Notas iniciais
Hello! Continuando com o segundo capítulo desta possivelmente curta história, vamos continuar com o Henry neste capítulo. Boa leitura ^^

Após a aula naquela sexta, Henry saiu completamente despreocupado. Bill, Rachel e Filippa discutiam sobre a enxurrada de atividades que os professores resolveram mandar. Mesmo a amada professora Mary passou muitas lições, o que era extremamente decepcionante. A única pessoa que não estava pensando nisso era Jane, que parecia espumar pela boca enquanto olhava para a bela Filippa. Quando notou isso, Rachel sorriu de canto, aproximou-se de Henry e abraçou-o.

— Poucas coisas me divertem tanto quanto fazer ciúmes na sua irmã — sussurrou Rachel para Henry, enquanto olhava sorrindo para Jane. — Você não acha divertido?

— Não muito — confessou Henry, sorrindo. — Mas para mim tanto faz.

Filippa também aproximou-se do garoto.

— E então, idiota de olhos abençoados, vamos?

— Já?

— O carro da minha mãe está logo ali — apontou Filippa.

Jane não disse nada. Ficou olhando frustrada e impotente seu irmão seguir Filippa. Como se fosse ela que estivesse lá quando ele chegou machucado. Como se ela tivesse apresentado para ele os jogos e livros que ela gostava. Como se fosse ela que tivesse dividido seus melhores momentos com ele.

— Ela está roubando ele de mim — resmungou Jane.

Bill deu risada.

— Você é bem ciumenta e super protetora com ele. Mas é só porque não está acostumada.

— Como assim?

— Estamos nesta escola desde o sexto. O Henry nunca teve muitos amigos de verdade, apenas pessoas curiosas com seus olhos, sua cabeça de aluno mais inteligente da sala. E só. E mesmo quando nós formamos um “grupo”, eu, você, o Henry, Fillipa e a Rachel, ele nunca dividiu seus momentos fora do colégio com ninguém além de você. Ele sequer vinha no cinema com a gente! Agora, pela primeira vez, você não é mais a única pessoa com quem ele fica. E é isso que te irrita.

— Desde quando virou especialista no assunto? — indagou Rachel, surpresa.

— Há vinte minutos — respondeu Bill, sarcástico. — Agora, já que o Henry e a Filippa vão ficar juntos, porque nós três não fazemos algo?

— Estou ocupada — respondeu Rachel, saltitando para longe. Provavelmente, ela faria tudo o que os professores pediram logo naquela tarde e então não ficaria com nada acumulado.

— E você, Jane?

— … Certo. Minha mãe provavelmente vai deixar. E qual o seu plano?

— Bem…

*

A casa de Filippa era obviamente diferente do que Henry imaginava. Por algum motivo — talvez pelo cabelo pintado da garota —, sempre imaginara a casa dela como uma esfera pintada de azul e verde à semelhança de um planeta Terra. Como era de se esperar, a casa de Filippa não tinha quaisquer semelhanças com o imaginário de Henry.
Tratava-se de uma casa de dois andares, branca, de telhado escuro. O interior dela era assustadoramente limpo e bem organizado, com um sofá, uma televisão e uma mesa. Anexado à sala, havia outro cômodo, a cozinha, que era tão pequena que Henry duvidava que cinco pessoas pudessem ficar juntas nela.
Assim que entraram, foram recebidos por Margaret, mãe de Filippa. Ela aproximou-se dos dois e mirou Henry com um olhar desconfiado que o fez corar.

— O-olá — gaguejou o rapaz.

— Mãe, este é o Henry, o garoto que eu falei. Ele não tem olhos lindos?

— Tem sim — concordou Margaret, friamente, medindo Henry com o olhar. O garoto sentia-se intimidado com aquele olhar.

Filippa revirou os olhos.

— Pode parar com isso? É só um colega, nada mais que isso.

— Sabe quem também era só meu colega? Seu pai.

Pela primeira vez na vida, Henry viu Filippa corar. Ele só não sabia se ela estava envergonhada ou simplesmente irritada. Ela agarrou Henry pelo pulso e puxou-o escadas acima na direção de seu quarto.
O quarto de Filippa já era mais parecido com o que Henry imaginava. Sua cama possuía apenas uma fina coberta azul. Havia uma estante com muitos livros (que Henry concluiu serem muitos dos que ele mesmo possuía em sua coleção), além de um computador surpreendentemente grande sobre uma escrivaninha. Havia também uma cadeira no meio do quarto que Henry imaginou que não fazia parte da decoração original.
Filippa aproximou-se da cadeira giratória próxima à escrivaninha, e Henry concluiu que queria uma dessas em seu quarto também.

