Obsession
12 Capítulo 11 - Jealousy...
Notas iniciais
23 de Abril de 2013 – Miami
POV Austin
Seus olhos amendoados encavam-me com intensidade e insegurança. Como uma caça, Ally parecia me enxergar como um predador, pronto para ataca-la a qualquer momento.
E por mais que eu tentasse evitar, eu não conseguia parar de prestar atenção em cada detalhe de sua face. A boca carnuda e a pele macia como pêssego harmonizavam-se, de formar apetitosa, os grandes e calorosos olhos.
A vontade de tê-la novamente era surpreendente. Eu sentia uma atração por Ally que jamais sentir por ninguém antes. Nem mesmo Piper despertava em mim pensamentos tão pecaminosos quanto a morena a minha frente consegue.
A insanidade parecia querer me controlar e era por essa e outras que eu não sabia como agir ou o que pensar. A todo o momento tento lembrar que quem eu amo é Piper, mas meu corpo parece reagir ao contrário de minhas emoções. Eu não sei dizer o que sinto por Ally, no entanto, o desejo que tenho pela bela mulher deixa claro que não é apenas amizade.
“- Você está diferente, Austin. – comenta Brooke, sorrindo presunçosa. – Não tenho duvidas que essa mudança seja por causa de uma mulher.
– Você enlouqueceu. – digo, tentando desfaçar minha surpresa – Do que você está falando?
– Sabe, Austin, é muito fácil perceber quando uma mulher está mexendo com a cabeça de um homem. Você está distante, pensativo, mas existem momentos que sorri como uma criança e parece ter se lembrado de algo maravilhoso. – comenta, sentando a minha frente. Ela sorri caloroso. – Eu te conheço há muito tempo e posso garantir que você só agiu dessa forma, quando... Bem, quando... – Brooke parece ficar sem graça, relembrando que o assunto era proibido por mim.
– Quando Piper apareceu. – completo, suspirando. – Eu ainda a amo.
– Será mesmo, Austin? – pergunta a mulher, encarando-me com intensidade. – Será que Piper ainda é a mulher que atrapalha suas noites de sono e domina o seu coração? É muito fácil mentir para si mesmo por medo de se machucar. Se Piper é quem você ama, porque seus pensamentos estão voltados para outra pessoa?”.
As palavras de Brooke rondavam minha mente, ferinamente. E quanto mais eu olhava para Ally, mais eu sentia que precisava acabar com essa confusão dentro de mim.
– E sobre o que seria a nossa conversa? – pergunta cautelosamente.
– O que vamos fazer, Ally? – pergunto, surpreendo a garota.
– O que quer dizer com isso? – Ally perguntou, puxando-me para a lateral do restaurante, enquanto olhava para todos os lados, parecendo receosa em ser vista comigo.
E essa ação fez com que algo dentro de mim se remexesse. Ally não queria conversar sobre a nossa noite e menos ainda que alguém desconfiasse de nós. Nenhuma outra mulher agiu da maneira como ela estava agindo e eu não sabia o que pensar.
Estávamos próximos o suficiente para sentir sua respiração descompassada. O cheiro de seu perfume suave aguçava meus sentidos. Sua boca parecia, incrivelmente, convidativa e atraente. Meu corpo começava a aquecer em desejo.
E antes que ela dissesse mais alguma coisa, cerco a garota com meus braços ao redor de seu rosto. Ela me encarava de maneira confusa, mas eu via seu olhar sobre minha boca.
– Você está me enlouquecendo. – sussurro em seu ouvido, sentindo a garota estremecer.
– Austin, você precisa se afastar. – sussurra de volta, como se estivesse controlando suas ações. Seus olhos estavam mais escuros, imersos em desejo e o ar pareceu ficar quente.
– Por quê? – pergunto, aproximando meu rosto aos poucos.
– Porque estou prestes a fazer mais uma loucura. – diz e aquilo foi estopim.
