Objeto Perdido
24 Capítulo vinte e três
Notas iniciais
Tenho a maior certeza de que dessa vez não é um devaneio ou algo relacionado ao meu psicológico, está realmente acontecendo, estou realmente sufocando lentamente sem conseguir fazer nada para impedir tal fato. Uma sensação de estar sendo levada pela morte, lentamente, se apodera de todo meu ser. A pressão exercida sobre meu rosto com meu o travesseiro é completamente desumana. Grito com todas as forças de meus pulmões, me debato incansavelmente na tentativa de sair dessa situação, mas noto que quanto mais eu luto, pior fica a situação. Por fim, decido deixar de lado todo o tipo de resistência e entregar-me ao fato de ser levada pela falta de oxigênio. Lágrimas rolam silenciosamente por meu rosto, uma espécie de exaustão vai tomando o lugar do desespero, lentamente a fraqueza de meus pulmões começa a vencer tal batalha. Ouço o grito de Cora em minha mente, vejo todo seu sangue escorrendo lentamente no solo. Porém, a tortura não acaba por ai, mais gritos ecoam em minha mente, gritos extremamente conhecidos, vozes de Dan, Erick e Caio me implorando por socorro. Ao fundo de tais gritos, a voz de minha mãe berra palavras dolorosas, me acusa de tudo o que está acontecendo, por mais que saiba que isso tudo é mais um truque de Alan para me torturar, por mais que tente ignorar, aos poucos isso vai me tomando e do fundo de todo meu coração, começo a preferir a morte a toda essa difícil realidade que estou sendo obrigada a aturar.
– Não se preocupe; você sabe que eu não vou te matar. – repentinamente, Alan retira o travesseiro do meu rosto. O frescor, o oxigênio novamente entrando em meus pulmões é a sensação mais prazerosa que já senti em minha vida. Sinceramente, nunca agradeci tanto pelo fato de poder respirar. – Eu realmente estou entediado, humana. Por favor, não me culpe, o mundo de vocês é tão chato e previsível.
– Tão previsível, que eu sei que não preciso dizer o quanto te odeio e o quanto você é um monstro, não é? – pergunto no tom mais irônico que consigo, tentando me recuperar da falta de oxigênio. Meu corpo é de uma fraqueza infinita, não tenho dúvidas de que se ele tentar algo novamente, provavelmente eu não suporte.
– Você me faz rir. – Alan uma alta risada irônica, causando dores em minha cabeça. – Seu jeito tão ridículo, o jeito ridículo como ama o também entediante anjo...
– Você não sabe... – começo a dizer, usando o máximo de força de meu pulmão.
– Ao contrário de você, eu não sou burro. – ele segura bruscamente meu queixo, uma onda de medo invade cada ligamento do meu corpo, mas eu sei que não posso deixar que isso transpareça. – Você acha que eu não sei que o herói da história cada vez mais fraco por conta de uma humana estúpida? Tenho certeza que ele jamais imaginou sentir algo tão inútil e humano como o amor...
– Cala essa porcaria de boca. – é tudo o que consigo dizer, segurando seus braços para tirá-los de meu queixo. Obviamente, uma atitude extremamente idiota de minha parte, pois bastou isso para que ele segurasse meus pulsos com toda sua força, causando-me mais e mais dor a cada segundo.
– Quem sabe eu até gostasse de você, se não fosse assim, tão burrinha. – a cada palavra, sinto mais pressão em meu pulso, é como se pudesse senti-los quebrar a qualquer momento. – Sabe, eu apenas vim aqui avisá-la que aquilo com sua amada amiga, foi apenas uma amostra do que sou capaz de fazer. Pode ser que você não tenha pensado no assunto, mas acho que notou como a festa estava, digamos, muito fora do controle, não é? – meu coração acelera mais a cada palavra proferida por ele. Logicamente, eu deveria ter adivinhado que toda aquela loucura tinha a ver com Alan. Como você pode ser tão lerda, Melanie? — Na verdade, eu quero destruir seu coração, pedaço por pedaço, mas não por que sou uma pessoa má, longe disso, como disse, eu apenas estou muito entediado, por favor, não me julgue.
– Você sabe que eu não vou permitir que você encoste um dedo deles, não é? – olho fixamente em seus olhos negros, o medo vai dando lugar ao ódio, um ódio jamais sentido por mim. Sinto algo em minhas costas, algum objeto, mesmo sem olhar sou capaz de notar que se trata do anel. Obviamente Jessie o deixara sobre minha cama de propósito, para que eu não tivesse como fugir de minha escolha. Meu coração se acelera ao notar como o anel está próximo de Alan, eu simplesmente não posso deixar que ele pegue.
