​A melancolia em Tara era palpável. Luan passava as horas em seu gabinete, cercado por mapas e relatórios que não conseguia ler. A ausência de Marcos era um vácuo que sugava a energia do castelo, e o desprezo nos olhos de Anastácia era uma tortura diária.

​A porta do gabinete abriu-se devagar. Dominic entrou, apoiado em seu cajado, seu rosto marcado pelos oitenta anos de batalhas e segredos. Ele não esperou pelo convite de Luan; sentou-se na poltrona à frente da mesa, observando o homem que ele criara como um filho.

​— Você está morrendo em vida, Luan — disse Dominic, a voz rouca e direta. — E está levando a sua filha junto.

​— Eu fiz o que era certo, Dominic — Luan respondeu, sem levantar os olhos. — Ele é o tio dela. A lei de Tara...

​— A lei de Tara foi escrita por homens que nunca amaram com o desespero de quem não tem nada — Dominic o interrompeu. — Você sabe, melhor do que ninguém, que o sangue de Marcos não é o nosso. Ele é filho de Silas. E Silas... Silas era um monstro, mas o amor de Marcos por Anastácia é a única coisa pura que aquela linhagem sombria já produziu.

​Luan finalmente olhou para ele, os olhos vermelhos de exaustão.

— Você está defendendo isso? Depois de tudo o que passamos para limpar o nome desta família?

​— Estou defendendo a verdade. Se você sufocar esse fogo, Anastácia se tornará uma rainha de gelo, e você terminará seus dias como um Rei solitário — Dominic estendeu a mão trêmula e depositou um envelope com o selo de Mônaco sobre a mesa. — Isso chegou agora há pouco. Não é de Marcos. É de Michael.

​Luan pegou a carta com hesitação. Ao abri-la, reconheceu a caligrafia firme do Príncipe de Mônaco.

​"Luan, meu irmão de alma,

​Escrevo com o coração pesado. Marcos chegou a Mônaco há dois dias, mas o homem que atravessou os portões não é o irmão que partiu de volta para Tara. Ele não come, não dorme e recusa-se a assumir qualquer dever do condado. Ele está definhando diante dos meus olhos, consumido por uma culpa que eu não consigo aliviar e por uma saudade que o está matando.

​Ele me contou o que aconteceu. Sei que, para você, parece uma traição. Mas vi meu irmão lutar contra esse sentimento por dez anos, preferindo o exílio à desonra. Se ele cedeu agora, foi porque a alma dele não suportava mais a mentira. Não deixe que a sombra de Silas destrua mais uma geração. Se Marcos morrer de tristeza aqui, a culpa será de um orgulho que nós, os Mackenzie, não deveríamos carregar."

​Luan terminou a leitura e deixou o papel cair sobre a mesa. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo estalar da lenha na lareira.

​— Michael nunca me escreveria assim se não fosse grave — sussurrou Luan, a voz falhando.

​— O dever salvou Tara no passado, Luan — disse Dominic, levantando-se com dificuldade. — Mas apenas o amor pode salvá-la agora. Marcos escolheu o sacrifício. Anastácia escolheu a revolta. Cabe a você escolher... se quer ser o juiz deles ou o pai que os trará de volta para casa.

​Dominic saiu, deixando Luan sozinho com o peso da carta e o eco das palavras de Michael.