— Perdoe-me pela minha mãe — disse Filippa. — Se a sua não tem nenhum problema com isto, a minha é pior do que a Jane.

— Por algum motivo eu sinto que percebi — murmurou Henry, lembrando-se do olhar da mulher.

— B-bem, me desculpe. Merda. Vou ficar pensando nisso o resto da noite.

— Não precisa se preocupar com isso — apressou-se em dizer Henry. — Não é como se eu estivesse ofendido.

— Bom mesmo. Eu é que não quero ficar pensando em como minha mãe intimidou meu amigo porque a mente dela pensa besteira.

— Ela e a Jane seriam ótimas amigas.

Os dois riram levemente. Filippa ligou o computador, girou novamente na cadeira e indicou a cadeira no meio do quarto para Henry. Quando o garoto se sentou, abriu a mochila, tirou cadernos e livros e aguardou Filippa preparar o editor para que pudessem iniciar o trabalho.

— Venha aqui — ralhou Filippa. — Não fique no meio do quarto.

Henry assentiu e aproximou-se. Estavam um do lado do outro agora.
Começaram a estudar. Henry lia rapidamente os pontos que ele julgava relevantes, ocultando questões secundárias e analisando as palavras adequadas para utilizar de modo a parecerem grandes intelectuais. Enquanto estudavam, Henry passou a olhar discretamente para Filippa. Parecia tensa com alguma coisa. Respirava mais rapidamente do que o normal. Seus olhos fingiam ter atenção no trabalho, mas a cada cinco segundos ela parecia desviar o olhar para um canto vazio da sala, o que fazia sempre que estava pensando em algo que a preocupava. Batia os dedos na escrivaninha ritmicamente, formando uma canção muda, esta que Henry reconhecia como a demonstração de ansiedade de Filippa. Seus cabelos pintados pareciam mais bagunçados do que o normal. Agora que percebia, ela também não havia maquiado-se como sempre fazia. Sim, nunca exagerava, mas sempre decorava-se um pouco, algo que não ocorrera naquele dia. O que será…

— Pare com isso — pediu Filippa, corada.

Henry percebeu que havia inclinado-se em sua direção. O garoto também enrubesceu. Não sabia por que havia pensado naquelas coisas, e nem sabia desde quando passara a pensar tanto em Filippa ao ponto de saber o quanto seu cabelo estava desarrumado, ou por quanto tempo ela tamborilava as coisas quando estava ansiosa, ou por quanto tempo ela olhava para o nada.

— D-desculpa. Eu não quis… É só que você parece… preocupada.

— Não pareço preocupada!

— Parece sim.

— Está muito confiante, Henry.

— Eu até poderia listar os motivos da minha confiança, mas acho que seria estranho.

— Tente.

Henry corou e disse o que havia acabado de observar. Como esperava, Filippa olhou para ele de modo estranho.

— Você… está me observando?

— N-não. Q-quer dizer… É difícil de explicar. Quando eu fico em silêncio por muito tempo eu acabo observando as pessoas. Às vezes eu acabo… o-olhando para você, e não foi difícil entender seus vícios.

— Isso é estranho.

— Eu sei — suspirou Henry. — Mas então, por que está tão tensa? Eu tenho certeza que não sou a causa.

Filippa desviou o olhar novamente e olhou para sua cama. Então estalou os dedos.

— Meu pai — finalmente disse — não voltou para casa. Ele saiu ontem de manhã, e não voltou para casa de noite. Eu e minha mãe pensamos que ele fosse voltar de madrugada, ou talvez ele tivesse se atrasado em algum lugar, mas ele até agora não voltou. Faz mais de um dia e meio, e ele não atende o celular, não responde as mensagens, nem nada. Ele simplesmente sumiu. Já ligamos para amigos, parentes, colegas de trabalho dele que nós conhecemos.

— Seu pai trabalha com o quê?

— É engenheiro.

— E ele simplesmente sumiu?

