Objeto Perdido
21 Capítulo vinte
Notas iniciais
– Então, isso foi um sim? – pergunto dando um leve soco em seu ombro, na tentativa de fazer com que um mero sorriso surja em seus lábios. Confesso que vê-lo com lágrimas nos olhos, sem seu brilho costumeiro, parte meu coração, causa-me um vazio interior, e por alguns segundos sinto-me culpada por tudo que está sentindo. Sei que, na verdade, toda a dor e fraqueza de seu ser são extremamente de minha culpa.
– Bom, acho que você conseguiu me convencer, mera mortal. – ele responde, fingindo um sorriso no canto dos lábios. – Mas, é apenas até que pegue no sono. Eu não posso deixar que corra o risco de que alguém me pegue aqui.
– Acho pouco provável que alguém apareça em meu quarto no momento, caro anjo. – mexo em meu cabelo e sorrio, tentando lhe causar um sorriso mais sincero. – Só se Erick...
– Exatamente. – ele me interrompe e uma espécie de sorriso irônico surge em seus lábios. – Não tenho dúvidas de que Erick vira vê-la assim que acordar, o que pode ser daqui a pouco.
– Jessie... – de repente me vem a mente a possível possibilidade de Jessie ter, de alguma forma, visto meu beijo com Erick. Meu estômago se revira, sinto minha cabeça doer. – Por acaso você não ficou sabendo ou viu alguma coisa entre Erick e eu, não é?
– O beijo de vocês? – ele pergunta rindo, meu coração para momentaneamente. – Melanie, você tem que se lembrar de que eu sei de muita coisa, pra não dizer que sei de tudo. Mesmo quando não estou perto de você, estou te observando, sempre foi assim e sempre será. – sinto seus dedos percorrerem suavemente meu rosto e automaticamente fecho os olhos com tal toque. – Você e sua mania de achar que eu a deixo sozinha ou vou deixá-la em algum momento. – ainda de olhos fechados, deixo uma lágrima escorrer sobre meu rosto, mesmo sem querer, é inevitável, não consigo segurá-la. Vejo Cora sendo esfaqueada novamente, revivo o momento de olhos fechados e a vontade de cair em lágrimas torna-se cada vez mais forte. – Agora, se a humana não se importar, eu acho que preciso me deitar um pouco, minhas costas estão realmente me matando. – abro os olhos e percebo que ele sorri, um sorriso luminoso, seus dedos limpam cada lágrima de meu rosto, mas seus olhos ainda não se encontram com seu brilho costumeiro, noto que começam a surgir pequenas gotículas de suor em sua testa, suas mãos estão levemente tremulas, como sempre, sei que ele sente mais dor do que aparenta e admiti.
Sem dizer mais nada, apenas sorrio e cedo espaço a ele em minha minúscula cama. Ter seu corpo tão próximo do meu, causa-me uma espécie de sentimento ainda não sentido por mim, nem ao menos quando Erick me beijou fui capaz de sentir tamanha atração... Sim, acho que atração é o nome certo para tal sentimento. Ele se deita olhando para o teto, com o peito para cima, enquanto eu, deito-me ao seu lado, completamente virada para seu corpo, apoiando a cabeça sobre meu braço. Seus olhos se fecham e eu posso notar a profundidade com o que está respirando, sinto uma vontade infinita de tocá-lo, acariciar seu rosto assim como faz comigo, pelo menos por alguns segundos conseguir retirar toda a dor de seu interior, mas acabo me lembrando que não posso, afinal, sou apenas uma mera humana.
– É meio complicado dormir quando se tem uma mortal teimosa te observando sem parar. – Jessie abri os olhos e ri, virando seu rosto para encarar o meu. – Posso saber o que se passa nessa mente humanamente complicada?
– Você está sentindo muita dor, não está? – pergunto sem excitar.
– Melanie, eu já disse que estou bem. – ele sorri, virando o rosto novamente em direção ao teto, fechando seus olhos. – Você se preocupa demais para uma mera mortal.
– Se meros mortais não se preocupam com quem amam, então devo ser uma mortal muito estranha e diferente mesmo. – quando dou por mim, essas palavras já saíram de meus lábios. Melanie, você é muito burra.
– Sim, você é isso mesmo. – ele ri e volta a me fitar . Arruma-se na cama, virando-se completamente em direção ao meu corpo. Tê-lo frente a frente em minha cama, faz meu coração se acelerar, sinto como se borboletas voassem em meu estômago. Sei que não devo me permitir sentir isso, me iludir sabendo que jamais poderei ficar com ele, mas isso é completamente inevitável. – Você é estranha e diferente desde que nasceu, mera mortal.
