Obsession
18 Capítulo 17 - Happiness...
Notas iniciais
11 de Maio de 2013 – Miami
POV Austin
– Piper... – sussurro, sem acreditar que a mulher estava a nossa frente.
Ally se afasta de mim e me olha com apreensão e curiosidade. Piper nos observava com atenção e única coisa que eu conseguia fazer era encarar a loira de volta, ainda em choque.
– Austin, eu...eu... – Piper parecia ter muito a falar, mas estava claro a sua hesitação.
– Eu...eu vou voltar para a praia. – sussurra Ally, começando a andar na direção em que Piper estava.
Viro-me para a morena. Ally encarava o chão, impossibilitando que eu visse seus olhos. Ela estava com os punhos cerrados e seu corpo parecia incrivelmente tenso. Tento tocar em seu braço, mas ela se encolhe, parecendo temer que eu a machucasse.
Permaneço assustado, como um covarde, alternando o olhar entre Piper e Ally. Por mais que eu tentasse dizer alguma coisa, minha garganta parecia ter feito um nó.
De repente, a mulher que eu mais desejava ter ao meu lado levanta a cabeça. Nossos olhares se encontram e vejo meu coraçãoprecisarbrar ao notar a dor presente da imensidão âmbar dos olhos de Ally. Eu havia prometido a mim mesmo não fazê-la sofrer, mas, agora, mesmo sem ter feito nada, a culpa parecia pousar sobre mim.
Eu a observei ir embora e mesmo minha mente gritando para que ela não fosse, meu corpo continuava paralisado. Piper a observa e dá um meio sorriso quando a morena passa por si. Ally para ao lado da loira e sem a encarar, ela sussurra algo que surpreende minha ex-namorada, no entanto, a mulher não demora muito a seguir seu caminho.
– Austin...eu...- Piper suspira, frustrada e se aproxima de mim com cautela. – Será que podemos conversar?
– Não. Nós não podemos. – digo, recuperando-me do choque.
Piper me olha surpresa e não demoro a ver seus olhos brilharem em culpa. Suspiro, cansado e preocupado, temendo que Ally entendesse errado o que estava para acontecer. Observo a mulher por alguns instantes e percebo a saliência em sua barriga. Assusto-me com a constatação e ela parece notar para onde eu olhava, pois, instintivamente, leva a mão a barriga e a acaricia.
– Escute, Austin. Eu realmente gostaria de explicar tudo a você, mas acho que aquela garota está precisando de você mais do que eu. Vá atrás dela.
– O que você está fazendo aqui, Piper? – pergunto, friamente.
– Austin, eu sinto muito. – diz Piper com algumas lágrimas em seus olhos. – Eu sei que não existe perdão para o que eu fiz, mas...
– Se você sabe, então deveria ir embora. – falo, começando a andar em direção a pequena floresta. No entanto, quando estou próximo de desaparecer em meio as árvores, o choro doloroso da mulher chama minha atenção.
Paro de andar, ainda de costas para ela e minha mente começa a repassar tudo o que eu vivi e sofri, apenas esperando o dia em que ela voltaria a Miami e me procuraria. Eu não podia negar que ainda era possível sentir a dor do abandono pulsar em meu peito, mas durante dois anos, Piper foi aquela que esteve ao meu lado, me apoiando e me incentivando a realizar meu sonho de ser um fotógrafo. Ainda que eu estivesse sendo um idiota, eu sentia que não poderia simplesmente virar as costas para o meu passado e tentar esconder tudo o que aconteceu.
Suspiro, dando-me por vencido e volto a encarar a imensidão azul escuro que se perdia pelo horizonte. Piper havia controlado o choro e eu sentia o seu olhar intenso sobre mim, analisando-me com cautela. Fecho os olhos e respiro fundo, pegando o celular em meu bolso. Ainda que eu continuasse ali para ouvir as explicações de minha ex-namorada, a imagem de Ally indo embora me amedrontava. Eu precisava ter certeza de que ela estaria bem ou que ao menos não faria nenhuma bobagem.
Disco os números nos quais já havia decorado de tantas as vezes em que observei, em dúvida, sem saber se deveria ligar ou não. Levo o aparelho ao ouvido e espero, impacientemente, para que a pessoa do outro lado da linha atendesse, mas a cada “bipe” ouvido, mais meu coração se apertava. Eu precisava ouvir sua voz. Precisava de uma certeza de que quando eu enfrentasse o que estava por vir, eu teria os braços dela para me aconchegar.