— Sim — concordou Filippa, sussurrando. Seus olhos começaram a marejar. — E… e quando acharam aquele corpo esquartejado… E-eu… Eu estou com medo, Henry. Eu…

Filippa não conseguiu concluir a frase. Henry, em silêncio, abraçou-a. Ficaram nesta posição por mais de dois minutos, sem dizer uma única palavra. Então Henry afastou-se um pouco e segurou os ombros da garota.

— Relaxe. Tenho certeza de que seu pai está bem. Qual o nome dele?

— Turner. Turner Sunden.

— Certo. Eu vou procurar por ele e vou achá-lo ainda esta semana.

— Procurar por ele? O que quer dizer com isso?

— Tenho meus métodos, Filippa. Apenas confie em mim. Eu prometo que te direi quando encontrá-lo. Certo?

— C-certo. N-nós já alertamos a polícia, mas…

— Eu vou achá-lo antes — afirmou Henry, calmamente. — Sou bom nesse tipo de coisa.

Ficaram olhando um para o outro por mais alguns segundos. Filippa ficou olhando para aqueles olhos violeta, tão incomuns, tão belos, até o garoto sorrir sem graça e soltar Filippa. A garota virou o rosto, ocultando-o de Henry. O clima ficou estranho pelos próximos minutos, até terminarem o trabalho.
Assim que Henry olhou para o relógio, viu que já era quase meia noite.

— Merda. Como diabos demoramos tanto?!

— Eram quatro pesquisas enormes — justificou Filippa.

— Certo. Minha mãe vai arrancar meu fígado…

— Seu celular está funcionando?

— É claro que está. Por quê?

— V-você podia… d-dormir aqui hoje.

Henry olhou surpreso para Filippa. A garota passou a mão na testa e tamborilou a escrivaninha ritmicamente. Estava ansiosa.

— Q-quer dizer, temos um colchão sobrando. Você pode dormir… no meu quarto.

Henry sentiu seu rosto adquirir uma tonalidade rosada. Olhou incerto para Filippa, depois para o quarto.

— Acho… acho que não fará mal nenhum. Mas a sua mãe e a Jane vão querer nos matar.

— Posso viver com isso — disse Filippa, sarcástica, dando de ombros.

Diana reagiu compreensivamente. Afinal, preferia que Henry dormisse na casa de uma amiga do que saísse sozinho meia noite, principalmente após o corpo esquartejado encontrado no dia anterior. Jane pegou o celular da mãe e começou a lançar suas reclamações, mas Henry já estava ignorando-a.
Margaret também não reagiu tão agradavelmente, principalmente à ideia de que os dois jovens dormissem no mesmo quarto. Por fim, a contragosto, concordou.
Henry tirou da mochila uma trouxa de roupas. Filippa arqueou as sobrancelhas.

— Então já estava pensando nisso?

— Eu estou sempre preparado para tudo. Mas, agora que percebi… ainda não tomei banho.

— Pode tomar agora. Trouxe uma toalha?

— O que você acha?

— Como, por tudo que é mais sagrado, você consegue meter tanta coisa em uma mochila desse tamanho?!?!?!?!?

— Anos de prática. Então vou pro banho agora. Até depois. Ou quer ir primeiro?

— Eu provavelmente vou demorar — avisou Filippa. — Pode ir primeiro.

No banho, Henry refletiu sobre uma certa ideia que brotou em sua cabeça. Aquilo era errado? Bem, se o fim fosse bom, então não importavam os meios, correto? Sim. Henry podia fazer aquilo. Não seria errado. Não se pedisse permissão primeiro…
Definitivamente, ele não pediria permissão.

*

Filippa foi para o banheiro. Dissera que iria demorar, o que significava que Henry teria tempo para fazer o que queria. Já havia decorado a senha do computador, pois Filippa não fez muito esforço para escondê-la. 17889543Jilt27. Fácil. Henry acessou o computador, entrou em um navegador, abriu uma guia anônima e pesquisou sobre o corpo encontrado no dia anterior. Como ele esperava, já havia imagens de Roy Penzer na internet.
Henry abriu uma das imagens. Já estava com o caderno em mãos, para anotar o que esperava encontrar. O esquartejamento era relativamente assustador, mas era o pentagrama aquilo que realmente importava. Henry não precisou de mais de alguns segundos para perceber a mensagem oculta. Aproximou a imagem do pentagrama sangrento e anotou o que leu.