– Como assim?! – solto um riso de nervoso. Como ele poderia saber disso?
– Bom, como eu disse, eu sempre estive te observando. – ele ri e apoia sua mão sobre meu ombro. – Eu sempre estive ao seu lado, e você jamais percebeu.
– Então você está querendo dizer... – tento entender o fato de ter Jessie como meu anjo desde... Desde sempre.
– Sim, quer dizer que eu vi você adoecendo e indo para o hospital diversas vezes, quebrando alguns ossos, as diversas vezes em que tentou ou pensou em tirar a própria vida. – sua mão que antes estava em meu ombro, levemente tira uma mecha de cabelo que cai sobre meu rosto. – Não só vi, como também te ajudei, para não dizer que salvei, todas essas vezes. Desde sempre você foi predestinada a essa missão, Melanie, e eu sempre fui predestinado a ajudá-la, apenas precisava aguardar o momento em que pudesse aparecer.
– Bom, agora que apareceu, não precisa mais ir embora... – aproveito a história para soltar alguma coisa que possa impedir de deixar-me em um futuro talvez não muito distante.
– Não... – ele sorri e apoia o dedo indicador sobre meus lábios. – Sem esse assunto novamente, mera mortal. Você ama complicar as coisas para mim, não é?
– Eu só não quero... – começo a dizer, sentindo um nó prender meu peito novamente.
– Do mesmo modo que nós dois fomos predestinados para tal missão, está predestinado que após completá-la, eu terei que ir embora, mas jamais deixarei você, disso você não pode duvidar jamais. Me perdoe, humana, mas não fui eu quem criou as regras desse jogo. Simplesmente não posso ficar e mudar o predestino de todos, por isso terei que apagar sua memória, para que o fato de um dia eu ter estado aqui, jamais influencie em qualquer decisão sua. Mas, eu acho que isso nós já conversamos, não é? – ele sorri ao terminar de falar, percebo que na tentativa de me deixar bem, mas no fundo, ambos sabemos que desejamos que o momento da partida jamais chegue. – Já sei, vamos fazer um trato, não falaremos mais sobre isso até o momento chegar, pode ser?
– Sabe, você fala que eu amo complicar as coisas pra você, quando na verdade, quem complica as coisas aqui é você. – solto uma risada, batendo em seu ombro. – Pronto, falei.
– Mil desculpas se eu sou um anjo mal, mera mortal. – ele ri, revidando o soco em meu ombro. – Nunca mais terei paz depois dessa informação.
– Tive uma ideia. – sorrio, me aproximando um pouco mais de seu corpo. – Antes de você ir embora, nós poderíamos, sei lá, sair um dia para beber, o que acha? Será tipo uma despedida.
– Você quer embebedar um anjo, é isso mesmo que entendi? – ele sorri, me advertindo apenas com um olhar.
– Ah, talvez... – rio e mexo em seu cabelo, bagunçando-o. – Confessa, vai ser legal.
– Tive uma ideia melhor. – é a vez de ele bagunçar meu cabelo. – Que tal se você dormisse? Já está para amanhecer e o dia será muito longo.
– Não quero dorm... – começo a dizer.
– Não tem essa de querer ou não, você vai dormir e pronto. – ele se vira novamente com o rosto em direção ao teto. – Você sabe que posso fazê-la dormir mesmo que não queira.
– Você e seu papo afiado de anjo. – zombo dele, causando-lhe um sorriso. Amo vê-lo sorrir, mas isso já não novidade nem ao menos para mim.
– Eu posso provar. – ele estende o braço para que eu me deite mais próxima ainda de seu corpo.
– Você está falando sério? – pergunto, sentindo meu estômago se revirar, juntamente com meu coração que bate em um ritmo jamais sentido antes.
– Já que você duvida. – ele vira seu rosto para me fitar, um sorriso novamente surge no canto de seus lábios. Lentamente, me aproximo de seu corpo, deito em seu peito e sinto seus braços a me abraçar. Seu perfume extremamente doce invade minhas narinas e uma paz imediata se apodera de todo meu ser. Sinto sua respiração lenta e profunda, no silêncio absoluto de meu quarto, consigo ouvir, ainda que baixo, os batimentos de seu coração. Fecho meus olhos e sorrio pelo momento que estou vivendo, sei que mesmo que ele apague a memória de sua presença, de alguma forma, jamais me esquecerei desse momento.
