Observador
1 único
Sanji tinha uma agenda cheia. Durante o dia costumava trabalhar em bicos e pela noite se encontrava com o seu tio, costumava dividir a cama com ele. O alojamento ficava por trás do restaurante deles, havia um quarto anexado ao um banheiro, onde os dois dormiam, e outro quarto que costumava ser alugado para ajudar nas despesas. A cozinha que usavam pertencia ao restaurante. Era uma vida difícil, mas Sanji era sonhador. Ele planejava fazer algo grande ou pelo menos encontrar uma namoradinha naquela cidade.
Se mudaram pra lá há 5 anos por conta da crise no país, acharam que na capital conseguiriam mais dinheiro e não era como se não tivessem conseguido, mas a crise só piorava. Sanji tinha 22 anos e se sentia desgastado, mas seu tio sempre lhe dizia que havia algo no seu olhar. Achava que ele dizia isso para não perder as esperanças.
Algumas vezes se encostava num lugar e sentia sua alma sair de seu corpo, pensava em momentos que gostaria de viver, mas que eram impossíveis de acontecer. A vizinha ruiva da frente tirava sua paz, quantas vezes comprou flores para dar a ela e desistiu ou quantas vezes se tocou pensando nela e o orgasmo chegou triste.
Numa noite, perambulava as ruas da cidade, sem rumo pra seguir. Vestia um casaco, o capuz cobria seus cabelos loiros, pendia um cigarro nos lábios e aquecia as mãos nos bolsos da calça. Andava ao lado dos postes e pensava que gostava daquele cenário. As pessoas da noite eram diferentes do dia, eram mais ariscas, evitavam contato visual e nunca lhe perguntavam as horas. Claro, todos eram suspeitos e muito possivelmente perigosos.
E Sanji gostava disso. Gostava de pensar que por um momento alguém o achou perigoso. Essa era a vantagem de ser um desconhecido, você podia ser qualquer coisa só com a primeira impressão.
Era a mesma sensação da alma saindo de seu corpo e vivendo os momentos que pensava. Quando dava por si corria e corria, novamente, sem rumo pra seguir.
Já era tarde, estava na estação atrás de um trem para voltar pra casa e encontrar o velhote de merda dormindo profundamente ao seu lado na cama. Como gostaria que fosse a vizinha ruiva e gostosa, mas era o seu tio. Riu e voltou a si, bocejou e reparou que não estava sozinho. Naquela noite tinha a companhia de um rapaz que devia ter a sua idade, mas que tinha um cabelo tingido de verde. Era feio de doer, o que faria um homem fazer algo tão imaturo?
Ele parecia meio perdido, olhando todas as linhas no mural da estação. Parecia que não sabia qual seguir ou não entender. Sanji esfregou um olho e o observou mais uma vez, o rapaz usava coturno e se aquecia com um sobretudo preto. Seria um gótico? Talvez um punk?
Será que já leu Os Sofrimentos do Jovem Werther? Escutava Sex Pistols?
Mas seu jeito destrambelhado fez Sanji se lembrar mais de um ator coadjuvante num filme de comédia. O melhor amigo do protagonista que muito provavelmente terminava sem uma garota.
Dentro do trem, o esverdeado caiu no sono e Sanji pensou se ele não temia que roubassem sua bolsa ou as três mochilas longas e cilíndricas que estavam consigo. No início, pensou que fosse algum instrumento como um violão ou uma guitarra, mas depois de ver a finura do saco não soube mais o que poderia ser. Seria uma arma? Seria esse marimo um sniper? Um terrorista?
Aquilo estava saindo de controle e Sanji gostava cada vez mais, porque era mais divertido pensar em coisas irreais para aquele que era observado. E como um terrorista podia largar as coisas assim e dormir? Tudo bem que o trem estava vazio, mas Sanji estava ali, podia muito bem roubá-lo. Por mais que fosse irreal, tinha que ter coesão.
Os dois subiam a escada para chegar no solo, naquele momento chovia e Sanji pensava que só precisava disso pra completar o seu dia de merda. Se meteu debaixo de uma marquise e aquele marimo lhe seguiu.
— Você conhece um lugar em que posso me alojar?
A voz rouca do marimo atravessou seus ouvidos. — Você não é daqui?
— Não, sou do interior.
Isso explicava o porquê de ser tão descuidado e também explicava porque um estranho falara com outro estranho numa cidade que todos evitavam até mesmo contato visual durante a noite. — A cidade é perigosa, não deveria falar com estranhos.
O esverdeado grunhiu. — Eu sei, mas já procurei em todos os lugares e tô desesperado.
— Há um quarto que meu tio aluga, você pode dormir lá.
Os olhos do idiota brilharam no mesmo instante. — Sério?! Muito obrigado! Você me salvou dessa!
— Sanji.
— O quê?
— Meu nome.
O esverdeado piscou os olhos, processando o que disse e compreendeu. — O meu é Zoro.
Acendeu um cigarro e tragou, pensando que nunca conhecera os estranhos que observava na rua. — O que é isso nas suas costas? — Se referia aos três sacos compridos que carregava.
— São as minhas três shinais.
— Kendô?
— Sim.
Percebendo o silêncio que se instalou, Zoro insistiu. — Gosta de algum esporte?
Sanji jogou o cigarro no chão e pisou em cima para apagá-lo. — Gosto de cozinhar.
Zoro deu um aceno e a chuva parou, voltaram a andar.
— Não tem medo de eu te raptar e te transformar em carne moída? — Perguntou Sanji, e Zoro perdeu a cor com a pergunta. — Sabe, marimo, a cidade é perigosa.
— Sim... mas e quanto a você?
— O que tem eu?
— Você poderia estar numa encrenca também, eu poderia ser perigoso.
Então, Sanji soltou uma gargalhada. — Vestido de cosplay e dormindo no trem? É mais fácil eu te achar um cego perigoso por ter tingido os cabelos de verde quando deveria tá procurando a tinta preta.
Sanji continuou a rir, enquanto Zoro ficou vermelho por estar com raiva e constrangido ao mesmo tempo. Definitivamente, aquele marimo era divertido de se observar. Ainda mais com aquele bico. Naquele momento, se arrependeu de nunca ter parado antes para conversar com as pessoas que já observou nas noites ou com aquela vizinha ruiva e gostosa. Se todos fossem tão legais quanto o marimo, aquela cidade nunca seria perigosa.
E talvez não precisaria mais fazer passeios noturnos para se sentir menos só.
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