Objeto Perdido
29 Capítulo vinte e oito
Notas iniciais
“Eu também amo você.” Essas eram as únicas palavras que eu gostaria ter ouvido sair dos lábios de Jessie. Sim, talvez seja algum tipo de atitude egoísta de minha parte, não pensar em seus sentimentos e segredos, em tudo o que se submete a passar, mas simplesmente não consigo controlar tal sentimento, não consigo deixar de sentir o vazio em meu peito por não ter ouvido essas quatro palavras tão bobas e tão significativas.
O vento bate em meu rosto, trazendo-me constantemente o leve e doce perfume do anjo pelo qual me sinto cada dia mais apaixonada. Não consigo encontrar qualquer força para entrar em casa novamente, não quero lidar com Elena e Julie sozinha, mesmo que sejam minhas melhores amigas, é como se as coisas estivessem mudadas, na verdade, eu sei que as coisas estão mudadas, não sou mais a mesma Melanie de tempos atrás. Simplesmente quero que isso acabe logo, não suporto mais essa pressão em meu cérebro, mas ao mesmo tempo em que quero que isso termine o mais rápido possível, meu coração grita para que não acabe jamais, e a única razão para que eu queira que não acabe atende pelo seguinte nome: Jessie.
Jessie... Esse nome soa em minha mente e causa-me as famosas borboletas no estômago, um sentimento tão estupidamente humano. Porque ele não admite logo que me ama? Porque tem que ser tudo tão idiotamente complicado entre nós dois? Sinto em meus ossos que não estou sobre efeito algum do anel, é um sentimento verdadeiro, sincero, profundamente humano. Sento-me encostada na parede ao lado da porta de minha casa e abraço minhas pernas, não quero voltar para dentro de casa, estou cansada de fingir que tudo está bem, cansada de sentir uma guerra acontecendo em meu interior, estou cansada até mesmo de estar cansada.
Aparentemente, ninguém em minha residência sente minha falta, nem mesmo Erick, o que era de se esperar, considerando o fato de sua paixão de infância, Julie, estar presente no mesmo cômodo que ele. Continuo sentindo a brisa da noite acariciar meu rosto, fecho os olhos e procuro equilíbrio dentro de meu ser, um equilíbrio que provavelmente não existe mais, mas ainda assim é necessário tentar. Repentinamente me pego pensando em Alan, em o porquê de ele ter ido até minha casa, e a resposta me parece óbvia, ele está querendo me atingir, pois sabe que Dan e minha mãe são, na verdade, tudo o que tenho em minha vida. A ideia de perdê-los faz meu coração se acelerar, o medo agita meu interior, tenho o desejo de sair correndo pela escuridão da noite, sem rumo algum, perder-me no intuito de jamais ser encontrada, sair dessa realidade em que me encontro, tirar todos os que amo de tal zona de perigo que se encontram quando estão ao meu redor.
“Você não pode deixar que ele faça isso com você...”, a voz de Jessie dizendo tal frase, soa em minha cabeça, como uma luz trazendo-me calma, ou alguma coisa clichê do gênero. Se pelo menos ele fosse sincero comigo, contasse para mim tudo o que realmente acontece em sua mente, talvez eu conseguisse ajudá-lo em algo, não apenas deixá-lo ficar a cada dia mais fraco por minha causa. Sinto com todos os meus sentidos, que em algum lugar nessa escuridão da noite, há um anjo a me observar, não sei explicar como, ou porque sinto isso, mas é algo completamente mais forte que eu, apenas sei.
– Ei, o que está fazendo ai? – a porta se abre e uma voz masculina tira-me do mar de pensamento em que me afundei. Dan.
– Feche a porta, por favor. – é apenas o que digo, tentando sorrir de modo mais sincero possível. Apenas olhar sua face, faz com que o medo de perdê-lo tome conta de todo meu ser. O que seria de mim sem o padrasto maravilhoso que Dan é? O que seria da minha mãe? Não, Melanie, não pense nisso...
