Oblivious

3 Grama Cortada


Notas iniciais
"Por fim, as lagrimas tomavam conta do ser humano.
Controlando seus atos, a maldade havia, finalmente, nascido."

"Como ela pode estar acordada? Seu caso era irreversivel!" sussurrou o médico, num canto afastado da sala.

"Não precisa se conter. Parece que ela não escuta." informou a enfermeira. "Peguei-a saindo do jardim hoje cedo. Apliquei alguns exames e, parece que além de não ouvir, ela não fala e perdeu o tato" a enfermeira tomou ar "E sua temperatura está um pouco baixa também."

"Quantos graus?"

"Perto de 32º, doutor."

O médico suspirou. Virou-se para a paciente, e ela os observava com seu olhar glacial. Ele hesitou por alguns instantes antes de afagar sua cabeça e checar sua temperatura com as mãos. Ela o olhava sem emoção, se perguntando o que ele estava fazendo.

Seus labios se moveram.

"Não sei como você acordou. Mas vamos tentar achar seus pais." disse, parecendo pouco esperançoso.

Pouco depois, ele saiu. A enfermeira ainda tentou fazer Charlotte comer. A garota não esboçou reação alguma, e a enfermeira desistiu.

Deitada em sua cama totalmente lucida, pela primeira vez em dois anos, Charlotte tentava se lembrar. Se lembrar de qualquer coisa.

Sabia que tinha pais, sabia que tinha um passado. Mas não se lembrava deles. Ou não queria lembrar. Talvez não pudesse se lembrar, ou tivesse escolhido não se lembrar de nada. Talvez não se importasse em se lembrar.

Levantou-se para contemplar o sol forte da tarde. Seu quarto dava para o jardim, e ele parecia ser enorme. Mirou o ponto em que esteve mais cedo, o rapaz não estava lá.

Voltou-se para sua cama, examinando-a. Seu prontuario estava ali.

Charlotte Thompson sofreu um acidente grave com quinze anos. Seus ferimentos se curaram rapidamente, mas a garota nunca acordaria.

Charlotte Thompson morreu. Quem ela era então?

Quem ela era, se ela não deveria acordar?

A noite caiu, monotona, sem acontecimentos. Charlotte estava sentada na cama, analisando a ponta de seus cabelos. Estavam fracos e quebradiços, porém longos, negros como a noite que se estendia lá fora.

Entretanto, não conseguia sentir a textura de seu cabelo entre seus dedos. Estava desperta, mas era como se ainda estivesse dormindo.

Como se estivesse morta.

E foi então que Charlotte percebeu que ela, realmente, estava morta.

Instintivamente olhou para janela. Algo parecia se mover ali. Por trás do vidro, como um fantasma, Light Stark apareceu. Seus cabelos tão claros pareciam formar sua propria lua no céu.

Parecia estar com dificuldades, então Charlotte se levantou e abriu a janela.

"Não está dormindo ainda? Está bem tarde, devia descansar."

Os labios de Stark se moveram, ignorando a surdez da garota. Ela o olhava, se perguntando que tipo de idiota ele poderia ser.

"Eu esqueci de avisar..." ele se segurava com dificuldade no parapeito da janela "Eu vou estar te esperando no mesmo lugar de hoje. Para conversarmos mais."

Ela piscou, tentando entender algo. Qualquer coisa que pudesse entender seria bom.

Stark sorriu e, propositalmente ou não, acabou caindo. Charlotteu correu até à janela, mirando o chão, mas não havia mais nada.

Se ele realmente caiu, seria impossivel saber. Ela não podia ouvir, e estava escuro demais para enxergar aquela parte do chão.

No outro dia, os primeiros raios da manhã invadiram o quarto de Charlotte. A luz morna aqueceu sua pele, e a despertou. Movida por um impulso e já coordenando melhor suas pernas, correu até as portas de vidro do jardim.

Abriu-as com cautela, e voltou a correr. Chegou até o banco onde Stark estava. Ofegante, olhou para ele com os meus olhos vazios e, pela primeira vez, ao invés de ecoar em seu cerebro, sua voz saiu.

"Quem é você?" perguntou, ofegante.

"Olha, você já pode falar!" ele sorriu "Como você é rapida."

Charlotte observou sua boca se mover enquanto recuperava o folego.

"Eu não posso ouvir você." declarou, com uma voz gelida como seus olhos "Não posso ouvir nem você, nem nada."

"Tudo bem, eu sei disso. Certas coisas demoram algum tempo para aparecer." ele levou a mão até o ombro de Charlotte mas se deteve.

Stark sentou-se no banco, e convidou-a para se sentar ao seu lado. Riu de seus cabelos bagunçados, e notou como estava magra.

"Sabe, Charlotte. Nesse mundo, há coisas que não podem ser vistas. Há coisas que não devem ser vistas. Outras coisas que nem existem, mas mesmo assim, nós podemos vê-las. E há pessoas que vêem aquilo que não deve ser visto. Há varias pessoas especiais."

Charlotte soltou um suspiro, irritada. Era estranho ver alguém falando e não poder ouvir. Ela não entendia e isso a irritava.

Observou por um longo tempo os labios de Stark. Eram bonitos, e se moviam com rapidez e delicadeza. Charlotte tentou figurar sua voz. Bonita, porém irritante.

" ... Quando algo passa muito tempo desligado, talvez não saiba o que fazer, nem como fazer quando finalmente é ligado. É por isso que você precisa ficar aqui, até melhorar..."

Milhares de ideias passavam por cabeça. Milhares de teorias sobre o que aquele rapaz estaria lhe falando. Nenhuma parecia lhe satisfazer.

Ele se levantou, e fez um sinal com um dedo. Um sinal para que se virasse. Ela o obedeceu. Olhou para atrás, e ele acenou. Entendeu que era hora de ir embora.

Caminhou lentamente para dentro do hospital. O corredor já estava um pouco mais cheio, e a enfermeira veio ao seu encontro.

"Acordada de novo? Foi dar um passeio no jardim?"

"Eu estou estranha." verbalizou Charlotte.

"Você... Está falando?" perguntou a enfermeira "Estranha como? Está com..." a enfermeira pousou as mãos no ombro da garota, e percebeu a pequena trilha de sangue que seus pés haviam formado.

"Meu deus, por onde você esteve? Como conseguiu seu cortar?"

"Por que você está assim? Eu não consigo ouvir você. Aconteceu alguma coisa?"

Notas finais
Espero que tenham gostado desse capitulo também! ♥ ~