Objeto Perdido
10 Capítulo nove
Notas iniciais
Aquela informação dilacerou meu coração, me viro para frente assim que o professor finalmente chega à sala de aula, e olho diretamente para Cora, que prende seu cabelo sorrindo, é claro. Não posso deixar que nada aconteça a ela, por mais que a tenha conhecido a pouco tempo, a impressão é a de que a conheço há anos, seu senso de humor, o jeito que praticamente me adotou... Se alguma coisa acontecesse a ela, eu me sentiria culpada pelo resto da minha vida, se algo acontecesse a qualquer um por minha causa, ou por aquele anel idiota, seria como minha morte. De repente, se torna muito difícil respirar, é como se o ar não entrasse para meus pulmões, a dor invade meu corpo completamente, minhas pálpebras pesam , é impossível deixá-las abertas, minha cabeça pende para frente e sou incapaz de me levantar de minha mesa.
– Melanie! – exclama Jessie atrás de mim, em um sussurro. Sua mão bate em meu ombro. – Não o deixe fazer isso com você, seja forte. – sua mão aperta forte meu ombro e uma onda de calma invade meu corpo. Na verdade, é como se uma guerra entre dois mundos completamente opostos acontecesse em minha alma, meu corpo está mole, não há forças para me reerguer, meus olhos se abrem e se fecham sem parar. Entre um piscar e outro, vejo corpos estirados ao chão, corpos conhecidos, ensangüentados. Dan está no meio da imensidão de corpos, Cora está ao seu lado, seguida de Erick, ao lado de minha mãe... A vontade de gritar e até mesmo acabar com minha vida ali mesmo é enorme, mas algo ainda resiste em mim, uma paz tenta reinar em meu ser, e repentinamente tudo some e só reina a tranqüilidade. Abro os olhos e respiro profundamente, me levanto lentamente da carteira, ainda estou na sala de aula, ouço o professor falar, todos escrevem, inclusive Jessie, mas uma de suas mãos está em meu ombro, apertando com certa força, noto que a mão em que está escrevendo treme um pouco, ele soa como se estivesse sentindo algo que não o fizesse bem.
– Está tudo bem? – sussurro, fazendo com que imediatamente tirasse a mão de meu ombro.
– Sim. – ele sorri, mas percebo em seus olhos que nada está bem. Seus olhos estão mais escuros, o brilho sumiu e parecem mais fracos. – O importante é se você está bem.
– Foi tudo tão estranho... – sussurrei me virando para frente, novamente sem entender mais nada.
– Acho que temos mais coisas para conversar. – ele sussurra com um tom leve de humor em sua voz. Apenas sorrio e concordo com a cabeça, tentando copiar toda a matéria atrasada que havia perdido em mais um devaneio.
A aula passou relativamente rápido, nenhum sinal de devaneio pela manhã. Jessie e eu decidimos não tocar em nenhum assunto sobrenatural na escola, ou perto de Cora. A hora do intervalo foi com certeza a mais torturante, os olhos de Alan e seu sorriso maléfico me perseguiam em todos os lugares, até mesmo na fila do lanche. Apesar de vazia, a escola estava tremendamente barulhenta, como se gritassem dentro da minha cabeça.
A hora de ir embora finalmente chegou e eu sinceramente não vejo a hora de ir de sair de perto da presença de Alan.
– Tive uma ideia... – Jessie surge atrás de mim enquanto caminho solitariamente pelo corredor do colégio. Cora saiu correndo, pois seu pai havia vindo te buscar e ele odiava esperar. – O que a senhorita acha, de comer alguma coisa, como os mortais dizem, na rua?
– Como é que é? – não consigo conter o riso com aquele jeito todo bobo e humano de um anjo falar.
– É... – ele sorri com o canto de seus lábios, mais uma vez. – Quer dizer, eu estive pensando, e já que temos que conversar, e a senhorita não pode ficar sozinha, lembrando o que ocorreu ontem quando ficou sozinha em sua casa, — seu modo de falar me faz rir sem parar. – Que tal irmos comer alguma coisa humana por ai?
– Traduza “coisa humana”... – rio descendo a escadaria de saída do colégio, com ele ao meu lado.
– Sei lá, a humana e mera mortal aqui é você. – ele zomba de mim e sorri.
– Mas eu não tenho dinheiro, Jessie. – lamento parando em sua frente, já completamente fora da escola.
– Só porque eu sou um anjo, não significa que eu não tenha dinheiro. – zomba de mim mais uma vez, sorrindo com seus olhos, que já estão com seu brilho novamente.