– Brigou com seu namorado de olhos claros? – Dan pergunta, um sorriso brincalhão nos lábios, sentando-se ao meu lado.
– É tudo muito complicado pra você entender. – solto um sorriso vazio e sem humor enquanto digo.
– Ei, não se esqueça que eu já tive sua idade, já tive meus amores não correspondidos. – ele responde, apoiando sua mão sobre meu joelho.
– Mas é correspondido... – suspiro. – Quer dizer, pelo menos é o que parece.
– Vou precisar ter uma conversa séria com alguém? – Dan pergunta em tom autoritário, porém, brincalhão ao mesmo tempo.
– Não será necessário. – olho em seus olhos e respondo, sorrindo sinceramente dessa vez. – Obrigada, pai.
– Você me chamando de pai? – um enorme sorriso surge em seus lábios. – Senhoras e senhores, estamos presenciando um milagre.
– Bobo... – sorrio, deitando minha cabeça sobre seu ombro,
– Afinal, o que são esses machucados em sua mão e em seu braço, mocinha? – Dan pergunta, segurando delicadamente a mão em que atingi no espelho, causando-me um leve ardor.
– Nada. – rapidamente, tiro minha mão da sua. – Coisas de adolescentes, você deve saber. – sinceramente, nem ao menos eu consigo lembrar-me completamente o que houve com meu braço e com minha mão. Muito obrigada, Jessie.
– Eu e sua mãe estamos preocupados com você. – ele sussurra, pegando minha mão novamente.
– Apenas quero que todos fiquem bem. – aperto sua mão, causando-me mais ardor. – Não se preocupem, eu estou bem, prometo. Apenas preocupada com Cora, com tudo o que houve, mas se vocês estão bem, eu estou bem.
– Eu amo você, filha. – Dan beija levemente minha cabeça.
– E eu amo você, pai. – digo em resposta, um sorriso de emoção surge em meus lábios, juntamente com a lembrança de Jessie. Porque ele simplesmente não disse essas três palavras?
– Agora, acho melhor entrar, as coisas estão ficando, digamos, críticas lá dentro. – ele diz, já colocando-se de pé, pegando-me pela mão e me puxando para cima.
– Quem está bêbado? – é só o que consigo perguntar, sorrindo.
– Entre e verá... – Dan sussurra, abrindo a porta.
A cena é extremamente preocupante quando se sabe o que está havendo, o poder que está pairando sobre o cômodo. Erick e Julie conversam coisas aleatórias no sofá, ela se encontra com as pernas em cima das pernas dele e um copo da mão de cada um, com certeza já não sabem mais contar quantos copos iguais ingeriram. Elena fala sozinha, completamente jogada em uma das poltronas ao canto. Sim, ela literalmente fala sozinha entre um gole e outro. Não há mais sinal de minha mãe no local, mas um ruído na cozinha faz com que eu me alivie ao saber que ela está em casa. Como ficaram tão bêbados em tão pouco tempo? É uma questão que não consigo compreender. Quer dizer, Elena nesse estado é completamente compreensível, ela estava apresentando sinais de embriagues desde o momento em que cheguei... Ok, todos estarem assim é completamente compreensível, apenas não acredito que se permitiram chegar a esse ponto.
– Mel!– Elena grita, tentando colocar-se de pé. – Cadê aquele seu amigo, o A... – ela para por um instante, parece não se lembrar do nome da ‘pessoa’ mais nojenta existente no Universo.
– Alan... – suspiro, ajudando-a. – Ele foi embora, e você deveria parar de beber, Elena, todos vocês.
– Você não era tão careta a esse ponto, Melanie. – Julie diz, causando uma risada geral pelo cômodo.
– O amiguinho novo dela, aquele tal de Jessie, que tem mudado a cabeça dela. – Erick balbucia entre um gole e outro, rindo sozinho de uma piada inexistente.
– Não adianta conversar agora, Melanie, eles estão bêbados demais para isso. – Dan sussurra em meus ouvidos, logo atrás de mim.
