Observações

1 Minhas observações. A vida adulta


Notas iniciais
Suellen Pavez, 2013

Você nunca reparou porque estava preocupado demais com o Brasileirão (e com o terceiro lugar do Corinthians) ou porque tava comentando sobre a novela das 8, mas os adultos são bem estranhos. Aquela foi a hora que caiu a ficha. Você estava sentado na mesinha daquele lugar no centro da cidade, com aquelas tradicionais luzes em tons amarronzados, aquele barzinho típico pico de adulto de happy hour em plena sexta feira, se perguntando porque estava por lá(isso aí eu deixo a seu critério imaginar, caro leitor) e você repara em um moça sentada um pouco a sua frente. Ela estava conversando com uma amiga que havia sentado ao seu lado mas o resto da mesa não estava ocupada. Estavam claramente esperando mais amigos chegarem ou estavam tão desesperadas ao ponto de reservarem lugares para homens atirados se sentarem durante a noite, mas esse não é a questão...

Elas estavam vestindo roupas de escritório. Não estavam feias mas isso só demonstrava que elas vieram correndo do trabalho para o barzinho e como se não bastasse, estavam falando de trabalho. "Nossa, porque o meu chefe estava ninja hoje!" "Eu estou tão preocupada porque não terminei os relatórios de hoje. Qualquer coisa eu passo o fim de semana terminando..." E você repara elas carcando um pouco na bebida. Ai você olha para o lado e vê um homem de mais ou menos uns 35 anos conversando com uma menina de, no máximo, 19. Eles estavam gostando bastante do papo e pareciam bem íntimos se você olhasse por debaixo da mesa. Só que ele usava uma aliança bem grande e ela, no máximo, seu anel de presente de debutante.Você reparou que ela era uma amantezinha quando a mulher dele ligou toda furiosa e você o pode ouvir explicando que o sistema da empresa deu pau e ele vai se atrasar pra chegar em casa. Tentou achar algum outro adulto entretido naquele lugar mas qualquer mesa que você observava estava cheia de gente preocupada com o trabalho, gente bebendo, rindo das poucas histórias engraçadas que estavam vivendo ou estavam se relembrando da adolescencia. Aí você começou a se lembrar de quanto o seu pai trabalha por semana e que uma simples cervejinha no fim de semana pareçe ser o paraíso. De como os adultos prezam muito mais uma noite de sono bem dormida do que uma música eletronica bem alta ou preferem sair para convesar bla bla bla do que pra um role muito louco para um lugar x, com o primo mais velho daquele seu amigo porra louca que está levando cervejas, Vodka e Doritos. Eles não tem aquele senso de humor e não se deslumbram com muita coisa que não envolva sexo ou, para os mais velhos, comida. Quando foi que viu os seus pais se beijando apaixonadamente de língua pela última vez?(Eca, é horrível pensar isso!) É raro você ver uma mulher adulta andando por aí com uma flor no cabelo ou um homem(normal) sentado de pernas cruzadas num banquinho da praça. O ponto é que: As pessoas vão perdendo a graça. Os adultos passam a se preocupar com tantas coisas, enchem suas cabeças de problemas e esquecem de viver a vida de verdade. Você começa a reparar no que te faz se sentir tão... Você mesmo. Os pequenos atos como colocar os pés no console do carro quando sentar no banco da frente, comer um pacote inteiro de Negresco, rir e decorar a música de abertura do Bob Esponja (Vocês estão prontas crianças? Estamos capitão! Eu não ouvi direito.....) passar a noite inteira acordada falando com 10 pessoas no msn, passar tardes falando merda na casa de seu melhor amigo, tirar mil fotos em frente ao espelho, se iludir e se revoltar com a política do Brasil, ficar conversando e mandando bilhetes na aula da Maria Creusa, 'estudar' a tarde na escola interia com o pessoal, ouvir música no último volume do fone, ficar twittando besteiras, fazer coisas loucas que vem à cabeça... Ufa, preciso recuperar o folego. Tudo isso te fazer se sentir jovem, você mesmo. Aí você olha para os adultos com uma certa pena. Eles não tem tempo para nada! Depois de trabalhar feito loucos, o que eles mais querem fazer quando chegam em casa é descansar ou preparar uma boa comida ou ler os e-mails, enfim, só coisa chata. O raro tempo que eles tem são preenchidos por aniversários infantis ou comemorações com o pessoal do trabalho. Claro que existem excessões. Eu, por exemplo, caro leitor, quero me tornar uma adulta muito louca. Quero trabalhar meio período e gastar a outra parte do meu dia lendo, andando de bike, indo à exposições, fazendo ioga. Vou viajar pela Amazônia e fazer cursos de filosofia e sociologia no mundo todo. Passar um mês todo numa tribo indígena aprendendo coisas e ensinando também. E ah, claro, gostaria que chovessem minhocas de doces Fini, gostaria que Exatas não fosse avaliada na escola e gostaria de ter um Portal do Intercambio em casa. Mas não é assim que as coisas funcionam. Se funcionam para alguém, ele que se considere sortudo. Isso é um fato. Vamos envelhecer e vamos perder a graça com o tempo. Vamos ficar mais rechunchudos e aquele cara que você se casou que era um GATO vai virar um velho meio barrigudo careca que vai te chamar de "Bem", e pedir pra você passar o sal que está do seu lado na mesa até morrer entediado com uma pressão nas alturas.

Você adora passar horas viajando nos próprios pensamentos. Mas sabe que quando for adulto não haverá tempo para isso. Você começa a se desesperar com isso e foge. Corre cidade afora e observa as pessoas se movimentando. As mulheres que pegam o ônibus para trabalhar são sérias, os homens estão muito concentrados na inflação da Economia e o que salva são os jovens, sempre apaixonados, sempre sonhando, vivem intensamente, fazem um mega drama com incovenientes ou comemoram suas vitórias até cansar. Mas eles vivem. "Não quero envelhecer nunca" você pensa. Ser adulto deve ser a coisa mais monótoma do mundo. Aí, quando você menos espera, você começa a preparar as macarronadas para a família, fazer supermercados aos domingos, levar a filha no teatro as quartas a noite, suspeitar dos amigos dos seus filhos, achar detestável quando seus filhos poem os pés no console do carro, irritante a dublagem do Bob Esponja, calórico demais um pacote de Negresco, insuportável os adolescentes que entram fazendo barulho no cinema, cansativo ficar acordada depois das onze, viciante trabalhar compulsivamente, inútil twittar, música muito alta dar dor de cabeça, fazer ioga dói, escutar Caetano Veloso, que coisa chata. Sim, você envelheceu. Não tem como negar e nem como evitar. Você se tornou mais um dos adultos chatos e ranzinzas. O único jeito de fugir disso é aceitar quem você é e aproveitar a vida do jeito mais natural possível.

Mais para frente, quando você nem notar o tempo passar, você vai começa a se indentifica com as amigas da academia, comentar o que você come de manhã 0 calorias (diferente de encher a cara de chocolate) e com o pessoal das caminhadas matinais e acha que tricotar e jogar gamão são as coisas mais legais do mundo.

Bem quando você estava pensando sobre isso, você percebe uma garota jovem, calças confortáveis, chinelos, suada e cabelos bagunçados... te observando enquanto você tomava, sozinha, um drink no barzinho happy hour, numa típica noite de sexta feira depois de um duro dia de trabalho.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!