Diminuo a distância entre nós, colando meus lábios sobre o da garota. Utilizando a parede do restaurante como apoio, imprenso Ally e agarro sua cintura com firmeza.
O beijo havia começado lento, mas alcançara o calor máximo em segundos. Ally colocou seus braços em torno de meu pescoço e passou as pernas em volta de meu quadril. Coloco minhas mãos em suas coxas e as aperto, sentindo a pele sedosa da região. Solto um suspiro em meio ao beijo, enquanto sinto suas pernas me apertarem ainda mais contra si. A insanidade nos consumia e a vontade de repeti a dose da noite anterior era demasiada.
Eu queria sucumbir a tentação, mas estávamos no beco do restaurante, a poucos metros de meus melhores amigos e sentindo as primeiras gotas da chuva que estava por vir.
No entanto, era difícil manter o controle quando Ally puxava seus cabelos e suspirava conforme íamos intensificando o beijo. O sabor morango de seus lábios e o gosto doce de sua boca fazia com que eu me perdesse naquela loucura.
A única coisa que foi capaz de nos parar foi o som de um carro estacionando em frente ao restaurante. Ally me olha assustada e parece recobrar a consciência. Soltando-se de mim, ela se afasta e olha para o lado, pensativa e eu não sabia o que dizer.
– Ally? Você está ai? – grita Cassidy, descendo do carro.
– Ao invés de ficar gritando, por que não entra? Não vê que a luz do restaurante está ligada? – repreende Dallas.
– Você é tão chato. – a loira reclama de maneira infantil, fazendo o moreno revirar os olhos.
Ally e eu encarávamos o casal, não sabendo se deveríamos ou não sair da escuridão em que estávamos. Olho para a morena ao meu lado e ela parecia assustada.
– E agora? – sussurra a garota, assustada. – Cassy não pode nos ver aqui.
– E qual o problema dela nos ver aqui? – pergunto, levantando uma das sobrancelhas. – Que eu saiba, não devemos satisfação de nossas vidas para ninguém.
– Não seja idiota. – responde Ally, ríspida. – Você sabe muito bem o motivo de não querer que Cassy nos veja aqui.
– Então é ai que vocês estão se escondendo? – pergunta Trish, aparecendo de repente, assustando-nos.
Ally prende um grito, levando as mãos a boca. A latina começa a ri de nossas caras de espanto e isso irrita a amiga. Com as bochechas coradas, cabelos bagunçados e pisando firme, Ally se aproxima de Trish e começa a sussurra com raiva.
– Você quer me matar do coração? – pergunta a garota, colocando a mão no peito. – Cassy está na frente do restaurante junto com Dallas. Se ela nos vê aqui, vai começar um interrogatório.
– O que vocês estão fazendo ai no escuro? – pergunta Dez, vindo dos fundos do restaurante. – Eu te procurei por toda parte, Ally.
– Hãn... É que eu... – Ally tenta se explicar, mas é interrompida por Cassy.
– Oi pessoal. – fala a garota, sorrindo e tendo ao seu lado um Dallas bem desconfiado.
– Resolveram fazer uma reunião no lado de fora do restaurante? – pergunta Dallas.
– Você tem razão, Dallas. É melhor a gente entrar. Daqui a pouco começa a chover. – digo, sem graça, recebendo um olhar malicioso de Trish, que apenas ri e puxa Ally e eu para dentro do Evan’s.
Os outros três parecem não entender nada do que estava acontecendo, por isso, permanecem quietos, enquanto nos acompanham. Assim que todos estavam sentados, Ally se levanta e vai a cozinha, dando a desculpa de que iria preparar um lanche.
No entanto, eu sabia que ela só resolveu ir fazer algumas guloseimas apenas para não ter que responder as perguntas de Dez, Cassidy e Dallas.
– O que vieram fazer aqui? – pergunta Trish a Cassy e Dallas.
