Oblivion

2 Feelings.


Notas iniciais
Oláaaa querido(a) leitor(a)!! Espero que goste deste capítulo feito com muito carinho ♥

Aizen (愛染): manchado pelo amor/manchado de amor.

...

Memória de Aizen

Aqueles que já sentiram o amor incondicional, por ele ficam manchados. Carregam consigo a dor de amar, de sentir. Levam consigo a amargura intrínseca daqueles cuja alma se despedaçou por alguém. O sobrenome Aizen, assim como seu significado, manchou-me. Parecia uma punição divina: possuía apenas ódio dentro de mim, e ainda assim fui amaldiçoado com o desejo de amar. Meu passado, afinal, me cercara de pessoas amorosas, as quais foram vítimas da crueldade do mundo.

Pensei que estivesse fadado a eternamente sentir raiva deste mundo, a nunca encontrar alguém ou algo do qual eu me tornasse um fiel devoto. Meu futuro, meus planos, meu conhecimento e minha vida se construíram a partir do ódio. Da perda, da tortura, do medo e da solidão.

Tudo mudou quando a vi pela primeira vez. Tudo, que era tão certo, ficou embaçado.

De repente, o ódio não era a única coisa em meu peito. Mas eu o sentiria novamente... mesmo que ela também fosse a causa.

...

Após alguns segundos de um desconfortável silêncio, Aizen se direcionou ao seu assento, enquanto sinalizava para que Haiako fizesse o mesmo. Vagarosamente, retirou seu haori, deixando apenas o shihakushō em seu corpo. Os óculos também foram retirados e colocados na mesa de forma perpendicular às linhas da madeira. Sua organização impecável sempre lembrava a mulher de que, apesar dos longos anos, algumas características, tão intrínsecas a ele, ainda se mostravam presentes. Sem retirar o olhar da face do homem, ela moveu a cadeira em sua direção e se sentou.

Poderia perguntar muitas coisas sobre o passado, proferir variados xingamentos, ou até mesmo levantar-se e ignorar o homem – Em sua mente, ela não o devia nada. –. As palavras lhe fugiam, nada parecia apropriado, ou o suficiente. Aizen notou sua hesitação, e abriu seus lábios para falar, mas, antes que o fizesse, ela escolheu o que, talvez, fosse o mais sensato.

— Estou pronta para fazer um excelente trabalho. Quais são minhas ordens, Capitão?

Surpreso, ele levantou uma sobrancelha, seguido de um amplo sorriso de satisfação. Haiako era, deveras, uma mulher imprevisível, e isso acionava todos os sentidos do homem, deixando-o animado por um desafio. Com seu olhar, contornou cada traço do rosto e do corpo daquela que, mesmo após tantos anos, nunca saíra de sua mente. Pousou seu rosto em sua mão direita, demonstrando conforto ao redor da mulher e, apesar de esta não admitir, a postura enrijecida e intimidadora era um disfarce para o conforto que ela também sentia. O sentimento familiar e caloroso entre ambos era gritante.

— Pois bem. – Após um suspiro, ele disse, colocando-se em uma postura ereta. – Na primeira divisão, contrariando a tendência da equipe que se formou em seu ano, você recebeu treinamento militar compatível ao da Onmitsukidō. Tive a oportunidade de observar sua capacidade de comando e influência sobre seu pelotão. Além disso, sempre notei um controle e equilíbrio ímpar do Zankensoki* por sua parte, desde nossos primeiros treinos juntos...

Realmente, Haiako havia esquecido o quão falante ele era comparado à assertividade da mulher. Com um suspiro impaciente, ela replicou:

— Obrigada. Já fui brevemente apresentada ao meu novo pelotão – Ênfase no novo, uma vez que todos os integrantes eram jovens recém formados, com clara falta de experiência. Maleáveis, ela imaginou. –, mas achei que havia algo mais. Afinal, não há um histórico extenso de um Capitão passar meses solicitando a transferência um mero oficial adjunto, especialmente após este mesmo Capitão rejeitar a admissão deste oficial em um momento anterior. Portanto, peço sua sinceridade, Sousu... Aizen. – Instintivamente, ela o chamava pelo primeiro nome. Muitos anos de intimidade conferem esse tipo de liberdade, a qual ela evitava a todo custo.

