Objeto Perdido
31 Capítulo trinta
Notas iniciais
Os gritos de minha mãe entram por meus ouvidos e faz todo meu cérebro doer, dilacerando meu coração, mais e mais a cada segundo. Porque tudo tem que acontecer assim? Porque Alan simplesmente não enfia uma faca bem no meio do meu peito e faz tudo isso acabar. Estou cansada de me sentir culpada, ou melhor, estou cansada de ser a culpada. Com o travesseiro em meu rosto, grito o mais alto que consigo, tentando assim, tirar a dor presente em meu coração. Qualquer tentativa é completamente em vão.
Estou completamente sozinha, o quarto torna-se um lugar extremamente gigante, sombrio, como se a sombra de cada móvel tomasse vida a qualquer momento e me atacasse. Mas sei que, afinal, a escolha foi minha, eu pedi para que Jessie se retirasse, eu o expulsei de tal cômodo, eu escolhi a solidão. Meu peito dói, arde, o nó em minha garganta não se desprende, tenho vontade de pular de qualquer local, qualquer altura, apenas desaparecer de algum modo. O que vai acontecer agora? Como cuidarei de minha mãe? Sim, sei que tenho o Erick e que ele irá nos ajudar em qualquer coisa que precisarmos, mas de alguma forma eu sei que a partir de hoje será apenas eu por ela, e ela por mim. Dan sempre será meu pai, aquele que estava comigo em todos os momentos, aquele que compreendia meus conflitos e dilemas internos apenas com o olhar. Dan, o mais inocente de toda a história... Porque?
– Mel, eu posso entrar? – escuto uma voz masculina vindo da porta. Erick.
– Eu preciso ficar sozinha, por favor, Erick. – grito em resposta, deitando-me na cama, abraçando o travesseiro, afundando-me em mais lágrimas.
– Tudo bem, eu te espero aqui então. – ouço ele dizer, o ruído de algo apoiando-se à porta logo em seguida.
– Eu estou bem... – digo, em tom completamente inaudível, antes de dar mais intensidade ao meu choro.
Não quero lidar com esse fato. Na verdade, sei que não saberei lidar com isso, não saberei cuidar de minha mãe, dar-lhe o apoio necessário, eu não conseguirei ignorar minha dor, por mais que tente, eu irei falhar, como sempre falhei, como acabo de falhar. Porque eu nunca consigo fazer as coisas do modo certo? Porque eu não consegui salvar nenhum deles? Eu não quero mais, por favor, alguém faz essa dor parar, está tornando-se algo tão insuportável, eu não sou mais capaz de aguentar.
– Mel, por favor, deixa eu entrar... – ouço mais uma vez a voz de Erick vindo da porta.
Sem mais dizer uma palavra, levanto-me e caminho a porta. Excitando por um minuto, penso se é mesmo a melhor opção abrir a porta. Apoio minha cabeça ao batente e deixo mais algumas lágrimas escorrer, enquanto destranco a porta. Ao abrir, o encontro apoiado a ela, seus olhos tomados por lágrimas. Sem nenhuma palavra, Erick se levanta e abraça-me com a maior força que há em seu ser. Retribuo o abraço de tal modo, intenso, deixando as lágrimas tornarem-se mais constantes, o abraço tentando fazer toda a dor sair de meu ser. Fecho meus olhos e um filme passa em minha mente, desde quando nos conhecemos, de minha infância, de minhas antigas amizades, Erick, Elena, Julie, de Dan tornando-se meu pai a cada dia mais, da separação, da nova cidade, novas amizades, Cora, Caio, Jessie... Não, não se lembre dele, Melanie, não faça isso com você, apenas não faça isso.
Sinto algo apoiar-se a mim, um novo corpo, abro os olhos e vejo Elena abraçada a nós, seguida de Julie. Isso faz-me chorar mais, eles me apertam mais em um abraço, dando-me a sensação de quem volta para a antiga casa, os meus antigos amigos unidos, assim como era antigamente.
– Obrigada. – é só o que consigo sussurrar em meio aos abraços, fazendo que eles me abracem mais forte.
– Nós vamos estar com você, Melanie. – sussurra Elena. – Independente de qualquer coisa, nós sempre fomos amigos, e sempre seremos.
Me retiro lentamente do abraço em grupo, tento secar minhas lágrimas. Olho para o rosto de cada um dos três parados a minha frente, os melhores amigos que alguém poderia ter. Lembro-me de Cora, e meu coração se parte ao meio, o desejo de tê-la comigo nesse exato momento aumenta, juntamente com a culpa. Repentinamente, uma ideia me vem à mente, uma ideia louca, mas que precisa ser tentada, mesmo sabendo que isso colocará à prova tudo que tenho com Erick.
– Como está minha mãe? – pergunto, tentando não chorar mais.