– Olha, parece que alguém tem um coração... – sussurro, rindo do fato de estar novamente zombando dele.
– Vou fingir que não ouvi isso. – ele responde. Mesmo sem olhar em seu rosto, sei que ele sorri. O braço que está ao meu redor treme um pouco, sua respiração torna-se cada vez mais profunda e lenta.
– Jessie, fala a verdade, você está sentindo muita dor ainda? – pergunto, erguendo meu rosto de seu peito, olhando-o, seus olhos estão fechados.
– Shh... – ele abre seus olhos, apoia novamente o indicador em meus lábios e sussurra. – Apenas durma. – volto minha cabeça em seu peito e fecho os olhos, tendo a maior certeza de que a dor ainda está em seu ser. Sinto-me culpada, e com isso, as imagens de Cora sendo esfaqueadas voltam em minha mente, cada segundo de angustia volta com extrema força em minha mente. Lembro-me perfeitamente de tudo, menos de como cheguei a minha casa, ao meu quarto.
– Jessie... – sussurro. – Como eu cheguei até aqui depois da festa de Thalia?
– Mas você é teimosa, hein humana? – sinto que ele sorri enquanto fala. – Durma, apenas durma, qualquer dúvida será respondida quando acordar, eu prometo. – com uma de suas mãos, Jessie acaricia levemente meus cabelos, causando-me um sono quase imediato, a paz que me invade é tão grande que sem nem ao menos perceber, já não consigo mais controlar o sono. Se ele está usando seus poderes ou não, o que provavelmente está, sei que não posso evitá-lo, pois o sono é tão forte que logo sou levada completamente à inconsciência, mas felizmente, uma inconsciência sem pesadelos, sem qualquer vestígio dos poderes de Alan.
Abro os olhos e tudo se encontra em um silêncio absoluto, olho ao redor para me certificar de onde estou e tudo indica que estou realmente em meu quarto, sem sinal de ser uma alucinação. O relógio ao lado de minha cama marca exatamente 13h41. Como ninguém me acordou ainda? Como eu posso ter perdido praticamente metade do dia? Acima de tudo, onde está Jessie? Não é possível que eu tenha sonhado que ele esteve aqui essa noite. Ou é?
Noto que ainda estou com o vestido da festa de Thalia, ainda estou com o sangue de Cora em mim e isso faz meu coração se apertar em uma angustia infinita. Não há mais dor em meu corpo, sinto-me bem exteriormente, mas meu interior fica mais aos pedaços a cada segundo que passa. Sinto algo em meu dedo, e ao olhar, noto que não é nada mais, nada menos que o anel, o famoso anel causador de todos esses acontecimentos loucos e sem sentido para um mero mortal, assim como eu. Levanto-me e ando lentamente por todo o cômodo, seja o que for, sinto que aconteceu alguma coisa por aqui enquanto eu dormia.
A porta de meu armário está aberta, algumas roupas estão fora do lugar, outras estão jogadas ao chão, a poltrona ao lado da janela se encontra caída, assim como outros objetos que estavam em cima de minha cômoda de estudo. A janela está fechada, mas algo nela me chama a atenção. Há sangue, uma mínima mancha, mas ainda assim, é sangue no vidro, tenho certeza. Olho para o chão e mais algumas manchas vermelhas são visíveis, principalmente perto de alguns objetos jogados ao chão, mais necessariamente, um espelho de bolso me chama a atenção. O pego e noto que está quebrado, uma parte do vidro foi retirado e o sangue é mais visível naquele local. Sinto tudo rodar ao meu redor, uma vertigem me atinge e me vejo obrigada a sentar em algum lugar para raciocinar melhor. Olho para o chão e bem ao lado da minha cama, a mancha de sangue é bem maior, talvez a mais visível e nítida de todas, como se alguém houvesse batido seriamente a cabeça na quina de meu criado mudo, ao lado da cama. A preocupação torna-se maior a cada segundo, eu realmente não consigo compreender o que está havendo, não consigo entender porque o anel está em meu dedo , não consigo distinguir se aquele momento com Jessie foi sonho ou não, está tudo muito confuso em minha cabeça, tudo dói em meu interior, as lágrimas querem tomar conta novamente. Fito incansavelmente a misteriosa pedra acima do anel e as únicas coisas que consigo pensar é em quem é o dono do sangue em meu quarto? Se não foi um sonho, se Jessie realmente esteve aqui, onde está ele agora?
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