— Minha tenente, Hinamori Momo, possui ótimas habilidades interpessoais e a capacidade de elevar a moral daqueles ao seu redor. Sua admiração por mim e por meu trabalho são inspiradoras. Também considero indiscutível que suas habilidades em Kidō são incríveis. – Haiako ouvia atentamente, mas seus olhos estavam presos ao crisântemo vermelho repousando sobre a mesa. – Apesar disso, acredito que ela não seja uma comandante ideal em batalha. Preciso de sua assertividade e seriedade, preciso de disciplina. Preciso elevar o padrão de meus subalternos. Não conheço ninguém melhor para essa tarefa do que você, flor.

Ao ouvir a última palavra de Aizen, a mulher fitou seus olhos em confusão, como se antes estivesse em transe. No rosto do homem, um sorriso provocador: todas as suas ações e palavras eram planejadas para causar reações certeiras. Dessa vez, não foi diferente.

Após alguns minutos de silêncio – e olhares profundos. – Os quais foram concedidos pelo mais velho, ela se cansou das aparências.

— Pois bem. Obrigada por me receber, iniciarei meus comandos prontamente e cumprirei minhas ordens com êxito. – Sua energia havia, finalmente, se esgotado. Poucos minutos com Aizen eram o suficiente para cansá-la: sua mente acelerava, seu corpo se enrijecia, e ela precisava utilizar todas as suas forças para controlar sua respiração. Assim, levantou-se, curvou-se, e caminhou até a porta.

Conforme seus passos, leves e rápidos, se aproximavam da saída, seus cabelos foram atingidos repentinamente por um forte vento, desarrumando a organização habitual dos fios. Aizen, em uma utilização não usual do Shunpo, pôs-se frente à porta, bloqueando a saída. Irrompendo as barreiras de seu exterior calmo e calculado, colocou sua mão direita na cintura da mulher, firme o suficiente para que ela não se esquivasse, mas leve o suficiente para demonstrar carinho. Haiako, por sua vez, instintivamente alcançou sua Zanpakutō, ainda que brevemente.

— Aizen... – Em sua face, a raiva expressava-se de maneira intimidante, mas a saudade e a ausência transformaram-na em tristeza. – Eu não posso mais ficar aqui.

— Fique. Não faça isso. Tempo demais se passou, precisamos conversar verdadeiramente, sinceramente. – O olhar amável do homem tornava quase impossível dizer não.

— Não agora, não durante o dia e, definitivamente, não em frente a outras pessoas. Você escolheu separar nossos caminhos, não eu. Suas decisões são as únicas culpadas pelo seu presente, não as minhas. Nossa relação não ultrapassa os limites da posição hierárquica na qual nos encontramos. Por favor, não torne isso mais difícil do que é.

Segurou a mão de Aizen, que ainda a tocava – mesmo que, agora, com menor intensidade. –, e proclamou uma última vez, após confirmar a falta de palavras do homem:

— Olhar para você dói demais. Eu não sou forte o bastante para isso. – Soltou-se do homem, e saiu, sem que qualquer chance de resposta fosse concedida.

O mais velho, após a ausência de Haiako, ajeitou os cabelos, colocou novamente seus óculos – agora secos. –, e pensou, com calma e melancolia:

Isso não terminou.

...

A tarde de treinamentos fora cansativa, terminando apenas quando o céu já apontava suas brilhantes estrelas, e o Sol não mais encontrava-se visível. Os novos integrantes do 5º Esquadrão eram, como dito por Aizen, ausentes de disciplina. Bons guerreiros, fiéis e de coração puro, com grande admiração e carinho por Momo Hinamori, Haiako constatara, mas necessitados de comandantes firmes. Claramente, eles não supriam tais necessidades com sua Tenente.

A mulher, entretanto, não tirava sua mente da breve, mas intensa, interação de antes. “Precisamos conversar verdadeiramente” eram as palavras que ainda ecoavam em sua mente. De fato, ambos passaram – o que para Haiako pareciam incontáveis – anos sem trocar palavras verdadeiras. Acenos contidos marcavam os raros encontros.

O campo de treino, extenso e repleto de artefatos de combate, iluminava-se com o brilho da Lua e, do outro lado, o escritório de Aizen, cuja ampla janela permitia uma visão privilegiada de todo o local. Haiako não pôde deixar de observar, iluminada com a chama amarela de uma vela repousada em sua mesa, a silhueta do homem, as costas largas no centro da janela, e as mãos compenetradas em alguns documentos.

