notas iniciais
24 de Maio de 2013 – Miami
POV Austin
– Vocês poderiam parar de me encarar? – Peço, impaciente, enquanto trabalhava nas fotos da prévia de uma cliente que iria se casar em breve.
O dia estava quente e os olhares questionadores de Gavin, Brooke e Mike me incomodava ainda mais. Por mais que eu tentasse fingir que eles não estavam presentes, era impossível ignorá-los, quando Brooke não parava com a sua terrível mania de limpeza sobre minha mesa.
– Que tal dar uma pausa no trabalho, filho? – Questiona Mike.
– E por que eu deveria fazer isso? – Pergunto, sem tirar os olhos da tela do computador. – Eu já estou quase terminando esse trabalho. – Brooke mexe, pela milésima vez nas canetas expostas em um porta-treco. – Brooke, para. Já está me irritando. – Digo, desviando o olhar das fotos. Pego nas mãos da secretária e a encarando sem paciência.
– Não que isso seja uma novidade. – Comenta Gavin, sorrindo com desdém.
– O que quer dizer com isso? – Pergunto, encarando-o com desconfiança, soltando as mãos de Brooke.
– Você ao menos já notou o quão instável seu humor está desde o dia em que Ally te deu um fora? – Questiona Brooke, sentando-se ao lado de Gavin, de frente para a minha mesa.
– Ally não me deu um fora. Ela só não estar preparada para um relacionamento. – Justifico, frustrado. Repetindo pela centésima vez desde que ocorreu o festival.
– Que seja. – Fala meu pai, desencostando da porta e caminhando para perto de mim. – Eu estou preocupado com você, filho. Eu quase vejo o mesmo Austin de cinco anos atrás quando olho para você neste exato momento. – A preocupação evidente nos olhos de Mike me incomodam. – Você está passando tempo demais nessa sala, não come direito e tenho certeza que tem dormido muito pouco. E o pior disso tudo, você está evitando as pessoas que se preocupam com você.
– Seu pai tem razão, Austin. Todos estão preocupados com você. – Afirma Brooke, suavemente. – Não se entregue a mesma depressão de antes, querido. – Pede, com um tom maternal que Brooke.
Suspiro e me encosto na cadeira giratória em que eu estava. Fecho os olhos e levo minhas mãos ao rosto, cansado. Eles tinham razão. Eu estava agindo como um coitado mais uma vez, mas era difícil não me dedicar a algo que me fizesse distrair da realidade, quando os meus momentos com Ally invadiam a minha mente todas as vezes em que eu ficava sozinho ou sem fazer nada.
– Eu estou bem. – Digo, abaixando as mãos e voltando a encará-los.
Brooke e Mike se encaram por um momento e suspiram, deixando claro que não haviam acreditado em minhas palavras. Gavin me observava com atenção e não demonstrava qualquer emoção, incomodando-me.
Após alguns instantes, Gavin se levanta e balança a cabeça negando, mas ao contrário do que pensei que ele faria, o rapaz caminhou até minha cadeira e a girou para que eu ficasse de frente para si.
– Acabou o draminha de personagem principal de novela mexicana? – Questiona, seriamente.
– O que? – Pergunto, irritado.
– Levanta a bunda daí e pegue sua câmera. – Pede, afastando-se de mim e pegando seu boné que estava em cima de minha mesa. Hoje era seu dia de folga, o que o dava mais tempo ainda para ele me perturbar.
– Por que? – Questiono, desconfiado.
– O que você está esperando? Anda logo! Não tenho todo o tempo do mundo. – Diz Gavin, impaciente.
Brooke ri, discretamente, parecendo satisfeita com a atitude do melhor amigo de seu marido. Meu pai balança a cabeça, concordando e cruza os braços, com um pequeno sorriso em seus lábios.
– Eu não tenho tempo para brincadeiras, Gavin. Preciso trabalhar. Não estou de folga como você. – Argumento, virando minha cadeira de volta para frente do computador.
– Quem disse que eu estou brincando? – Pergunta o loiro, erguendo uma das sobrancelhas com seriedade.
– Eu... – Tento dizer algo para contrariá-lo, mas sou interrompido por meu pai.
