Observando
1 Capítulo Único
Marjorie observava animadamente uma família humana na superfície. Era um homem, uma mulher e duas crianças: um menino e uma menina.
Era uma família rica em mais uma das suas casas de verão, apesar de que no momento estava chovendo. E, naquela família, segundo Marjorie observava, aquilo era um mau augúrio.
Após as crianças voltarem para dentro de casa para não pegar um resfriado, o casal começou a discutir. O homem empurrou-a, que, não vencida, continuou em pé retrucando o marido. Até que ele perdeu a paciência e deu um forte empurrão que a fez cair, batendo a cabeça violentamente numa das espreguiçadeiras.
Marjorie imediatamente tirou a cabeça da superfície, ficando em posição fetal debaixo d'água, a cauda ainda batendo.
Sabia das maldades do mundo humano.
Sabia que a raça humana machucava uns aos outros por puro prazer. Passava bastante tempo observando-os e essa era uma característica bastante óbvia para não notar.
No mundo das sereias e tritões era diferente, no entanto. Era contra as regras e a própria filosofia daquelas raças, sendo considerado algo completamente grotesco e digno do mais puro ódio e nojo.
Enfim, Marjorie resolveu deixar aqueles pensamentos de lado e, batendo a cauda rapidamente, nadou até o fundo do mar, o seu mundo. Um mundo completamente diferente dos humanos; um carismático, altruísta e que aceitava a todos.
Ao avistar o seu reino, Myrnilyä, nadou mais rápido até chegar aos portões que prontamente se abriram à princesa.
Marjorie era a quarta filha de cinco. Sua mãe, Maya, tivera cinco casamentos; quatro com homens e de um deles saíram as cinco e atualmente era casada com Ris, que estava grávida de dois meninos.
Sua família se dava bem, apesar de tudo. Maya era uma sereia linda e poderosa que conseguia colocar ordem tanto na sua família tanto no reino. Tália, a princesa mais velha e sucessora do trono, era a mais parecida com a mãe, mas a que mais se divergia dela em questões ideológicas e políticas. Afinal, na política, sereias e tritões de todo o mar se dividiam entre aqueles que aceitavam os humanos e apoiavam que aquelas duas raças deveriam coexistir e os que não os aceitavam devido à natureza humana. Tália estava no segundo grupo, mas, apesar disso, não havia oposição para a sua sucessão ao trono que ocorreria em breve, boa parte poderia não concordar com ele, mas respeitavam-na e guardavam a opinião para si próprios.
De qualquer forma, depois de Tália veio Íris, que veio com uma condição especial que acabou combinando com sua personalidade posteriormente: uma cauda colorida, como um arco-íris. E desde pequena ela foi assim, vívida e animada. Logo depois veio Jasmim, um pouco séria, mas também adorada por todos. Por fim veio nossa supracitada Marjorie: curiosa e também amada.
Porém, a última das filhas mesmo foi Aurora: doce, amada, prestativa e altruísta.
Ao passar pelas vias agitadas de Myrnilyä, sendo cumprimentada rapidamente uma vez ou outra por algum súdito, Marjorie chegou ao palácio, sendo recebida por uma animada Mylya.
― Tia, você precisa ver isso! ― exclamou.
Mylya era a filha de Jasmim e Bernn, seu marido estrangeiro ― vindo de outro reino dominado por sereias ―, e era bastante animada também, isso dava-se ao fato de que passava bastante tempo com Íris.
Imediatamente Marjorie seguiu a sobrinha pelo palácio até chegar aos fundos onde já se encontrava Maya sorrindo e de braços dados com Ris e seu barrigão, Tália com a expressão fechada de sempre, Íris com um sorrisão, Jasmim e Bernn de mãos dadas também e, por fim, Aurora segurando algo tecnológico que Marjorie vagamente lembrava de ter visto na superfície.
― Isso é da minha irmã e tia de vocês, Zara ― disse Maya.
Todos se aproximaram da tela para ver do que se tratava e surpreenderam-se quando a tela acendeu, mostrando uma foto de Zara, com seus vívidos cabelos e olhos verdes junto a uma mulher um pouco mais velha de cabelos pretos e espessos. Ambas estavam sorrindo verdadeiramente e dava para ver as ondas quebrando atrás, indicando que estavam em alguma praia.