– “Sua chamada está sendo encaminhada para caixa de mensagens…” – desligo o celular e tento mais uma vez. — “Sua chamada está sendo encaminhada...”
– Ela não está atendendo? – pergunta Piper, com preocupação, após ver a minha quarta tentativa de entrar em contato com Ally. – Austin, eu sinto muito se estou, mais uma vez, atrapalhando a sua vida. – diz após um pesaroso suspiro. Olho para Piper por alguns instantes e volto a tentar ligar para Ally, enquanto a loira começava a se aproximar de mim, no entanto, ainda com cautela. – Eu sei que você deve me odiar pelo o que eu fiz e você tem toda a razão sobre isso, mas eu realmente não poderia continuar com essa culpa me consumindo a cada dia.
– Culpa? Culpa pelo que? – questiono, irritado por Ally continuar a me ignorar. Seguro o celular com força e me viro bruscamente para Piper, ficando de frente para a mesma. – Por ter me abandonado ou por ter mentido para mim? Desculpa, eu ainda estou confuso. – continuo, irônico.
Piper fecha os olhos e respira fundo, apertando levemente a barriga. Observo a loira com atenção. Ela parecia mais pálida desde a última vez que nos vimos, mas ainda possuía o mesmo brilho intenso em seus olhos esmeraldinos. Seus cabelos estavam mais curtos e sua aparência deixava claro o cansaço, o que me preocupou um pouco.
– Eu sei que você tem todo o direito de me odiar, mas ao menos me dê uma chance de me explicar. – pede, suspirando, enquanto voltava a abrir os olhos. – Eu estou passando por uma gravidez difícil, Austin. É verdade que isso não é uma desculpa, mas eu realmente estou com medo do que vai acontecer.
– O que...? – balbucio, preocupado.
– Os médicos dizem que eu não sobreviva durante o parto ou, pior ainda, que Ellie não resista. – revela, deixando as lágrimas descerem com intensidade. Seu medo era visível aos soluços que escapavam de sua boca. – Você sabe o quanto eu sempre desejei ter filhos e agora que tenho a oportunidade, tudo o que os médicos me dizem é que eu não posso ser mãe.
– Piper... – sussurro, assustado.
– Eu...eu sinto muito pelo que fiz a você, Austin. Talvez esse seja o meu castigo por tudo que fiz a você. – fala, tentando controlar as lágrimas e os soluços. Ela levanta o olhar e me olha parecendo implorar por perdão. – Estou entre a vida e morte, sem saber se ao menos minha filha irá sobreviver e ainda carrego comigo a culpa de não ter tido coragem suficiente de olhar em seus olhos e dizer que não podia continuar com você...
– Por que você foi embora, Piper? Por que não me disse nada? – pergunto, com suavidade, preocupado com o estado da mulher. Ela soluça mais uma vez e fecha os olhos, abraçando a si mesma. Suspiro, cansado e a puxo para um abraço. – Fique calma. Se continuar assim, fará mal ao bebê.
Ela balança a cabeça e se afasta de mim, respirando profundamente. Após alguns instantes em silêncio, apenas acariciando a barriga, que aparentava ter cinco ou seis meses, Piper força um sorriso e suspira fundo. A loira limpa o rosto manchado pelas lágrimas e me olha com culpa.
– Lembra-se da primeira vez em que brigamos quando começamos a morar juntos? – pergunta, seriamente.
– Claro. – digo, confuso. – Ficamos alguns dias sem nos falarmos, mas não demoramos muito a fazer as pazes... Espera um pouco! Você foi embora por causa de uma briga que ocorreu dois meses antes de você ter me abandonado?
– Não. Não foi por isso. – ela sorri, discretamente. – Mas, você lembra o que eu te disse naquela noite em que fizemos as pazes?
“- Por que continua agindo assim? – grito, irritado. – Eu estou fazendo de tudo para fazer o nosso relacionamento dar certo e tudo o que recebo em troca são críticas.
– O que você quer que eu diga, Austin? – grita Piper, furiosa. – Eu te disse que não daria certo a gente morar junto. Nós somos completamente diferentes.
– E desde quando isso influenciou em nossas vidas durante esses quase dois anos de namoro? Me fala, Piper! Sempre fomos muito felizes e do dia para a noite você resolve mudar. O que está acontecendo com você? Eu pensei que você quisesse construir uma família...
