Obliviate
4 Hogwarts
Notas iniciais
Viver numa mansão é mais entediante do que parece. As horas passam devagar quando se está limitado a um só lugar. Sinto o tempo se perdendo, encarando as janelas.
O vento sopra cada dia mais fresco, e o parar repentino do canto das cigarras anuncia o fim do verão.
As poucas semanas que estive aqui tomaram muito de mim. Fica cada vez mais difícil acessar memórias do passado. E não adianta perguntar. Isso já rendeu uma boa discussão com Belatriz Lestrange. Lembro vividamente de sua voz esganiçada, tom de voz severo ao me repreender...
"Trate de calar a boca, garota. Você devia estar grata por eu ter te tirado daqueles trouxas idiotas. Não quero ouvir mais perguntas, entendeu?"
É, eu entendo. Mas não concordo. Tive de me segurar para não soltar "Você não devia ter apagado minha memória" de novo durante a última reunião, ontem.
Havia novos integrantes à mesa dessa vez, como de costume. Um em particular chamou minha atenção- Severo Snape. Você-sabe-quem demonstra afeição por ele, e você sabe quem não demonstra afeição por ninguém.
Professor em Hogwarts e padrinho de Draco, ele ajudará o garoto em sua missão. E na minha nova missão também: afetar Harry Potter. Não no mau sentido- ou bom sentido, isso é você decide. Mas Snape, ao descobrir sobre meu interesse em Oclumência, e sendo ele um perito no assunto, sugeriu "ajudar-me" na nova missão. Basicamente, devo invadir a mente de Harry Potter.
Aparentemente, terei que encontrar Snape depois da aula toda semana. Ótimo.
Tenho pensado muito sobre a escola, já que dia primeiro está próximo. Espero que o dia chegue logo.
...
Finalmente é o dia. Nessie me acompanha até a Plataforma Nove e Meia, os Malfoy estão distantes a nossa frente. Dessa vez pude convencer a elfa a me permitir carregar meu malão eu mesma.
Muitos se aglomeram próximos ao trem. Famílias se abraçam, crianças acenam da janela e o falatório é alto.
Adentro o trem vermelho sozinha, desviando de alunos abraçados bloqueadores do caminho. Estou atravessando o corredor quando algo pula em meus pés. Desço os olhos e vejo um sapo. Não tenho nojo ou medo, mas levo um susto. Ouço "De novo não!" de uma cabine, e da mesma saem um garoto alto e garota loira.
Ele pega o sapo aos meus pés. Suas bochechas rosam quando o encaro.
–D-desculpe...-ele gagueja.
–Não se preocupe, ele não é venenoso- revela a menina, os olhos azul claro sem foco- Tem sorte de não ser um...São perigosos para pés.
A loira diz um nome estranho, não reconheço. Devo ter feito uma cara de interrogação muito nítida, e ela aparenta levemente ofendida.
–Foi mal, de novo.
–Tudo bem. Mas não deixe isso acontecer de novo- digo firme.
Ele está para abrir a boca quando Draco surge atrás de mim.
–Lembra do que falei sobre aqueles que não vale a pena conhecer, Gaunt?- Draco provoca o garoto, levantando as sobrancelhas. Dessa vez, ele não parece envergonhado. O encara de volta, sério.
–Sai da frente, Longbottom- ele atravessa entre o dois, esbarrando-o.
–Com licença- peço, e eles abrem caminho.
...
Felizmente, não me sinto desconfortável em viajar sozinha, ou estar sozinha no geral. A paisagem é linda do lado de fora- amo observar a vida-, e meu vagão não é barulhento. Após um bom tempo sentada, sou chamada por um aluno mais novo, vestindo vestes da Sonserina, a comparecer a um vagão para encontrar o professor Horário Slughorn. Ele quer me conhecer.
O garoto me deu um convite, e eu o carrego até chegar ao tal "Clube Slughorn". Há um aviso na porta da grande sala "Apenas convidados". Eu entro.
São vários alunos sentados em volta de um senhor. Iniciamente ninguém presta muita atenção em mim, além do senhor, mas naturalmente o aluno ao seu lado olha para mim.
–Olá, senhorita- sou recebida pelo professor- Bem-vinda. Sente-se, por favor.
Não acontece muita coisa. O clube parece ser um grupo seleto; os alunos aqui parecem ser os mais privilegiados ou bem dotados. Me pergunto por que fui convidada, já que sou nova.
O aluno ao lado do professor, cabelos negros e óculos redondos, cochicha a seu ouvido. Às vezes, olhando para mim. Ouço-o dizer:
–É ela, senhor?
O professor acena com a cabeça.
Quem ele acha que sou?
...
Falta pouco tempo de viagem após deixar o clube. Só me dá tempo para vestir as vestes. O expresso de Hogwarts para numa plataforma, no escuro, rodeada de árvores; o grande castelo iluminado ao fundo.
Há aquele falatório de novo, enquanto os alunos se apressam para deixar o trem. Eu paro Draco quando o vejo passar por minha cabine, rápido.