– Ela está lá embaixo, não quer falar com ninguém, Mel, pediu para que a gente vir ver você. – Julie responde, limpando uma das lágrimas que escorre por meu rosto.
– Eu vou pedir uma coisa para vocês... – respiro fundo, fecho os olhos, e busco coragem. – Elena, Julie, vocês podem ir lá com ela um minuto? Eu preciso falar com Erick, eu juro que é rápido. Eu não quero deixa-la sozinha, mas preciso fazer isso.
– Melanie, está tudo bem? – Elena pergunta, o tom preocupado crescendo em sua voz.
– Por favor, eu preciso que façam isso. – respondo, olhando diretamente para Erick, que retribui o olhar como se nada entendesse. – É o único jeito de acabar com tudo isso.
– Do que você está falando? – é a vez de Erick falar. – Acabar com o que?
– Apenas façam isso, tudo bem? – busco o tom mais sério de voz. – Por favor. Diga à minha mãe que já estou indo.
Elena e Julie nada mais dizem, apenas trocam olhares e saem em direção a sala, deixando apenas Erick em minha presença, face a face, olho a olho, sinto que preciso fazer isso, ele precisa me ajudar a terminar essa tarefa. Se irei colocá-lo em risco? Sim, provavelmente. Mas sinto-me completamente sem opção. Sem Jessie ao meu lado, sinto que a única pessoa capaz de me ajudar é Erick.
– Então... – ele sussurra, inclinando-se para mais perto de mim, procurando causar qualquer tipo de sorriso em minha pessoa. O pego pela mão e o guio até o interior de meu quarto, fecho a porta e respiro fundo, pois sei que não será fácil o que está por vir.
– Em primeiro lugar, eu quero te pedir para que não fique bravo comigo. – tento manter minha respiração o mais constante possível. Ele apenas lança-me um olhar confuso. – Eu preciso da sua ajuda, preciso muito, de verdade.
– Você sabe que está me assuntando, Mel. – ele diz, sentando-se em minha cama.
– Tudo bem. – respiro fundo, caminho até ele e me ajoelho a sua frente. – Eu preciso te contar algumas coisas, e tem a ver com Jessie.
– Melanie, é sério que com tudo isso que aconteceu, com a morte do seu pai, você quer vir falar comigo sobre aquele idiota? – ele aumenta a voz, mesmo sem perceber. – Não, isso é demais pra mim.
– Não, espera, por favor, eu não terminei ainda. – o seguro quando ele tenta se levantar. – Na verdade, nem comecei a falar.
– Você finalmente vai admitir que está tendo um caso com ele? – mais uma vez ele altera a voz.
– Pelo amor de Deus, Erick, porque você não deixa eu falar? – é a minha voz de alterar a voz, não conseguindo mais controlar algumas lágrimas. – Você quer sempre ter a razão, o que eu tenho para dizer é sério, e eu realmente preciso da sua ajuda, senão nem estaria aqui lhe pedindo, não com minha mãe chorando lá fora, com meu padrasto morto ao pé de uma escada. – simplesmente explodo. Deixo minhas emoções tomarem conta do momento, não consigo mais controlar. Nenhuma palavra é proferida de sua parte, Erick apenas suspira profundamente, passa a mão por seu cabelo, rosto, e encara-me profundamente, seus olhos se aprofundam nos meus, sei que chegou a hora de colocar todas as cartas na mesa. – Tudo bem. Preciso começar dizendo que Jessie tem a ver com muitas coisas que estão começando ultimamente, mas não apenas ele, Alan também, o da escola, aquele que veio até nossa casa, você sabe. – ele apenas concorda com a cabeça, sua expressão é algo completamente sem decodificação para mim. – Eu não deveria estar fazendo isso, estou te colocando em um perigo fora de qualquer conhecimento humano, mas eu preciso da sua ajuda. Infelizmente, não posso te contar a história toda, não posso explicar todos os acontecimentos, pois eu demorei dias e dias para conseguir digerir tudo isso, compreender. – seu silêncio me dá espaço para continuar. – Minha mãe ganhou um anel de minha avó, ela o achou no quintal de sua casa após uma imensa tempestade. Minha mãe guardou tal anel até o dia em que nos mudamos, ela me deu como herança de família, algo dentro dela dizia para fazer isso, e agora eu entendo completamente o porquê. – termino a frase praticamente sussurrando, abaixo a cabeça e deixo uma lágrima escapar. Não, Melanie, não fraqueje agora, você precisa fazer isso. Como Erick não profere uma única palavra, tomo a liberdade de continuar. – Logo após esse acontecimento – ergo a cabeça e seco a lágrima que rola por minha face – muitas coisas começaram a mudar, pessoas apareceram na minha vida. Mais necessariamente, Jessie. – o nome faz Erick respirar profundamente, ainda sem dizer uma única palavra. – Eu não posso dizer muita coisa, apenas digo que tudo o que está havendo com Cora, comigo, Dan, tudo o que está acontecendo entre nós tem um motivo, o anel. – coço a cabeça e respiro fundo procurando as melhores palavras para continuar. – Erick, eu sei que pode parecer loucura, mas eu só peço que acredite em mim. É como se fosse um jogo, onde só eu posso dar a cartada final, apenas eu posso dar um jeito nisso. Há dois lados, e se eu não fizer o certo, pode ser que a próxima vítima seja Elena, Julie, minha mãe, você...
