Objeto Perdido
16 Capítulo quinze
Notas iniciais
– E qual é, poderoso anjo? – me viro para ele e arqueio a sobrancelha, tentando imitá-lo. Erick, Cora e Caio estão nas filas gigantescas em busca de comida.
– Não precisamos roubar o anel. – ele fala baixo, sem parar de olhar para os lados para que ninguém escute. – Basta comprar um anel relativamente igual, e trocar com o original hoje na festa. A princípio, ela nem ira notar.
– Mas como vamos trocar? – pergunto, achando toda aquela ideia uma completa loucura.
– É exatamente ai que a mera mortal entra. – ele ri e bagunça levemente meu cabelo. – Eu vou ficar conversando com ela, a distraindo, na companhia de Cora, Caio e Erick, enquanto você diz que vai, sei lá, ao banheiro. – não consigo conter o sorriso o vendo a minha frente, tão lindo, explicando detalhadamente cada parte do plano. – Mas, você não ira exatamente ao banheiro, vai ao quarto dela, e lá você terá que dar um jeito de trocar, cuidadosamente, os anéis.
– Só isso, senhor? – pergunto ironicamente.
– Fácil, não acha? – seu riso é algo tão literalmente angelical que chego a me perguntar como pode existir um anjo desse jeito.
– Para o senhor galã, tenho certeza de que é super fácil. – respondo ironicamente mais uma vez.
– Para de bobagem, mera mortal. – mais uma vez ele ri e bagunça meu cabelo. – Agora, vá com eles e eu vou ver o que consigo com Thalia. – ele apenas sorri, me vira em direção aos meus amigos e parti em direção a Thalia, sem dizer mais nada.
– Não quer comer nada, Mel? – Erick pergunta ao me aproximar deles.
– Não estou com fome. – minto, na verdade meu estomago está roncando de fome.
– Tem certeza? – ele pergunta mais uma vez. Deve estar muito nítido em meu rosto que estou morrendo de fome.
– Topa dividir comigo? – sorrio, tentando pedir com um daqueles tipos de olhares de animais carentes. Olho para Jessie e o vejo sentado bem ao lado de Thalia, conversando sei lá o que, mas o jeito como ela olha para ele faz meu estômago revirar, como se um ciúmes repentino e idiota tomasse conta de mim.
– Tem um lugar ali. – diz Cora, tocando em meu ombro e me tirando do transe em que entrei observando Jessie, nem ao menos ouvi a resposta de Erick sobre a comida. Cora aponta para o local onde há vagas para sentar, meu coração congela completamente ao notar que o lugar é nada mais, nada menos, que bem em frente a Alan. – Bem em frente aquele gato.
– Eu não acho uma boa ideia. – tento falar sem deixar que o medo transpareça em minha voz. – Já está ocupado, Cora.
– Só de um lado da mesa, o outro está vago, Mel. – Erick diz já a caminho daquela mesa, juntamente com Cora e Caio. Olho para Jessie que conversa com Thalia, mas seus olhos no momento se encontram com o meu e ele automaticamente entende o que está prestes a acontecer, dirigindo seu olhar diretamente a Alan.
– Com licença, podemos nos sentar aqui? – me aproximo e escuto Cora perguntar a ele. Há duas meninas ao seu lado, mas elas nem se dão ao trabalho de responder.
– Com toda a certeza. – Alan responde sorrindo, olhando de rosto em rosto com seus olhos negros, parando, obviamente, em meu rosto e me sugando mais uma vez com aquela escuridão. – Vocês são da outra turma dos terceiros, não são?
– Sim. – Caio responde entre uma garfada e outra de seu prato.
– Alguns eu sinto que já conheço. – seus olhos grudam em Cora, seu sorriso se torna mais malicioso ainda e sinto minha espinha se arrepiar completamente. – Aos que não conheço, prazer, meu nome é Alan.
– Bom, esses são Erick e Caio. – Cora os apresenta. – Estou falando por eles, pois suas bocas estão muito ocupadas, como pode ver.
– Você é encantadora. – ele pega a mão dela e sorri. Sinto meu estômago se revirar completamente, como se acabassem de atingi-lo com um soco. Uma vertigem toma conta de mim.
– Com licença... – escuto uma voz lindamente grave atrás de mim, não preciso me virar para ver que se trata de Jessie. Alan solta repentinamente a mão de Cora ao vê-lo e seu sorriso se desfaz. – Será que tem espaço para mais alguém nessa mesa? – o sinal soa bem nesse momento.
– Que pena, acho que infelizmente o intervalo acabou. – seus olhos negros encaravam os de Jessie, eu posso sentir uma espécie de batalha através desses olhares.
– Onde estava, bonitão? – Cora pergunta a Jessie, se levantando com seu prato.
– Por ai... – ele sorri e segura em seu ombro. Vejo nos olhos de Jessie o quão preocupado ele está com toda aquela situação. Todos se levantam, espero todos para depois me levantar, mas quando o faço, mal consigo me manter em pé, uma pontada forte atinge minha barriga e me sinto cambalear para trás, não consigo me equilibrar.
– Mel... – sinto Erick me segurar para que eu não caia, os olhos negros de Alan me observam e ele se diverte com o que está causando em mim. – Está tudo bem?
– Foi apenas uma tontura, nada demais. – minto, olhando para Jessie que continua fitando Alan incansavelmente.
– Vejo vocês na festa de hoje a noite, amigos. Fiquei sabendo que será de arrepiar. – Alan se levanta se sai de perto de nós rindo.
– Quem mandou você não comer, Mel. – Erick abana meu rosto e alisa meu cabelo. Meu abdômen dói incansavelmente, como se estivesse algo o perfurando.
– Melanie, você está bem para voltar à aula? – Caio pergunta me oferecendo um copo de água. Sinto as mãos de Jessie sobre meu ombro e a dor da sua última pontada, muito forte, antes de ir cessando lentamente.
– Estou bem, gente. – olho um por um, parando em Jessie. – Obrigada.
– Então é melhor irmos, temos aula de matemática agora. – diz Cora me ajudando a levantar e me segurando pelos braços até a classe.
Fico em silêncio a aula toda, como se uma tristeza muito grande se apoderasse de mim, transformando-se em depressão. As aulas passam, felizmente, rápido demais e logo já é hora de ir embora.
– Jessie... – sussurro, já no corredor, rumo ao portão para ir embora. Erick caminha ao meu lado, combinando com Caio e Cora sobre o horário que ambos passarão em minha casa para irmos à festa de Thalia. – Como vamos conseguir o outro anel para trocarmos?
– Eu darei um jeito, Melanie. – ele sussurra em resposta. – Comprarei como um humano qualquer. – surgi um sorriso no canto de seus lábios. – Estarei em sua casa às 19h30. Por favor, descanse e tente não pensar em nada, será uma longa noite.
– Vamos, Mel? – escuto Erick gritar e consigo notar que já estou fora da escola, sem nem ao menos perceber. Apenas concordo com minha cabeça, sorrio e saio em direção à Erick, que já me espera em frente ao carro de Dan. Não me sinto bem, aquela sensação de paz que me acompanhava pela manhã desapareceu completamente, a dor em minha barriga voltou e um nó imenso se forma em meu peito, uma vontade de sair gritando e chorando até cansar. Fecho a porta do carro e a única coisa que não sai de minha cabeça é Cora, a pontada em meu abdômen vai se tornado mais forte a cada vez que penso em seu nome.
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