Obsessão

2 Capítulo 2


2º CAPÍTULO

CENA 3

20 anos se passaram.

Integrantes da cena: Rita, Isabella, Maria e Ronaldo.

Local: Interior da Residência de Marco Antônio.

Rita: (andando de um lado para o outro) Onde está o Ronaldo? Faz uma hora que liguei pra ele vir aqui falar comigo, e até agora ele não chega...

Isabella: (entra falado) Que Ronaldo? O Fenômeno?!

Rita: Não, minha filha. É um amigo da mamãe.

Isabella: (imitando a mãe) “É um amigo da mamãe”. To sabendo, hein mãesinha.

Rita: Isabella, não amole sua mãe. Vá pra lá pra dentro, que mamãe precisa resolver questões importantes com esse amigo dela.

Isabella: (bufando) Tá bom, eu vou deixar o casalsinho a sós.

Rita: Isabella, não fale assim da sua mãe.

Isabella sai, e a campainha toca.

Rita: Ah, é você, Ronaldo. Demorou muito a vir, o que aconteceu?

Ronaldo: Estava vendo o jogo do Corinthians na hora que você me ligou. Até acabar, ir em casa, pegar o carro e vir até aqui, demorou esse tempo todo.

Rita: O que importa é que você está aqui. Vamos, sente-se, temos muito que conversar.

Maria aparece na porta, limpando algo na parte de trás do recinto, e não é percebida por Ronaldo e Rita:

Ronaldo: É uma situação delicada, Rita. Depois daquele incidente em sua casa, ficou provado que a Senhora não tem nada a ver com o assassinato de seu marido.

Rita: Apesar de nós dois sabermos que fui eu quem o matei.

Nessa hora, Maria se esconde atrás da porta.

Ronaldo: Mas isso são águas passadas, você me chamou aqui para o que, exatamente?

Rita: Olha, como você sabe, o testamento diz que sou tutora legal da minha filha até ela completar 21 anos, e que após o término desses anos, ela deterá toda a herança deixada pelo suposto pai.

Ronaldo: Sim, é essa a situação atual. Mas o que você pretende realmente fazer?

Rita: Eu quero esse dinheiro de qualquer jeito, e você sabe disso.

Ronaldo: É uma situação delicada, Rita, pense...

Rita: Como podem haver situações complicadas?

Ronaldo: Pense bem nisso, Rita. Para obter o dinheiro, sua filha teria que morrer, e ficar provado que você não teve nada a ver com essa morte.

Rita: Ótima ideia que você me deu, Ronaldo.

Ronaldo: Eu não te dei ideia nenhuma, Rita. Alto lá, essa é a lei.

Rita: Foi essa lei que me fez ter essa brilhante ideia.

Ronaldo: Pense nas consequências, Rita. Se a polícia descobre que foi você que matou sua própria filha?

Rita: Mas na minha cabeça, as idéias estão todas organizadas. Vai ser o crime perfeito.

Ronaldo: Então eu quero saber exatamente como será esse seu plano maravilhoso.

Rita: (animada) Daqui a duas semana é a festa de aniversário de 21 da minha filha, e todos sabemos o que acontecerá se ela completar 21 anos.

Ronaldo: Ela toma posse da herança, e você fica só na saudade (ri)

Rita: Muito engraçado, Ronaldo. Vamos ao que interessa.

Ronaldo: Sim, você estava falando do seu plano.

Rita: Ah, é mesmo. Na véspera do aniversário de 21 anos da minha filha, eu a jogaria da janela, pra ela cair de cabeça, e a herança ficaria toda pra mim.

Ronaldo: Pense bem nisso que você falou. Como você pode falar com tanta naturalidade em matar sua própria filha desse jeito, e às vésperas do aniversário dela?

Rita: Não compreendi bem sua colocação.