– Sua coragem é uma das poucas coisas que admiro em você. – ele se inclina para mais próximo de meu rosto. – Apenas para não dizer que é a única. Você e seu anjo tornam esse jogo tão divertido.
– Eu odeio tanto você. – murmuro, deixando todo o meu ódio transparecer em cada palavra proferida.
– Bom, eu não posso dizer que morro de amores. – ele sorri, um sorriso irônico e ao mesmo tempo malicioso que faz meu coração gelar. – Hora de brincar mais um pouco. – sem dizer mais nada, ele pega o travesseiro novamente e o coloca com uma força desumana sobre meu rosto, uma força até maior que a primeira vez. Sei que não posso fugir, não há saída, mas o desespero novamente se torna a única coisa que consigo sentir, misturando-se ao medo. Sinto-me fraca, meus olhos já não querem mais abrir, não há força para proferir qualquer ruído, está tudo acabado, por mais que ele diga que não quer me matar, eu sei que no fundo é seu maior desejo. Desisto de lutar, pois já não há mais força. Dizem que todos sabem quando chega a hora de desistir de algo, logo, eu sei que acaba de chegar a hora de desistir de tentar lutar.
Decidida a me entregar, fecho os olhos e vejo aquele clichê filme de toda a vida passando em minha mente. Visito minha antiga cidade, meus antigos amigos, colégios, lugares que nunca mais voltei a ver, parentes, uma família unida que jamais tive, quer dizer, se é que tive algum dia... Aos poucos, o desespero torna-se paz, sinto-me mais leve, não sei explicar o porquê, mas acho que essa é uma das sensações pré-morte.
Porém, repentinamente toda a sensação mortal se alivia, consigo sentir um mínimo de oxigênio entrar por minhas narinas, invadir meus pulmões. Um estrondo de corpos caindo ao chão entra em meus ouvidos, abro os olhos e noto que o travesseiro ainda está sobre meu rosto, mas já não há a pressão desumana exercida anteriormente. Rapidamente, o retiro de meu rosto e sento-me na cama, sentindo uma vertigem enorme, meu pulmão agradece cada partícula de oxigênio, mas ainda sinto-me extremamente fraca. Olhando ao redor, deparo-me com Jessie e Alan literalmente se esmurrando no chão de meu quarto. Vejo sangue no rosto de Jessie, nitidamente, todo curativo que havia feito estava saindo. Aproveito a distração de Alan, para pegar o anel e colocá-lo em uma gaveta trancada a chave ao lado de minha cama. Minha respiração é extremamente ofegante, simplesmente sei que não posso deixar que Jessie se machuque assim sem fazer nada.
– Vocês dois podem, por favor, parar de tentarem se matar dentro do meu quarto?! – sinto-me tão extremamente inútil dizendo isso.
– Você realmente acha que dialogo funciona com ele, Melanie? – Jessie pergunta em um murmuro, acabando de receber um soco no meio do abdômen.
Tudo gira ao meu redor, encontro extrema dificuldade em respirar, meu pulmão dói, assim como minha cabeça, mas eu sei que não posso deixar isso como está. Idiotamente, levanto-me da cama e me coloco no meio da briga dos dois. Obviamente, um mero empurrão de Alan me leva com toda a força para o chão, causando-me uma extrema dor na cabeça ao bater no piso.
– Você sabe que quando te chamo de burra, não estou mentindo, não é? – Alan se ajoelha ao meu lado e agarra fortemente meu pescoço. Solto um grito sufocado com tal ato, olho ao redor e vejo Jessie ao chão, tentando se levantar, sangue escorrendo em seu rosto novamente. — Só preciso agradecer vocês dois por terem me tirado do tédio. – seu riso ecoa em minha mente, mais uma lágrima involuntária escorre por meu rosto. Noto a aproximação de Jessie e em questões de segundos, os dois estão novamente aos murros no chão do quarto. Minha garganta arde, queima, o ar torna-se escasso, é como se eu conseguisse e não conseguisse respirar, tudo ao mesmo tempo. Um ataque de tosse começa, não consigo controlar. Melanie, você é tão inútil... Começo a concordar com Alan, acho que está pra nascer uma humana mais burra e inútil que eu.
– Porque fazer isso se você sabe que não é culpa dela? – Jessie pergunta, proferindo um soco bem ao meio do rosto de Alan. – Isso deveria ser apenas entre você e eu.
