Oasis
1 Prólogo
Notas iniciais
“A carne cobre os ossos
E colocam uma mente ali dentro
E algumas vezes uma alma
E as mulheres quebram vasos contra as paredes
E os homens bebem demais
E ninguém encontra o par ideal
Mas seguem na procura
Rastejando para dentro e para fora dos leitos
A carne cobre os ossos
E a carne busca muito mais do que mera carne
De fato, não há qualquer chance:
Estamos todos presos a um destino singular
Ninguém nunca encontra o par ideal
As lixeiras da cidade se completam
Os ferros-velhos se completam
Os hospícios se completam
As sepulturas se completam
Nada mais se completa”
Eu poderia ser aquele tipo de pessoa e acreditar nas merdas convenientes da sociedade, feitas para deixar a vida mais significante e suportável, mas eu não podia.
Eu seria mais feliz assim, óbvio, mas aí eu seria outra pessoa. Completamente diferente do que eu sou hoje. Então preferia muito mais acreditar em uma poesia dessas no estilo Bukowski.
Era fato. Passamos a vida inteira por nossa conta. Temos amigos, parentes, pais, filhos, etc... Mas aquela pessoa especial, que faz seu coração disparar, não existe.
Esse tipo de amor... Não consigo imaginar sendo real. Toda essa história é só mais uma merdinha convencional.
Tudo que é aceitável pra mim é simplesmente atração sexual. E isso eu tenho até demais. E por isso acabo sendo um completo pervertido. O problema para muitos é que eu não tenho a mínima vergonha disso. O que pode gerar alguns problemas.
E essa perversão se espelha muito em como sou e em como me vejo. Sou confiante. Até demais. Recebi o nome de Logan Weber ao nascer e tinha amor até a isso. Meus fios em um tom ruivo chamam atenção com as pontas tingidas de vermelho natal. Olhos negros. Alargadores.
Alto e gostoso.
O fato era que eu chamava atenção e por isso que sempre me dava bem com as meninas. Mas, apesar da minha personalidade, prezava muito a inteligência e os estudos.
E, por causa disso, da minha vontade de melhorar nos estudos e ter um preparo melhor para o Enem, que estava chegando, que resolvi mudar de escola para, pelo menos, fazer um terceiro ano melhor.
Foi um tanto difícil conseguir a vaga, mas não desisti. Estava simplesmente cansado da outra instituição. E era por isso que eu estava paradinho como um bom menino (que eu não era) na frente da porta de madeira número dois enquanto esperava o professor me chamar para que eu pudesse me apresentar para a classe.
Coisa muito estranha no Brasil, na boa.
O lugar era simplesmente muito do luxuoso e era tudo o que eu esperava de uma escola tão cara, onde os filhos dos caras mais ricos do Rio de Janeiro estudavam. Claro que eu também tinha uma condição financeira ótima, mas meus pais não vieram de uma família milionária. Como a maioria do pessoal que estava aqui.
Isso muitas vezes gerava certo preconceito na sociedade maluca que a gente vivia, mas meus pais eram tão bons e carismáticos que até mesmo os mais nojentos — e com a bufunfa no bolso — gostavam das suas presenças.
E o mais importante, fui criado de uma maneira bem simples. Por isso, nunca senti aquela necessidade sinistra de ostentar ou de viver no luxo. E essa era mais um fato sobre mim que eu adorava.
Mas a verdade era que toda minha personalidade ia muito além do que parecia.
Assim que cheguei ali, meu queixo foi ao chão e senti minha boca salivar. Tudo isso porque logo de cara percebi que ali só reuniam as meninas mais gostosas do Estado.
Quem iria se dar bem? Isso mesmo. Eu.
O único problema era que eu estava atrasado e precisava chegar rápido na sala, apesar de que tinha muita gente vagando pelos corredores como se a aula não tivesse perto de começar. Vi muitos olhares desejosos em minha direção e era óbvio que eu fazia questão de revidar.
Se estivesse com tempo, até pararia pra babar em cima dessas gostosuras brasileiras.
E então cheguei a sala que me foi destinada e estava até agora esperando. E como eu odiava esperar! Mais uns dois minutos e a porta foi aberta, mostrando um homem carrancudo, com cabelos um pouco grisalhos e um olhar de desprezo direcionado pra mim.
Fazer o que, não eram todos que gostavam do meu estilo, do meu jeito e da minha espontaneidade. Digamos assim.
— Pode entrar e se apresentar – Disse com a cara fechada. Apenas sorri e postei-me frente à turma – Esse é nosso aluno transferido.
Ouvi as meninas sussurrando coisas para suas amigas e sorri mais ainda. E foi justo aquele meu sorriso charmoso e irritante de galinha que apareceu.
— Logan, Logan Weber. O sobrenome é escrito com W, mas a pronúncia é feita com o V. Pelo amor de Deus – Dei uma risadinha – Espero que.... – Fui terminar de falar, mas apenas esqueci tudo que iria dizer quando vi algo tipo bem interessante.
Eu não era gay, mas era um garoto que tinha me chamado a atenção. Ele estava sentado na última carteira do lado da janela e, inicialmente, fitava o vidro como se fosse muito interessante.
Porém, assim que ele virou e me fitou, fiquei ainda mais doidinho. As palavras não vinham à mente e só soube sorrir que nem um retardado. Eram os olhos mais incomuns e maravilhosos, esses que ele tinha.