– Porque vocês não se juntam a nós? – Elena diz, já segurando a garrafa nas mãos. Os outros dois gritam, um grito de torcida quando o time favorito faz um gol, ou algo semelhante.
– Na verdade, já está tarde, por hoje, chega de bebida. – Dan se pronuncia, saindo de trás de mim e pegando a garrafa de Elena, entregando-me. – Leve para um dos armários da cozinha, vou levá-los para cima. – sussurra, virando-se para mim.
Faço exatamente o que me foi pedido. Com a garrafa em mãos, vou até a cozinha e a guardo na parte mais alta dos armários que consigo alcançar. A vontade de provar pelo menos uma gota de tal líquido me toma, mas eu sei que se trata de Alan tentando controlar-me de alguma maneira, não posso permitir que ele faça isso comigo.
– Você está bem, meu amor? – minha mãe pergunta enquanto arruma a louça.
– Sim, mãe. – respondo, indo até ela e depositando um beijo em sua bochecha. – Vou ajudar Dan a colocar aquelas crianças bêbadas para dormir. – minha mãe nada diz, apenas sorri e retribui o beijo em meu rosto. Sei que ao fundo, foi ela que mandou Dan ir até a varanda verificar se eu estava bem.
Chegando à sala, Dan sobe as escadas com Erick apoiado sobre seu ombro. Não há mais sinal de Elena e Julie, provavelmente ele as levou ao mesmo tempo. Subo logo em seguida, meu coração pulsando em meus ouvidos, elas não podem estar mexendo em minhas coisas, elas não podem achar o anel.
Em meu quarto, a cena me tranqüiliza completamente, ambas deitadas em colchões ao chão, já dormindo, o álcool realmente fazendo um efeito muito rápido em seus metabolismos. Com extremo cuidado, passo por sobre os colchões, pego meu cobertor e meu travesseiro, juntamente com o anel guardado exatamente onde havia deixado, e resolvo dormir na sala, pelo simples motivo de não querer a presença de ninguém caso eu tenha qualquer ataque psicótico durante a noite.
– O que você está fazendo, filha? – minha mãe pergunta, subindo a escada, em meu encontro.
– Eu não gosto de dormir com gente bêbada, mãe. – não consigo acreditar no que acabo de dizer. – Queria dormir aqui na sala, pelo menos hoje, por favor.
– Tudo bem. – ela sorri e beija delicadamente minha testa. – Mas apenas hoje, ouviu. – eu nada respondo, apenas concordo com a cabeça e a beijo no rosto novamente. – Boa noite, meu amor.
– Boa noite, mãe. – digo, voltando a descer a escada, jogando minhas coisas no sofá.
Coloco o anel em meu dedo e desligo a luz, indo deitar-me no sofá. Completamente sem sono, deixo meus pensamentos fluírem, acaricio levemente o anel em meu dedo e fito o teto, mesmo no escuro. Um turbilhão de pensamentos passam por minha mente, sinto-me completamente confusa para conseguir entender o que está havendo.
Um tempo se passa, encontro-me completamente inerte em meus pensamentos. Fecho os olhos e procuro manter a calma, procurar o sono, mas tal ato torna-se completamente em vão. Um grito estridente soa em minha mente, um grito completamente agudo, porém, inconfundível. Não, não se trata do grito de Cora, é um novo grito, um novo som, o grito de Elena. Abro repentinamente os olhos e sento-me no sofá, respiro fundo inúmeras vezes, mas não há nada que faça tal ruído se silenciar em minha mente. Coloco as mãos em meus ouvidos, mas nada funciona, o grito ainda resiste. Tal grito diz algo, porém, não consigo decifrar o que pode ser.
Minha boca seca a cada segundo mais, minha garganta arde em uma sede sem igual. Por favor, Melanie, não o deixe fazer isso com você. O grito lentamente começa fazer algum sentido, grita em minha mente as palavras “Apenas um gole, Mel.”, fazendo minha sede aumentar ainda mais. Um nó se prende em minha garganta, eu luto com todas as minhas forças contra minha mente, mas sinto-me fraca, não há nada que eu consiga fazer para fazê-la se calar.
