Notas iniciais
Enquanto escrevi escutava "Stay With Me" de Sam Smith, mas na versão de Boyce Avenue e ela me ajudou a ter inspiração! Espero que gostem.

Londres, algum momento do futuro...

Não sei quando finalmente esta carta chegará até você, talvez quando estivermos velhos, ou talvez nunca. Talvez meu filho a encontre ou por acaso os seus filhos. Isso no momento não importa, nesse momento apenas precisava lhe escrever. Agradecer.

Lembra de quando nos encontramos pela última vez? Quando nos esbarramos sem esperar por aquilo? Claro que o fato de estar olhando para o alto deve ter lhe ajudado a esbarrar em várias outras pessoas.

Naquele dia eu estava tão cansado e, provavelmente, irritado. Eu vivia irritado, provavelmente nasci irritado. Uma raiva sempre permaneceu dentro de mim. Não sabia raiva de quem, do que, talvez de mim. Não vou me redimir, sim, eu escolhi sentir raiva, eu escolhi ser o que sou. Naquela época eu escolhi sentir a coisa errada. Não tenha pena de mim, não mais.

Quase tive uma crise nervosa quando vi quem era a responsável por eu ter acabado o dia no chão. Roupa amassada e completamente suja. Estava pronto para gritar com você e despejar todas as maldições que cresci sabendo. E então você sorriu.

Sabe quantas pessoas sorriam para mim? Naquela época quase nenhuma. Provavelmente nem eu soubesse o que sorrir significava. Como poderia receber sorrisos quando nem mesmo sorria? Mas você sorriu. E tirou os cabelos compridos dos olhos.

Eles estavam iguais, seus cabelos. A mesma cor, o mesmo jeito, como se nada tivesse mudado. Os mesmos cabelos, os mesmos olhos, e a mesma postura. Distante e ao mesmo tempo tão perto.

Como disse anteriormente, essa carta é um agradecimento.

Por aquele dia.

Por você.

Pelo seu sorriso.

Por tudo.

Será que ainda se lembra do que me disse? “Você não quer tomar alguma coisa?”

Minha resposta foi irônica, dos tipos que eu sempre usava, com todos. E você nem ligou, apenas andou na minha frente e manteve os olhos no céu. Resolvi te acompanhar, e na verdade não tinha muitos amigos para tomar o que fosse, café, uísque, ou água.

Já haviam se passado quase cinco anos desde a guerra. E eu evitava ao máximo encontrar qualquer um de Hogwarts, mas de repente você estava ali. Na minha frente. Em uma mesa de um bar qualquer, onde trouxas não sabiam nada sobre nós. Eles olhavam para você tão estranhamente quanto qualquer um de nós. Você sempre foi estranha.

Uma estranha doce, leve e divertida.

Ou melhor, você sempre foi uma doce estranha.

Ficamos em silêncio por um longo tempo, apenas as bebidas à nossa frente, apenas o barulho do copo batendo na mesa. Mas de repente você começou a falar.

Falou sobre o tempo, sobre o gosto da bebida, sobre o brinco da mulher no balcão, sobre meus olhos tristes, e sobre meu terno preto. Falou sobre coisas que não entendia, sobre viagens atrás de plantas malucas, sobre estrelas, sobre tudo. E sobre nada.

Depois da primeira hora eu não mais revirava os olhos, eu não mais te cortava no meio das frases para discordar com tudo que dizia, eu não mais ironizava seus ideais. Depois da primeira hora eu não me importei mais em estar com você.

Depois de três horas sentados, depois dos muitos copos bebidos e de muita comida deixada de lado eu sorria, sorria com você, debatia inflamadamente, não para ser o melhor, apenas para mostrar que eu também entendia. Eu ria com você e não de você.

Naquele dia eu precisava exatamente de você.

Nunca fomos amigos, nunca nos entendemos. Mundos diferentes, ideais diferentes, pessoas diferentes. E eu te humilhei muito, e nem te ajudei a escapar daquele porão úmido (me perdoe por isso). Até aquele momento éramos um tipo de poção que não se misturaria jamais. Mas você não parecia se importar com isso.

E quando você ameaçou levantar, eu não poderia te deixar ir embora.

