Notas iniciais
É apenas um breve conto que se resume em um diálogo.

— Quantas horas você levou para fazer o que fez?

— Não muitas, eu não contei.

— Como pode saber então?

— Por que não senti canseira...

— Não entendo... Deve ter custado muito suor uma obra como esta!

— Não entendo... Apenas tentei me esquivar das horas...

— Como consegue?

— Simples... Eu apenas começo a fazer sem olhar para o relógio.

— Ah! Por isso foi direto ao ponto!

— Não consigo entender... Todos olham as horas, loucos de preocupação ou de ansiedade. Mas o tempo que levam olhando o tempo é perda de tempo.

— Então por isso tocou os pincéis esta noite...

— Não exatamente. Não sei se era noite. Talvez fosse o cair da tarde e o chegar da noite. Não olhei através da janela, por que aprendi com os meus avós como olhar as horas na lua e no sol.

— Agora entendo... Por isso ficou realmente belo!

— Não pretendo repeti-lo... Talvez seja a primeira e última vez que perco as horas...

— Seria magnífico se conseguíssemos todos ignorar os ponteiros...

— E os luares... E os reflexos do sol nas margens dos rios...

— Perfeitamente...

— Estas cores... Levei certo tempo para me decidir entre qual usar e qual não usar.

— Por isso escolheu bem... Não ficou preocupado com o decorrer dos segundos enquanto se perguntava será azul ou será verde.

— Claro, meu caro amigo...

— Não sentiu fome enquanto trabalhava?

— Não quis nem permitir que o cheiro das refeições ultrapassasse a porta deste aposento! Desta forma eu saberia quando almoço ou quando janta, portanto quando dia e quando noite. Ignorei os roncares de barriga igualmente!

— Deve estar cansado. Como consegue? Deve estar faminto... Isto é loucura! Não... É a primeira vez que aprecio tanto uma obra de arte!

— Percebo... Nem ao menos consultou seu relógio de bolso, caro amigo!

— Para quê! Não consigo desviar o olhar de suas cores e traços!

— Modéstia parte, eu também não consigo desviar o olhar...

— Como é que fez estes detalhes dourados? É incrível! Mal consigo me permitir imaginar!

— Não perca tempo com isso. Eu mesmo não perdi...

— Nunca vi tal retrato... Eu gostaria de ter um no lugar do relógio empoeirado do meu saguão de entrada. Este é o mais detalhado! Os ponteiros são precisos, os números bem visíveis, a moldura bem trabalhada, o vidro sem dúvida o mais cintilante que já vislumbrei e... Os detalhes em ouro! Estes não consigo comentar! Sem sombra de dúvida é o relógio melhor retratado de todos os tempos!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!