Oblivion

9 Início do Fim. - Parte 1


Notas iniciais
Olha eu aqui, mimando vocês com mais um capítulo depois de 5 dias hahaha Estou bem feliz com esse, já que a gente vai poder ver um pouco mais sobre o passado de Haiako. Por que ela está tão tensa, quais segredos ela esconde? E quem é Tsuki?? Espero que gostem!

Lithium, don't wanna lock me up inside

Lithium, don't wanna forget how it feels without

Lithium, I wanna stay in love with my sorrow, oh

Lithium — Evanescence

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Memória de Haiako

É difícil olhar para a minha história e colocar um pino em onde foi que tudo deu tão errado. Com o passar dos anos, aprendi a enterrar meu passado, minhas falhas e minhas memórias dolorosas. Enterrei-as tão profundamente que, vez em vez, consigo senti-las em meu subconsciente, tentando chegar à superfície, implorando por ar.

Mas essa… essa é uma das piores.

Ao me juntar à Academia Shinigami, eu já possuía conhecimentos extensos em Kidō e Zanjutsu, graças àquele homem, que me ensinou tanto, e despertou em mim habilidades que indicavam uma afinidade pregressa com técnicas avançadas de batalha. Minhas origens sempre permaneceram um mistério… Mistério esse que ficava evidente a cada interação, cada lição, cada luta, mas nunca falávamos sobre isso.

Era como se soubéssemos que, debaixo daquela pedra, havia uma serpente venenosa. E nenhum de nós dois queria levantá-la. Após um tempo, eu tinha certeza de que Aizen havia decidido me deixar para não ter de confrontar aquela serpente.

Imediatamente após nossa separação, me juntei à Academia, e concluí o curso em 3 anos, ao realizar a prova de proficiência com antecedência e me aplicar aos dois Esquadrões com os quais eu me identificava: a Divisão 5, do Capitão Hirako Shinji e Tenente Aizen Sōsuke; e a Divisão 8, do Capitão Kyōraku Shunsui e Tenente Yadomaru Lisa.

—Uou! Que incrível, Haiako-chan! Você é minha caloura, e já está se formando… Isso não é justo, eu só me formo ano que vem! — Hirano Tsuki sempre foi uma mulher enérgica e bem-humorada, e dificilmente se deixava abater pelo que quer que fosse. Ela possuía os cabelos mais pretos que eu já tinha visto, extremamente longos e lisos, e olhos acinzentados com um brilho quase arroxeado. Com aparência mais nova, Tsuki era mais alta e magra, mas com um corpo belo e energia tão divertida que era impossível não se sentir atraído por ela. Éramos opostos tão polares, que nossa união e amizade durante as aulas e intervalos foi inevitável. Passamos a compartilhar o mesmo quarto nas instalações da Academia, e vivemos juntas por 2 anos.

Ela era correta, feliz e amada. Possuía pais que a apoiavam e a amavam incondicionalmente, alegravam-se com todas as suas conquistas. O senhor e a senhora Hirano foram o mais próximo que cheguei de conhecer e conviver com uma família de verdade.

Tsuki também era extremamente confiável. Tanto que, com apenas um ano de nossa amizade, ela já sabia de alguns detalhes do meu passado com Aizen que eu nunca contaria para ninguém. É como se minha vida fosse um quebra-cabeça do qual ninguém possuía as peças completas.

—Eu não acredito que o cara de pau do Aizen Sōsuke negou sua aplicação ao 5º Esquadrão! Você tem a melhor habilidade em Kidō que eu já vi, Haiako-chan! Do Capitão Kyōraku eu já esperava, ele tem fama de ser bem relaxado, mas eu não achava que o Aizen…

—Tenente Aizen, Tsuki… ele é tenente agora. Mas está tudo bem. Não importa. Na verdade… — eu hesitei em continuar. — Eu recebi uma carta do Capitão Geral.

—O que?! Como assim? Quando? E o que dizia nela?

—Há algumas semanas… — Eu me interrompi, na tentativa de inserir um contexto a informação. — Você se lembra de quando o Capitão Geral ofereceu aulas particulares para alguns alunos do último ano que possuíam habilidades excepcionais? — Ela acenou. — Pois bem, eu fui uma.