— Ich freue mich darauf, Dich wieder zu sehen.Ich hoffe unser Wiedersehen wird interessant sein. Maldito. Que reencontro? Seria possível…?

Henry fechou a guia anônima, desligou o computador novamente, guardou o caderno onde havia escrito a mensagem em alemão e tentou parecer o mais relaxado possível. Esperava que sua suspeita não estivesse correta. Naquele momento, amaldiçoou sua fama de “nunca errar”.
Os olhos de Henry tornaram-se opacos. E o que importava se estivesse certo? Não mudaria nada. Faria o que fosse necessário, como sempre fizera. Não seria o que eles queriam que ele fosse. Nunca!
Eldrich.
Filippa voltou para o quarto, usando um longo pijama azul. Parecia um pouco desconfortável com a situação. Talvez fosse a primeira vez dela tendo alguém dormindo em seu quarto. Pelo menos, para Henry ela não parecia acostumada com isso. Sim, estava definitivamente desconfortável.

— Eu vou… pegar… — Filippa apontou para fora, e saiu. Minutos depois, voltou com um colchão. Colocou-o no chão e apontou para Henry. — Aqui está. Pode se deitar.

— Claro.

Henry deitou-se no colchão, mas recusou um cobertor.

— Gosto do frio.

— Vai ficar doente.

— Duvido muito. Não consigo lembrar qual foi a última vez que fiquei doente…

Filippa deu de ombros, apagou a luz e deitou-se em sua cama, cobrindo-se com o cobertor. Henry ficou observando a estante de livros, mas os seus pensamentos estavam na mensagem no pentagrama. Reunião. O assassino buscava encontrar alguém, e Henry sabia quem. Só esperava que o pai de Filippa não estivesse envolvido nisso. Só esperava que o pai de Filippa ainda estivesse… vivo.
Henry lembrava do passado. Lembrava de um pentagrama desenhado em sangue. Obra prima. Presságio da morte. Monstro. Seria real? Ou não passava de ilusão? Instinto e racionalidade caminhavam juntos naquele momento.
Se encontrasse Turner, não contaria a Filippa. Salvaria-o, e depois diria a ela. Não podia arriscar sua vida, não. Não podia deixar que ela se machucasse por sua causa. Se desse sorte, Turner havia apenas perdido o celular e desmaiado em algum lugar. Se tivesse azar…
Estava na hora de agir. Não tinha tempo a perder. O dia seguinte era sábado. Seria perfeito. Estaria livre para procurar Turner. E já sabia por onde começar…

*

No dia seguinte, Henry acordou, mas ficou deitado por um momento. Houve vários motivos para isso. O primeiro era que realmente estava até mais frio do que ele gostaria. Não importava o quão tarde se deitava, sempre dormira pouco. Outro motivo era que Filippa ainda não aparentava ter acordado, e talvez ela não gostasse que Henry simplesmente sumisse antes dela acordar. Sim, ela já havia dito uma vez que não era o tipo de pessoa que aceitava ir dormir e acordar com flores e uma carta de despedidas.
O outro motivo era um pouco mais desconfortável.
Assim que ouviu Filippa se movimentar e começar a mexer o pé de um lado para o outro na cama, entendeu que ela havia acordado. Assim, levantou-se, arrepiando-se com o frio que se seguiu. Vestiu uma blusa vermelha e olhou para a bela garota de cabelos pintados de azul e verde. Ela inclinou a cabeça.

— Já vai?

— Sim. Tem algumas coisas que eu quero fazer o mais rápido possível.

— V-você poderia ficar mais um pouco — sugeriu Filippa, baixando a cabeça.

A garota não viu, mas Henry olhou para ela com os olhos opacos, sentindo um impulso estranho. Então sacudiu a cabeça e encarou-a com os olhos voltando ao normal. Sorriu.

— Acho que posso ficar aqui mais um pouco.

Por algum motivo, o rosto de Filippa pareceu iluminar-se. Henry riu baixinho.

— Sim. Mas não queira me raptar. Quero ver a Jane, a minha mãe e meu pai antes de sair. Claro, se eles não estiverem trabalhando.

— Sim, sim. — Ela estava novamente tamborilando ritmicamente. Desde quando Henry chegou, viu que ela estava ficando mais ansiosa do que o normal. Ou talvez ele apenas estivesse começando a observá-la mais do que fazia antes?