A morena havia percebido o meu desconforto e resolveu iniciar a conversa, o que eu agradeci mentalmente. O trio, que me encarava com curiosidade, voltou sua atenção a Trish, que apenas deu um sorriso para os mesmos.
– Kira pediu que nos reuníssemos aqui. Acho que ela vai falar sobre os ensaios para o casamento. – explica Cassy, sorrindo.
– Mesmo? – pergunta Trish, surpresa. – Bela prima a que eu tenho. Ela não me disse nada sobre uma reunião.
– Nem sua prima lembra-se de você. – debocha Dez, rindo da garota.
Trish o encara com raiva e bate na cabeça do ruivo, fazendo o mesmo parar de ri. Com um sorriso irônico no rosto, ela se aproxima de Dez, o olhando de maneira assustadora.
– Fica quietinho ai, Dez. – fala Trish friamente. – Não se esqueça de que estamos em um restaurante. Para eu conseguir uma arma e cortar a sua garganta são questões de segundos.
– É impressionante o quanto vocês não conseguem ficar um dia sem um ameaçar o outro de morte. – fala Kira, entrando no restaurante, acompanhada do noivo.
– Boa noite, galera. – cumprimenta Elliot, rindo de Trish e Dez.
– Kira, Elliot, que bom que vocês chegaram. Achei que não fossem aparecer. Estamos esperando por vocês há tanto tempo. – dramatiza Cassy, fazendo a amiga revirar os olhos.
– Deixa de ser dramática, Cassy. – repreende Kira, enquanto abraça a loira.
– Estávamos esperando Manu e Prince, por isso acabamos enrolando. – explica Elliot, enquanto nos cumprimenta.
– Alguém falou meu nome? – Manu entra no restaurante, segurando uma bolsa para bebê cor de rosa e a cadeirinha de Diana, com um sorriso radiante.
Prince não demora a aparecer, segurando a filha, que dormia tranquilamente em seus braços. Assim que a esposa coloca a cadeirinha da filha no chão, ele coloca Diana da maneira mais cuidadosa possível e sorri para nós.
– Estávamos colocando a culpa de nossa demora em vocês. – explica Kira, brincando com o casal.
– Não temos culpa se Diana estava com fome. – diz Prince, levantando as mãos em sinal de rendição, enquanto ria.
– Que coisa feia. Estão culpando a minha princesinha? – fala Cassy, fazendo sinal de negação com a cabeça.
Manu ri da loira e depois a abraça apertado. Após o casal nos cumprimentar, eles se sentam ao nosso lado e Kira e Elliot os acompanham, retirando algumas cadeiras que estavam sobre as mesas.
– Onde está Ally? – pergunta Manu, procurando a garota com o olhar.
– Disse que ia preparar alguns lanchinhos para nós. – responde Dez. – Espero que não demore, pois estou morrendo de fome.
– Exagerado. – cantarola Ally, saindo da cozinha com uma bandeja repleta de guloseimas, uma jarra de suco e uma garrafa de café.
Ela coloca as coisas na mesa e logo é recebida por um forte abraço de Manu. A garota, assustada, corresponde a mulher, sorrindo para Prince, que lança uma piscadela para a morena.
– Eu já estava com saudades, Ally. Você prometeu ir me visitar. Pode me explicar o motivo de ainda não ter cumprido com a sua promessa? – repreende Manu, arrancando uma gargalhada de Ally.
– Caso tenha esquecido, eu estou cuidando de seu restaurante. – fala a morena, indo em direção a Kira, que a abraça. – Estou surpresa por ver todos aqui. Poderiam me explicar o que está acontecendo?
– Nós marcamos uma reunião aqui no Evan’s. Espero que não se incomode com a bagunça que provavelmente iremos fazer. – fala Elliot, sorrindo simpático.
– Não tenho nada contra isso. – afirma Ally. – Dez, se importa de me ajudar a pegar as coisas que estão faltando na cozinha?
– Seu pedido é uma ordem. – fala Dez, fazendo uma estúpida reverência.