—Sim?

—Bom… nessa carta…

—Haiako-chan, você está me deixando ansiosa! Desembucha!

—Ele me convidou para assumir o 3º Posto do 1º Esquadrão. Eu começo amanhã.

Aquela foi a primeira vez que Tsuki havia ficado sem palavras. Discutimos brevemente sobre o que seria de nossa amizade, nossas perspectivas de futuro. Ela se mostrou ressentida pelo fato de eu ter escondido aquilo dela, mas entendeu que eu precisava ter certeza do que realmente estava por vir.

No dia seguinte, antes que eu saísse para me apresentar a Divisão 1, e mudar completamente o rumo da minha vida, Tsuki se colocou em minha frente na porta. Me surpreendendo com um abraço apertado, apesar de saber que eu não gostava de ser tocada, ela disse:

—Você sempre, sempre, vai estar em meu coração. Então por favor, não se esqueça de mim, Haiako-chan! Você merece ser feliz.

—Obrigada, Tsuki. Mas eu não estou morrendo! — Eu a afastei, rindo de seu sentimentalismo. — Em breve você irá se juntar a mim, e seremos Shinigamis juntas.

Ela olhou para baixo.

—Sim… mas não consigo escapar desse sentimento de que esse é o início.

—Início de que, Tsuki? — Eu segurei suas mãos, e senti uma grande melancolia vinda dela. Uma melancolia inexplicável pertencente a alguém que sentia saudade de algo que ainda não aconteceu.

—Do nosso fim.

—Eu nunca vou deixar você…

Eu não queria admitir, mas ela estava certa.

Durante meus primeiros anos na Divisão 1, precisei encarar os preconceitos que eu naturalmente enfrentaria em minha nova posição. Mais jovem que meus subordinados, muitas vezes, houve tentativas de me subjugar e desmerecer minha capacidade de liderança.

Ainda assim, me mantive forte. Desistir nunca foi uma opção para mim.

Aquele homem, por sua vez, ascendeu rapidamente, como fogos de artifício, e já havia alcançado o posto de Capitão, após um incidente com o Capitão Hirako Shinji e outros membros dos 13 Esquadrões de Guarda da Corte, cujos detalhes nunca haviam sido revelados.

Lembro-me de pensar "Que conveniente para você, Sōsuke. Finalmente você atingiu a grandeza que desejava".

Já o Capitão Geral, com sua sabedoria, compreendia que meus poderes estavam além do esperado para a minha posição, apesar dos meus esforços para escondê-los. Afinal, quando me conectei com minha Zanpakutō… tive que sacrificar muito. Mas ainda não quero me lembrar disso. Por isso, sempre contei com minhas excelentes habilidades em Kidō. Nada de bom veio dos meus poderes reais.

—Capitão Geral, bom dia! — No escritório do Capitão, toda a Seireitei podia ser vista, brilhando sob um céu perfeitamente azul. Ter a confiança daquele homem, cujo julgamento era o mais respeitado da Soul Society, era uma honra. Essa confiança, naturalmente, vinha com cobranças e expectativas as quais nenhum outro Shinigami, que não estivesse sob seu comando, conhecia. Muitas vezes, as noites eram completamente preenchidas por reuniões, treinamentos e relatórios intermináveis, e os dias se conectavam sem que eu pudesse dormir. E eu sentia grande orgulho em minha rotina. — Você solicitou minha presença?

Yamamoto Genryūsai, apesar de rígido e fechado, cuidava de seus subordinados com apreço. Ele esperava grandes conquistas de nós mas, por algum motivo, eu sentia que seu olhar sempre recaía sobre mim com maior força. Ele exigia mais de mim, e eu nunca soube o porquê.

Em pé, de costas para mim, e atrás de sua mesa, pude notar os detalhes de seu haori de capitão, com a insígnia do 1º Esquadrão nas costas, e percebi que ele olhava para o alto, pensativo — algo raro para aquele homem.

