​Seis meses se passaram desde que o silêncio final de Ester preencheu o castelo. Tara não era mais o mesmo reino; o luto transformara-se em uma reverência profunda, e a ausência dos patriarcas fora preenchida por uma nova energia. A primavera florescia com uma intensidade rara, cobrindo as colinas de verde e as encostas de flores silvestres.

​Pela primeira vez, Anastácia cruzava os jardins do palácio em direção às Criptas Reais não para chorar, mas para apresentar o futuro. Em seus braços, envolto em mantas de linho branco e bordados dourados, estava o pequeno Dominic Mackenzie.

​No Santuário da Memória

​A cripta estava fresca e iluminada por tochas que Marcos fizera questão de manter sempre acesas. Anastácia caminhou até o sarcófago duplo, onde as figuras de Dominic e Ester repousavam esculpidas em mármore, de mãos dadas, como estiveram em vida e no jardim eterno.

​Marcos caminhava ao lado dela, com a mão pousada protetoramente em suas costas. O Conde de Mônaco agora exalava uma paz que antes parecia impossível; a paternidade e o perdão de Luan haviam curado suas cicatrizes mais profundas.

​— Olhe para eles, meu pequeno — sussurrou Anastácia, aproximando o bebê das estátuas. — Aqui descansam os gigantes sobre cujos ombros você caminhará.

​O bebê Dominic, que possuía os olhos curiosos de Ester e o maxilar decidido de Marcos, soltou um pequeno balbucio, agitando as mãos gorduchas no ar.

​— Ele tem o olhar dele, não tem? — comentou Marcos, a voz carregada de uma emoção contida. — Aquela forma de observar tudo, como se estivesse calculando o próximo movimento.

​— Ele tem a alma de ambos — respondeu Anastácia. Ela sentou-se no banco de pedra diante do sarcófago e começou a falar, como se os avós pudessem ouvi-la através das camadas de tempo e pedra. — Vovó, o boticário está cheio de vida. Maya e eu estamos organizando as receitas que você deixou. O reino está em paz. Papai e Michael assinaram o tratado de comércio permanente ontem... e eles não brigaram nem uma vez.

​Marcos sorriu, encostando a cabeça na de Anastácia.

— Luan está um avô insuportável — brincou ele. — Ele já mandou forjar uma pequena espada de madeira e passa horas discutindo com Michael sobre qual dos dois vai ensinar o menino a montar primeiro.

​O Legado Vivo

​Anastácia olhou para o filho, que agora dormia serenamente. Ela sentia a presença de Dominic e Ester ali, não como fantasmas, mas como uma fundação sólida. O pecado de Silas fora apagado pela honra de Marcos; a dor de Ester fora redimida pelo amor de Dominic. O ciclo de sombras que assombrara a linhagem Mackenzie fora finalmente quebrado.

​— Nós conseguimos, Marcos — disse ela, baixinho. — Eles lutaram para que nós pudéssemos estar aqui, sem máscaras e sem segredos.

​— E nós lutaremos para que ele nunca precise carregar o peso que carregamos — prometeu Marcos, beijando a testa da esposa e depois a do filho.

​Eles ficaram ali em silêncio por um longo tempo, sentindo a paz da cripta. Do lado de fora, o sol de Tara brilhava intensamente sobre um reino que não temia mais o seu passado. O Leão e a Druida haviam partido, mas em cada batida do coração do pequeno Dominic, em cada lei justa de Luan e em cada olhar apaixonado de Anastácia e Marcos, eles permaneciam imortais.