– E você está de folga hoje. – Afirma o homem, sorrindo. O médico me olha com ironia, demonstrando toda a sua satisfação. Bufo, irritado e me levanto de minha cadeira, percebendo que Gavin não me deixaria em paz até que eu fizesse o que queria.
– Aonde nós vamos? – Pergunto, pegando meu material de trabalho e o olhando, contrariado.
– Você vai ver. – Responde, jogando o boné que estava sobre um cabideiro que havia atrás da porta.
Pego o boné e coloco sobre a cabeça, dando um suspiro frustrado, seguindo o homem que, após um beijo na testa de Brooke e um aceno para meu pai em rápida despedida, segue para fora da loja.
– Nós vamos no meu carro. – Avisa, apontando para o belo Volvo S60 T5 vermelho parado próximo a loja. Gavin, apesar de ser apaixonado por sua profissão e pelo basquete, me contou que sua outra paixão são carros esportivos de última geração.
Concordo e vou para o lado do passageiro assim que ele destrava o carro. Suspiro aliviado quando o ar-condicionado é ligado. Miami estava incrivelmente quente. Gavin liga o rádio e segue em direção a saída da cidade, deixando-me desconfiado.
– Não vai mesmo me dizer para onde estamos indo? – Pergunto, com um leve tom de incerteza em minha voz.
– Estou te levando a um lugar que vai fazer você relaxar um pouco. – Afirma Gavin, divertindo-se ao notar a minha preocupação após sua fala. – Austin, não é porque eu sou gay que eu vou te atacar, então não precisa me olhar como se eu fosse um psicopata.
– Não estou te olhando assim. – Digo, desviando o olhar do loiro para a paisagem.
– Certo. – Diz, em desinteresse. – De qualquer forma, você precisa estar bem para amanhã, Austin. Kira e Elliot contam com você e Ally como um dos casais de padrinhos mais importantes da cerimônia. Vocês já os estressaram demais durante os ensaios. Evitavam se olhar, se tocar e conversar um com outro. Acho que se isso durasse mais um dia, Kira cortaria a cabeça dos dois.
– Eu sei. – Falo, suspirando. – Só que...é tão difícil.
– Por mais que seja difícil, precisa aprender a lidar com a situação. Elliot me contou que Kira estar quase enlouquecendo, porque teme que você e Ally não consigam se dar bem durante a cerimônia. – Explica Gavin, desviando o olhar da estrada, por alguns instantes, para me encarar. – Eu sei que Ally conseguirá agir bem amanhã, mas eu não sei dizer o mesmo de você.
– Eu vou conseguir. – Afirmo, ainda inseguro.
Gavin suspira, parecendo decepcionado, e balança a cabeça, negando. Continuamos o resto do caminho com somente o rádio ligado que quebrava o silêncio. Eu estava perdido em pensamentos. Eu entendia perfeitamente a preocupação de meus amigos. Eu, no lugar deles, agiria da mesma forma.
A música vinda do rádio do carro chama a minha atenção. Eu já começava a sentir pena de mim mesmo ao me identificar com a letra como um tolo adolescente. A imagem de Ally e alguns momentos com ela voltam a invadir, com ainda mais força a minha mente.
Guess it's true (Acho que é verdade)
I'm not good at a one night stand (Eu não sou bom em uma noite só)
But I still need love (Mas eu ainda preciso de amor)
'Cause I'm just a man (Porque eu sou apenas um homem)
These nights never seem to (Estas noites nunca parecem)
Go to plan (Ir ao plano)
I don’t want you to leave (Eu não quero que você vá)
Will you hold my hand? (Você vai segurar a minha mão?)
Gavin cantarolava a música baixinho, enquanto batia seus dedos no volante no ritmo da melodia. Rio, discretamente, em ironia. Eu estava sentado ao lado do ex-noivo da mulher que amo e que, por sinal, a abandonou no altar no dia do casamento e que se tornou um dos meus melhores amigos.
Oh, won’t you stay with me? (Oh, você não vai ficar comigo?)
‘Cause you’re all I need (Porque você é tudo o que preciso)
This ain’t love, it’s clear to see (Isso não é amor, é fácil de enxergar)
But Darling, stay with me (Mas, querida, fique comigo)
O refrão da música era como se dissesse tudo o que eu queria dizer a Ally. Em poucos dias ela voltaria para Nova York e nos separaríamos por tempo indeterminado. E por mais que eu saiba que não poderei evitar a sua ida, minha mente gritava para que eu a impedisse de ir.