—Kikuchi Haiako. — Sua voz poderosa ecoou por sua sala, enquanto seu cajado batia no chão e vibrava a madeira sob meus pés. — O que você espera alcançar?

Naquele dia, me lembro de estar com os cabelos presos em um coque baixo e com os meus óculos de grau, pois sempre tentava aparentar ser mais séria quando precisava me encontrar com o Velho Yama. Não que minha personalidade fosse tão diferente do que eu mostrava, mas era bom garantir um profissionalismo impecável. Eu fazia questão.

—Perdão, capitão. Temo não ter entendido sua pergunta.

—Espero grandes coisas de você, Kikuchi Haiako. Em batalha, você se mostrou não ser uma completa inútil. Ainda assim, você se nega a revelar ao seu superior a fonte do seu poder, e esconde sua verdadeira face, estou errado?!

Eu congelei.

—Senhor… eu apenas não acho minha Zanpakutō digna de-

—Sou eu quem decide isso, criança. — Mais uma vez, ele bateu o seu cajado, e seu olhar penetrante me calou. Acenei para ele, em respeito. — Por isso eu a pergunto: o que você espera alcançar em sua vida?

—Capitão Geral, estar sob seu comando já é de uma honra imensurável. Não há nada mais que eu possa exigir do senhor, que me ofereceu e ensinou tanto.

—Você espera que eu acredite que não tem quaisquer ambições? Criança, não ouse mentir para mim. Eu vivi a sua vida inteira dezenas de vezes.

Apenas acenei, olhando para o chão.

—Inaceitável. Nenhum oficial sob meu comando ficará estagnado, nem irá esconder de mim seus verdadeiros poderes. Você entendeu, criança? — Seu tom de voz aumentou, tornando-se imperativo e dominante. Apenas pude concordar, antes que ele continuasse após uma longa pausa, como se ainda estivesse pensativo. — A Onmitsukidō está recrutando novos membros para ocupar o comando de suas 5 divisões, sob comando da Capitã Soi Fong. Em especial, a Segunda Divisão, Keiratai. Em caráter de exceção, você participará do curso preparatório, junto a outros poucos Shinigamis escolhidos.

—Se-senhor. O comando da Segunda Divisão da Onnmitsukidō… Essa é a posição de…

—Tenente da Divisão 2. Essa é uma oportunidade única. Não me envergonhe, e não envergonhe o nome do 1º Esquadrão. Espero vê-la Tenente, Kikuchi Haiako. Você está dispensada.

Naquele momento, um misto de otimismo e medo tomou meu corpo. De fato, eu não possuía ambições de sair do 3º Posto da Divisão 1. O próprio oficial anterior que ocupou essa posição, Okikiba Genshirō, o fez por séculos. Mas eu precisava admitir: saber que o Capitão Geral me achava digna de me tornar uma Tenente em uma Divisão tão crucial para a Soul Society significava que meus esforços em me tornar uma grande líder não haviam sido em vão.

Conhecer a Capitã Soi Fong foi incrível. Uma mulher mais nova que eu e, ainda assim, tão séria, dedicada e forte, era uma visão refrescante e inspiradora. Nos primeiros dias das instruções das Forças de Segurança, as quais estavam sendo renovadas pela mudança completa na estrutura da Divisão 2, causada pela assunção de Soi Fong, senti como se pertencesse verdadeiramente àquele esquadrão.

Ainda na primeira semana, no início do dia, eu me alongava no campo de treinamento, envergando meu torso sobre minhas pernas esticadas ao chão. Eu vestia o uniforme preto tático principal da Onmitsukidō, com um rabo de cavalo alto. Ao dobrar meu corpo e tocar as pontas de meus pés com as mãos, pude notar passos se aproximando de mim em minha frente, e vi as mesmas sapatilhas pretas que eu usava paradas aos meus pés. Quando olhei para cima, lá estava ela.

Tsuki, também com as vestes da Onmitsukido, olhava para mim com um grande sorriso em seus lábios, e seus cabelos negros estavam presos em dois rabos de cavalo baixos, que caíam sobre os ombros, e uma longa franja que emoldurava as laterais de seu rosto.

—Ei, sumida!