Ronaldo: Imagine, se a sua filha morre na véspera do aniversário de 21 anos, sendo que ela possui uma herança bilhonária, e que essa herança iria pra você em caso da morte dela?

Rita: Isso é uma coisa a se pensar. É pra isso que servem os amigos advogados. Eu nunca teria pensado numa coisa dessas.

Ronaldo: Mas não fique tão animadinha assim, Rita. Não vai ser fácil, isso eu posso lhe garantir.

Rita: Sim, eu compreendo que a situação é bem complicada.

Ronaldo: Complicada mesmo.

Rita: Mas o que então que eu devo fazer, Ronaldo?

Ronaldo: Você pode fazer isso com uma semana de antecedência, já que você adiou tanto assim, vai ser melhor fazer isso.

Rita: Realmente, na véspera ficaria muito na cara. É por isso que eu adoro a sua capacidade de arquitetar planos.

Ronaldo: Não me envolva totalmente nisso.

Rita: Você é tão culpado quanto eu, e você sabe disso.

Ronaldo: Pior que sei.

Rita: Então, não se sinta culpado, siga caminhando e cantando e seguindo a canção.

Ronaldo: Pois bem, o papo está muito bom, mas eu tenho que ir para o trabalho.

Rita: Mas já? Ainda temos muito que conversar.

Ronaldo: O trabalho me espera, Rita. Eu preciso realmente ir ao trabalho, foi ótima e produtiva essa nossa conversinha.

Rita: Foi sim, foi bem proveitosa também.

Ronaldo: Até a próxima, Rita.

Rita: Até, Ronaldo.

Ronaldo sai.

Rita: (pensando alto) Finalmente, a hora de cartada final, está se aproximando.

Maria, que estava escondida, entra.

Maria: Cartada final, Dona Rita?

Rita: Sim, Maria, igual jogo de baralho.

Maria: Eu sei como é jogo de baralho. Sou pobre, mas não sou burra.

Rita: Nossa. Calma. Estava apenas comentando.

Maria: Tudo bem. Quem era o rapaz que estava aqui?

Rita: Você é bem encherida, viu.

Maria: Curiosidade, só isso, Dona Rita.

Rita: Ah, sem problemas.

Maria: Mas você acha que eu não sei, não é?

Rita: (espantada) Sabe o quê, criatura?

Maria: Do seu plano com o advogado ali, pra matar sua própria filha.

Rita: Pirou?

Maria: Não, eu estou falando muito sério.

Rita: (dá uma risada forçada) Você é hilária, já pensou em trabalhar como humorista?

Maria: Acho que você é que precisa de óleo de peroba pra passar nessa cara de pau.

Rita: Olha lá como fala.

Maria: Eu acho bom a Senhora tomar cuidado quando falar comigo.

Rita: (ironicamente) Ui, to morrendo de medo

Maria: Pois passe a ter medo, porque eu posso ser essa empregada medíocre, mas eu tenho inteligência.

Rita: Oh, agora ela é inteligente.

Maria: Acho bom medir suas palavras comigo, Dona Rita. Ou eu posso dar o testemunho à polícia contra a Senhora.

Rita: E em quem você acha que eles vão acreditar, em mim, ou em você?

Maria: Eu posso ser bem persuasiva, Dona Rita. Posso ser uma mosca na sua sopa.

Rita: Sinceramente, eu não estou nem ligando a mínima.

Maria: (pega o telefone celular, e ameaça discar) E se eu telefonar pra polícia?

Rita: Não ousaria.

Maria: Experimenta.

Rita: (desesperada) Não, não faça isso, pelo amor de Deus!

Maria: Então comece a me tratar como gente, pra começar, Dona Rita.

Rita: Tá, tudo bem, tudo o que você quiser, mas só não me denuncie (sai correndo)

Maria: (pensando alto) Ela acha que é esperta, mas na verdade, ela não é não... Ah, ela não é mesmo.

FIM DA CENA 3

FIM DO 2º CAPÍTULO