– Anjos também amam, não é? – Alan ri ironicamente, cuspindo sangue ao chão. Nitidamente, meu quarto precisara de uma bela faxina depois desses acontecimentos. – É uma pena que nunca poderão ficar juntos, sabe por quê? – mais um soco de Jessie lhe atinge o rosto. – Em primeiro lugar, porque eu conheço as regras, meu caro anjo. Em segundo lugar,eu não permitirei que o final de nenhum de vocês seja feliz, nós não estamos em um ridículo filme humano. – dizendo isso, Alan consegue derrubar Jessie ao chão, que antes estava acima de seu corpo, e começa a agredi-lo incansavelmente. Socos lhe atingem o abdômen, assim como o rosto. Não posso permitir que isso continue, meu coração se parte e para a cada soco que é atingido em seu rosto.
Mais uma vez, sem pensar, jogo-me sobre o corpo de Alan, na tentativa de tirá-lo de cima de Jessie. Na verdade, acho que esse é o mal do ser humano, seus impulsos, o fato de até que ponto somos capazes de chegar apenas para salvar uma pessoa amada, ou até mesmo , defender uma mera utopia. Como o previsível, mais uma vez sua força me arremessa ao chão, mas eu sei que não posso desistir. Respiro fundo, levanto-me novamente e atiro-me mais uma vez sobre seu corpo, fazendo-o cair sobre mim, porém, conseguindo tirá-lo pelo menos um pouco de cima de Jessie.
– Olha, vejo que temos uma nova heroína na história. – Alan ri, segurando-me pelos pulsos, prendendo-me ao chão. – Vocês dois são tão patéticos que até me cansei de brincar disso por hoje.
– Você sabe que não vai conseguir, por isso fica perdendo seu tempo procurando algo para te curar do tédio. – Jessie senta-se ao chão, limpa um dos cantos da boca que sangra e profere cada palavra olhando fixamente para os olhos de Alan. Sei que estou presenciando uma guerra de olhares muito forte. – Você fala tanto que os humanos são burros, mas a espécie mais burra, suja e sem sentimentos que há é a sua.
– Sentimentos deixam as coisas chatas. – Alan usa seu tom sarcástico e irônico. – Nos torna fracos, burros, você sabe muito bem disso. – ao Alan acabar de dizer tais palavras, Jessie olha para mim e volta o olhar para Alan.
– Experimente cuidar de uma pessoa durante toda sua vida, e depois venha me falar se sentimentos são tão ruins mesmo. – Jessie diz, colocando-se de pé com extrema dificuldade. Essas palavras fazem meu coração saltar, borboletas se formam em meu estomago e pela primeira vez após toda essa guerra em meu quarto, sinto uma vontade sincera de sorrir apenas pelo fato de saber que sempre o tive ao meu lado.
– Não vou perder meu tempo precioso com coisas tão estúpidas, você sabe que isso é para os fracos. – Alan solta meus pulsos e se coloca de pé, encarando Jessie fixamente.
– Alan, apenas faça uma coisa. – Jessie se aproxima lentamente de Alan. – Pare de tentar provar que é invencível; nós dois sabemos que não é assim.
– Isso é o que veremos, meu caro inimigo Jessie. – responde Alan, a centímetros de distância de Jessie. A guerra é cada vez mais nítida. – Isso é o que veremos. – sem dizer mais nada e para o meu total espanto, Alan simplesmente se vira em direção a minha janela. – Acho que meu recado foi dado, não foi humana? – Alan senta-se na janela e profere um ultimo olhar penetrante para mim, causando-me um imenso arrepio na espinha. Logo após tal ato, simplesmente joga-se, saindo de meu campo de visão. Eu realmente não faço a menor questão de saber se ele rachou o crânio ao meio no chão ou não.
A única coisa que consigo fazer é levantar-me com extrema dificuldade e ir de encontro a Jessie, abraçando-o extremamente forte, como se nunca o tivesse abraçado antes, entregando-me completamente às lágrimas enquanto sinto que ele me abraça com a mesma força e intensidade. Os soluços em meio ao choro são incontroláveis, sinto-me aliviada, mas ao mesmo tempo, sinto muito medo, não consigo deixar de lado a culpa de saber que algo pode acontecer com quem amo apenas por uma coisa que eu sou responsável. Sua mão acaricia levemente meu cabelo, enquanto a outra me aperta para mais perto de seu corpo. Literalmente desmorono de chorar em seu ombro, como se toda a tristeza, angustia e dor estivesse explodindo ao mesmo tempo. Sem perceber, acabo notando que passei inúmeros minutos apenas chorando abraçada ao seu corpo.