Ela sorri e o puxa pelo braço, rindo das palhaçadas que o ruivo fazia. Eu não entendia o porquê, mas me incomodou saber que ele era o motivo do sorriso dela e tudo piora ao ver que seus olhos refletiam felicidade por está com ele.
– Ele gosta mesmo dela, não é? – comenta Elliot.
– Acho que nunca vi Dez tão inspirado em conquistar uma garota como agora. – comenta Cassidy, colocando a cabeça no ombro de Dallas. Ela suspira apaixonada e vejo o olhar carinhoso que o rapaz direciona a loira. – Será que ele está mesmo apaixonado por ela?
– Parece que sim. – fala Dallas. – Apesar de está feliz por ele, isso me preocupa um pouco.
– Por que está falando isso? – pergunta Trish.
– Ally não o vê assim. Ele vai ter que se esforçar muito para tê-la. – explica Dallas.
– Além de que a coitada foi abandonada no altar recentemente. – Fala Kira, pegando um pedaço de bolo que estava sobre a mesa. – Duvido que esteja pronta para começar um novo romance. Com certeza ela tem medo.
– Mas sabe, eu queria muito que Ally e Dez ficassem juntos. – diz Cassidy, sonhadora. – Ela merece ser feliz e aposto que Dez faria de tudo por ela.
– Não podemos tomar a decisão por Ally. – fala Trish. – E, não é por implicância e nem nada do tipo, mas acho que Dez não é o homem que fará Ally feliz. Você não acha, Austin?
“Não, Dez não é o cara certo para Ally” – minha mente grita, espantando-me.
Eu sempre apoiei Dez em seus relacionamentos, pois sei o quanto o ruivo leva a sério os assuntos do coração. Apesar de brincalhão e muitas vezes infantil, ele dedica-se o máximo a pessoa amada. Mas, por que eu sentia esse incomodo ao pensar neles juntos?
– Austin? Você está bem? – pergunta Prince, preocupado comigo.
Manu que se encontrava calada, observando a conversa, sorri maliciosa para mim, parecendo entender o que se passava em minha mente. Seu olhar sobre mim, parecia enxergar toda a minha confusão interna.
Ally volta a aparecer com outra bandeja, sendo acompanhada por Dez. Os dois sorriam e pareciam conversar sobre algo de grande interesse por parte dos dois.
– Eu vou ir ao banheiro. – digo, chamando a atenção de todos.
Caminho até o banheiro do restaurante, sem olhar para trás. Assim que entro no local, dirijo-me a pia e ligo a torneira, juntando uma quantidade de água em minhas mãos e jogando em meu rosto.
Observo minha imagem refletida no espelho e respiro fundo. Eu estava me sentindo sufocado e a minha cabeça parecia querer explodir. Eu queria que Dez ficasse longe de Ally e a minha ira era quase incontrolável.
– Parece que alguém está com ciúmes. – fala Elliot, entrando no banheiro junto com Dallas.
– Do que você está falando? – pergunto, olhando meu amigo pelo espelho.
– Qual foi a do surto? – pergunta Dallas. – Acha mesmo que não percebemos que você ficou furioso com a interação de Ally e Dez?
– Vocês estão loucos. – digo, pegando um pouco de papel e enxugando o rosto.
– Eu não acho isso. – afirma Elliot. – Não vai nos contar o que está acontecendo entre você e Ally?
Jogo o papel no lixo e levanto meu olhar. Dallas e Elliot me encaravam, curiosos pela minha resposta. Pondero contar sobre tudo o que aconteceu comigo de ontem para hoje.
– Não está acontecendo nada entre nós. – digo ríspido. Saio do banheiro e deixo a porta bater e volto ao encontro do resto do grupo, que conversavam baixo, enquanto saboreavam o lanche que Ally havia feito.
Em pouco tempo, Elliot e Dallas retornaram. Ally me encarava, com um brilho de preocupação em seus olhos. Desvio meu olhar para Cassidy e a loira alternava seu olhar entre Ally e eu. Com certeza, ela estava desconfiando de algo.