—Tsuki! — Rapidamente me levantei, devolvendo o sorriso a ela. — Como é bom ver você!

—Senti tanto a sua falta! — Ela me abraçou, e eu enrijeci o corpo, ainda que positivamente surpreendida. — Ou devo dizer: que bom ver você, 3º Posto Kikuchi! — De forma ironizada, ela se curvou diante de mim, demonstrando uma falsa subordinação para me provocar.

Com um sorriso largo, mordi meu lábio inferior, segurei a cabeça de Tsuki com uma das mãos, e abaixei ainda mais seu corpo, até que seu torso ficasse paralelo ao chão.

—Pode curvar mais!

—Ai, grossa!

Com algumas risadas, e mais abraços por parte dela, finalmente suspiramos e nos olhamos com maior detalhismo. Poucos anos haviam se passado, mas parecia uma eternidade. Pelo menos, eu sentia que havia envelhecido séculos.

—Como você está, Haiako-chan? — Começamos a caminhar pelas laterais do campo de treinamento para colocarmos os assuntos em dia. Enquanto andávamos, observamos a vista de outros integrantes do esquadrão e do curso realizando atividades diversas, como exercícios de força e velocidade.

—Estou bem. Um pouco exausta, mas bem. E você, morreu de saudades de mim?

—Olha aqui, eu tenho amigos, tá bem? Você que é toda solitária! Haha! Mas sim, estou muito bem. Me apliquei ao 2º Esquadrão no ano passado, e aqui estou! Mas vem cá, você não é da Divisão 1, e 3º Posto, ainda por cima? O que você tá fazendo aqui?

—O Capitão Geral me recomendou. Disse que eu posso alcançar mais nessa posição.

—Alcançar mais que a terceira posição do esquadrão mais respeitado da Seireitei? Uau, Haiako-chan! Acho que você é mais fodona do que eu pensava.

—Tsuki, não seja vulgar. — Eu ri. — Mas acredito que isso seja mais uma punição do que uma promoção…

—Existem punições piores do que disputar uma posição de liderança na Divisão 2, Haiako.

—Sim… você deve estar certa. Mas ainda tem algo me incomodando…

—O que é?

—A mudança repentina do Capitão Geral. Ele mesmo me recrutou, me encarregou de funções extremamente importantes, e agora, poucos anos depois de eu ter assumido o 3º Posto, parece estar tentando se livrar de mim. Estranho, não?

A serpente debaixo da pedra.

—Isso, ou está tentando arrancar alguma coisa de você. O Velho tem mais de dois mil anos, Haiako-chan. Ele não dá ponto sem nó.

—Eu sei. É exatamente o que tenho sentido.

—Tsuki-san! Quem é essa? — Correndo em nossa direção, ela surgiu. Kiyomi Saito, uma garota de cabelos vermelhos-brasa, cacheados e longos, olhos castanhos, pele oliva e corpo forte repleto de curvas. Assim como Tsuki, ela conversava de forma alta, informal e despreocupada.

—Saito-chan! Essa aqui é a minha amiga, de quem te falei, Kikuchi Haiako, 3º Posto do 1º Esquadrão. Ela foi nossa caloura na Academia, mas se formou antes. Lembra dela?

—Sim, claro! A famosa Haiako-chan! É um prazer te conhecer oficialmente. — Ainda que em um ambiente leve e descontraído, senti que minha expressão facial a deixou desconcertada, uma vez que Saito, uma Shinigami sem posição, já havia tomado liberdades o suficiente para me chamar pelo primeiro nome, e agir sem sequer me cumprimentar formalmente.

—Impossível esquecer esse rostinho. — Atrás de Saito, um rapaz mais velho a acompanhava em passos leves, e sua voz era levemente rouca. Lembro-me de ficar impressionada com tamanha beleza daquele homem, que era alto, bronzeado e musculoso, evidenciado por meio do Shihakushō sem mangas, revelando seus braços fortes e repletos de tatuagens de cenas tradicionais japonesas, que iam das mãos aos ombros. Seu cabelo era loiro e caía levemente sobre os olhos verdes, além de utilizar óculos com armação prateada apenas nas laterais das lentes, e uma fina corrente de prata fazia com que meus olhos percorressem seu pescoço até o peitoral forte. Soichiro Izaya era seu nome.