Henry sentou-se no colchão, enrolou-se nas cobertas e começaram a conversar sobre alguns livros que ambos leram. Conversaram sobre livros de fantasia, ficção científica, suspense, terror, drama, e Henry percebeu que o gosto de Filippa era ainda mais variado do que o seu.
Margaret entrou no quarto e, vendo os dois dando risada de algo que haviam dito, semicerrou os olhos.

— Pretende ficar até quando? — perguntou Margaret, rispidamente.

Henry inclinou a cabeça para Filippa.

— Até as… nove? — arriscou ele.

— Onze — retrucou Filippa.

— Nove e meia.

— Dez e meia — corrigiu Filippa.

— Dez horas da manhã.

— Tudo bem — suspirou Filippa. Margaret assentiu levemente, encarou o garoto de olhos violeta mais uma vez e saiu do quarto, deixando a porta entreaberta.

Henry olhou convencido para Filippa.

— Minha presença é tão agradável assim?

— Você sabe que é — afirmou Filippa, sem pensar muito. A ideia que a maioria tinha de Henry era que ele era o tipo de pessoa com quem poderia-se desabafar até seus mais profundos problemas. E, então, o garoto costumava resolver estes problemas. Era por isso que, quando ele dizia que encontraria seu pai, Filippa estava disposta a acreditar.

Quando ela respondeu, Henry corou levemente e coçou a nuca.
O café da manhã, apesar dos olhares desagradáveis de Margaret, estava com um clima agradável. E, para ainda maior irritação de Margaret, Henry fazia Filippa divertir-se a todo momento, e sua filha parecia realmente feliz. Quando tentou abordar outros assuntos com o garoto, ele aceitou a conversa e, em segundos, para espanto de Margaret, dominou-a. Suas teorias a respeito de antigos casos sem solução na polícia eram ótimas, e quanto mais Margaret pensava, mais sentido fazia. Filippa apenas sorria discretamente.
Margaret suspirou.

— Você pensa rápido, garoto.

— Um pouco. Apenas gosto de resolver problemas, principalmente se as pessoas não conseguiram fazê-lo antes.

Margaret olhou de maneira estranha para o garoto após estas palavras, mas assentiu.
Após terminarem de comer, Filippa e Henry voltaram para o quarto. Após conversarem mais um pouco sobre assuntos banais, rindo de coisas ainda mais banais, desceram as escadas e foram assistir uma série que estava passando, algo sobre um homem que caçava criaturas. Tanto Filippa quanto Henry ficaram reclamando sobre coisas que, nos livros daquele universo, haviam acontecido de maneira completamente diferente (e melhor).
Dez e quinze, Henry levantou-se.

— Você me enganou!

— E-eu?! Jamais! Você que não olhou no relógio logo acima da TV.

— Eu estava concentrado vendo aquele cara super foda apanhar para um coadjuvante!

— Tsc. Então vai lá com a Jane agora — dispensou-o Filippa, com um gesto de desprezo.

Henry deu risada.

— A última coisa de que preciso é de você resmungando sobre mim também. Relaxe, eu talvez passe aqui amanhã.

— Hum… Amanhã…

— Então até amanhã, Filippa Sunden.

— Até, Henry Stanner.

Caminhou até a porta, mas Filippa segurou-o pelo braço.

— Avisou sua mãe?

— Não.

— Então vai andando?!

— Relaxe, Filippa. Só quero pensar um pouco. Afinal, vou fazer “aquilo”.

— Ah. Então… Tchau, garoto dos olhos abençoados.

*

No caminho até a sua casa, enquanto andava pela calçada, a expressão de Henry estava vazia, e seus olhos opacos. Sentia algo estranho. Tinha a sensação de que sua vida estava prestes a mudar, mas não tinha como saber se para pior ou melhor.
Via pessoas correndo naquela manhã fria. Tsc. Que impressionante. Enquanto uns levantavam-se cedo, outros tarde. Enquanto uns viviam mergulhados em preocupação, outros não se preocupavam com nada. Enquanto uns odiavam a inércia, outros a amavam. Enquanto uns eram tristes, outros eram felizes. Enquanto uns viviam, outros morriam.
Os olhos de Henry voltaram a ter brilho. Ele continuou andando até finalmente chegar na casa de Diana. No caminho, passou pelo beco em que seu destino alterou-se. O beco em que Diana Stanner deu-lhe uma nova chance de viver. Sabia que nunca conseguiria expressar toda a gratidão que sentia por ela. Jamais. Não apenas por ela, mas por Jane e Tyller, e até para Filippa, e Rachel e Bill. Até a professora Mary. Todas estas pessoas que ajudaram-no a construir uma nova vida para substituir aquela que perdera.
Chegou até sua casa e bateu na porta. Ouviu alguém descendo as escadas correndo. Instantes depois, a porta foi aberta por uma garota loira de olhos azuis que olhava irritada para ele. Ela deu passagem para o garoto, que entrou em casa sorrindo de canto, preparado para as reclamações de Jane. Não que se importasse muito. A irritação de sua irmã apenas proporcionava-lhe divertimento.