– Eu ainda quero construir uma família. – grita, interrompendo-me.
– Então me fala qual é o seu problema, porque eu já não consigo mais te entender. – falo, passando a mão, nervosamente, pelos cabelos. – O que há de errado? Por que surtou daquele jeito?
– Eu...Eu não sei, ‘tá legal?! – diz, levando as mãos ao rosto.
– Olha, eu sei que tudo é muito novo para nós. – digo, aproximando-me da mulher e a abraçando com carinho. – Eu sei que está assustada. Estamos morando juntos tem apenas uma semana. Mas, eu estou aqui com você. Quero que sinta o mesmo que eu sinto quando olho para você. Segurança, amor, amizade, respeito, futuro... – continuo, apertando-a ainda mais contra mim. – Piper, eu quero construir uma família com você. Quero que confie em mim para enfrentar todos os nossos problemas ao seu lado. Então não precisa ficar na defensiva comigo. Eu não vou te machucar. Eu sei que não sou perfeito, mas estou dando o melhor de mim para te fazer a mulher mais feliz do mundo. Eu te amo, Piper.
Ela tira as mãos do rosto e me olha sem expressão. Por fim, ela corresponde ao abraço e me aperta como se estivesse temendo alguma coisa. Assusto-me com sua atitude, mas não digo nada, sabendo que ela precisava de um tempo para digerir tudo o que eu havia dito.
– Você não entende. – sussurra, apertando-me ainda mais. – Sou eu que posso fazer você sofrer. Eu não sou uma boa pessoa. Eu sou impulsiva e não sou boa com sentimentos. Estou sempre na defensiva por medo de me machucar e antes que eu perceba, afasto as pessoas que mais quero por perto. Eu sou uma covarde, Austin.
– Ei. – digo, afastando-a de mim. Pego em seu queixo e a obrigo a olhar em meus olhos. – Você não é covarde. Eu sei de todos os seus defeitos, amor, mas eu não me importo. Você sabe que eu adoro desafios. Eu me apaixonei por você, justamente por ser assim. Não quero que mude, apenas quero que confie em mim.
– Eu confio em você. – fala a loira, suspirando. – Mas, será que fomos realmente feitos um para o outro como você sempre me diz?
– Por que está me perguntando isso? – questiono, desconfiado.
– Eu só não...Eu não... Ah, esquece. – fala, parecendo fazer força para sorri.
– Piper...? – tento convencê-la a falar, mas a loira se afasta de mim e caminha até a janela.
– Me perdoe por ter quebrado a sua câmera. Amanhã eu comprarei outra. – sussurra, tristemente.
– Piper, o que há de errado com você? Por que está tão distante? – pergunto, preocupado.
– Nada. – fala, observando a grandiosa lua cheia. Ela se vira para mim e sorri, começando a caminhar para fora do quarto. – Eu vou tomar um banho. – ela pega sua toalha e quando estava fechando a porta, ouço-a dizer: — Será mesmo que seremos capazes de sermos felizes?”
– Em que momento? – questiono, seriamente.
– Eu te dei inúmeros motivos, tentando justificar o motivo de não darmos certo, mas em nenhum momento eu te disse a real verdade. – explica, com um sorriso nostálgico moldando seus lábios.
– O que quer dizer com isso?
Piper me olhar por alguns instantes e suspira, desviando o olhar para o mar. Ela continuou a encarar a paisagem por longos minutos parecer pronta para me contar tudo o que aconteceu.
– Austin, eu sempre guardei um segredo muito importante de você desde o dia em que nos conhecemos. – confessa, seriamente. — Não me orgulho disso, mas foi a forma que encontrei para tentar esquecer tudo o que aconteceu antes de te encontrar durante aquela tempestade.
– E o que seria? – incentivo, curioso.
– No dia em que nos conhecemos fazia um ano que eu havia me separado do homem que eu mais amei em minha vida. – conta, com tristeza em seus olhos. – Thomas havia descoberto que estava com Prosopagnosia e...e ele decidiu que o melhor para mim seria terminar comigo.
– O que é Prosopagnosia? – pergunto, confuso.