—Nos conhecemos? — Após cumprimentar a garota, estendi minha mão a Soichiro, que me retribuiu com um aperto demorado.

—Não, mas é difícil não saber quem você é, Kikuchi Haiako. — Nossas mãos ainda estavam juntas. — Você é mais bonita do que eu lembrava. Perdoe a minha colega, ela é desatenta com certas… sutilezas sociais.

Um silêncio constrangedor, acompanhado de olhares profundos entre nós dois, fez com que Tsuki se intrometesse.

—E esse, Haiako-chan, é o Soichiro Izaya. Ele é o 4º Posto do 11º Esquadrão.

Envergonhado por não ter se apresentado formalmente, Soichiro se curvou a mim, mas nossa diferença de altura era grande demais. Acenei para que ele ficasse a vontade, e o perguntei, com sarcasmo:

—O que um bárbaro da Divisão 11 está fazendo no curso de formação da Onmitsukidō?

—Só porque vocês não conseguem nos vencer em combate Zanjutsu, somos bárbaros? Somos mais que isso, Kikuchi-san!

—Então você nunca perdeu uma luta?

—Nunca.

—Isso só porque você nunca lutou comigo.

—Olha, eu adoro um desafio. Ainda mais de uma oponente tão…

—Forte?

—Gata.

Novamente, Tsuki entrou no meio, enquanto Saito parecia entediada com nossa conversa.

—Tá bom, queridos. A gente já entendeu. A tensão sexual aqui tá gritando, Saito-chan. — Saito, por sua vez, concordou com a cabeça, rindo de nós.

—Hirano Tsuki! — Eu a repreendi.

—Ai, eu tô tão feliz! — Tsuki uniu a todos nós em um abraço espremido. — Minhas pessoas preferidas no mundo, finalmente juntinhas!

Quando nos afastamos, notei Soichiro olhando fixamente para mim, com um sorriso, e fiz o máximo para disfarçar que eu também queria estar olhando para ele. "Seja profissional, Haiako” eu pensei.

Eu sentia que, por algum motivo, precisava me manter distante. Contudo, não consegui fazê-lo.

Depois de Aizen, eu não havia me relacionado, emocionalmente ou sexualmente, com ninguém. Foquei completamente em meu trabalho e minhas funções e, por um tempo, consegui pensar em qualquer outra coisa que não fosse desejo ou necessidade de afeto. Mas o Soichiro era diferente. Enérgico, atraente e confiante. Provocante. E eu admito: alguns anos sem me relacionar com outro homem haviam sido… desafiadores.

Naquela noite, saímos todos juntos para nos conhecermos melhor e conversar sobre os próximos desafios do curso de táticas militares e, durante muito tempo, conversamos a sós, enquanto Tsuki e Saito perdiam-se no próprio mundo.

Para nós dois, tudo virava uma competição boba: até mesmo o quanto cada um conseguiria beber; e era divertido estar com alguém que me desafiava constantemente. Soichiro era, realmente, uma distração deliciosa, desde suas tentativas incessantes (e irritantes) de me fazer rir, até sua voz rouca e magnética.

Após algumas semanas de curso, nós quatro já estávamos extremamente próximos, uma vez que Tsuki fazia absoluta questão de me incluir em todas as suas atividades. Ela sempre agia como a cola que unia a todos nós. Naturalmente, fui desarmando e me tornando mais aberta a eles, também.

Em um dia chuvoso, eu estava na sala de Zanjutsu, ainda vazia pelo horário, observando as grandes e pesadas gotas de água caírem do céu cinza e escuro. Sempre achei a chuva linda, e sentia paz ao ouvir os sons que ela produzia. Cansada pela rotina ainda mais exaustiva do que eu estava acostumada, eu havia acordado mais cedo para ter alguns momentos sozinha comigo mesma, e respirar o ar fresco do final da madrugada. Eu amava aquele horário em que o dia começava a raiar e, ainda assim, parecia tudo tão quieto e solitário.