– Não vai nos contar o motivo da reunião, Kira? – pergunta Manu, sorrindo para a mulata.
– Claro. – concorda Kira, animada, sendo abraçada por Elliot, que beija a testa da futura esposa. – Elliot e eu estávamos conversando e achamos que seria legal uma apresentação nossa com nossos melhores amigos na hora da abertura da pista de dança. O que vocês acham disso?
– Dança? – indaga Dez, demonstrando não está muito feliz com a ideia.
– Eu amei a ideia. – fala Cassidy, batendo palminhas, sorrindo. – Tenho certeza que ficaria incrível.
– E como seria essa dança? – pergunto curioso.
– Os casais que escolhemos para serem padrinhos serão os mesmos que irão dançar. Não sabemos ao certo como será a dança, mas vamos contratar uma professora e ela montará uma coreografia. – explica Elliot. – Claro que não será uma coreografia difícil, afinal, nós não sabemos dançar.
– Quem disse que eu não sei dançar? – questiona Trish, fazendo-se de ofendida.
– Se imitar um orangotango é dançar, então você é melhor dançarina que eu conheço. – diz Dez, irônico.
– Nossa! Como você é engraçado. Hahaha. Eu estou morrendo de ri. – fala Trish, sarcástica.
– Por favor, parem de brigar pelo menos por cinco minutos. – repreende Kira. – Eu realmente preciso ter a certeza da parte de vocês para contratar a professora. O casamento ocorre em dois meses, pessoal. Colaborem, por favor.
– Nós aceitamos a ideia, Kira. – fala Manu, carinhosamente. – Não precisa se desesperar. Nós iremos ajudar vocês no que precisarem.
– Obrigada, Manu. – agradece a morena, recebendo em resposta um sorriso reconfortante.
Os detalhes dos ensaios foram debatidos. Ally e eu estávamos calados e distante do que ocorria ao nosso redor. A minha mente trabalhava em uma solução para resolver meus problemas com a morena. Eu precisava me afastar de Ally o mais breve possível. Algo dentro de mim, me dizia que ela está se tornando a minha perdição.
[...]
28 de Abril de 2013 – Miami
Os dias haviam se passado de maneira torturante. Desde o dia em que havíamos feito a reunião no Evan’s, eu não via Ally. Não era segredo para ninguém que eu estava a evitando e a Dez e isso causava muitos questionamentos por parte de nossos amigos. Apesar de detestar a sensação, eu não conseguia olhar para meu melhor amigo e não sentir raiva do mesmo. E o pior de tudo isso era saber que essa raiva era apenas ciúmes de Ally. Após a terceira noite sem dormir, pensando na garota e no ruivo juntos, resolvi aceitar que eu estava com ciúmes, mas isso só piorou o meu desespero. Afinal, se eu só me sentia atraído por Ally, por que eu tenho ciúmes da garota?
No entanto, não era apenas eu que estava evitando me aproximar. Ally parou de ir ao a qualquer lugar que eu poderia está. Nas ocasiões em que nossos amigos marcavam alguma reunião, ela dava uma desculpa qualquer para não aparecer.
O domingo chegou e trouxe com ele muita agitação por parte do casal de noivos. Hoje será o primeiro dia de ensaio e Kira parecia está prestes a enlouquecer. Insistia que Ally e eu não poderíamos continuar agindo assim, afinal, somos um casal de padrinhos e não conseguiríamos nos evitar para sempre.
Meu mau humor piorava a cada dia que se passava. A ideia de que me afastar da morena de lábios carnudos, pele macia e olhos quentes e atraentes iria fazer-me esquecê-la estava se mostrando cada vez mais utópica. Todas as noites, as imagens dos momentos em que passamos retornavam e me atormentavam.