– É uma doença que afeta o sistema nervoso. Ela também é conhecida como cegueira facial e as pessoas que tem essa doença têm dificuldade em reconhecer os rostos de pessoas ao seu redor, chegando ao ponto de não saber mais quem é que é quem, nem a si mesmo. – explica, tristemente. – Ele não havia me contato sobre isso, apenas me disse que não poderíamos mais continuar juntos. Eu o amava, sabe? Amava mesmo. Meu futuro inteiro eu via ao seu lado e quando ele terminou comigo foi como se meu mundo tivesse acabado. Eu comecei a me afastar das pessoas de uma maneira que nem mesmo minha família aguentava viver comigo. Foi quando minha mãe decidiu que eu não poderia permanecer daquele jeito e me trouxe para Miami, na tentativa de me fazer esquecer Thomas e me dedicar mais a minha carreira de modelo. Fiz sucesso, conheci você e disse a mim mesma que não voltaria a falar no nome daquele que partiu meu coração. – ela sorri e pega em minhas mãos, apertando-as com força. – Austin, eu realmente gostava de você, mas não a ponto de amar como amei Thomas. Eu sabia que você era o mais próximo que eu teria da felicidade, pois ele e eu jamais viveríamos juntos, afinal, ele não me amava. Ao menos foi com essa certeza que vivi até um mês antes de ir embora.
– Como assim? – pergunto, soltando a minha mão da sua.
– A mãe de Thomas me procurou e me contou tudo o que havia acontecido e o motivo dele ter terminado comigo. Disse que ainda me amava e que sua doença estava se agravando cada vez mais. Ele já não conseguia mais reconhecer a si mesmo, no entanto, continuava a chamar meu nome, sempre que via uma mulher loira. – revela, fechando os olhos e demonstrando a angustia que sentia ao falar desse assunto. Ela volta a mostrar os orbes verdes e a se dedicar a acariciar sua barriga. – Eu me desesperei, é claro. Eu ainda o amava. Por mais que eu tentasse esquecê-lo, sempre tinha algo que me fazia lembrar de Thomas.
– Então foi por isso que alguns dias antes de você ir embora, você me perguntou...
– O que você faria se eu terminasse com você ou desaparecesse. – complementa Piper, concordando com a minha afirmação. – Sim, Austin, foi exatamente por isso. Eu tentei terminar com você, mas você insistia em me dizer que eu queria terminar apenas porque ainda tinha medo de me machucar.
– Eu sei. – digo, sentindo-me um idiota. Era um fato. Piper havia tentando terminar comigo, mas eu dizia a mim mesmo que isso era apenas a insegurança dela. Eu estava obcecado por uma felicidade que jamais teria.
– E quando eu soube por um amigo que você continuava a insistir nesse amor inexistente, eu comecei a me sentir mal. Você não merecia sofrer. Eu sempre acreditei que o que eu fiz foi o melhor para você. Foi a única e mais covarde forma de fazer com que a gente terminasse e que seguíssemos em frente. – fala Piper, aproximando-se novamente de mim ao perceber o quão atordoado eu estava. Ela leva sua mão direita ao meu rosto e acaricia, como uma mãe demonstrando seu amor ao filho. – Eu realmente me culpo e muito por tê-lo feito sofrer, Austin. Eu quero que você seja feliz. Você merece ser feliz. Eu sei que o pai de Cassidy ainda não tirou a minha foto do outdoor por sua causa. Vamos pôr um ponto final nessa história e iniciar uma nova, onde podemos nos dedicar aos nossos verdadeiros amores.
– Eu sou patético, não é? – afirmo, chateado comigo mesmo. – Durante anos eu fugi de algo que estava óbvio para todos. Quando você foi embora, eu sabia que não voltaria, mas continuei com a minha tola obsessão em idolatrá-la.
– Não, você não é patético. A única coisa que precisava era de um empurrãozinho para crescer e conhecer um mundo diferente do que você insistia em omitir. – fala Piper, rindo, enquanto me puxava para um abraço. Ouço-a suspirar, vagarosamente, voltando a ficar séria. – Desde a morte de sua mãe, Austin, você se fechou para o mundo. Mike e eu, assim como Dez, Elliot, Dallas, Kira, Prince, Manu e Cassidy vimos você se esconder cada vez mais em sua caverna. Você criou um mundo perfeito e todos nós entramos de cabeça nessa farsa na tentativa de fazer sua dor diminuir. Todos nós fingimos que estava tudo bem, quando sabíamos que tudo ia de mal a pior. – ela se afasta de mim e olha em meus olhos. – Mas agora, olhando para você, eu não o vejo mais como o garoto imaturo, inseguro e que temia enfrentar a realidade. Agora, olhando em seus olhos eu vejo um homem confiante e determinado, pronto para enfrentar seus medos e vencer qualquer desafio.
