O silêncio que se seguiu à fuga de Anastácia da biblioteca era mais pesado do que qualquer névoa que já descera sobre Tara. Marcos permanecia imóvel, as mãos apoiadas na mesa de carvalho, respirando o ar impregnado com o perfume dela, que agora parecia um veneno.

​No jardim adjacente, sob a luz de uma lua pálida, Dominic caminhava devagar. O Velho Leão, apesar dos oitenta anos e dos passos cansados, ainda possuía sentidos afinados pelo tempo. Ele ouviu o soluço abafado antes mesmo de ver o vulto carmesim colapsar junto à fonte de pedra.

​Dominic aproximou-se em silêncio e pousou a mão trémula sobre a cabeça da neta. Anastácia levantou o rosto, a máscara de rendas pendurada num dedo, os olhos vermelhos e a dignidade estilhaçada.

​— Ele destruiu-me, avô — sussurrou ela, com a voz embargada. — Ele tratou-me como se eu fosse um erro... como se eu fosse nada mais do que um fardo que ele foi obrigado a carregar.

​Dominic sentou-se com dificuldade no banco de pedra ao lado dela, soltando um longo suspiro.

​— Marcos é um homem que aprendeu a sobreviver através do controlo, pequena — disse o velho, a voz profunda e calma. — O que viste ali não foi o desprezo dele. Foi o pânico.

​— Ele humilhou-me — insistiu ela, apertando o vestido contra o peito. — Disse que eu lhe causava nojo.

​— Ele mentiu — afirmou Dominic, olhando para as janelas da biblioteca onde uma luz solitária ainda brilhava. — O Marcos passou a vida toda a tentar provar que não é o monstro que o gerou. Ele acha que, ao desejar-te, está a transformar-se no Silas. Ele escolheu a crueldade como uma armadura, porque sabe que se fosse gentil contigo por um segundo que fosse, a vontade de te proteger transformar-se-ia na vontade de te possuir.

​Anastácia olhou para o avô, confusa entre a dor e a revelação.

​— O sacrifício dele foi mais cruel do que o necessário, sim — continuou Dominic, limpando uma lágrima do rosto da neta com o polegar áspero. — Mas ele fê-lo para te salvar de uma vida de sombras e para salvar a si mesmo da própria consciência. Ele prefere que tu o odeies e sejas uma rainha respeitada, do que te amar e condenar-te ao exílio e à vergonha.

​— Eu não quero ser rainha se isso significar viver num palácio de gelo com ele a olhar-me como se eu fosse um estranho — soluçou ela.

​— O gelo dele vai rachar, Anastácia. Ninguém consegue lutar contra a própria alma para sempre — Dominic levantou-se, oferecendo o braço à neta. — Mas agora, deves levantar a cabeça. Se queres que ele te veja como a mulher que és, e não como a criança que ele desprezou, mostra-lhe que a tua força é maior do que a rejeição dele.

​Dominic conduziu-a de volta para dentro, mas antes de entrar, lançou um olhar sombrio para a biblioteca. Ele sabia que Marcos, naquele momento, sofria muito mais do que Anastácia, pois ela tinha a sua verdade, enquanto ele teria de viver abraçado a uma mentira para manter a honra da família Mackenzie intacta.