Obrigado

1 Capítulo Único


Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=8j741TUIET0

Levou dois anos para eu finalmente ter a força de escrever sobre isso. Setembro sempre foi um mês difícil pra mim. E, talvez, esse seja o primeiro setembro que eu enfrento de cabeça limpa. Ano passado foi um inferno e faltou muito pouco para eu me debruçar pra fora da minha janela no terceiro andar. Foram cinco anos difíceis, um pior que o outro.

Mas um deles foi excepcionalmente ruim; o de 2015.

Esse texto não é sobre mim.

Daigo é o nome de um amigo, de um irmão, de um parceiro; mas acima de tudo, de uma parte de mim.

Eu nem me lembro direito de como nós nos conhecemos, mas tenho quase certeza que foi quando conversávamos sobre teorias de um anime lá. Odiávamos os mesmos personagens, líamos as mesmas fanfics, ouvíamos as mesmas músicas. Calma, isso aqui não é uma história de romance.

Tínhamos uma porrada de coisas em comum, mas nossas maiores similaridades nunca eram enunciadas em voz alta. Nós dois sabíamos quando as coisas ficavam mais difíceis, quando o fardo de viver ficava pesado demais, quando o ato de respirar se tornava uma inconveniência ao invés de um processo necessário para a manutenção da existência. Éramos feitos das mesmas lágrimas em nossos travesseiros, do mesmo sangue em nossos punhos em carne-viva, do mesmo álcool e fumaça e deus sabe lá que substâncias em nossos corpos fracos e cansados.

Foi no fundo do poço que nos encontramos, em meio à escuridão, em meio aos cacos de garrafas quebradas, pinos de cocaína e bitucas de cigarro. Foi no fundo do poço que decidimos que a escalada de volta para o topo seria mais agradável na companhia um do outro.

Quando nos conhecemos em pessoa, ele achou que eu fosse mais alto e eu achei que os óculos escuros dele eram só por puro estilo (mas ninguém usa óculos escuros de noite). Daí ele me bateu com a bengalinha dele e nós rimos debaixo da luz de um poste na rua da casa dele.

Eu tinha acabado de sair da clínica e falei pra ele que nunca mais mexeria com aquelas besteiras de novo. Ele vivia dizendo que o leão do PROERD viria puxar meu pé de noite, mas eu nunca tinha feito PROERD, então eu boiei. Estávamos sentados na calçada, vagamente olhando para o outro lado da rua quando ele me puxou com o braço e me deu aquele meio abraço desengonçado.

“Tô orgulhoso da gente.”

Foi a nossa primeira vitória.

Rachamos uma pizza (eu acho) e andamos de skate até umas 4 da manhã, até nossas pernas tremerem e até um dos vizinhos dele ameaçar jogar os cachorros na gente. E, sim, gente cega anda de skate.

Ser cego nunca impediu ele de fazer nada.

Passávamos muito tempo juntos. Às vezes matávamos aula juntos e ficávamos amontoados naquele sofá ouvindo música e montando castelos de carta juntos. Às vezes chorávamos juntos, cada um no seu ritmo, abraçados no chão da sala. Sem palavras, sem grandes ações. O conforto de um outro era o único consolo do qual precisávamos. Eu chorava bem mais que ele.

Talvez, se nos segurássemos forte o suficiente, nenhum dos dois teria coragem de ir embora.

Foi assim por muito tempo. Entre band-aids do Batman para os pulsos dele e garrafas de água oxigenada para os meus punhos ralados, nós lentamente encontrávamos um caminho pra fora do poço.

“Não é sobre esperar o temporal passar, mas sobre aprender a dançar na chuva” era o que a avó dele dizia.

Saímos na chuva outro dia. Era uma daquelas tempestades torrenciais de começo de verão, e ele me chamava pra pular em poças, dançar debaixo da água que escorria das telhas e das copas das árvores da rua. Eu dizia que não sabia dançar e ele me puxava pra dançar com ele.

Aprendi a valsar assim, no meio de um temporal.

Daigo era um maluco, com uma energia sem fim. Quando eu fiquei sem fôlego, ele mesmo se pôs a me mostrar o que tinha aprendido nas aulas de balé. Tinha tanta água no asfalto que ele parecia um Jesus, dançando sobre um lago. Só que melhor, mais gracioso e mais vivo e mais real.

Assim falava Nietzsche: “Eu só poderia crer em um Deus que soubesse dançar.”

A mãe dele nunca reclamava de a gente aparecer todo sujo, porque ao menos estávamos rindo, respirando. Ela não era boa cozinheira, mas fazia maravilhas com caldos instantâneos. Passávamos algumas noites bebendo suco gelado e ouvindo a chuva cair.

Era quase uma segunda família. Até viajamos juntos pra Bertioga, onde eles moravam antes de os pais do Daigo se divorciarem e etc. Fomos andar na praia, passar um tempo no mercado de peixes, correr e tropeçar na praia.

Aí descobriram que a mãe dele tinha um câncer em estado avançado.

E aí ela morreu.

Foi bem difícil continuar firme.

Ele nunca mais sorriu. Não falava mais. Só ficava pendurado no meu braço, brincando com as bolinhas da minha pulseira. A mãe dele tinha uma parecida.

E um dia, setembro veio e eu encontrei ele desacordado no chão do banheiro.

Ele nunca me falou nada sobre overdose. Nunca me falou nada.

Tudo que ele me deixou foi um lenço e uma lista de músicas que ele ficou de me passar pra eu ouvir no carro. Depois, encontraram uma carta que ele escreveu pra mim.

Eu bem que tinha dito que ia caçar ele no inferno se ele morresse e não deixasse nenhum bilhete pra mim, mas tinha sido só uma brincadeira imbecil. Ele pediu um monte de coisas imbecis nessa carta. Mas eu obedeci a ela até o último detalhe, por mais extravagantes que fossem os últimos pedidos dele. Ele era a pessoa mais dramática que eu tinha conhecido até então.

Eu não me lembro direito da carta em si, mas ele se desculpou um monte de vezes por não ter conseguido aguentar. Eu perdoei ele. Mais ou menos. Mas acima de tudo, ele insistiu que eu não seguisse pelo mesmo caminho. Implorou para que eu continuasse vivendo, ao menos por ele, até que eu encontrasse a minha própria força para continuar aqui.

E toda vez que eu olho pra fora da minha janela e penso em ir embora, eu me lembro dele. Porque ninguém vai poder se lembrar dele dançando debaixo da chuva ou andando no skate ou rindo na calçada de madrugada. E ele merece ser lembrado até o fim. Não só ele, mas muitas outras pessoas que me deixaram. Eu carrego todas essas lembranças, todas essas pessoas que ainda vivem em mim.

“Eu sei que você vai demorar e que você vai passar muito tempo sentado no escuro, esperando pela luz, mas a luz pode nunca vir, como foi o que aconteceu comigo. E mesmo assim, isso nunca me impediu de andar pelos caminhos que eu nunca veria. Então, quando estiver com medo de dar o primeiro passo, feche os olhos e corra.”

Eu nunca me esqueci desse trecho em específico. E assim, obedeci aos últimos desejos dele.

Queimei a carta.

Tomei todas as sopas instantâneas que sobraram na casa.

Liguei pros tios dele.

Pedi pra cremarem o corpo.

Ajudei a organizar o velório.

Toquei a maldita música que ele quis que eu tocasse no velório dele.

Recebi o último punhado das cinzas.

Joguei elas no mar de Bertioga.

Corri no escuro.

Continuo correndo.

E ainda correrei.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!