– Melanie, por favor, você tem que me prometer que nunca mais vai fazer uma loucura dessa. – Jessie me solta, e segura meu rosto para que eu olhe fixamente em seus olhos, para sua face ensaguentada. Com o polegar, limpa todas as lágrimas do meu rosto e sorri. – Confesso que é raro ver tamanha coragem em uma mera mortal.
– Ando aprendendo uns truques com um anjo aí. – respondo, sorrindo com toda a sinceridade. É como se as lágrimas se transformassem em sorriso. Tenho que admitir que chorar em seu ombro fez com que um enorme peso saísse de meus ombros, desatou um nó infinito do meu peito.
– É, esse anjo tem a manha. – ele diz, rindo de um modo tão bobo que me faz ter, mais uma vez, a maior certeza de que realmente estou frente a frente com um anjo.
– Sim, mas esse anjo é um teimoso, está muito fraco, ferido, e não permite que uma mortal cuide dele. – digo, passando delicadamente a mão sobre uma ferida aberta no canto de seus lábios, o que obviamente lhe causa dor, pois ele fecha os olhos e respira fundo.
– A mortal tem um quarto todo para limpar, e daqui a pouco tempo terá companhia. – ele responde, soltando meu rosto de suas mãos.
– Erick? – pergunto sem saber de que companhia ele possa estar falando.
– Uma hora ele teria que voltar, não é? – Jessie sorri enquanto responde, um sorriso diferente do normal, um sorriso típico e comum de quando fala com Erick, e eu sei que não é só impressão minha. – Ele não deixaria a garota dele sozinha por muito tempo.
– Você tem que parar de ser idiota e teimoso. – sorrio, cutucando a ponta de seu nariz com o indicador. – Por favor, me deixa cuidar de você?
– Você que quase morreu asfixiada, ou seja, eu devo cuidar de você. – ele diz, retribuindo o cutucão na ponta do meu nariz.
– Mas eu não estou sangrando... – digo, com um tom mais sério em minha voz, dando de ombros.
– Tudo bem... – ele respira fundo e caminha em direção a minha cama, deitando-se nela sem nem ao menos pedir permissão. – Eu acho que preciso mesmo descansar um pouco.
– Você precisa parar de ser tão teimoso. – me aproximo e sento-me ao seu lado na cama. – Eu vou pegar mais coisas para fazer os curativos nesse anjo violento e brigão.
– De nada. – ele sorri, de olhos fechados. Noto que ele respira com dificuldade, obviamente pela quantidade de socos recebidos. Nada mais digo, percebo que a caixa de curativos de minha mãe está no chão, ao lado de minha cama, então, sem pensar duas vezes, pego todas as coisas necessárias para os procedimentos. – Quando você era criança e respondia que queria ser médica, enfermeira, veterinária, ou coisas do tipo... – Jessie começa a dizer, ainda de olhos fechados, enquanto começo a limpar as feridas de seu rosto. – Você deveria pensar nessas possibilidades, você tem o maior jeito para isso. Palavra de anjo.
– Jessie, apenas fique quieto. – não consigo controlar o riso com tamanha idiotice que acabo de ouvir. Ao mesmo tempo, sinto-me cada vez mais feliz por estar recebendo verdadeiros sinais de que ele realmente sempre esteve ao meu lado.
– Melanie, sobre o anel... – ele começa a dizer.
– Nós não vamos quebrá-lo hoje. – pouso o indicador sobre seus lábios e continuo a fazer os curativos em cada ferida de seu rosto. – Não posso permitir que façamos isso com você assim.
– Você sabe que nada vai acontecer comigo. – ele sussurra, abrindo os olhos e me fitando profundamente.
– Eu sei que não vamos quebrar o anel essa noite e está decidido. – respondo, tentando continuar o que estou fazendo, sem me entregar ao seu olhar.
– Tudo o que posso prometer, então, é que jamais deixarei você. Independente de suas escolhas. — ele sorri e fecha os olhos, causando-me uma vontade incontrolável de beijar seus lábios novamente... Não, Melanie, por favor, se controle. Lentamente, mais uma vez motivada por meus impulsos humanos, aproximo meus lábios de sua testa, beijando-a como ele fez comigo. Mas repentinamente, um ruído na sala faz tudo se quebrar.
– Eu disse que ele não demoraria a chegar. – Jessie sorri, mais uma vez, um sorriso irônico, se é que anjos usam da ironia. E realmente, não tinha hora menos apropriada para Erick chegar.
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