Why am I so emotional? (Por que estou tão emotivo?)
No, it’s not a good look (Não, não é uma boa visão)
Need some self control (Preciso de algum controle próprio)
And deep down, I know this never works (E no fundo, eu sei que isso nunca funciona)
But you can lay with me so ir doesn’t hurt (Mas você pode deitar comigo, e isso não vai machucar)
Respiro fundo e olho para o imenso mar pela janela. O sol brilhava fortemente e paisagem era incrivelmente bonita, mas nem mesmo isso era capaz de me animar. Eu queria estar com Ally. Queria tê-la em meus braços. Queria beijá-la, senti-la.
Oh, won’t you stay with me? (Oh, você não vai ficar comigo?)
‘Cause you’re all I need (Porque você é tudo o que eu preciso)
This ain’t love, it’s clear to see (Isso não é amor, é fácil de enxergar)
But Darling, stay with me (Mas, querida, fique comigo)
Oh, won’t you stay with me? (Oh, você não vai ficar comigo?)
‘Cause you’re all I need (Porque você é tudo o que eu preciso)
This ain’t love, it’s clear to see (Isso não é amor, é fácil de enxergar)
But Darling, stay with me (Mas, querida, fique comigo)
A música termina e eu me sentia pior do que antes. Gavin parece perceber que algo estava errado comigo, pois me encara com preocupação.
– Você está bem? – Questiona, voltando sua atenção para a estrada.
– Por que a pergunta? – Retruco, sentindo-me exausto pelas noites mal dormir e pelo meu estado emocional abalado.
Gavin apenas me olha com compreensão e volta a se calar. Talvez, ele tivesse entendido como a música definia a minha vida ou apenas achasse que o melhor fosse não me pressionar a falar, o que eu agradecia mentalmente.
Continuamos o trajeto por duas horas de asfalto e mais quarenta minutos de estrada de chão. O percurso que fizemos longe da rodovia era cercado por plantações e animais típicos de fazenda, no entanto, ele ainda era belo. A paisagem transmitia uma sensação de paz que eu não sentia há um bom tempo e a falta de pressão por respostas pela parte de Gavin era quase como uma dádiva.
De repente, quando já estávamos perto do fim da estrada de chão, a paisagem começou a mudar. Ao invés de plantações e animais, só era possível se ver árvores e algumas frestas da luz do sol que atravessavam a folhagem.
Ao longe, via-se uma grande casa de andar branca e bege com portas e janelas cor de tabaco. Ela era bonita e, mesmo estando no meio do nada, era muito bem conservada. Encaro Gavin, sem entender que lugar era aquele e a única coisa que faz é dar de ombros e sorri.
– Chegamos. – Anuncia, assim que estaciona o carro.
Ele sai e eu faço o mesmo. Admiro o lugar e suspiro, preguiçosamente, deliciando-me do clima ameno e da suave brisa que batia em meu rosto. O cheiro do mar invadia meu nariz, trazendo a tão conhecida sensação de aconchego que eu sinto no lugar que ia com minha mãe.
– Onde nós estamos? – Questiono, curioso.
– Essa casa pertence à família de Ally. – Revela, surpreendendo-me. – Quando a avó dela ainda era viva, todos os anos, nas datas comemorativas, a família inteira se reunia aqui.
– Eles não se reúnem mais? – Pergunto, sentindo-me mal pela morte da avó de Ally.
– Ainda se reúnem, mas com menos frequência. A avó de Ally morava aqui com a filha mais nova e dois netos. Depois que ela faleceu, a tia e os primos de Ally se mudaram para Nova York e essa casa só é usada em datas como Natal e Ano Novo. Ainda é meio difícil para todos aceitarem que a senhora Kathy tenha morrido. – Explica o loiro, caminhando para a entrada da bela casa. – Ally e eu planejávamos passar a nossa lua-de-mel aqui, por isso ela estar tão limpa.
– Esse lugar é incrível. – Digo, quando Gavin abre a porta da casa. Mesmo com as mobílias antigas, tudo ainda era muito bem preservado. Como se tivesse sido feito há pouco tempo.