– O que tem em mente então, poderoso chefão de todos os seres sobrenaturais desse mundo? – não consigo perder a oportunidade de zombar dele pelo menos uma vez.
– Já disse que a mera mortal aqui é você. – seu sorriso é capaz de iluminar e preencher qualquer vazio e escuridão em meu ser. – Eu apenas dei a ideia.
– Que tal um hambúrguer à moda dos meros mortais? – sorrio e lhe dou um soco no ombro. – Tem um a apenas alguns passos daqui. – digo apontando para o outro lado da rua, uma lanchonete pequena mais bem comentada pela região.
– Como essa humana é inteligente... – ele ri e me bate nos ombros, fazendo com que eu o pegue pelo braço e saia correndo pela rua, até chegar a lanchonete. Ao entrarmos, seu sorriso é imenso, não me canso um minuto de olhá-lo, algo nele é de uma pureza e uma luz imensa, nesse momento começo a acreditar que realmente estou diante de um anjo.
– Por favor, dois hambúrgueres duplos, para comer aqui. – digo imediatamente encostando-me no balcão de pedidos. Jessie ri e eu retribuo o riso, com a maior sinceridade do mundo. – Preparado para se transformar em um anjo gordo?
– A gula é um pecado tão previsível dos seres humanos. – ele diz, passando por mim, bagunçando meu cabelo e se sentando em pequenos bancos ao lado do balcão.
– Se acha o tal, não é... – rio indo até ele, me sentando ao seu lado. – Afinal, porque essa roupa toda preta se é um anjo? Não deveria usar branco, ou qualquer outra cor?
– Tenho meus truques. – ele ri olhando profundamente em meus olhos. – Quer dizer, tenho que usar um disfarce, não é? – seu sorriso me hipnotiza. – Ficaria muito óbvio que sou um ser estranho se me privasse do pretinho básico dos humanos.
– Jessie... – começo a dizer, mudando rapidamente de assunto. – Você fez alguma coisa para meu devaneio parar hoje de manhã?
– Sim. – o sorriso instantaneamente saiu de seu rosto. – Eu não suporto ver alguém sofrendo e não poder fazer nada. O modo como ele está usando você, é algo tão... – ele fecha os olhos e respira fundo. – Sinceramente, eu não sei explicar.
– Mas o que você consegue fazer? – pergunto mergulhando cada vez mais na imensidão de seus olhos.
– Eu anulo o poder dele sobre você, fazendo-a sentir menos dor e menos sofrimento. – ele sorri timidamente com o canto dos lábios e dá de ombros. – Coisas de anjo...
– Ontem você disse que quando isso tudo acabar, você irá embora e apagara a parte da minha memória. – um nó prendeu meu peito. – É verdade?
– Sim. – o sorriso ainda está no canto de seus lábios. – Após concluirmos a tarefa, eu irei embora, deixarei apenas algumas lembranças com você, as que não atinja sua vida humana e nem suas decisões, as lembranças de sofrimento ou qualquer outro sentimento.
– Por quê? – minha voz falha e sai em forma de sussurro. Me sinto a cada minuto mais apegada a ele, e sei que com sua partida, o sofrimento será inevitável. Acima de tudo, não quero me esquecer dele, jamais.
– Eu fui enviado apenas para a missão do anel, nada mais, Melanie. – ele arruma meu cabelo que havia caído em meu rosto. – Não posso mudar o rumo de seu destino e nem de nenhum outro ser humano na face dessa Terra. A não ser que haja alguma morte, pois sobre isso, infelizmente não poderei fazer nada para trazer alguém de volta.
– Compreendo... – é a única coisa estúpida que sai de meus lábios antes de a garçonete chegar com nossos lanches. Ela praticamente come Jessie com os olhos, e algo em meu interior detesta isso.
– Obrigado. – diz ele ao pegar o seu, causando uma satisfação inalante na garçonete. – Bom, isso é comida de meros mortais?
– Meros mortais que gostam de comida boa... – sorrio dando uma mordida gigante em meu lanche, ele me acompanha. Seu rosto fica todo sujo, juntamente com o meu. Ao chegar ao fim de nosso mega lanche, as risadas são a causa de minha dor abdominal.
– Ah, antes que eu me esqueça... – diz ele, voltando do caixa onde havia pagado nossa refeição. – Você trouxe o anel?
– Sim, está aqu... – meu coração para ao perceber que o anel não se encontra mais em meu bolso, sinto uma tontura repentina e minha barriga dói como se tivesse recebido uma facada novamente.
– Melanie?! – Jessie me chama com a preocupação nítida em seus olhos.
– Jessie, o anel sumiu... – eu não creio nas palavras que acabo de dizer. – Ele não está mais comigo.
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