Mas, para a minha surpresa, Soichiro também entrou na sala, molhando o chão por ter caminhado até ali sob a chuva.

—Soichiro-kun. Bom dia.

—Ei, baixinha. — Era um de seus apelidos para me provocar. — O que está fazendo aqui sozinha? Hoje estaremos de folga.

—Que? Folga? — Envergonhada, minhas bochechas ruborizaram. — Mentira! — Coloquei minha mão em meu rosto, desapontada com minha própria falta de atenção.

—Você veio achando que teria instrução de treinamento hoje?

—Sim. Acho que tenho trabalhado tanto, que esqueci completamente que teria direito a uma folga. O Capitão Geral não me eximiu das atividades do 1º Esquadrão, então tenho que conciliar muita coisa ao mesmo tempo. Meu cansaço me confundiu.

—Vixe… não parece ser fácil trabalhar para o velho. Não sei como você aguenta. — Ele sussurrou, e eu ri baixo.

—Não é tão difícil. Estou acostumada com esse ritmo, e até gosto. Acho que acabei me distraindo hoje. Mas e você? O Capitão Kiganjō realmente não se importa de você estar aqui?

—Nah, ele deixa a gente fazer o que quiser, desde que continuemos fortes e capazes de diverti-lo. Quando eu falei que queria fazer o curso, ele não ligou muito.

—Ha! Está aí algo que eu não faço a menor ideia de como seja.

Olhando para a chuva caindo, nós dois permanecemos daquela forma, lado a lado, compartilhando de um silêncio caloroso. Conforme o som das gotas caía no chão, e sobre as telhas do local, senti que a mão de Soichiro se aproximava lentamente de mim. Sem colocar muito pensamento naquilo, eu também aproximei a minha, e nós seguramos as mãos, sem nos olharmos.

—Izaya… — Pela primeira vez, o chamei pelo primeiro nome. — Se você sabia que hoje estaríamos livres, o que está fazendo aqui, especialmente na chuva?

—Tá bem… você me pegou. — Ele se virou para mim, e precisei levantar minha cabeça para conseguir manter contato visual. — Eu vim porque sabia que você estaria aqui.

Olhando fixamente para ele, senti que havia atingido um limite muito pessoal para mim. Seria possível eu deixar minhas defesas de lado e me abrir para algo novo? Seria possível eu sair momentaneamente de minha mente, ignorar meus medos e passado? Antes que eu pudesse pensar mais, Soichiro colocou as mãos em minha cintura, e me beijou. Com meus pensamentos calados, eu fechei os olhos e retribuí.

Com uma pequena pausa, ele falou com um volume baixo:

—Você é tão intrigante… eu queria muito fazer isso. — Em resposta, eu acenei para que ele continuasse.

Então, Soichiro desceu suas mãos para minhas pernas e, com um movimento rápido, levantou meu corpo, como se não pesasse nada, e continuou a me beijar, quando abracei seu pescoço e ele confirmou que tinha meu consentimento. Aquele era o resultado de semanas de tensão sexual. Para mim, anos.

Na sala vazia de treinamentos, sobre o chão de madeira, e abafados pelo barulho da chuva, Izaya e eu transamos pela primeira vez, sem nos preocuparmos se alguém nos viria. O corpo dele era inacreditável, com tatuagens e cicatrizes por toda a extensão de seus braços e peitoral. Além disso, ele sabia exatamente o que estava fazendo, e era um amante que se doava, sem egoísmos. Era ótimo poder entregar meu corpo novamente àquela sensação, mas minha mente vagava.

Eu sempre lembrava dele. Com Aizen, o sexo era inacreditável. Nós estávamos conectados por muito mais do que apenas nossos corpos, e algo muito maior que nós tornava aquilo… transcendental. Existia um quê de medo, também, talvez por perceber que, durante nossas relações, Aizen era um homem completamente diferente daquele que ele se mostrava ser. Mais maldoso, mais violento.