Sempre quis acreditar no fato de não precisar amar, de não precisar de amor. Quanta ilusão. Meus casos com estranhas, fossem elas bruxas ou trouxas, eram a maneira mais fácil de me livrar da solidão. Sem perguntas, sem conversas, e sem café da manhã.

Mas eu precisava de amor. E precisava saber o que era se sentir vivo.

Não nos despedimos no bar. Será que ainda se lembra?

Acho que é verdade. Eu não sou bom em casos de uma noite só, e precisava de amor. E parecia que nada nunca realmente acontecia como eu planejava, e naquele momento tudo o que eu não queria era que você fosse embora.

Nos beijamos. Provavelmente nunca ninguém imaginaria isso.

Nos amamos. Provavelmente nunca se repetiria.

Às vezes ainda me lembro de como nossas peles pálidas combinavam na penumbra do quarto. Às vezes ainda lembro dos cabelos emaranhados em meus dedos e do perfume de flor, de um campo de flores. Às vezes me lembro do som aéreo da sua voz dizendo meu nome, e dos suspiros escapados na calada da noite.

Lembra-se da minha pergunta? “Por que não fica comigo?”

Você apenas sorriu. Agora sei a resposta. Obrigado por não ter ficado.

Naquela época ainda éramos jovens, mas aparentemente você já tinha amadurecido bem antes de mim, e eu odeio admitir isso. Ainda é difícil aceitar que alguém seja melhor que eu em qualquer coisa.

Você já estava de partida, passou por Londres apenas para visitar seus amigos irritantes. Eles ainda são irritantes, mas agora existe um acordo de paz entre nós. Meu filho tinha que sair completamente diferente de mim, se misturando com todo tipo de pessoa.

Sei que vai rir ao ler isso. Ainda mais depois de te fazer lembrar o quanto nos misturamos, os dois, em uma noite esquecida no passado. Em um quarto que provavelmente assistiu a milhares de outras misturas.

Estou velho.

Estou cansado.

E estou tentando não ser tão emotivo.

Você lembra que disse que o meu maior problema era não deixar a emoção sair?

Obrigado.

Depois daquele dia as coisas mudaram um pouco. Eu mudei.

Quando acordei no quarto sozinho e encontrei uma folha verde ao meu lado, soube que aquilo tinha sido o começo e também o fim. Suas palavras ainda estavam guardadas em formas de sussurros, e o adeus fica entre um dos meus livros preferidos. Velhos leem muito.

Depois daquele dia passei a sorrir mais facilmente, e a gritar menos. Passei a falar sem precisar intimidar ou humilhar ninguém. Conheci minha mulher. Ela disse que se lembrava de mim dos tempos de Hogwarts, mas eu não me lembrava dela. Ela me disse que sempre gostou das minhas roupas pretas, mas que não conseguia engolir o jeito como tratava todas as meninas. Me chamou de machista e sem coração. E quando eu ri das palavras, ela simplesmente me beijou.

Entendi porque você foi embora. Porque eu tinha que conhecer ela. Minha mulher é perfeita para mim, não por ter sido da Sonserina, não por ser linda, não por ser a melhor mãe do mundo, mas porque não conseguiria me imaginar com nenhuma outra.

Obrigado.

Um dia você me salvou, e eu nem ao menos agradeci.

Obrigado.

É estranho lembrar de como éramos, mas é ótimo saber onde chegamos.

Luna Lovegood, esquisita, maluca, com olhos distraídos. Obrigado por no passado ter resolvido me tirar de órbita para que eu pudesse voltar ao lugar.

Obrigado. Apenas Obrigado.

Ass: D. M. (aquele que te servia comida no porão, e que jamais imaginaria um dia te pedir perdão, ou te agradecer por algo)

Notas finais
N/B: OMG. OMG. OMG! Não tenho o que dizer aqui. Vou guardar meus comentários para review... Erros ortográficos/gramaticais são culpa minha, como quase sempre. Ah, comentem. Anny merece *aplausos*

N/A: Foi bem curtinha, mas espero que tenham gostado e aguardo reviews se assim quiserem... Beijosss
PS: Muito Obrigada a essa beta muito diva que eu tenho!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!