A manhã em Tara surgiu envolta em uma névoa baixa e prateada, mas o sol logo começou a rasgar as nuvens, iluminando os jardins que Ester cuidara com tanto esmero por décadas. Marcos estava parado perto de uma roseira antiga, as mãos cruzadas nas costas, observando a linha do horizonte. Ele vestia uma túnica de linho escuro, mais leve que os trajes pesados da noite anterior, mas sua postura ainda era a de um homem que carregava o peso de Mônaco nos ombros.

​O som de passos rápidos sobre a grama úmida o fez girar o corpo por instinto. Anastácia vinha em sua direção. Ela não usava os trajes formais de princesa; estava com uma túnica de montaria ajustada e botas de couro, os cabelos presos em um rabo de cavalo alto que deixava seu rosto jovem e determinado totalmente à mostra.

​— Pensei que o Conde de Mônaco dormisse até mais tarde, aproveitando a seda dos lençóis reais — provocou ela, parando a poucos passos dele.

​Marcos arqueou uma sobrancelha, aquele meio sorriso sarcástico brincando em seus lábios.

— Velhos hábitos, pequena fera. O sol não espera pelos preguiçosos, nem em Mônaco, nem em Tara. O que faz acordada tão cedo? Planejando como sabotar a lista de pretendentes que seu pai mencionou ontem?

​Anastácia sentiu uma fisgada de irritação com a menção ao jantar, mas não recuou. Ela deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal dele.

— Planejando retomar o que foi interrompido dez anos atrás. Eu não passei uma década batendo em bonecos de palha para você voltar e me tratar como uma boneca de porcelana, Marcos.

​Ela estendeu a mão, apontando para o pátio de armas que ficava logo abaixo do jardim.

— Quero que os treinos voltem. Hoje. Agora.

​Marcos soltou uma risada curta, seca.

— Anastácia, você é uma mulher agora. Uma princesa com responsabilidades diplomáticas. O tempo de rolar na poeira e levar rasteiras passou. Luan ficaria furioso se eu te devolvesse para o castelo com um hematoma antes de uma visita oficial.

​— Meu pai confia na sua mão para me treinar, e eu confio na minha para te derrubar — ela rebateu, a voz baixando de tom, tornando-se mais intensa. — Ou será que o tempo no Sul te deixou mole? Está com medo de que a "pequena fera" tenha crescido demais para você controlar?

​O desafio brilhou nos olhos dela, uma mistura de audácia e algo mais profundo que Marcos não queria rotular. Ele a mediu de cima a baixo. Ela não era mais a criança que ele levantava pelo colarinho; era uma mulher cuja proximidade fazia o ar parecer mais denso.

​— Você não sabe o que está pedindo — Marcos disse, a voz subitamente grave. — Meus treinos não mudaram. Eu não poupo ninguém.

​— Ótimo — Anastácia sorriu, um sorriso que não chegou aos olhos, mas que carregava uma promessa perigosa. — Porque eu também não pretendo poupar você. Encontre-me no pátio em dez minutos. E não se atrase, Conde. Eu odeio esperar.

​Ela passou por ele, o ombro roçando propositalmente no dele, deixando para trás o rastro de seu perfume e o eco de um desafio que, ambos sabiam, ia muito além de espadas de madeira. Marcos ficou parado, observando-a se afastar, sentindo que estava prestes a entrar em um campo de batalha onde sua armadura de cinismo não teria serventia alguma.