Eu poderia dizer, ainda, que existia o fator do amor. Meu primeiro amor. Talvez, por isso, eu tenha romantizado tanto a ideia de Aizen em minha mente, mesmo magoada pela forma que ele havia me afastado em nossos últimos meses. Mas a verdade é que nossa compatibilidade sexual não podia ser explicada apenas pelo amor e, sim, por algo primitivo. Selvagem. Era como se, debaixo daquela imagem de homem calmo, caloroso e gentil, houvesse algo… descontrolado, que conversava profundamente com meus desejos ocultos.

Será que só eu pensava nele dessa forma?

Já com Izaya, o sexo era sempre bom. Mas aquele fator, aquele pequeno medo e incerteza do que aconteceria, estava ausente. Sim, talvez eu seja uma masoquista, e o que faltava era uma pitada de dor e sofrimento, e talvez eu seja uma estúpida por pensar isso.

Mesmo assim, Soichiro e eu nos tornamos grandes parceiros. Treinávamos, comíamos, bebíamos e dormíamos juntos, por meses seguidos. O suficiente para se formar um forte sentimento de cuidado e carinho. Ele não se intimidava pelo fato de eu ser mais forte, e cuidava de mim como se quisesse me proteger de tudo, como se eu fosse quebrar a qualquer momento. Seus abraços eram longos e me envolviam por completo, e ele era extremamente passional em todas as vezes que me tocava.

Mas, mesmo que eu me esforçasse para tal, eu não o amava. Me importava muito com ele, queria que ele fosse bem sucedido em tudo e, sim, amava sua amizade, além de amar sua companhia. Contudo, em um sentido romântico… não era amor.

Eu sabia, no entanto, que ele se sentia diferente. Izaya era, afinal, o tipo raro de homem que procurava algo duradouro.

Um dia, sentadas no gramado do campo de treinamento, descansando por breves minutos antes de voltarmos a instrução de combate corporal, Tsuki e eu conversávamos. De repente, ela me perguntou:

—Haiako-chan, você já pensou em se casar?

—O que é isso de repente? — Eu me engasguei com o ar, surpresa com aquela pergunta.

—Eu não sei. É que ultimamente você está tão leve e feliz. O Izaya-kun não sai de perto de você, e nunca te vi tão entregue assim.

—É verdade, eu gosto muito da companhia dele… E eu acho que sei onde você quer chegar com essa pergunta. — Eu me aproximei dela, para conversarmos seriamente, sem sermos ouvidas, e sussurrei. — Tsuki, eu não posso pensar nisso. Alguém com a quantidade de segredos que eu carrego… não consegue simplesmente compartilhar uma vida com outra pessoa com essa facilidade.

—Talvez você só não esteja disposta a se abrir.

—Vamos supor que eu me abra, e depois? Tsuki, existem coisas sobre mim que ninguém pode saber. Nem mesmo você, que é alguém que eu confio tanto. E o Izaya, por mais que ele seja um ótimo homem… há um limite para o que ele aceitaria. Para o que qualquer homem aceitaria, entende?

—Não exatamente. Haiako-chan, não seria melhor deixar ele decidir o que aceita ou não?

—Minha amiga, confie em mim quando digo a você: há certos aspectos de construir uma família que eu… — Eu me interrompi, fechando os olhos com força para evitar trazer à tona aquelas lembranças, e continuei sussurrando nossa conversa. — Eu gosto do Izaya. Tudo bem? Mas eu já passei por isso. Já tive a minha chance de uma vida a dois, já me entreguei. Eu achava que seria para sempre, que superaria todas as dificuldades impostas pelo meu passado. Mas me enganei. E eu não quero passar por isso nunca mais.

Em solidariedade, Tsuki passou seu braço pelas minhas costas, me envolvendo em um abraço lateral, e permitiu que eu recostasse minha cabeça em seu ombro.

—Me mata que alguém nesse mundo tenha feito você achar que não é digna de um amor eterno.

—Amor eterno… eu não sei se acredito nisso. Não é sobre ser digna. Para todos os efeitos, eu só não quero machucá-lo. Estar com alguém nesse nível de intimidade… só traz dores inevitáveis, para ambos.

—Eu entendo. Mas Haiako-chan, acho que você vai ter de deixar isso claro para ele.