– Todos nós mudamos, Piper. – digo, sorrindo fracamente.
– Eu sei e estou muito feliz e orgulhosa por vocês. Ainda me sinto culpada e envergonhada por ter causado tanto sofrimento a todos, mas ao menos me alivia ver que estão conseguindo fazer suas vidas de maneira brilhante. – afirma a loira, com um sorriso sem graça.
– Essa mudança não é somente mérito nosso. – digo, caminhando para a margem do precipício que dava vista para o festival que ocorria a alguns metros de onde estávamos. Pego meu celular e tento discar mais uma vez para Ally, no entanto o mesmo que ocorreu nas outras vezes volta a acontecer.
– Aquela garota... – sussurra Piper, parecendo tentar se lembrar de algo importante. – Qual o nome dela?
– Ally Dawson. Por que? – questiono, voltando a encarar Piper.
– Ah, claro! A famosa cozinheira de Nova York. – responde Piper, batendo as mãos, como se tivesse desvendado um dos maiores segredos de todos os tempos. – Eu fui diversas vezes com Thomas no restaurante onde ela trabalhava. Lembro de tê-la visto algumas vezes por lá e sua foto em algumas revistas e jornais.
– Sim. Ela é uma excelente cozinheira. – digo, orgulhoso, enquanto sorrio ao lembrar do amor que a morena demonstra quando está cozinhando alguma coisa.
– E você está apaixonado por ela. – conclui Piper, sorrindo maliciosa.
– Sim. Perdidamente e loucamente apaixonado por aquela noiva demoníaca. Na verdade, eu a amo de uma maneira tão assustadora que às vezes é até difícil de entender como tudo isso aconteceu. – afirmo, suspirando derrotado. – E acredite, desde que ela chegou, não só o meu mundo como o de todos os meus amigos ficou de pernas para o ar. E o pior de tudo é que ela me enlouquece. Quando estamos prestes a ficar juntos, ela se afasta, mas ao mesmo tempo parece querer ficar perto. Ela diz que tem medo de se envolver e sofrer mais uma decepção amorosa. Eu já fiz tudo que estava ao meu alcance para fazê-la entender que eu realmente a amo, mas parece que ela não tem certeza do que sente por mim.
– Ela realmente te ama. – comenta Piper, sorrindo animada.
– Por que está dizendo isso? – pergunto, confuso.
– Quando ela passou por mim, disse que era bom eu não fazê-lo sofrer ou qualquer um dos amigos dela, porque vocês são os bens mais preciosos que ela possui e você é o único cara que foi capaz de fazê-la conhecer o céu e o inferno e realmente gostar disso. – explica Piper, sorrindo carinhosa. – O que você está esperando, Austin? Você não pode perder essa garota! Não vê que finalmente encontrou a mulher pela qual sempre procurou? Faça algo e não perca de vista de maneira alguma.
– Tarde demais para me dizer isso. – digo, sarcástico, enquanto tentava ligar mais uma vez para ela.
– Meu Deus, como você é lerdo! – reclama a loira, batendo a mão na própria testa. Ela puxa o meu celular da minha mão e começa a procurar um novo número. – Quem é a melhor amiga dela?
– Trish. – respondo, confuso. – Por que?
– É inacreditável como você não consegue ler nas entrelinhas. – diz, rindo de mim. Ela procura o número da latina em meu celular e assim que encontra, leva o aparelho ao ouvido. — Trish? Sim, sou eu, a Piper. – ela escuta por um tempo e fecha os olhos, como se estivesse levando a pior das broncas. – Eu sei, eu sei. Mereço a morte e todos os piores castigos do mundo, mas agora não é o momento para isso. Estamos passando por um caso de extrema urgência. – informa a loira, assumindo uma postura mais séria. – Escute, Austin precisa de um favor. Ally está chateada por eu ter aparecido e não quer atender o celular. Eu preciso que a encontre e assim que isso acontecer, ligue para o Austin. – Piper se vira para mim e dá uma piscadela, sorrindo animada. – Tudo bem. Certo. Muito obrigada. Eu sei que está fazendo isso pelo Austin. Não se preocupe, eu não vou mais atrapalhar a vida de vocês. Tudo bem. Obrigada.