– Essa casa é antiga, mas a família Dawson fez questão de preservar toda a história do lugar que tem mais de cem anos. – Conta, surpreendendo-me.
– E por que você tem a chave da casa que pertence à família de Ally? – Pergunto, meio enciumado.
– Ally pediu que eu te trouxesse aqui. – Revela, fazendo com que minha boca se abrisse em um “O” perfeito. Gavin ri e balança a cabeça, divertindo-se com minha expressão. – Seu pai procurou Ally e contou a ela a maneira como você vem agindo. Ally, sentindo-se culpada e, depois de conversar com a mãe, ela me pediu que te trouxesse aqui. Não sei qual foi seu objetivo. Ally simplesmente me entregou a chave desse lugar e disse para te trazer aqui.
– Meu pai...e Ally? – Repito, embasbacado.
– Explore um pouco a casa e a história da família Dawson. – Incentiva Gavin, caminhando para os fundos da casa. – O quarto que Ally usava para vim visitar a família é a última porta a direita, no segundo andar. Talvez você se divirta desvendando um pouco da personalidade de Ally quando adolescente.
Pondero se deveria ir ou não ao quarto de Ally. Gavin sorri, encorajando-me, ao notar a minha insegurança. Suspiro e concordo com um leve balançar de cabeça. O rapaz abre a porta dos fundos e vai para o lado de fora da casa, enquanto isso, começo a subir as escadas que levavam ao segundo andar.
A surpresa me pegou ao notar que o segundo andar conseguia ser ainda mais bonito que o primeiro. No final do corredor havia uma grande janela de vidro que dava vista para a praia. Como já estávamos no fim de tarde, o céu já começava se tornar alaranjado, tornando tudo incrivelmente belo.
Assim como Gavin havia dito, sigo pelo corredor e ao seu final, abro a porta do último quarto a direita. O lugar era simples, mas delicado. As paredes eram brancas e uma delas havia um papel de parede floral. Os móveis, assim como as paredes eram brancos. O quarto era completamente diferente do esperado para um cômodo de uma adolescente.
– É inacreditável como Ally consegue me surpreender mais a cada vez que descubro um pouco de sua vida. – Comento a mim mesmo, enquanto fecho a porta do quarto.
Em uma das paredes havia uma espécie de mural com várias fotos de Ally quando adolescente, Gavin e alguns outros amigos, além de outras com seus pais e familiares. Em todas as fotos, Ally exibia um lindo sorriso, fazendo com que fosse impossível eu não sorri também.
Sobre sua escrivaninha havia um diário marrom, aparentemente, antigo com a letra “A” e uma estrela prateada estampados em sua capa. Pego o caderno com cuidado e noto que o mesmo se encontrava aberto. Sento-me na cama e suspiro, indeciso. A curiosidade fez com que eu não resistisse a tentação de abrir e ler o diário.
“25 de dezembro de 2007
Oi, Diário.
É tão estranho escrever como se você realmente fosse uma pessoa. Não estou acostumada a isso, mas farei um esforço pela minha avó. Então, acho que vou começar a me apresentar. Estranho.
Bem, eu sou Allycia Ally Dawson, tenho dezesseis anos e sou filha única. Minha maior paixão é cozinhar e talvez eu o usarei como meu caderno de receitas. Você foi o meu presente de Natal dado pela minha avó, então acho que isso o torna mais do que especial. Minha avó disse que essa era a única forma que encontrou de me fazer falar de mim. Algo a ver com meu próprio mundo e meu grande problema em demonstrar meus sentimentos.
Não vejo problemas com isso. Não sou como as mocinhas de filmes ou séries que sofreram algum trauma ou algo parecido que as fizeram mais reservadas. Eu apenas não tenho vontade de falar sem parar sobre a minha vida.
Sou uma adolescente normal. Não sou a mais inteligente da sala e nem a mais burra, nem a mais feia da escola e muito menos a mais bonita, não sou popular e nem a invisível, não tenho um namorado popular, não sou boa com esportes e não tenho talentos para artes, não sofri nenhum trauma na minha infância, não sou uma mocinha cercada por inúmeros caras lindos que gostam de mim e meu único talento é cozinhar. Como disse, eu sou uma adolescente comum.
Enfim, não tenho mais nada a contar sobre mim no momento. Ainda acho estranho contar sobre minha vida em um diário, mas acho que é só questão de tempo até que eu me acostume.