— Onde o pai e a mãe estão?

— Saíram de casa, já — respondeu Jane, friamente.

— Quer desabafar sobre isso?

— Vai se foder, Henry! Você não só foi na casa da Filippa, mas dormiu com ela!

— “Dormir com ela” é um termo com um sentido impróprio. Eu não “dormi com ela”, eu dormi na casa dela, no mesmo quarto que ela.

— No mesmo quarto — repetiu Jane.

— Você está irritada demais, Jane. Esse seu ciúmes não é meio exagerado?

— Elas estão estragando você! — acusou a loira.

Henry riu e abraçou Jane. No mesmo instante, a garota travou, e sentiu sua irritação ir aos poucos diminuindo. Então devolveu o abraço.

— Eu dividir meu tempo com outras pessoas — sussurrou Henry — não significa que me esquecerei ou me afastarei de você.

— Me desculpe. Eu só…

— … estava acostumada a ser só você, e mais ninguém. Eu sei. Mas as coisas mudam, Jane. Eu… Eu também quero viver.

Aquelas palavras cortaram Jane. Henry não teve a intenção, mas agora Jane sentia-se extremamente culpada. Começara a pensar neste garoto que sua mãe resgatou de um beco, com um ferimento na barriga.
Um ferimento de bala na barriga.

— Me perdoe, Henry.

— Tsc. Se você ficar cabisbaixa desse jeito sou eu que vou ficar irritado. Levante a cabeça.

Jane levantou, deparando-se com os olhos violetas do irmão.

— Vou usar o computador — comentou Henry —, mas quero ir ao centro hoje. O que acha de vir comigo?

Os olhos de Jane brilharam com a ideia. Realmente, fazia mais de um mês que os dois não saíam juntos.
Após sua irmã concordar, Henry subiu as escadas. Foi até seu quarto e ligou seu computador. Por garantia, trancou a porta. Fez algumas breves pesquisas e então mandou uma mensagem em seu celular para um contato anônimo.

“Henry: Ur, o velho Zack ainda está no centro?”

“Ur: Bom dia para você também, pirralho dos olhos estranhos. Também senti saudades, e obrigado também por sair sem dizer nada no mês retrasado e nunca mais falar comigo.”

“Henry: Perdoe-me. Também senti saudades, Ur, mas estive meio ocupado com os estudos.”

“Ur: Odeio vocês, sábios versados.”

“Henry: Estou surpreso que conheça esta palavra. Bem, não importa. O velho Zack continua no centro?”

“Ur: Sim, pirralho. Ele vai se encontrar com um traficante secretamente hoje às duas da tarde.”

“Henry: Você sabe onde?”

“Ur: Com quem acha que está falando? Eu sou a mais bem informada deste lado da cidade. Será no terraço daquele prédio velho, em Starozone. Por que quer saber?”

“Henry: Às duas no Starozone. Eu dei sorte. Obrigado, Ur. Da próxima vez, compro um bolo para você.”

Desligou o celular sem aguardar a resposta. Já era quase meio dia. Ele pegou um pouco de dinheiro que havia guardado para ocasiões como esta e pegou também um embrulho vermelho. Iria ver o velho Zack, e esperava que tudo se seguisse sem nenhum obstáculo. Não queria ter que ameaçá-lo, mas já tinha definido seu objetivo.
Iria achar Turner, e também encontraria o Assassino do Pentagrama. E então teria todas as respostas para as suas dúvidas.

Notas finais
Hehehe, este capítulo e o próximo e que vão dar rumo às coisas. Até o próximo capítulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.