– O que ela disse? – pergunto, assim que a loira desliga o aparelho e me entrega.
– Está furiosa comigo, deseja minha morte e perguntou como eu tinha coragem de aparecer depois de tudo o que eu fiz. Disse que se eu ousar ferir você ou a Ally, ela mesma acabará comigo. – explica, rindo. – Bem, eu no lugar dela faria a mesma coisa. – diz, com uma expressão de culpa.
– Eu te perdoo. – afirmo, lembrando que eu ainda não havia dito isso a loira. Ela me olha assustada e assim que percebe que eu não estava brincando, vejo as lágrimas se formarem mais uma vez em seus olhos e a mesma levar as mãos a boca, parecendo não acreditar.
– Isso é sério? – questiona, chorando e sorrindo, enquanto acaricia a barriga.
– Bem, o que você fez foi algo que me machucou profundamente e acredito que ainda tenho certa mágoa por isso, mas você também esteve ao meu lado quando minha mãe morreu e me ajudou a enfrentar todos os problemas que passei. E eu sou grato por isso. – digo, sorrindo para a loira. – Além disso, não quero ser culpado por seu estresse durante a gravidez. Ellie vai precisar que a mamãe fique tranquila e sobreviva ao parto.
– Obrigada, Austin. – sussurra, sorrindo agradecida. – Eu realmente não poderia morrer, sem ao menos me desculpar por tudo o que eu fiz.
– Você não vai morrer. – afirmo, limpando as lágrimas que escorriam pelo seu rosto alvo. – Você precisa viver por Ellie e por Thomas.
– Eu sei. – concorda, respirando profundamente e limpando o rosto mais uma vez.
– O que aconteceu quando você foi embora? – pergunto, com curiosidade.
– Voltei para Seattle e me encontrei com Thomas. Contei a ele que sua mãe havia me procurado e me contado toda a verdade. Ele ainda tentou me afastar, alegando que se ficássemos juntos, eu jamais poderia ser feliz, afinal, como ele poderia fazer isso sendo que a qualquer momento ele poderia não reconhecer a própria mulher? – relata, suspirando. – Foram longos dois anos tentando convencê-lo que não me importava a doença dele. Eu o amava ainda mais por saber que ele aguentou todo o sofrimento de se esquecer dos rostos das pessoas que amava a cada dia que se passava.
– Eu não consigo nem imaginar o que ele deve ter sentido com isso. – confesso, sentindo-me mal pelo homem.
– Sim. – suspira, tristemente. – Foi muito difícil para todos nós vê-lo chorar diversas vezes por não reconhecer os pais ou até mesmo a mim. Tudo foi muito assustador, mas aos poucos, fomos conseguindo lidar com a doença e com a ajuda de psicólogos, ele começou a aceitar melhor o seu estado. – Piper sorri, orgulhosa. – Thomas finalmente aceitou que eu não queria outra pessoa que não fosse ele e começamos a namorar. Seis meses depois, eu recebi uma oferta de emprego para trabalhar como garota propaganda de uma marca famosa de cosméticos em Nova York e com o apoio de Thomas, eu aceitei e nós dois nos mudamos para a cidade.
– Isso é incrível! – exclamo, feliz pela notícia.
– Sim, mas isso não durou muito tempo. – conta, sorrindo carinhosamente.
– Por que? – questiono, confuso.
– Thomas começou a ter algumas recaídas e eu não podia continuar fazendo tantas viagens como estava. Decidi que o melhor era desistir da carreira de modelo e me dedicar a outra profissão, que não me fizesse ficar longe de Thomas. – explica, não parecendo demonstrar arrependimento de sua escolha. – Ele ficou arrasado com a minha decisão. Não queria de maneira alguma que eu desistisse do meu sonho de criança por conta dele, mas no fim, eu mostrei ser ainda mais teimosa do que ele. – continua, rindo ao lembrar do passado. – No ano retrasado, eu abri uma loja de roupas e decidi que era hora de tomar mais um passo em minha vida: me casar e ser mãe. Thomas e eu já morávamos juntos e decidimos nos casar no civil primeiro e, quem saber depois de ter um filho, pensaríamos em nos casar na igreja.
Ela faz uma pausa e passa a encarar a imagem da praia. Seu olhar estava distante e seu silêncio revelava que algo de muito ruim aconteceu consigo durante esse tempo. Permaneço calado, aguardando pacientemente por sua resposta, enquanto pensava por onde Ally estaria naquele momento.
