Oasis
2 Não me ignore, gracinha!
Notas iniciais
Acordei já com um mal humor do inferno. A luz entrava pela janela e chegava até mim, incomodando meus olhos e não me deixando dormir mais. Até que em um ponto isso era bom, porque já estava atrasado e mais uns cinco minutos dormindo fariam com que eu perdesse a primeira aula da manhã.
Levantei contrariado e não demorei pra me arrumar e tomar o café da manhã. Só faltou minha mãe me chutar de casa por estar demorando demais, de acordo com ela. Acabei que decidi ir até a garagem, onde estava minha linda moto.
Uma maravilhosa Harley Davidson negra que eu amava de paixão.
A única coisa que eu amava mais que mulher era a minha moto. E era óbvio que eu nem podia dirigir, já que tinha dezessete anos. Mas quem ligava? Eu não estava matando, nem roubando. Não fazia mal pra ninguém dar umas voltinhas.
— Joaninha, meu amor, o papai chegou! – Disse para aquela coisa linda estacionada logo ao lado do carro do meu pai.
E fala sério. Eu nunca deixaria de falar com a Joana. Ela era melhor pra escutar meus problemas do que muita gente por aí.
Subi nela e acelerei nas ruas que estavam começando a se encher. Odiava o trânsito. Por sorte, ou melhor, por azar, cheguei a tempo na sala de aula e aquele mesmo professor do dia anterior, que não tinha ido com a minha cara, me olhou torto.
Apenas devolvi com um sorriso amarelo e fui me sentar do lado do meu mais novo brother loiro.
— Na primeira semana e já arruma marcação com os professores – Riu Art.
— Pelo menos eu não sou um loiro de farmácia.
— Muito engraçado. Adorei – Ironizou – Stand up comedy que te aguarda.
Iria responder. Juro que iria. Porém o professor estava lá. Chamando minha atenção. Bufei.
Tive algumas aulas e dessa vez fui obrigado a prestar atenção. Triste vida. Porém passou tão rápido que nem percebi. Até porque os assuntos eram bastante interessantes. A ansiedade que eu sentia era, na verdade, pura vontade de ir perturbar certo moreno.
Se fôssemos falar de reações impagáveis, as deles seriam as primeiras. Eu nem conseguia ignorar.
Era bem divertido ver sua irritação. Essa vontade era quase algo inconsciente.
— Ei seu viado, você não vai vir? – Perguntou Art quando o sinal do intervalo tocou e eu não fiz sinal de que iria me levantar.
— Ah, hoje não, lindo – Sorri pra ele e levei um soco no braço.
— Deixa de ser gay, Logan – Falou rindo e saiu dali em passos rápidos para não pegar fila no refeitório.
Olhei para o fundo da sala e vi minha fonte de diversão sentada e lendo um livro qualquer. Não havia mais ninguém na sala. Levantei-me e fui sentar na cadeira vazia na frente dele com um sorriso largo.
— Então, esse livro aí é maneiro? – Tentei puxar assunto e não tive respostas – Sabe... Eu até que gosto de ler. Que tal tu me fazer uma lista de livros bacanas?
Ele apenas me olhou, como se pedisse que eu saísse e o deixasse em paz. Coisa que eu não fiz, óbvio. O que eu fiz foi bem diferente. Sabia que iria irrita-lo e esse era o meu propósito. Estava doido para vê-lo com aquela carinha de ódio.
Talvez eu fosse um pouco sadomasoquista.
Apoiei meu braço na mesa dele e cheguei com meu rosto bem perto do seu pescoço, até podia sentir seu cheiro de morango que parecia ser do seu shampoo. Morango? Que cheiro mais infantil. Era ridículo ao mesmo tempo em que era gostoso e viciante.
— Sabe, as pessoas costumam gostar de respostas – Afirmei sussurrado, bem pertinho do ouvido dele.
Senti as suas mãos me empurrando e fiquei até ansioso para encarar sua expressão raivosa.
— Eu não gosto. Então só saia daqui. Estou tentando ler, caralho – Exclamou realmente irritado. Sorri satisfeito.
Porra, a voz do cara era tão suave que nem parecia que ele estava me xingando. Poderia até dizer que era bem bacaninha. Rouca e macia, daquele tipo que deve ser ótima de ouvir fazendo outros tipos de sons, uns gemidinhos devem levar a loucura.
Jeová. Que coisa mais homossexual.
