Oasis
29 Meu amigo não vai pra cadeia
Notas iniciais
Caralho. Eu estava chocado.
Continuei parado naquele corredor branco com um cheiro estranho que tinha ficado grudado na minha mente. Acho que eu só não podia acreditar no que tinha ouvido. Porra. Como eu tinha sido enganado daquele jeito?
Comecei a me sentir estranho. Todos os sentimentos ruins começaram a voltar e fiquei alguns segundos sem conseguir respirar normalmente até sentir que iria desmaiar. Estava tonto pra porra.
Coloquei a mão esquerda no ombro do meu pai que estava ao meu lado e tinha uma expressão surpresa no rosto. De repente, tudo ficou escuro e senti que estava caindo, mas não consegui perceber se tinha ido de cara ao chão ou não.
Acho que alguém tinha me segurado. Porém não tinha certeza.
ॐ
O corpo grande do ruivo estava no caminho para cair ao chão. Porém seu pai, assustado com o desmaio do filho, se moveu rapidamente para não deixar que sua cabeça batesse diretamente contra o chão do corredor.
Carolina, que antes apenas sentia ódio pela mentira recém-descoberta, agora estava preocupada e espantada com a reação do filho. Não pensou duas vezes antes de procurar por um médico.
Depois de examinar do corpo quase inerte de Logan, o médico não via causa aparente para o desmaio. Poderia ser apenas choque pela notícia. Porém era mais do que isso.
Quando os olhos negros se abriram, estavam ligeiramente diferentes. Logan conversou com os pais e agiu como se nada tivesse acontecido. Não demonstrou nem mesmo ódio ou qualquer sentimento quando teve mais notícias da situação de Alice.
Por ter que ficar em observação por mais algumas horas, logo sua melhor amiga ficou sabendo do ocorrido e apareceu naquele quarto de hospital, preocupada.
– Eu não acredito – Iris se jogou em cima dele, visivelmente irritada – Sempre odiei aquela puta loira, mas nem imaginei que ela estava sendo tão filha da puta.
E o ruivo não disse nada. Nem mesmo rejeitou a morena, mesmo depois de ter ficado tão chateado com ela na manhã daquele mesmo dia. Deixou que continuasse a falar e a xingar enquanto apenas pensava e encarava o teto do quarto.
Logan nem ao mesmo havia se dado conta que aquela que lhe conhecia tanto havia percebido sua mudança de comportamento.
Seus pais apareceram mais tarde para dizer que poderiam ir para casa. O jovem apenas assentiu com a cabeça e, antes de ir embora, conseguiu se infiltrar em uma das salas de equipamento para roubar algo que precisava.
No entanto, não se permitiu sair da instalação antes de saber quando Alice sairia dali e que iria busca-la e leva-la pra casa naquele dia. A data da alta não seria muito longe, pois a loira havia apenas quebrado uma perna e luxado o punho, além de arranhões e cortes superficiais.
Os próximos dias se passaram em uma atmosfera no mínimo estranha. A maioria dos amigos do ruivo percebera que o mesmo estava normal demais com a situação ou, ao menos, insensível demais.
Algo estava definitivamente errado. Era o que Iris estava pensando antes de decidir seguir o melhor amigo no dia que ele iria buscar Alice no hospital. Ela havia arrastado Art e, incrivelmente, Grey junto para aquela espionagem.
Sendo que esse último ainda estava com uma raiva fora do normal pelo ruivo e torcia para que ele fodesse, apesar de se sentir incomodado com a situação em que aquele que tanto lhe perseguia estava.
Pelo menos, foi isso que a única menina do grupo havia deduzido.
Viram quando ele saiu do hospital, empurrando a cadeira de rodas que o hospital havia emprestado para que a paciente fosse conduzida com mais facilidade até o carro. Ela sorria demais, o que era estranho.
Não devia ter em mente que o ruivo já sabia da sua mentira.
O mais estranho era o jeito que Logan agia, como se estivesse preocupado e consternado com o que tinha acontecido a ela. Ele a levou até sua casa, o que deixou uma sensação estranha na boca do estômago de Alice, que acha que iria para casa.
Quando entrou na residência, que estava vazia naquela hora do dia, ele a carregou como uma princesa para o seu quarto, deixando-a extremamente feliz. O cara que ela achava que amava estava tratando-a bem pela primeira vez.
Iris e ambos os jovens que estavam junto a ela também entraram na casa, subindo as escadas para colarem o ouvido a porta quando a mesma fora fechada. Queriam saber de tudo, pois aquilo estava muito anormal.
Logan, após fechar a porta, colocou o corpo delgado da mulher na cama e subiu por cima dela, sorrindo. Tateou o bolso de trás discretamente para ter certeza que o que ele precisava estava ali.
– Mas e aí? Como ‘tá o nosso filho? – Perguntou, ainda com o sorriso estampado na cara.
A loira sorriu de volta, incrivelmente feliz.
– Ele ‘tá bem. O médico disse que o acidente não interferiu em nada na saúde dele – Respondeu enquanto alisava a barriga.
Os olhos de Logan mudaram completamente. Tornaram-se duros, sérios e até mesmo sádicos. Sua expressão fácil também havia se distorcido e combinava com o que era mostrando em seus olhos negros.
As pessoas no corredor não acreditavam no que ouviam. O que estava acontecendo ali?