Levanto-me do sofá e vou em direção a cozinha, pegando a bebida no mesmo local em que a havia guardado. Abro e sinto o odor do álcool exalando por todo o local. Não, Melanie, não faça isso...
Em um único movimento, viro a garrafa em minha boca, sem ao menos um copo. O líquido queima minha garganta, todo meu interior, porém, ele não cessa minha sede, é necessário mais, muito mais. “Agora podemos nos divertir, Mel.” A voz de Elena soa em minha mente, mas sem gritos dessa vez. Com a garrafa em mãos, sem fazer qualquer ruído, abro a porta de casa e sento-me no mesmo local que havia sentado quando Jessie sumiu na escuridão da noite. Porque estou aqui? Não faço a menor ideia, é como se não tivesse controle sobre meu próprio pensamento.
Entre um gole e outro, começo a ver tudo muito mais lento, como se fosse possível sentir a rotação da Terra, ou coisa parecida.
– Porque você é tão idiota, Melanie? – digo para minha mesma, em voz alta. – Idiota, é isso mesmo que você é. – mais um gole da bebida. – Esse anel... – tiro o anel do dedo e o olho. – Igualmente idiota. – em um único movimento, o atiro para frente, caindo em um lugar em que meus olhos embriagados não conseguem enxergar. – Todos estão em perigo por minha causa, eu me odeio! – digo, aumentando cada vez mais a voz, entre mais e mais goles, sentindo as lágrimas deslizarem por meu rosto. A dor em meu peito é extremamente grande, meu maior desejo é retirá-la, mas cada vez que penso em ser capaz, sinto-me mais fraca, mais culpada. – Eu não merecia nem estar viva, essa é a verdade. – digo novamente, dando um último gole na bebida, erguendo minhas mãos para arremessá-la ao longe.
– Não faça isso, Melanie. – uma voz soa em minha frente, uma voz que faz tudo parar, até mesmo a dor. – Você sabe que é exatamente isso o que ele quer.
– Saia daqui. – digo, tentando me levantar, indo em sua direção. – Você não é capaz de me amar, como será capaz de me ajudar? – digo, entre um soluço de choro e outro. Seguro firmemente a garrafa em minha mão.
– Como pode dizer que eu não a amo? – ele sussurra, vindo igualmente em minha direção. – Por favor, não se entregue assim aos poderes de Alan. Eu lhe pedi para que não bebesse.
– Se você me ama, porque não diz? – altero o tom de minha voz. – Por quê?
– Melanie, sente-se aqui. – ele me abraça em seus braços e me leva até o local onde estava sentada a princípio. Eu apenas o abraço fortemente e entrego-me ao choro, um choro de quem não agüenta mais não ter segurança, um choro de quem não agüenta mais não ter certeza do que pode acontecer amanhã. Sei que corremos o risco de que, a qualquer momento, minha mãe ou Dan apareça na porta e nos pegue, mas eu simplesmente não estou conseguindo controlar tudo isso. O choro não para, como se cada vez desse mais e mais vontade de chorar, na tentativa de fazer a dor sair juntamente com as lágrimas. – Respire, minha mortal. – ele sussurra, apertando-me mais em seus braços, trazendo-me uma segurança maior, lentamente fazendo com que todo o sentimento ruim fosse passando. Jessie, porque faz isso? Eu não posso permitir que use mais seus poderes comigo, mas sempre que usa sobre mim, começo a sentir meu corpo se amolecer, impedindo-me de fazer qualquer coisa, exatamente como agora. – Respire e jamais esqueça ou duvide do quanto amo você. – ele sussurra uma última vez, beijando levemente minha testa. Eu quero poder dizer mais alguma coisa, mas o sono me invade mais a cada segundo, minha garganta arde por conta do álcool mas está tudo mais calmo, a paz reina e quando dou por mim, estou completamente imersa em uma espécie de sono pesado.
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