–Ei!
–O que foi?- ele pergunta, alterado.
–Onde está indo? A saída pelo outro lado.
–Não te importa, Gaunt. Eu te encontro lá fora na carruagem.
Deixo-o. Ando até a plataforma, empurrando meu malão.
De um grupo ao longe, quatro alunos de meu tamanho, todos em vestes pretas e verdes, sai um garoto, tentando chamar minha atenção.
–Ei!– ela acena com a mão- você é a Gaunt?
Ando até ele e concordo com a cabeça.
–Draco nos falou de você.
Draco não me falou de seus amigos. Ele é alto, negro e magro. O acompanham dois garotos, um alto gorducho e um baixo gorducho, e uma garota, morena e baixa.
Aquele que me chamou, também me convida a subir à carruagem deles, puxada por nenhum animal. Vejo a menina, Pansy é seu nome, protestar, mas é apenas ela.
Subo na carruagem e pouco tempo depois Draco ressurge.
–O que você foi fazer, Draco?- pergunta Pansy, curiosa.
–Nada de mais- ele diz, dando de ombros, mas seu sorriso não demonstra indiferença.
Chove leve durante a viagem. Não está muito escuro, e o cheiro de mato molhado é agradável. Os garotos conversam sobre as férias de verão. Eventualmente, a conversa chega até mim.
–É seu primeiro ano, não é?
–É sim.
–Mas você não foi sorteada- percebe Pansy- , como já sabe que é Sonserina?
Draco olha para mim. Penso rapidamente no que dizer.
–É uma...tradição de família.
...
Entro o castelo junto ao grupo de Draco. Naturalmente atraio olhares curiosos, sendo a aluna nova. Sou separada deles ao ser convidada por uma professora, Minerva McGonagall, a me juntar aos primeiranistas para ser "sorteada".
Em pouco tempo adentramos o grande salão. Alguém de dezesseis anos se destaca entre crianças de onze. Sinto muitos olhares em mim. Não ajuda eu ser mais alta que a média, e usar vestes Sonserinas sem ter passado pelo chapéu.
As crianças andam devagar, deslumbradas. Realmente é impressionante. Os primeiranistas são chamados um a um. Estou entre as últimas a ser chamadas.
–Natalie Gaunt.
Subo as baixas escadas, de postura ereta e não estou nervosa, diferente daqueles antes de mim. Sento no banco e põem aquele chapéu encardido sobre minha cabeça. Ele não demonstra ter muitas dúvidas.
–Sonserina!
Não há muitas palmas de outras mesas senão da própria Sonserina.
Sento ao lado de um grupo de garotas que aparentam ter minha idade; Draco e amigos estão a minha frente. Há um discurso do diretor. Aquele é o famoso Dumbledore. Ele anuncia um novo professor de Poções: Horácio Slughorn, quem conheci mais cedo.
Começa a comilância assim que ele termina de falar. Parece que há todas as opções possíveis. Quando estou a trazer a primeira garfada à boca, vejo alguém passar pela grande porta do salão.
O reconheço do Clube Slughorn: o garoto de óculos redondos. Uma menina loira em vestes da Corvinal o acompanha; é a menina que me oferecera um Pasquim mais cedo.
–Olhe só, Potter– amigo de Draco o nota. Eles riem debochadamente, o nariz de Potter sangra.
Durante o jantar sinto me encararem. Alguns alunos da Grifinória e dois da Lufa-Lufa. Mal posso esperar por estar sozinha.
A garota ao meu lado, pele pálida e cabelo loiro cinza, fala comigo.
–Então, por que você só chegou agora? De que escola você veio?
–Nenhuma. Eu...fui ensinada em casa. Qual seu nome?
–Felicia Hunter. Você é Natalie... Gaunt, certo?- sua voz é grave, mas suave- Acho que já ouvi esse nome em algum lugar. Sua famíia é rica ou alguma coisa assim?- vejo seus olhos azuis brilharem de curiosidade.
–Provavelmente você ouviu. Famílias de sangue-puro se estendem bastante, não é?
No final de jantar, já encontramos nossas afinidades e conversamos como amigas. Acabamos de deixar o salão juntas, quando somos paradas por McGonagall.
–Senhoritas. Dumbledore me pediu para avisá-la, Gaunt, de seu dormitório.
Ouço-a pacientemente. Ficarei num quarto junto a algumas Sonserinas aleatórias. Felicia não está entre elas.
–Bem, a gente ainda pode se encontrar nas aulas e na sala comunal.
–Sala comunal?- ela me ensina sobre Hogwarts durante nosso caminho até as masmorras. Pela sala comunal estar numa masmorra, penso que será amendrontadora. Mas apesar de fria e escura, a sala é realmente aconchegante.
Sentada na poltrona próxima a janela, muitos chegam a mim procurando me conhecer, mas não sou muito de falar.
Por volta da meia noite me separo de Felicia. Dividirei meu dormitório com cinco meninas do mesmo ano. Espero que não sejam uma dor de cabeça.
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