Sua cabeça latejava. Ao longe, ouviu vozes das quais não conseguia distinguir.

– Ele está acordando. — Ouviu uma voz, nada familiar.

Tentou abrir os olhos mas só o conseguiu por alguns segundos, e sua visão estava turva.

– Brienne... — Sussurrou, mas o rosto que mais parecia um borrão que estava à sua frente pareceu não entender suas palavras.

– Ele está tentando dizer algo. — Ele disse para outro homem, cujo o rosto também não passava de um borrão.

Jaime tentou se sentar, mas sentiu uma dor terrível em seu quadril. Gritou e os homens começaram a dizer coisas que o leão não conseguia entender. Se deixou cair na cama novamente.

– Traga mais leite de papoula! — Conseguiu ouvir um homem gritar as ordens.

– Brienne... — Sussurrou de novo e, mais uma vez, ninguém pareceu entender.

O esforço que ele fez para proferir o nome de sua esposa pareceu enorme, então o Lannister perdeu suas forças, fechou suas pálpebras devagar e pareceu cair em um sono febril.

Em seu sonho, o Lannister ainda tinha as duas mãos. Estava correndo por uma floresta, rindo, atrás de uma pessoa.

– Eu vou te pegar! — O garoto novo de cabelos dourados e olhos de esmeraldas disse.

– Não vai não! — Gritou de volta uma menina com um vestido rosa, cabelos dourados e olhos igualmente de esmeraldas. Abriu um sorriso zombeteiro e voltou a correr.

O garoto, que era Jaime Lannister quando tinha 8 anos, continuou a correr atrás de sua irmã gêmea.

– Você é muito devagar! — Gritou Cersei, sua voz ecoando pela floresta e sua silhueta já desaparecendo. O pequeno Jaime apertou seus passos atrás da irmã. — Rhaegar já teria me alcançado!

Aquele comentário pareceu enfurecer Jaime e, sem explicações, ele já se viu crescido, de armadura e com uma espada na sua mão direita.

E então continuou correndo, até que encontrou sua irmã. Ela também já estava crescida. Suas risadas se transformaram em gritos, e Jaime percebeu que estava enfiando sua espada no coração da irmã.

– Você pagará por isso.

Ela respondeu, sua voz cavernosa. Imediatamente, seus olhos verdes, tão iguais aos do irmão gêmeo, se transformaram em um azul profundo. A figura em sua frente já não mais usava um vestido rosa e, sim, uma armadura. Os cabelos longos, cacheados e dourados se transformaram em cabelos loiros, curtos e despenteados.

E então, a figura morta nos braços de Jaime Lannister não era mais sua irmã. Era Brienne de Tarth.

– Você pagará por isso. — Ouviu a voz da irmã ecoando pela floresta.

– Não! Não! — Jaime gritou enquanto agarrava o cadáver de Brienne.

– Ela morrerá. — A voz de Cersei continuou a ecoar.

Jaime acordou em um salto. Sua visão continuava turva, mas dessa vez conseguiu ver onde estava. Era um quarto pequeno que só havia uma cama e uma lareira acesa.

E então a dor em seu quadril voltou, e o Lannister se segurou para não gritar. Lentamente, abaixou sua cabeça e percebeu que estava enfaixado. E se lembrou: uma lança de um Outro havia perfurado sua barriga. Depois disso, de nada mais se lembrava. Como estou vivo?, se perguntou.

Se atirou na cama novamente, não suportando a dor que sentia quando se sentava. Virou a cabeça para o lado e, mesmo com a visão embaçada, conseguiu ver que a porta estava entreaberta. Do outro lado, reconheceu o bastardo de Ned Stark conversando com um homem que, ao julgar pelas suas vestes, deveria ser o Meistre da Patrulha da Noite.

– A lança perfurou seu fígado. — Sussurrou o Meistre. — O leite de papoula o deixa sem dor e dormindo. Mas não creio que conseguirei mantê-lo vivo por mais tempo.

– Então ele morrerá? É isso que está dizendo? — Perguntou Jon, sua voz tinha um tom preocupado. Jaime se permitiu dar um sorriso cansado ao perceber que o bastardo do honrável Ned Stark estava preocupado com a vida de uma criatura tão desprezível como o Regicida.

– Pode ser que dure uma quinzena com o leite de papoula. — Respondeu o Meistre. — Mas sim, Comandante, sua morte é certa.

Jaime queria continuar ouvindo a conversa, mas não conseguiu. Suas pálpebras foram se fechando lentamente e o leão voltou para o mundo dos sonhos.