Beijos, Ally. ”
Rio da primeira folha do diário. Ally sempre foi uma garota de personalidade forte e isso não me surpreendia. Acho que ela não mudou tanto, afinal. Seu amor pela culinária ainda continua, assim como a característica mais reservada.
Avanço algumas páginas do diário e encontro algumas receitas e trechos de música, algumas anotações, mas nada de importante. Aparentemente, Ally ainda passou um bom tempo tendo dificuldade em revelar seus sentimentos para um diário.
“22 de agosto de 2008
Oi, Diário.
Já faz algum tempo que não escrevo nada de interessante em você, não é mesmo? Peço desculpas, mas a minha vida não é tão agitada como a da maioria das pessoas da minha idade. A única coisa que é capaz de me tirar dessa monotonia é o meu estágio no restaurante. O que está indo muito bem, à propósito.
Bem, mas hoje eu trago novidades. Eu conheci o capitão do time de basquete da escola. Não, isso não é a novidade importante que eu queria contar, mas é uma informação muito valiosa para a minha novidade.
Ele é diferente do que eu imaginava. Divertido e muito inteligente. Apesar de ser atleta, ele até que leva a escola muito a sério. Seu nome é Gavin Young. Loiro, olhos azuis, alto, pele clara e de sorriso bonito. Um prato perfeito para ser o popular e queridinho das garotas, mas, mesmo sendo o CARA da escola, Gavin não é esnobe e ainda é bem legal com as pessoas.
Bem, você deve estar se perguntando como eu o conheci, sendo que não sou popular e nem faço parte do seu grupo de amigos (ou não, afinal, você é somente um diário. Não tem cérebro!). A resposta é muito simples: trabalho de literatura.
Fomos obrigados a fazer o trabalho de literatura sobre Walt Whitman. No começo, imaginei que Gavin faria com que eu fizesse o trabalho sozinha, mas me surpreendi ao ver o quão interessado ele estava e o quão bom em literatura ele era.
Resumindo, concluímos o trabalho e nos tornamos amigos. Ele é divertido e me entende muito bem. E, diferente da turma dos populares, ele não é um babaca e nem menospreza as pessoas por não serem populares.
A novidade é que Gavin me chamou para sair. Incrível, não? Não sei o que esperar, principalmente, porque é o meu primeiro encontro. Espero não agir como as adolescentes sem inteligência da minha escola que sempre critiquei. Não está nos meus planos babar pelo capitão do time ou me jogar para cima dele.
Talvez eu esteja sendo precipitada, mas acho que não me importaria que Gavin fosse o meu homem ideal. Talvez, ele seja O Cara que me mandará a porta rosa ou algo assim... Prometo que quando eu tiver minhas conclusões formadas, venho te contar.
Beijos, Ally. ”
Termino de ler aquela página e, tirando o boné e colocando de lado, suspiro e bagunço meus cabelos. Eu sabia que não deveria me sentir enciumado pelo passado de Ally, mas era inevitável.
– Austin? – Fala Gavin, batendo na porta.
– Entra, Gavin. – Digo, encarando o diário que estava em minhas mãos.
– Ah, você o encontrou. – Comenta, assim que entra no quarto. – Ally me deu esse diário um dia antes do nosso casamento. Nunca tive coragem de ler.
Permaneço calado, sem olhar para Gavin. Ouço o homem se aproximar e se sentar na cadeira da escrivaninha. Sinto o médico me encarar e suspiro, incomodado. Eu ainda não tinha entendido o motivo de Ally querer que eu fosse até a casa de sua avó.
– Tudo bem? – Questiona Gavin, preocupado.
– Por que Ally quis que você me trouxesse aqui? – Pergunto, encarando Gavin.
– Eu te disse. Não faço ideia do motivo dela ter pedido que eu te trouxesse aqui. – Afirma, seriamente.
– Você está mentindo. – Digo, convicto. Eu não conhecia Gavin tão bem quanto Ally, mas algo em mim me dizia que o médico sabia o motivo de sua ex-noiva.
Gavin me encara, sem demonstra qualquer emoção, por algum tempo. O rapaz, de repente, se levanta e caminha até o guarda-roupa branco de Ally. Ele pega uma caixa preta com alguns corações brancos dentro do móvel e volta a se sentar na cadeira de rodinhas da escrivaninha.
