Observe-me

1 Capítulo único


Fazia já bastante tempo que ela o observava pela frecha da porta semi aberta, o raio de luz vinda da lâmpada do quarto iluminando parte de seu pequeno corpo. Dentro, três garotos da idade dela riam. Três garotos, porém apenas uma risada ecoava por seus ouvidos e mexia com algo dentro dela. Um loiro, o dobro do tamanho dos outros dois meninos, o cabelo liso caindo sobre seus olhos. Ele era lindo, sua risada era linda. Ela o via, quase todos os dias, almoçando e jantando em sua casa, na companhia do irmão da menina e mais um garoto esquisito. Sorria tímida quando seus olhos encontravam o encarar azul claro do menino, se deixava estremecer quando o olhar já não mais residia em sua silhueta. Eram apenas crianças, apenas dez inocentes anos, e mesmo assim a paixão mostrava seus primeiros sinais no olhar castanho da pequena. Nas tardes ensolaradas sentava nas escadinhas da varanda, observando o alto jogar bola. Nas noites chuvosas sentava na escadaria da casa, observando o loiro jogar videogame na sala. Seu irmão, toda vez que encontrava o olhar distraído da pequena, a reprimia. Dizia que o amigo não prestava, dizia não ser o tipo de pessoa dela.

Porém, o loiro era o único tipo de pessoa dela.

Fazia já bastante tempo que ela o observava do outro lado do corredor, mexendo nos livros de seu armário, os braços fortes e marcados de veias ressaltadas. Mais dois garotos o abordavam, rindo e fazendo o loiro rir junto. Porém, a única gargalhada que ela conseguia ouvir era a do alto. Ela o via, todos os dias, caminhando pelo corredor com seu irmão e mais um garoto esquisito. O andar gracioso, quase como uma valsa, mesmo com o tamanho do garoto. O único outro exemplo tão alto quanto o loiro era o seu namorado, desengonçado e torto. Ela não o queria, ela não queria ninguém. Ela só tinha um tipo.

- Essa segunda é a nossa viagem para as faculdades. FINALMENTE, LIVRES — fala seu irmão, animado. Porém, a única coisa que tinha em mente era que só restavam quatro dias para ela nunca mais ver o loiro. Quatro dias, e os eternos desejos de uma paixonite juvenil seriam passado.

Porém, nunca seriam experimentados.

Ele bebia, afinal, aquela sexta-feira era para se despedir do mundo que conheciam. Era uma sexta para se despedirem do mundo que conheciam, era a sua última noite como adolescentes. E ela passava essa noite com o rosto contra uma porta semi-aberta, o quarto escuro. Sua mente se guiava pelos sons que escutava, os gritos pelo nome que ela murmurava em seu sono, a fricção de peles ecoando por sua cabeça. As lágrimas quentes escorriam por suas bochechas, a vergonha de estar sentindo inveja, a vontade de morrer, a vergonha de ter a mão pequena entre as coxas fartas, imaginando os sons como vindos de seus lábios, os movimentos brutos e os beijos quentes do loiro sendo só dela.

Fazia já bastante tempo que ela não mais o observava. Tinha a sua família, as suas crianças, seu emprego e sua vida. Não mais passava as noites pensando em seus cabelos desarrumados, não mais murmurava seu nome em seus sonhos mais distantes. A paixonite juvenil já lhe era um passado distante, perdida entre as memórias da sua vida.

Porém, o loiro era o único tipo de pessoa dela.

Notas finais
Para quem não percebeu: ela é uma psicopata, stalker e sociopata. Espero que tenham gostado da one shot.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!