– Melanie, você quer que eu acredite que a morte de Dan, o que houve com Cora, suas mudanças de humor repentinas, tudo isso, tem a ver com um anel? – sinto a ironia e dúvida em seu tom de voz.
– Eu preciso que você acredite em mim. – apoio minha mão sobre seu joelho. – É muita coisa, eu concordo, confesso que até hoje não compreendi muito bem tudo isso, mas acredite, tudo isso é verdade.
– E o que necessariamente você precisa fazer? Qual é a “cartada final”? – Erick pergunta, mais uma vez passando as mãos pelo rosto.
– Eu preciso quebrar o tal anel. – retiro minha mão de seu joelho. – Mas há algumas regras e horários para isso. É tudo muito complicado. – coço a cabeça e fecho os olhos, procurando ficar o menos confusa possível. – Sem mais delongas, depois de tudo o que houve, eu conversei com Jessie e tudo será feito amanhã, mas eu preciso de ajuda, da sua ajuda.
– Você falou com ele? Quando?! – sua voz se altera mais uma vez.
– Erick, isso realmente não importa agora, deixa eu terminar de falar, por favor. – respiro fundo, procurando não elevar minha voz novamente. – Eu preciso que você tire todos daqui hoje a noite.
– Tirar todos daqui? Mas como? – ele pergunta. Na verdade, nem eu sei bem como isso pode acontecer.
– Não sei, mas até lá nós iremos pensar. Eu preciso fazer isso, e preciso que você tire todos na parte da noite, pois tudo ocorrerá por volta das 3h da manhã. – sento-me ao chão enquanto falo. Olho profundamente em seus olhos. – Eu preciso de você, Erick, por favor.
– Como posso ajudar se você nem ao menos me explicou o que o Jessie e esse tal de Alan são... – mais uma vez, Erick coça a cabeça.
– Acredita em mim. – ajoelho-me novamente e apoio minha mão em seu joelho. – Isso realmente não importa, estou poupando parte da sua vida não contando esses detalhes.
– Tudo bem. Como vamos fazer isso? – ele pergunta em um suspiro.
– Talvez, se você as chamassem para ir até a casa de nossos parentes na cidade vizinha, que provavelmente virão para o velório de Dan, para mamãe não ficar sofrendo aqui, não sei. – uma ideia surge em minha mente.
– Você acha mesmo que sua mãe ira deixa-la para trás? – ele pergunta, subindo o tom de voz novamente.
– Eu digo que a mãe de Cora me chamou para dormir na casa dela, não sei, até lá eu penso em algo. – sinto-me cada vez mais confusa. – Eu apenas preciso saber se você me ajuda.
– Você sabe que não há nada que eu não faça por você. – Erick diz em um suspiro. – Mesmo não sabendo no que estou me metendo, mesmo sem saber o porquê de você estar me contando isso apenas agora.
– Você sempre gosta de saber demais. – é apenas o que digo, tentando sorrir de modo sincero.
– Tudo bem, eu apenas preciso saber de mais uma coisa, e você tem que ser sincera. – ele diz, apoiando sua mão sobre a minha. Eu não digo nem ao menos uma palavra, apenas fito seus olhos e concordo levemente com a cabeça. – Entre você e Jessie, o que realmente há entre vocês?
– Erick, eu não sei como as coisas serão depois de hoje, depois de tudo o que terei que fazer, mas até o momento eu preciso lhe dizer a verdade, preciso admitir que o que sinto por Jessie vai além de minha compreensão, nunca senti nada parecido. Eu sei que dói ouvir isso, dói ainda mais para mim ter que dizer isso a você, mas é a verdade, eu o amo, mesmo contra minha vontade. – aperto sua mão e aproximo meu rosto do seu. – Apenas acredite em mim que depois de hoje as coisas irão mudar.
– O que acontece depois de você quebrar o anel? – ele pergunta, soltando lentamente minha mão, respirando fundo novamente. Sei que o que acabei de dizer o atingiu como um soco bem ao meio do estômago.
– Obrigada por me ajudar, meu melhor amigo. – beijo levemente seu rosto e sem dizer mais nenhuma palavra, viro-me e caminho em direção a porta, em direção a sala, deixando-o para trás, sentado em minha cama. Desculpa, Erick, mas eu não posso lhe dar todas as respostas, por seu bem. E para ser sincera, não quero admitir o que vai acontecer depois de quebrar o anel.
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