Eu continuava a seguir minha vida como sempre fazia, trabalhando, divertindo-me com meus amigos e focando em me lembrar dos meus sentimentos por Piper, mas algo parecia está faltando.
O sentimento de estar incompleto nunca havia sido tão forte como no momento. Olhar para a imagem de Piper no outdoor já não parecia mais fazer sentido. Eu sentia como se tudo ao meu redor tivesse mudado e eu continuasse a insistir em algo em vão.
– Austin. – Mike entra em minha sala e me olha com curiosidade. – Você não deveria está no ensaio do casamento de Kira e Elliot?
– O ensaio é só na parte da tarde. – explico, sem olhar para o homem ao meu lado. Eu estava mais concentrado em encarar a imagem de Piper no protetor de tela do computador.
Mike suspira infeliz, como se estivesse cansado de algo. Ele se senta a minha frente e parece analisar cada traço meu. Desvio meu olhar do computador e passo a encarar o homem. Seus cabelos bagunçados, com alguns fios brancos se sobrepondo, e a barba por fazer lhe davam um ar de desleixado.
– Eu me pergunto o que sua mãe diria se o visse hoje, se ela estivesse viva. – diz o homem, demonstrando tristeza em seus olhos.
Mike foi casado com minha mãe por mais de dezoito anos. Apesar de não ser meu pai, o mesmo me criou como um filho e me ensinou tudo o que eu entendia sobre sua profissão. Ele permaneceu ao lado de minha mãe até o ultimo suspiro da mulher. Eu o admirava e o idolatrava como ninguém. Somente eu sei o quanto ele lutou para encontrar a cura para a aneurisma cerebral¹ de minha mãe, mas ela faleceu antes que tivesse a chance de realizar a cirurgia.
– Por que você está me dizendo isso? – pergunto frustrado. Mike e eu evitávamos falar sobre minha mãe. Sofremos muito com sua morte e durante muito tempo, compartilhamos o sentimento de luto de maneira deprimente. Foi difícil superar a morte da loira.
Mirela Moon era uma mulher batalhadora que jamais desistiu da vida, mesmo tendo inúmeros motivos para isso. Com um sorriso no rosto, ela enfrentava qualquer obstáculo que aparecesse. Sempre foi uma mãe cuidadosa e companheira, nunca deixando que me faltasse nada. Ela e meu pai se separaram quando eu ainda era um bebê e o homem acabou indo viver com uma nova família em um país que nunca me interessou saber. Quando eu tinha três anos, ela conheceu Mike e após alguns meses de namoro, eles se casaram.
– Eu estou tentando entender o que se passa na sua cabeça, Austin. – fala encarando-me com intensidade. – Ultimamente, você tem estado muito distraído. Nem mesmo quando Piper foi embora, você agiu assim. O que está acontecendo com você, filho?
– Pai. – digo, suspirando cansado. – Você, por acaso, já se sentiu como se nada em sua vida fizesse mais sentido?
Ele sorri compreensível e olha com carinho para a fotografia da falecida esposa que estava sobre minha mesa. Mike pareceu pensar um pouco em uma resposta e se vira para mim.
– Poderia me dizer o motivo da pergunta? – questiona, suavemente.
– Eu conheci uma pessoa e desde então minha vida tem sofrido mudanças tão rápidas e extremas que eu já não sei como agir. – explico, despejando minhas frustrações para o homem a minha frente.
– Entendo. – murmura Mike, sorrindo. – Talvez, Austin, esteja na hora de você seguir em frente. Sua obsessão por Piper já o destruiu demais, filho. Essa garota pode ser a resposta que você vem procurando desde a partida de Piper.
– Eu amo a Piper, pai. – murmuro, não tendo a mesma certeza que tinha há meses atrás.
– Já está na hora de você ser feliz, filho, – fala meu padrasto, levantando da cadeira e caminhando até a porta. – e não será um outdoor que trará sua felicidade.