Conforme as gotas de suor escorriam por sua testa, Haiako sentia os efeitos de um dia movimentado – física e mentalmente. As vozes animadas e agradecidas de seus subalternos, impressionados com a instrução espirituosa, eram apenas uma canção de fundo, abafadas pelo profundo silêncio daquele escritório.

Com um sorriso, despediu-se dos jovens Shinigamis, e seguiu seu caminho, deixando-os conversando entre si. Naquele horário, apenas um lugar se mostrava ideal para acolhê-la.

...

Rukongai, a cidade das almas, possui 320 distritos, divididos em 80 distritos no Norte, 80 no Sul, e assim sucessivamente para Leste e Oeste. Os distritos de número menos são os mais próximos da Seireitei, normalmente frequentados por Shinigamis e, devido à localização, onde são encontradas as melhores condições de vida.

No 2º Distrito de Rukongai Sul, é possível encontrar alguns bares nos quais os Shinigamis se encontram após um longo dia de trabalho. Apesar disso, Haiako não os frequentava em busca de companhia, e frequentemente era vista sentando-se sozinha com um copo de saquê, perdida em seus pensamentos. Sua popularidade, no entanto, não permitia que ficasse só por muito tempo e, após algumas poucas horas rodeada por colegas e subalternos, a mulher se retirava, e caminhava sozinha até sua casa.

Hoje, contudo, o cenário era diferente. Ao adentrar o izakaya, iluminado por uma luz amarelada, surpreendeu-se com o silêncio agradável, poucas pessoas e uma música leve ambiente. Raramente presenciava tal cenário, mas uma figura era constante – independente do dia.

Shunsui Kyōraku, Capitão do 8º Esquadrão, conhecido por sua personalidade extravagante, e pelas longas noites de farra e constantes ressacas, virara um companheiro querido de Haiako, desde que esta se tornara uma Shinigami. Sua humildade, calma e casualidade agradava a mulher, que possuía os pensamentos tão conturbados. Se dissesse, ainda, que não o achava atraente, estaria mentindo.

— Kikuchi-chan! Vejo que seremos só nós dois, hoje! Vem aqui, sente-se comigo! – O Capitão, sem disfarces, escaneou cada detalhe do corpo de Haiako

— Capitão Shunsui, boa noite. – A mulher curvou-se em reverência, e levantou-se com um amplo sorriso. Mesmo após o serviço, Haiako mantinha uma certa formalidade ao se direcionar a outros Shinigamis, independentemente da posição que estes ocupavam.

Atendendo ao convite de Kyōraku, Haiako se sentou em uma das almofadas vermelhas dispostas ao chão em torno da mesa de madeira, ao lado do homem. Este, a serviu saquê em um copo artesanal de cerâmica, e procedeu a perguntar sobre seu primeiro dia no novo esquadrão.

O kimono rosa florido e característico chapéu de palha que o homem usava o tornava destaque em qualquer lugar que fosse, sendo impossível passar despercebido. Haiako, por sua vez, vestia suas vestes negras apropriadas para treinos, mais justas e flexíveis que as usuais. Suas costas estavam totalmente a mostra, expondo um bronzeado leve, e músculos definidos. Tanto seu decote, o qual também era mais revelador que aquele usado normalmente por ela, quanto os cabelos de tom acobreado-dourado presos em um coque, com apenas alguns fios soltos, eram detalhes que atraíam todos os olhares, especialmente o do homem ao seu lado.

— O Capitão Aizen permitiu que eu avaliasse a capacidade física dos novos integrantes do esquadrão. A Tenente Momo, no entanto, não participou das atividades. Creio que ela estará, a partir de agora, encarregada de atividades mais administrativas. – Haiako evitava transparecer em público qualquer tipo de intimidade com Aizen, mas Kyōraku, conhecendo-a por muitos anos, possuía algumas peças do quebra-cabeça que era o passo de ambos.

— Hinamori-chan é uma excelente Tenente, muito admirada por todos! – Haiako acenou em concordância. – Mas como foi a sua interação com o Sousuke-kun? – Após sentir o silêncio desconfortável da mulher em resposta, Kyōraku riu e rebateu – Desse jeito vou ficar com ciúmes!

— Calma, grandão! Hoje sou toda sua! – Em meio às risadas e seus flertes usuais, ambos seguiram por horas e horas, bebendo e conversando, até que não houvesse mais ninguém no izakaya além dos dois.

