Obrigada, papai. A pêndula soou, aprofundando-se, como veneno, nas paredes, já, pelo tempo, trincadas. Os ruídos, assustando, por certo corredor, alguns vultos, adentravam, maquiavélicos, o pequeno quarto, que jazia, pobremente, ao fim do caminho. O aposento, em realidade, era, extremamente, simples. Sua elegância, de fato, era banal. As paredes, carcomidas, e, em alguns pontos, descascadas, apresentavam, em estilo rústico, uma tintura amarelada, desbotada, já, pela idade. Ascendendo, com respeito, ao rodapé de madeira, observamos, surpresos, o contraste da cabeceira, envernizada e grossa, de uma cama. Ao canto, percebemos algumas bonecas, e algumas fitas. Estas, em realidade, cortam, de amargura, o espírito, afinal, perto dali, estava, inerte, uma figura infantil. Justamente! Aquela menina, tão melancólica, era Gwen. Ou, não... Não era. Era falsa. Umazinha pálida, de cabelos curtíssimos, de olhos baixos e empanados, de queixo branco, de nariz polido, de lábios mortos. As pequenas mãozinhas, afiladas, e, na cortina, esquecidas, dançavam. Os pezinhos, tão belos, tentavam despedaçar, desesperadamente, a fímbria da saia, que arrastava-se, transparecendo pudor, pelo soalho. Pela janela, a menina espreitava, indolente, os arpejos das árvores, que aparentavam, estranhamente, clamar por ela. Aquelas árvores! Desprovidas de folhas! Medonhas! Que faziam sibilar, por entre os galhos, o uivo noturno, o uivo do outono... Ergueu, para os céus, as mãos. Numa prece, seus pequenos lábios, trêmulos, estalaram, e seu peito, trancado, pulsou. A verdadeira Gwen, por alguns segundos, submergiu-se! Entretanto, fê-lo, apenas, para pronunciar: “Ó Papai, salvai-me!”. Logo, sua boca, como ferida, cicatrizou-se, e, num instante, a falsa Gwen, novamente, retornava. Seus olhos, para a janela, volviam, e, à ela, lançavam, irritadiços, um último ultraje: “Adeus...”. Fora, então, há um ano. Xavier Rehayen, um homem culto, sábio, sério, e extremoso, retirou-se, acompanhado, fielmente, pela pequena Gwen Rehayen, para uma nova morada, distante, e isolada, da sociedade, das pessoas. Havia dois meses, antecedentes da mudança, que Julia Rehayen, a mãe de Gwen, e, também, esposa de Xavier, falecera, ungida em tuberculose. Isto, em realidade, fora, nada mais, nada menos, que o principal motivo, tão doloroso, para aquele afastamento. Pobre, e pequena, família!... Não imaginavam, eles, a guerra, que, naquela casa, os aguardava... A pequena Gwen, em flor de luto, não carregara, para aquilo, o espírito. Afinal... Que poderia, uma criança, tão frágil, de, apenas, cinco anos, fazer?... Se, sequer, Xavier, meu Deus, imaginava, em sua longa idade, o que estava, irrevogavelmente, por vir!... No entanto, ingênuos, foram-se. Estavam, enfim, na casa. Os dias rolavam-se. Xavier, inicialmente, se ocupara, em seu espírito intelectual, com a literatura. Ótima escolha. Naquela casa, afinal, havia uma biblioteca, cujo interior, de fato, estava repleto de bons livros. Todos, entretanto, em diferentes linguagens. Por isto, o homem passou, sem notar, um bom tempo, realmente, para traduzi-los. Alguns, fáceis. Outros, dificílimos. No entanto... Um, dos, demais, livros, buscou, em Xavier, maior atenção. Recebia, de forma estranha, o título de “Exmortis”, que provém de “Ex mortis”, ou, em outras palavras, “Da morte”. O livro da danação. Seu conteúdo, confuso, e, algumas vezes, assustador, estava em aramaico. O livro maldito. Gwen, sua única companheira, tornou-se distante. Fria, e distante. Enleada, muitas vezes, às sombras de móveis, ou vultos de animais, a menina andava, sem rumo, pelos corredores. Em alguns momentos, era difícil, para ela, abster-se, somente, da porta de seu quarto. No decorrer, desesperador, de, apenas, uma semana, passou, terrivelmente, a obter tendências medonhas, e a desenvolver pesadelos. Não era Gwen. Xavier, obcecado, em realidade, com “Exmortis”, passou, simplesmente, a ter pesadelos terríveis, quais, de fato, não valem os “comentos”! Séries, enfim, de distúrbios, agora, os cercavam. Sim. À ele, e à filha. Após, então, à primeira semana, as alucinações, repentinas, iniciaram-se. Xavier ouvia, pelos