Mike sai da sala e fecha a porta, deixando-me sem palavras. Eu não sabia o que pensar. Por mais que eu tentasse não dá ouvidos ao homem, eu sabia que ele estava certo. Mas, como eu poderia desistir de Piper depois de anos de sofrimento. Dia após dia cumprindo as promessas que fiz, pedindo a todas as divindades que a trouxessem de volta. Desistir de Piper seria desistir de todos os sonhos e planos que eu havia feito com ela.
Suspiro alto e bagunço meus cabelos, irritado pela minha fracassada vida amorosa. Nunca imaginei que um dia eu chegaria ao ponto de parecer uma adolescente dividida entre duas pessoas. Eu sou um homem de vinte e seis anos, que não consegue superar uma mulher que foi embora a cinco anos e está a ponto de enlouquecer por uma garota que conhece a pouco tempo.
Frustrado com o pensamento, resolvo que o melhor a fazer é ir para a praia, onde será realizado o ensaio. O estúdio não teria um grande movimento hoje e Mike e Brooke estavam na loja. Eles conseguem dá conta da clientela.
Recolho meus materiais e desligo o computador. Eu não voltaria para o estúdio, até porque a loja fechava após o almoço nos dias de domingo e eu não tenho a mínima ideia de quando o ensaio acabará.
– Já vai sair, Austin? – pergunta Brooke, após desligar o telefone.
– Sim. Até amanhã, Brooke. – digo, sorrindo para a mulher, recebendo apenas um sorriso em resposta.
Entro no carro e sigo em rumo ao local marcado. Ainda faltava um bom tempo para os ensaios iniciarem, mas eu não estava me importando. Aproveitaria o clima litorâneo para aliviar minha tensão. Talvez, sozinho, eu pudesse colocar meus pensamentos no lugar.
Não demoro a chegar a Miami Beach. O local estava tranquilo. Alguns casais passeavam e usufruíam do clima agradável que estava fazendo. Desci do carro e comecei a caminhar até mais próximo do mar. Tiro meus tênis e molho o pé, antes de sentar na areia.
O sol não estava muito quente e a praia estava silenciosa. Deito-me e coloco o braço sobre os olhos, enquanto relaxo ouvindo o barulho do mar, suspirando aliviado por ter um momento de paz.
– Austin? – e meu momento de paz teve fim com a chegada de Dez.
Suspiro frustrado. Levanto-me do chão e me sento, passando a encarar o rapaz. O ruivo estava sério e parecia chateado. Estranho a expressão de meu melhor amigo.
– Algum problema, Dez? – pergunto.
Ele ainda estava de pé e me encarava com um olhar enigmático. Pela primeira vez na vida, eu não sabia o que estava se passando na cabeça de Dez. Por fim, ele apenas se sentou ao meu lado e começou a olhar para o mar, como se refletisse sobre um assunto importante.
– Não. Nenhum problema. – afirma, ainda sem me olhar.
– Por que está tão sério? Isso não combina muito com você. – falo, fazendo o ruivo soltar um sorriso discreto.
– Eu só queria entender o motivo de meu melhor amigo ter me evitado a semana toda. – diz, surpreendendo-me.
– Eu não estou evitando você. – tento transmitir o máximo de certeza possível em minha voz.
– Não seja babaca! – repreende, lançando um olhar frio para mim. – Eu posso ser brincalhão e tudo mais, mas nunca fui burro. Conheço você muito bem para saber que você me quer distante. Só não entendo o motivo para isso.
– Você não entenderia. – digo, envergonhado pela minha atitude. Não poderia dizer a Dez que estava com raiva dele por causa de Ally. Isso seria loucura.
– Por que ao invés de tomar conclusões precipitadas, você não me conta a verdade? – fala irritado.
A chegada de Kira e Elliot me salva de uma provável discursão. O casal logo que nos ver, caminham em nossa direção. Ao chegarem ao nosso lado, os dois parecem não perceber o clima tenso que existia entre Dez e eu.