— Bom, Capitão... Está tarde. – Haiako se levantou lentamente, com alguns desequilíbrios, rosto avermelhado e a voz arrastada pela bebida. Kyōraku, no mesmo estado que ela, prontamente apoiou a mulher em seus braços, e ofereceu companhia até sua casa. – Você cheira bem. – Ela murmurou, alto o suficiente para somente o homem ouvir.

Muitos anos, de fato, aproximaram os dois. Companheiros de bebida e confidentes das dificuldades diárias de suas posições, ambos sentiam certo conforto com a presença do outro. Alguns olhares, palavras e toques deixavam claro que a tensão existia, apesar de nunca efetivamente terem feito algo sobre. Kyōraku, por sua vez, que não escondia quando cortejava as mulheres ao seu redor, era mais contido quando próximo a Haiako, mesmo que sua linguagem corporal quisesse o contrário.

— Venha, vamos te levar para casa, Haiako-chan.

...

A longa caminhada até as instalações de Haiako foi suficiente para reduzir o álcool no sangue de ambos. As risadas e flertes, no entanto, continuavam. Normalmente, a mulher não se rendia tanto às provocações e brincadeiras do Capitão do 8º Esquadrão, mas, após o dia que ela teve, sentiu que uma descontração lhe era mais que merecida.

— Você está mais solta, hoje. O que aconteceu?

— Heh... acho que havia muito tempo que eu não me permitia distrair. – Quando Haiako terminou de falar, já próximos à porta de sua casa, Kyōraku a fitou profundamente nos olhos, com um sorriso característico.

— Acho que tenho uma boa ideia do que podemos fazer para nos distrair. – O tom jocoso que o homem tão frequentemente utilizava para flertar não estava mais presente, e em sua fala havia mais seriedade, sem que o sorriso saísse de seus lábios. – Não consigo evitar, você está especialmente linda, hoje.

Os lábios dos dois se aproximaram, e suas respirações, pesadas, se sincronizavam. Em cima da varanda, e já encostados na porta fechada, as mãos de Kyōraku, as quais anteriormente seguravam-na pela cintura, desceram lentamente por suas ancas, e atingiram as coxas de Haiako. Um arrepio percorreu sua espinha, seus seios e seus braços, enquanto sentia a perna do homem se posicionar entre as suas, prensando-a cada vez mais contra a porta. Ainda assim, mesmo em frente à incontestável energia envolvente, sua mente não saía da interação que teve mais cedo com Aizen.

— Capitão... – Já com os lábios encostados, a morena percebeu o que fazia. – Talvez devêssemos encerrar a noite. Não quero estragar a amizade que temos. – Apesar de seu corpo dizer o contrário, as palavras foram assertivas, e não deixavam espaço para dúvidas. Haiako já havia se deitado com muitos homens, mas dessa vez era diferente. Este não era um homem qualquer em sua vida.

— Tudo bem. – Com um sorriso desajeitado e os olhos fechados, Kyōraku se despediu apenas com um beijo no canto da boca da mulher, e as mãos segurando seu pescoço. Antes de desaparecer na noite, umas últimas palavras saíram de seus lábios, em seu tom casual. – Boa noite, Haiako-chaaan! Vou ficar animadinho a noite toda com nossa breve distração!

Com um suspiro e uma risada espontânea, Haiako abriu a porta de sua casa, enrijecendo-se rapidamente ao notar que esta não estava trancada – como havia deixado pela manhã. Alcançou e desembainhou sua Zanpakutō, e colocou-se em posição de combate cautelar, escaneando em silêncio cada canto da casa escura. Na poltrona mais ao fundo da sala principal, segurando seus óculos na mão, e sentado com as pernas cruzadas, os olhos castanhos de Aizen emanavam a energia de sua reiatsu, antes escondida. Havia, de fato, escutado toda a conversa, inclusive os moimentos de ambos na porta.

— Aizen. – Em gritos sussurrados, ainda apreensiva de alguém tê-la escutado, Haiako observava a expressão de descontentamento claro no olhar do homem. Guardou sua espada e trancou a porta atrás de si, acendendo duas lanternas de papel.

— Estive esperando você. – Com um movimento de sua mão, jogou os cabelos – antes dispostos da forma usual – para trás, e colocou os óculos na mesa de centro em sua frente. Haiako sentiu novamente o arrepio, estranhamente semelhante ao que Kyōraku provocara.

Droga.

+

Notas finais
Agora sim poderemos ver mais da dinâmica desses dois, hihi... Deixem seus comentários, críticas ou sugestões! São todos muito bem vindos!!