– Nos casamos e não poderíamos estar mais felizes do que naquele momento. Foi quando eu descobri que estava grávida. Deus! Thomas ficou tão feliz com a notícia de que seria pai que eu acabei amando ainda mais a ideia de ser mãe, no entanto no terceiro mês de gestação, eu tive um aborto natural e perdi o bebê. – conta, fechando os olhos, com comoção. – Eu acho que nunca senti tanta dor como quando recebi a notícia. Eu me senti uma inútil, um nada. – ela coloca os braços em torno de si e respira fundo, tentando controlar as emoções. – Após alguns meses, voltamos a tentar mais uma vez, mas de alguma forma, eu não conseguia engravidar. Thomas e eu passamos a fazer alguns exames para descobrir se tínhamos algum problema, no entanto, tudo constatava que estávamos bem e saudáveis. E depois de muitas e muitas tentativas, finalmente eu engravidei, mas logo no primeiro mês, tive um sangramento que quase me fez perder Ellie.
– Piper... – sussurro, inconformado com o tanto que a mulher sofreu.
– Fiquei alguns meses hospitalizada e descobri que minha gravidez seria de alto risco. Eu estava anêmica e com infecção urinária, além de ter alguns problemas de pressão. Os médicos recomendaram que eu tirasse o bebê, porque provavelmente não sobreviveríamos a gestação. – conta, olhando com tristeza para mim. – Eu fui totalmente contra e desde então eu e a bebê estamos nessa situação entre a vida e a morte. Estou grávida de seis meses, mas quase a ganhei duas vezes mês passado.
– Você não deveria estar em repouso? – pergunto, assustado.
– Com certeza. – afirma, rindo de meu choque. – Mas, não se preocupe, eu não vim sozinha e os médicos concordaram com a viagem, além disso Thomas e minha sogra estão na cidade. Eu contei a eles tudo o que ocorreu entre nós dois e os convenci a me deixar viajar à Miami para te pedir perdão. Claro que eles só permitiram quando eu concordei que eles viessem comigo.
– Onde eles estão? – digo, um pouco aliviado, mas ainda preocupado com o seu estado.
– Andando pelo festival. – fala, sorrindo. – Foi difícil convencê-los a me deixar vim sozinha.
– Agora que já conseguiu o perdão que tanto desejou, o que pretende fazer? – pergunto.
De repente, meu celular começa a tocar, assustando-me. Pego o aparelho do bolso e, quando estava prestes a atender, Piper puxa-o de minha mão e atende à ligação.
– Oi Trish. – fala, sorrindo confiante. – Onde vocês estão? – pergunta, animada. – Certo. Quero que enrole Ally por mais uma hora e depois a leve para o Evan’s. – pede, lançando um olhar convencido para mim. – Eu tenho um plano, mas vou precisar da ajuda de todos. Sim. Certo, certo. Não precisa fazer nada além de levá-la para o Evan’s. Pode deixar tudo comigo. Você está com alguém além de Ally? – ela ouve por alguns instantes a resposta de Trish e a loira parece surpresa com o que a latina disse. — Sério? Bem, isso não importa agora. Pede para o Dez encontrar conosco o mais rápido possível em frente à roda-gigante. Tudo bem. Nós estamos indo para lá. Certo. Até mais tarde. Beijos. Tchau.
Piper encerra a ligação, mexe por alguns minutos, freneticamente, em meu celular e o joga para mim. Observo-a com desconfiança e apreensão, enquanto a mesma mexia em seu celular, mandando mensagem para alguém.
– O que você está fazendo? – questiono, impaciente.
– Pedindo para o meu marido arrumar o que iremos precisar. – fala Piper, dando uma rápida olhada para mim e, logo em seguida, voltando a mexer no aparelho. Quando, enfim, terminar de enviar a mensagem, ela guarda o celular e sorri confiante para mim. – Vamos precisar de muitos reforços.
– Qual é o plano? – pergunto, ansioso.
– Juntar você e Ally. – diz, lançando um sorriso malicioso. – Hoje, Austin Moon, colocaremos um ponto final em nossos passados e escreveremos uma nova história para você. – ela suspira, aliviada e se vira em direção a paisagem da movimentada praia. Finalmente, um final feliz, não é mesmo?
✻
Continua...
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