– Você tem razão. – Sorri, parecendo satisfeito por eu ter notado. – Eu sei os motivos de você ter vindo aqui, mas não foi Ally que me pediu para que trouxesse aqui.
– Como assim? – Pergunto, surpreso.
– Eu menti para você. Ally não conversou com seu pai e não sabe que você está aqui. – Explica Gavin, encarando a caixa que estava em seu colo. – A verdade é que eu estava preocupado com o seu futuro e o de Ally. – O homem abre a caixa e pega uma foto. Ele encara a imagem por alguns segundos e sorri, nostálgico. – Eu não fazia ideia de como ajudá-los e, após conversar com a mãe de Ally, notei algo que não havia notado antes.
– E o que seria? – Questiono, curioso.
– Austin, você e Ally não estão prontos para um relacionamento agora, isso é fato. Entendo, também, que esteja chateado por isso. Ally me contou tudo e eu tive que concordar com ela. Vocês dois ainda estão muito machucados. – Fala, entregando a foto para mim. – Ally costumava dizer que essa porta era um sinal de boa sorte.
– Como assim? – Digo, sem entender, enquanto olhava para a foto. – O que a foto de uma porta cor de rosa tem a ver com isso?
– Essa porta foi a inspiração de Ally, por incrível que pareça. – Revela, rindo discretamente. – Quando ela tinha dezesseis anos, ela fez um teste para estagiar em um restaurante em Miami. Ally tinha que criar uma receita que demonstrasse suas habilidades para apresentar aos seus chefes. Foi então, que em um dia chuvoso, com medo dos trovões, Ally entrou em uma loja de decoração. A primeira peça do lugar que ela viu foi essa porta. Algo nessa porta a atraia. E, enquanto encarava a porta, Ally se esqueceu do seu medo de trovões e do desespero que sentia por faltar somente um dia para apresentar sua receita e não ter nada ideia do que fazer.
Gavin suspira e sorri. Pelo que Ally havia escrito em seu diário, Gavin e ela ainda não se conhecido. Notando minha confusão, o homem me encara por alguns minutos e parece se lembrar de algo.
– Ally me contou que foi encarando essa porta que sua inspiração veio e ela conseguiu criar uma receita que foi capaz de surpreender os donos do restaurante. Dois dias depois de ter se apresentado, Ally voltou na loja e foi de frente para essa porta que ela recebeu a notícia de que foi aceita em seu primeiro emprego em um restaurante. – Conta, pegando outra foto de dentro da caixa. Ele mostra a fotografia e nela exibia Ally ao lado de dois homens. Os três estavam vestidos com roupas típicas de cozinheiros. – Para muitos, isso foi apenas coincidência, mas para Ally, era muito mais que isso.
– Por que? – Pergunto, pegando a foto da mão de Gavin.
– Não sei ao certo. Ally nunca conseguiu me explicar direito. Ela continuou indo a essa loja, diversas vezes, apenas para admirar a porta cor-de-rosa por quase um ano. Justamente no dia em que começamos a namorar, Ally disse que tinha algo para me mostrar. Quando chegamos na loja, a porta tinha sido vendida minutos antes da nossa chegada. Ally ficou arrasada. – Responde, procurando alguma coisa dentro da caixa. – Naquela hora, achei que aquela preocupação toda com a porta era algo louco e infantil. Por que uma pessoa iria ter fascínio por portas? Mas, para Ally, aquela porta era seu amuleto da sorte. Acho que todo mundo tem um amuleto, então acabei aceitando a situação. Com o tempo, Ally superou a "perda", mas acho que a adolescente que amava admirar a porta ainda vive dentro dela.
– Eu conversava com um outdoor, então não é algo tão estranho para mim, Ally ter seu fascínio por uma porta. – Comento, fazendo Gavin ri, concordando.
– Ao menos vocês podem dizer que tem algo em comum: obsessão por coisas estranhas. – Fala, ainda rindo.
Após alguns instantes, Gavin para de ri e me entrega a caixa. Olho sem entender para o homem e a pego. Havia inúmeras fotos, livros de receitas e alguns objetos dentro da caixa, enfim, tudo que Ally amava estava registrado naquelas coisas.