A tia Zara, como era chamada, salvou há anos uma mulher de um afogamento enquanto observava curiosamente os humanos. As duas se aproximaram e acabaram se apaixonando. Seis meses depois a mulher, chamada Elizabeth, pelo que Marjorie se lembrava, finalmente se separou do marido e chamou Zara para ir para a superfície.
Para isso foi necessário Maya recorrer a sacerdotes das magias antigas do mar, da época que humanos ainda eram primatas! No entanto, conseguiram com que Zara virasse humana, mas para isso foi necessário que ligassem a alma das duas, o que levou mais magia para fazer com que Elizabeth não morresse nesse tempo todo embaixo d'água.
De qualquer forma, elas enfim conseguiram ficar juntas na superfície. E, apesar de não se verem há anos, Zara sempre mandava uma foto da superfície para o reino de Myrnilyä, que sempre gostou da irmã caçula da rainha. Que, aliás, assemelhava-se bastante à Marjorie devido à curiosidade pelo mundo humano.
Zara também mandava alguns recados escritos para cada um deles pelo lulaëë, o "papel" usado pelos tritões e sereias, que era feito justamente para sobreviver à vida debaixo d'água.
Falando no lulaëë, Maya pegou-os e deu para cada um ― inclusive Bernn e Ris ― e sorriu, logo deixando o cômodo.
Maya tinha um passado conturbado. Sua família sempre foram os monarcas de Myrnilyä, mas, setenta anos atrás, um pÿÿr ― um traidor do reino ― incitou a população que eles eram maus e estavam pretendendo vender o reino à Beyat, o reino inimigo dominado por tritões, à troca de um bom dinheiro. O resultado? Uma guerra civil de proporções absurdas, mas a família real conseguiu provar sua inocência ao povo que condenou o pÿÿr a um exílio para toda a vida.
No entanto, quando isso foi feito, a família real foi reduzida a duas: Maya e Zara. E elas eram muito ligadas, apesar das obrigações de Maya e as andanças ― ou melhor, nadadeiras ― de Zara.
Voltando, Ris também acompanhou a esposa, nadando lentamente devido à barrigona com os garotos. Eles ainda não tinham nomes já que Ris, que era de um reino vizinho chamado Lutooü, acreditava que devia sentir o nome dos bebês após eles nascerem.
Jasmim e Bernn também saíram juntos. Na verdade, eles sempre estavam juntos. E Tália e Íris faziam piadas falando que era uma grande surpresa eles não terem mil filhos, Marjorie e Aurora, porém, só davam risadas contidas.
Tália foi a próxima a sair, com o sempre semblante sério ao ler uma pequena linha do lulaëë.
No fim só sobrou Marjorie, Aurora e Mylya, que se assustaram com o olhar preocupado da mais velha.
― O que houve, irmã? ― Aurora perguntou, preocupada.
― Ah, nada, não é nada ― assegurou Marjorie dando um sorriso amarelo à irmã e à sobrinha e logo saiu do local.
Nadou até o seu quarto que, felizmente, era perto dos fundos do castelo. O quarto era bonito e cheio de coisas que Zara e ela mesma acharam em suas viagens, apesar de ser no estilo marítimo.
As paredes eram feitas da areia mais funda e concreta do mar que, surpreendentemente, eram baratas no mercado intermarítimo. Na parede azul-marinho estava alguns pôsteres da superfície de coisas que ela não entendia e algumas conchas e pérolas. Na sua "cama", que na verdade era várias algas gigantes enroladas, estava também outro daqueles aparelhos tecnológicos que acendiam ao toque.
Marjorie tocou no botãozinho à lateral da tela, que ligou com uma foto de Zara e Elizabeth numa via movimentada como as de Myrnilyä, mas ainda completamente diferente. Tinham luzes acesas diferente das tochas com os chamados "não-fogos" do mar e várias construções gigantescas feitas de algo bem mais grosso que as areias. Entretanto, também havia algo familiar para Marjorie lá: os humanos. De todos os tamanhos, tipos e cores. Andando, correndo, parados, juntos...
Era com certeza uma visão diferente para Marjorie e ela sorriu.
Pelo menos sua curiosidade estava um pouco saciada, já que ela sabia que não tinha coragem suficiente no momento para conhecer a superfície, mas sempre teve vontade. Mas, por ora, aquela foto daquele mundo tão estranho e atraente para si mesma era o suficiente.
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