​O castelo de Tara estava mergulhado em um silêncio sagrado após as cerimônias. A missão de Ester estava cumprida. Ela vira o círculo se fechar, a paz ser selada e o futuro de sua linhagem garantido no ventre de Anastácia. O peso dos anos, que ela carregara com tamanha elegância, agora parecia clamar pelo descanso.

​A Despedida da Matriarca

​Ester reuniu a família em seus aposentos, iluminados pelo brilho suave das velas e pelo aroma de ervas curativas que sempre a acompanhara. Ela abraçou Maya e Michael, beijando-os com uma ternura que dizia mais do que qualquer palavra; eles eram sua maior vitória. Olhou para Luan e Catarina, agradecendo-lhes com o olhar pela amizade e lealdade que sustentaram o reino.

​Por fim, ela segurou o rosto de Anastácia e apertou a mão de Marcos.

— O amor de vocês é a cura de Tara — sussurrou ela. — Cuidem um do outro e do pequeno que virá. Não tenham medo da escuridão, pois vocês agora são a luz.

​Com um último sorriso sereno, ela pediu para ficar sozinha.

​O Cântico da Alma

​Ester deitou-se em sua cama de dossel, com o corpo leve como uma folha de outono. Seus olhos se fixaram na grande pintura na parede oposta: o retrato de Dominic, jovem e imponente, com ela ao seu lado, as mãos dadas no início de sua jornada.

​Ela fechou os olhos e começou a entoar um cântico druida, uma melodia ancestral que aprendera nas florestas sagradas de sua juventude. Sua voz, embora fraca, carregava uma vibração que parecia fazer as paredes do quarto desaparecerem.

​“Pelas águas que correm e o vento que chama,

A alma se solta da carne que a ama.

O ciclo findou, a terra me espera,

Vou ao encontro da eterna primavera...”

​A cada nota, a respiração de Ester tornava-se mais lenta, e uma luz suave começou a emanar de seu peito. A dor física se dissolveu, as lembranças do luto evaporaram, e o mundo dos vivos tornou-se apenas um eco distante.

​Além do Véu

​Subitamente, Ester abriu os olhos, mas não estava mais nos aposentos de Tara. Ela estava em um jardim vasto, banhado por uma luz dourada que não vinha de nenhum sol, mas de todos os lugares ao mesmo tempo. As flores ao seu redor eram de cores que os olhos humanos nunca viram, e o ar tinha o perfume da terra molhada após a primeira chuva de verão.

​Ao longe, sob a sombra de uma árvore colossal, uma figura a aguardava.

​Era Dominic. Ele não era mais o velho cansado que partira dias antes; era o homem vibrante, de ombros largos e olhar ardente que cruzara seu caminho décadas atrás. Ele sorriu ao vê-la, estendendo a mão da mesma forma que fizera no dia em que a convidara para ser sua Rainha.

​— Você demorou, minha druida — disse ele, a voz profunda e quente como um abraço.

​Ester correu para ele, sentindo a juventude e a vitalidade retornarem ao seu ser. Ao tocar a mão dele, a união foi completa.

​— Eu precisava garantir que nossos filhos estivessem seguros, meu Leão — respondeu ela, sorrindo. — Mas agora... agora eu sou apenas sua.

​Eles caminharam juntos, de mãos dadas, para dentro da luz do jardim eterno, deixando para trás o reino de Tara, mas deixando nele o exemplo de um amor que nem a morte ousou separar.

​No castelo, o silêncio que se seguiu ao fim do cântico de Ester foi a confirmação de que a Grande Druida havia partido. Não havia gritos desta vez; apenas uma profunda e solene paz que desceu sobre a família, sabendo que os dois, finalmente, estavam juntos outra vez.