– Por que está me mostrando isso? – Pergunto, olhando as fotos.
– Austin, eu sei que é difícil entender Ally. Não vou dizer que vai ser fácil superar tudo o que vocês passaram, mas você não pode desistir dela. Ally é muito insegura, apesar da personalidade forte. – Explica, sorrindo compreensivo. – A partir de agora, vocês irão enfrentar uma das piores lutas, mas precisam confiar um no outro. Façam o que estiver ao alcance de vocês para preservar esse sentimento tão intenso que vocês têm.
– Eu jamais desistiria de Ally. – Afirmo, firmemente.
– Eu fico feliz em escutar isso. – Confessa, com sinceridade. – Não importa quanto tempo passe, lembre-se que quando é para acontecer, não há como evitar. Acho que você já sabe que você é o cara que Ally sempre esperou.
Sorrio, concordando com Gavin. Não importava a maneira como encarasse minha vida, eu não conseguia me enxergar sem Ally. Desde que a conheci, tudo se tornou intenso, mudou drasticamente, mas nunca havia me sentindo tão vivo antes.
– Obrigado pela ajuda. – Agradeço, sorrindo. – Acho que não foi tão ruim assim ter me tornado amigo do ex-noivo da mulher que eu amo, no final das contas. – Gavin ri, concordando. – Bem, parece que isso pertence a você e a Ally. Obrigado por ter me dado a chance de conhecer um pouco a Ally. – Digo, estendendo a caixa e o diário para Gavin.
– Fique com o diário. Acho que você o merece bem mais do que eu. – Fala, pegando a caixa e me devolvendo o diário. – Cuide dele como se fosse a sua vida. – Adverte, encarando-me com seriedade, mas não demora muito a ri. – E, como sou uma pessoa legal, vou deixar você escolher três fotos da coleção de fotografias que ela tem.
– Mesmo? – Pergunto, surpreso. Gavin, sorri e confirma. Olho para todas as fotos e encontro uma onde ela estava com um lindo vestido vermelho e parecia estar arrumando o cabelo. – Quando foi isso?
Gavin se aproxima e olha para foto. Ele pensa por alguns segundos e sorri, nostálgico.
– Essa foto foi tirada no dia da nossa formatura. Ela estava muito animada para isso. Eu fui o par dela. Foi bem divertido. – Explica. – Gostou dessa?
– Sim. – Digo, admirando o lindo sorriso de Ally. – Eu quero ficar com ela.
– Tudo bem. – Diz, dando de ombros. – Você tem direito a mais duas.
Paro para observar as outras fotos. Ally, por algum motivo, ficava linda em todas as fotos, tornando uma tarefa quase impossível escolher somente três. Até que encontro uma onde ela estava com quatro crianças. Observo-a por alguns instantes e mostro para Gavin.
– Quem são essas crianças? – Pergunto, curioso.
– Ah, essas crianças são filhos dos donos do restaurante onde Ally foi gerente. Se eu não me engano a de blusa preta se chama Sarah, a de blusa azul é a Kimberly, a que está segurando o ursinho é a Julie e o menino é o Brian. Eles eram apaixonados por Ally e essa foto foi tirada no dia do aniversário de Brian. – Conta, sorrindo. – Ally sempre levou muito jeito com crianças. Tenho certeza que será uma boa mãe.
– Eu já decidi as três fotos que irei ficar. – Falo, sorrindo com confiança.
– Além da foto da formatura, quais você decidiu que irá levar consigo? – Pergunta Gavin, sem esconder a sua curiosidade.
– A foto dela com as crianças e a da porta rosa. – Revelo, parecendo pegar Gavin de surpresa.
– A foto da Ally com as crianças eu até posso entender, mas porque quer ficar com a foto da porta? – Questiono, pegando a caixa que eu estendia.
– Essa porta é uma importante lembrança de Ally. Irei procurar por uma, exatamente, igual a essa e no momento em que eu a encontrar, saberei que é a hora de Ally e eu ficarmos juntos. – Respondo a Gavin, fazendo o mesmo sorri com orgulho. – É uma promessa. Não importa quanto tempo irei demorar para encontrar essa porta. Eu irei até o inferno se for preciso. Assim como Ally confiava que a porta era seu amuleto da sorte, eu irei confiar.
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Continua...
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