cantos, vozes, suspiros, e risadas... Havia, ainda, alguns vultos, que ele via, assustado, por sua visão periférica. Aquela sensação!... Aquela, tão terrível, sensação, meu Deus, de ser espreitado... De possuir, consigo, alguém, que, na realidade, não existe... Findo. As atividades, uma vez, já, serenas, esgotaram-se. Parte, longa e tenebrosa, do tempo, ela passava, enfim, inconsciente. Se interrogada, não respondia. Se cumprimentada, não acenava. Não avivava-se, sequer, às histórias. Estava, em prática, morta. Caminhava, silenciosa, pela casa, e escondia-se, simplesmente, ao ver o pai. Não queria, de fato, confrontá-lo, ou ser, outra vez, crivada de perguntas, ou falas. Em um mês, a menina, sequer, demonstrava sanidade. A pequena Gwen! Onde, diabos, estaria? Aparecia, somente, em alguns momentos. Nestes, entretanto, trazia, nas faces, uma expressão confusa, e, de todo, melancólica. Chegara, enfim, um dia... A menina, libertando-se, por, apenas, segundos, de sua nova personalidade, correra, como louca, ao pai, e, em seus braços, se atirara. De seus lábios, suicidava-se, apenas, um pedido de ajuda! Um clamor! Sim! Pedia, aos gritos, e, também, em lágrimas, que seu pai, enfim, a salvasse, a retirasse, agora, dos monstros, que, impiedosamente, infeccionavam-lhe o corpo! E... Xavier? Pobre homem. Sua filha, doravante, perder-se-ia... para sempre! Tudo, por fim, o que podia, naquele momento, fazer, era, em seus braços, apertá-la, e prometer-lhe, com todas as forças, que a salvaria! Que retirá-la-ia, de uma vez, por todas, daquela prisão!... Foram, apenas, alguns minutos. Entretanto, foi tempo, de fato, o bastante, para que tomasse, em sua vida, aquela decisão. Gwen estava, para sempre, perdida. Estes, como podem, todos, ver, foram os acontecimentos, tão lúgubres, que acercavam-se, infelizmente, daquela noite. A noite da prece. Gwen retirou-se, mórbida, da janela, e foi, à cama, assentar-se. Retirando, cautelosa, as botinas, estendeu-se, tristemente, ao leito, fechando, como um anjo, os belos olhos. Estendeu, às cobertas, uma mãozinha, puxando-as, delicadamente, sobre si. O sono, então, veio-lhe... Ela, enfim, repousava. Pobre menina! Não vira, ela, que, em seu quarto, entrava, agora, seu pai. Não vira, também, que ele trazia, nas mãos, um... punhal. E, por isto, estava, para sempre, perdida, a pequena Gwen. A linda Gwen. A menina, tão pequena, dos olhos enormes, das mãos pequenas, dos cabelos curtos. Do sorriso belíssimo, da aura resplandecente!... O homem, determinado, acercou-se. Oh! Aquilo, realmente, era terrível! Entretanto... Era, sim, o que havia, com urgência, de ser feito. Travou, nas mãos, a arma, e, como um raio, mergulhou-o, profundamente, no coração infantil. Escolhera-o, de forma banal, por acreditar que, assim, livrá-la-ia, deveras, de todo o mal. Homem miserável, criança miserável! Que destinos! Que horror! Horror, horror, horror... Afastou-se. A menina, tendo, no peito, o punhal, rasgou, assustada, os olhos! Buscando, com eles, seu agressor, encontrou, ninguém mais, ninguém menos, que Xavier, seu pai. Este, desesperado, esperava, ali, ver o ódio. Para sua surpresa, todavia, não o fez. O que, naquelas faces, ele enxergou, foi a agonia, e, a mesmo tempo, o alívio. Em meio, enfim, à agoniação, a menina sorria. Sorria, gritando. As dores, obviamente, não deixavam-na. As convulsões acercaram-se, e ela, chorando, arquejou... Arquejou, arquejou... E foi, pela cama, se espalhando. Em suas faces, expandia-se, melancólico, o véu da morte. Seus lábios, lentos, descontraíram-se, e suas bochechas, logo, perderam, de todo, a cor. Seus olhos, empanados, deixaram, ainda mais, o brilho... Trancou-os. Fim! Era, para Xavier, isto! Todavia, num repente, o corpinho, em desespero, vibrou-se, e ela, tentando sorrir, ergueu as pálpebras. Seus lábios, desfolhados, tremularam, intentando, assim, dizer algo. Entretanto, não conseguia! O pai, vendo-o, aproximou-se, e ergueu-lhe, com as mãos, a cabeça. A menina, então, pode, unicamente, suspirar: “Obrigada, papai...”.

Soava, então, o último suspiro de Gwen Rehayen.

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