— É que eu nem 'tô afim – Respondi fazendo bico, como se fosse uma criança mimada.
Sim, eu podia ser bem infantil quando queria alguma coisa.
— O que você quer? – Perguntou grosso – Porque apenas não me ignora? Me faria um grande favor.
— Olha, então o prego consegue falar um frase inteira – Falei fingindo não acreditar, como se fosse a novidade do ano.
Grey apenas abaixou o rosto para o livro, ignorando-me completamente novamente. Ah, mas você que não me ignore, gracinha!
— Mas, fala aí, porque não curte muito interagir com as pessoas? – Perguntei como quem não quer nada, mas nem se quer recebi um olhar da parte dele, o que me irritou definitivamente – Você é surdo, por acaso?
Foi com essa simples frase em um tom muito irônico que consegui fazer com que ele realmente olhasse pra mim. Acontece que alguma coisa nela deve tê-lo irritado pra caralho porque o moreno parecia estar a um passo de partir pra cima de mim na porrada.
Levantou-se e tentou sair dali, mas eu apenas fui mais rápido, segurando seu pulso com força. Grey era uns cinco centímetros menor que eu, mas era um pouco mais magro e com um pouco menos de músculo, porém não parecia ser forte.
O que eu descobri ser mentira mais tarde, quando com um só movimento, conseguiu se livrar de mim e sair daquela sala com passos rápidos e firmes. Porra, o que foi que trouxe essa reação sinistra?
Fiquei sentado por bastante tempo, o sinal bateu, todos voltaram e até a segunda aula depois do intervalo estava para começar e nada do menino voltar. Pra casa ele não tinha ido porque a mochila continuava ali.
Fiquei estressado e, como um bom idiota insistente que sou, me levantei e saí no meio da aula pra procurar aquela peste. Não que eu estivesse tão interessado nele assim, mas eu 'tava até que me sentindo meio culpado.
Após um tempo, o fato marcante era que eu estava perdendo a paciência. Procurei em todo o canto e nada do desgraçado, nadinha mesmo, nem fio de cabelo. Até que me lembrei de um lugar que Art havia me dito, que as pessoas iam quando queriam fazer certas coisas que não deviam ser feitas por ali.
Ou em qualquer lugar.
Era um banheiro que ficava meio abandonado atrás do galpão de artes. Só esperava não encontrar uma cena do estilo: “Estou comendo essa vadia, só vaza daqui!”
Isso seria nojento. Não consigo imaginar esse cara nesse tipo de situação. Andei até o lugar e olhei em todas as cabines. Nada. Tinha uma espécie de compartimento ali, que era para guardar os instrumentos de limpeza. Agora só sobrava procurar por ali.
Abri a porta devagar e levei um susto muito grande. Foi como se meu coração tivesse sido apertado por um segundinho. Nunca tinha passado por uma situação daquela.
Grey estava pelado e tinha uma menina morena de quatro, amordaçada para não fazer barulho enquanto eles faziam sexo e... Porra, era a minha mãe!
Não, não era isso. Eu tinha que descontrair. Se bem que seria até melhor se fosse isso. Na real, o moreno estava mesmo ali, mas parecia morto. Sentado no chão, melhor dizendo, jogado no chão com duas poças de sangue em volta dos braços que jaziam inertes ao lado do seu corpo.
Assustei mesmo, principalmente com a possibilidade de aquilo ser obra dele. Caralho, o cara tentou se matar? Porque havia dois cortes um pouco fundos em seus dois pulsos, algo que percebi quando rasguei minha camisa e usei o pano pra tentar estancar a área que sangrava.
Agradecia todas as séries e filmes de médico que havia assistido até hoje. Obrigado House, Grey’s Anatomy e o caralho a quatro.
Teria que dar um jeito de leva-lo ao hospital correndo. Até porque se fosse esperar a ambulância, seria mais fácil ligar para funerária e comprar um caixão porque a ajuda só chegaria quando ele tivesse batido as botas.
Peguei-o no colo como uma princesa e não pude deixar de pensar que pagaria pra ver a expressão que o moreno faria se soubesse disso. Saí apressado do lugar.
— Se for agora, tu pode ser cabeça dura até enjoar – Falei para o menino desacordado nos meus braços enquanto apertava seu corpo contra meu peito e saía correndo pelo pátio vazio da escola em direção a minha moto.
Fale com o autor