—Sim. Eu sei. — Mesmo dizendo o contrário, fiquei absurdamente curiosa em imaginar uma vida ao lado de um homem que me venerava, cuidava de mim e me passava tanta segurança. Seria realmente possível que ele não se importasse com meu passado? Seria possível recomeçar, me permitir ter um futuro? Imediatamente, me entristeci. Existe algo… algo crucial… que eu sabia que não seria capaz de dá-lo.

Caminhando até nós, Izaya nos agraciava com um sorriso aberto, ao passo que colocava um objeto em seu bolso, o qual eu não pude identificar. Naquele dia, ele parecia especialmente animado. Após meses de treinamento, finalmente teríamos nossas missões designadas: o passo final para que fosse decidido o destino de cada um de nós na Divisão 2.

—Haiako, Tsuki! Bom dia!

Izaya apertou o ombro de Tsuki para cumprimentá-la, enquanto ela desviava o olhar por não conseguir disfarçar o fato de estar falando sobre ele. Já eu, estava acostumada com segredos, e o cumprimentei com um beijo breve. Novamente, ele sorriu para mim.

—Vem cá, vocês viram a Saito-chan?

—Agora que você comentou, Tsuki-san, eu realmente não a vi hoje.

—Ela foi se preparar para a missão em um lugar mais calmo. Estava um pouco nervosa, já que não foi tão bem nos testes de rastreamento. — Eu respondi.

—Ah, como sempre a amiguinha da capitã sabe de tudo. — Izaya debateu, novamente me provocando.

—Você só está com inveja por eu ser tão mais forte e inteligente que você, que a própria capitã me chamou para assisti-la. — Devido aos meus conhecimentos em Kidō combativo, assumi uma posição de assistente da jovem Capitã Soi Fong, o que já me dava vantagens em relação aos outros. Não posso negar, também, que o fato de ter sido selecionada pelo Velho Yama certamente contou pontos positivos a meu favor.

—Ou, talvez, você seja uma puxa-saco. — Nós rimos, enquanto Tsuki revirava os olhos.

—Casem logo! — Ela disse. Izaya, por sua vez, retribuiu com uma piscada de olho e um sorriso de canto de boca, me deixando confusa.

—Só depois que terminarmos a missão. — Ele disse, segurando uma de minhas mãos e levando-a a seus lábios para beijá-la. Fiquei absolutamente sem reação.

Para nossa próxima missão, os integrantes do curso seriam divididos em equipes de 4 combatentes, e enviados a localidades diferentes do Mundo dos Vivos para exercícios simulados de busca e eliminação. Os instrutores, membros da alta classe e grandes guerreiros da Divisão 2, se esconderiam no Mundo Físico, simulando Shinigamis desertores e criminosos.

Era o nosso dever utilizar todo o conhecimento que adquirimos em meses de curso para rastreá-los, encontrá-los e combatê-los, trazendo-os em segurança para a Soul Society. Para cada equipe, um líder era delegado e, na equipe formada por mim, Tsuki, Izaya e Saito, determinamos que Izaya seria o líder responsável por delegar nossas funções.

Quando nós quatro nos reunimos em frente ao Senkaimon, nossa missão era clara, conforme, anunciado por Izaya: rastrear e encontrar o "desertor" Matsui Ōkubo, um senhor membro da Divisão 2, com cabelos pretos e presos semelhantes ao de um samurai, aplicando quaisquer meios necessários para sua rendição, e trazê-lo preso a Soul Society.

Mais uma vez, Izaya segurou minha mão e a beijou, uma mania recorrente dele. Olhando para mim, enquanto Tsuki e Saito se preparavam, com uma expressão séria em suas faces, ele disse:

—Vamos terminar com isso. Não vejo a hora de voltarmos, minha bela Haiako.

Em meu subconsciente, eu já sabia o que ele queria. Talvez fosse, sim, possível. Talvez… eu poderia amar aquele homem.

E ali, partimos. Em direção ao Mundo dos Vivos. Em direção ao início.

Início do fim.

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Notas finais
Muuuuito obrigada pela leitura! Espero vocês no próximo capítulo de Oblivion: Início do Fim - Parte 2. Jaa ne!