Nunca tinha visto algo igual. Isso despertava meu lado mais sacana.
Parece que eu tinha arrumado uma nova forma de me divertir.
Senti aquela vontade que eu sempre sentia quando algo parecia interessante. O cara parecia ser um antissocial do caralho e fácil de se irritar. O que era ruim pra ele porque eu tinha um interesse fora do normal em irritar as pessoas.
E, sério, aqueles olhos pareciam mais falsos!
O esquerdo era cinza, como se fosse um preto acinzentado, e o outro era um azul quase branco. E ainda tinha uma mecha branca que pegava uma parte da franja desarrumada, jogada de qualquer jeito sobre a testa. O cabelo preto era grande o suficiente para cobrir suas orelhas e era cortado de um jeito desleixado.
Não tinha ninguém sentado perto dele, até pareciam ignorar sua presença. O garoto arqueou a sobrancelha quando percebeu que eu o olhava com um sorrisinho malicioso e mexeu no cabelo de um jeito que eu pudesse ver que ele me mandava o dedo do meio descaradamente.
Fiquei ainda mais animado. Quase dava pulinhos no próprio lugar.
Meus passatempos eram a únicas coisas que me distraíam. Assim como o sexo, parece que eu tinha achado mais um.
— Algum problema? Eu preciso dar minha aula – Disse o professor.
— Não – Sorri cheio de intenções e voltei minha atenção para a turma – Então, sejam bonzinhos comigo.
— Senta ali – Apontou o homem mais velho em direção a uma carteira vazia.
Fui em direção ao lugar indicado e, logo que me sentei, senti alguém me cutucando de leve. Olhei para o lado e lá estava um loiro de olhos castanhos que me olhava bem carismático.
— Oi, cara. Sou o Art.
— E aí, brother?
— Já que você é aluno novo e ainda chegou no segundo dia de aula, posso te mostrar a parada toda.
— Ah, sério? Isso seria muito maneiro.
A aula transcorreu normalmente, ou seja, chata pra caralho. Eu estava com sono e ainda era só o início da semana. Assim que pude ouvir o sinal tocar, me levantei sem pensar duas vezes, seguindo o tal do Art.
Passamos primeiro na cantina e, assim que compramos algo pra comer, o loiro mostrou-me o lugar. No final, acabamos sentando em um banco, numa espécie de jardim que ficava fora do prédio onde estava as salas, mas ainda dentro do colégio. Conversamos bastante nesse meio tempo.
— Pô cara, achei que tu ia ser ‘mó idiota – Art disse enquanto terminava de comer seu sanduiche.
— Nossa, assim tu me magoa, 'môzinho – Fiz uma voz meio afeminada.
— Mas... De boa, tu não tem uma cara boa não – E riu.
— Ah, fala sério. Eu tenho uma cara linda. Além de ser bem gostosinho – Virei meu rosto pra ele e dei uma piscadinha.
— Aham, pode crer – Disse irônico – 'Mó convencido o maluco.
— E tu? Nem pode dar espaço que fala tudo que dá na telha – Falei de bom humor.
— Ops!
Rimos um pouco e ficamos batendo papo até que eu tive uma ideia.
— Cara, ‘tô curioso sobre uma coisa – Mudei de assunto completamente.
— Pode falar, ô gostosão! – Brincou.
— Quem é o diferentão lá da sala?
— Oi?
— O carinha que senta no fundo, de mecha branca no cabelo.
Estava curioso. Algum problema?
— Ah, vei. É o Grey. Grey Ivanovich. Bolsista. Antissocial. Geral não fala com ele, o bullying rola solto– Respondeu enquanto dava de ombros.
— Hm...
Coisa boa era que não se passava pela minha cabecinha.
Conversamos mais um pouco sobre alguns assuntos aleatórios. O loiro de farmácia era bem engraçado e me tirou umas boas risadas. Acabamos virando amigos. Porém logo o sinal tocou, fazendo com que voltássemos para a sala.
Aulas e mais aulas entediantes passaram bem lentamente e eu já estava cansado. Os primeiros dias de volta na escola eram sempre uma junção de puro nada, não tinha matéria nem assuntos interessantes.
Tudo aquilo me dava era uma puta preguiça. Porém pude ver todo mundo começar a arrumar a mochila e entendi que estava na hora que a tortura teria fim e eu poderia descansar. Não via a hora de me jogar na minha cama.
Isso que dá passar a noite jogando. Mas fazer o que... É o vício mais importante da vida. Porém, antes de ir pra casa, tinha algo que eu não poderia deixar de fazer.
Levantei-me da carteira, depois de arrumar meus materiais, e segui em direção a um moreno com cara de poucos amigos que também arrumava suas coisas no fundo da sala. Cheguei perto dele e o mesmo fez uma cara de desgosto que me tirou um sorriso sarcástico.
— E aí, cara? – Disse e apenas fui ignorado.
Tá aí uma coisa que eu certamente odiava! Ser ignorado!
— Eu falei contigo – Coloquei a mão no ombro dele, que logo foi tirada com um tapa.
Olhei meio cínico para ele, que passou reto por mim e foi embora. E eu nem conseguia ficar com raiva.
Coitado. O prego nem sabia que quanto mais arisco o gato, mais vontade eu tinha de ter pra mim.
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