– Vejo que vocês estão tão animados quanto eu, afinal, chegaram mais cedo que o horário combinado. – comenta Kira, sorrindo.
– Não perderíamos isso por nada. – fala Dez, voltando a demonstrar a mesma personalidade energética de sempre. Mas eu sabia que isso era só fachada para a mágoa que ele estava de mim.
Aos poucos, os outros padrinhos vão chegando junto com a professora. Ally foi a última a chegar, mas continuava a me evitar, assim como estava mais calada que o normal. Dez ainda brincou com a garota, arrancando algumas risadas da mesma, mas nada que durasse por muito tempo.
– Muito bem, pessoal. Agora que já conheço todos vocês e sei um pouco do gosto musical de cada um, acho que já criei uma coreografia, mas preciso que todos se dediquem para que possamos pegar os passos com perfeição. – dita Ashley, a professora de dança. – Mas é claro que vocês devem se divertir também. Caso tenham alguma sugestão de passo ou algo assim, não tenham vergonha de falar. Bom, acho que já está na hora de começarmos. Peço que formem os pares enquanto procuro a música no meu celular.
Ally e eu nos encaramos por um tempo. Respirando fundo, a morena começa a andar em minha direção e, assim que fica de frente para mim, suspira cansada.
– Oi. – fala Ally, parecendo envergonhada.
– Oi. – falo, sem saber como agir em frente a garota. Havíamos nos evitado a semana inteira e, agora, não sabíamos o que dizer.
Sem dizer mais nada, ela se coloca ao meu lado e aguarda alguma instrução por parte de Ashley. Assim que a mulher pareceu encontrar a música que queria, ela começou a ensinar os passos. Por ser paciente e atenciosa, não foi difícil pegarmos os primeiros passos. Com o tempo, começamos a nos divertir com a dança e eu acabei me esquecendo do clima estranho entre Ally e eu.
– Muito bem pessoal. – elogia Ashley, parecendo feliz com o avanço do grupo. – Vocês pegaram os passos muito rápido. Mas, agora, que tal deixarmos as coisas um pouquinho mais complicadas? – desafia, sorrindo com malicia.
– E como seria deixar as coisas um pouquinho mais complicadas? – pergunta Prince, desconfiado.
– Os homens deverão levantar as mulheres e rodar com elas no alto. – explica, surpreendendo-nos. – Acham que conseguem isso?
– Não sei se isso é uma boa ideia. – fala Dez, sorrindo sem graça. – Do jeito que sou desastrado, posso acabar caindo.
– Não se preocupe. – acalma Ashley, rindo de Dez. – É normal vocês caírem nas primeiras vezes que tentarem o passo, mas logo vocês pegam a técnica.
E assim, começamos a fazer os passos anteriores, seguindo a orientação de Ashley. Conforme íamos aproximando do passo de levantar as mulheres, mais os homens ficavam tensos e isso fazia com que a coreografa risse ainda mais de nosso pavor.
E assim que chegou a hora do pulo, consigo pegar a garota e a rodar no alto, mas o meu erro foi olhar em seus olhos. Ally estava muito próxima de mim e a atração que eu temia que ocorresse, chegou de maneira avassaladora. Ao coloca-la no chão, a garota pisa em falso e puxando-me junto a si, acabamos os dois no chão. Seu rosto estava a poucos centímetros do meu e sua respiração estava tão descompassada quando a minha.
Nós continuávamos a nos encarar, ainda no chão, ignorando qualquer pessoa que estivesse próxima de nós. Seus olhos brilhavam e eu sentia seu coração bater forte, assim como o meu.
No entanto, uma silhueta longe do local em que estávamos chama a minha atenção. A pessoa nos encarava e, assim que foco meu olhar sobre a figura feminina, logo me assusto ao reconhecê-la. A garota que havia me abandonado a cincos anos estava a um pouco mais de dez metros de distância de mim e a única coisa que conseguia vir a minha mente era: Piper está de volta.
✻
Continua...
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