– Tem certeza? – Ele indagou enquanto levava sua mão esquerda para apertar, com o máximo de força que tinha, o pulso machucado da mulher.
– A-Ai. Isso dói, Logan – Ela choramingou.
– Tem certeza? – Repetiu a pergunta.
– Sim! O bebê ‘tá bem. Agora me solta – Gaguejou e pediu, mas apenas recebeu um aperto mais forte.
Tentou se livrar daquilo, mas não conseguiu. Os que estavam do lado de fora já não conseguiam ouvir mais nada, pois os que estavam dentro do quarto falavam em um tom muito baixo.
– Estou feliz que esteja tudo bem – E apertou mais ainda, ostentando uma expressão que não condizia com o que estava dizendo.
Era algo no mínimo assustador.
– O que tu ‘tá fazendo? Me solta – Ela implorou, começando a ficar um pouco desesperada pela situação.
Logan alcançou o bolso e tirou de lá um objeto afiado. Os olhos dela se arregalaram o máximo que poderiam. Agora sim ela se sentia em um extremo pânico. Era um bisturi e Logan o erguia enquanto segurava suas duas mãos em cima de sua cabeça.
– Eu fico mesmo feliz que o bebê esteja bem. Agora eu posso ter a honra de fazer o parto – Ele sorria, sorria muito e, quanto mais ela entrava em um estado de choro, o sorriso aumentava.
– Tudo bem! – Ela gritou – Eu estava mentindo! Não tem porra de bebê nenhum! Agora, por favor, me deixa ir – Terminou implorando.
– Como assim? – Perguntou cínico e direcionou o instrumento de cirurgia para a região onde ficava o útero da loira – É claro que tem um bebê aqui. Não é, filho? ‘Tá na hora de ver o papai.
E começou a rir enquanto pressionava de leve o bisturi contra a barriga lisa e sem nenhum volume de Alice, que chorava de soluçar e tentava sair daquela situação.
Quando ela começou a gritar por ajuda e Logan quase tirava um filete fino de sangue dela, Iris e Art decidiram arrombar o quarto. Grey apenas ficou encostado no corredor em frente a porta, sem expressão como sempre, mas parecendo pensar em algo.
– Logan! – Alice gritou quando viu o que estava acontecendo.
– Acho que tem alguém falando comigo, não é bebê? – Passou o dedo pela pele embaixo do umbigo da menina que estava em baixo de si, derramando-se em seu próprio medo.
Art chegou perto, mas parou quando o bisturi foi arremessado em sua direção, quase cortando seu rosto. O objeto foi parar na parede do outro lado, fincado na parede.
– Porra! – Ele gritou, colocando a mão no coração que batia desenfreado – Você quase me acertou, seu filho da puta!
Logan nem ao menos os olhava, continuava encarando Alice e sorrindo.
– Art – Iris chamou. Estava parada ao seu lado direito.
– Caralho, Iris. Que ‘tá acontecendo nessa porra? – Estava transtornado.
– Ahn... – Ela pensou um pouco antes de começar – Só vamos dizer que o Logan tem esse probleminha com personalidades...
– Probleminha? – Gritou.
– Só me ajuda! – Esbravejou em resposta – Pega a Alice que eu e o Grey vamos dar um jeito nele. Por mais que eu não ia me importar de ver ela morta, meu melhor amigo não pode ir pra cadeia. Mesmo que estejamos no Brasil, o pai dela é policial!
Art empurrou o ruivo da cama de supetão, pegando Alice no colo e correndo quarto a fora. A expressão enraivecida de Logan não era nem de perto uma das melhores. Ele se levantou, andando em direção a porta.
– Grey, por favor – Iris pediu e o moreno entendeu o que ela queria.
Antes que o ruivo pudesse dizer qualquer coisa, o jovem de olhos coloridos chegou perto dele e se preparou para dar um golpe e nocautear o outro.
– Na traqueia não! – A morena disse em um tom alto de mais.
O moreno fechou a mão rapidamente, antes que o outro tivesse qualquer reação, e deu um soco certeiro no queixo do maior, apagando-o instantaneamente. Grey pegou o corpo pesado antes que caísse no chão e jogou-o na cama.
– É ‘pra essas porras que eu sou arrastado – Passou a mão nos fios negros – Que merda foi essa?
– É melhor perguntar pra ele quando acordar – Suspirou e sentou-se na cama do amigo, passando uma mão pelo seu rosto para tirar os fios laranja de seus olhos.
– Foi uma pergunta retórica, só pra você saber.
– Você é mesmo um cuzão, ehm – Resmungou.
ॐ
Quando acordei, sentia uma puta dor de cabeça e uma dor muito forte no queixo. Lembrei que tinha desmaiado no hospital e agora estranhava estar em meu quarto. Procurei pelo meu celular para ver as horas, mas ele não estava aonde eu sempre deixava.
Estiquei a mão, com medo da resposta, alcancei a cômoda que tinha ao lado da cama. E lá estava ele, meu celular. Dentro da gaveta. Merda.
Aquilo tinha acontecido de novo.
Sentia até medo de saber o que eu tinha feito e senti ainda mais quando vi que tinham se passado dias e eu não me lembrava de porra nenhuma.
Levantei da cama e percebi que até a roupa que eu estava usando era diferente das que eu costumava usar. Parecia que eu estava indo para um velório com aquelas peças de pano totalmente pretas e, sinceramente, nesse momento eu gostaria que fosse o meu velório.
Abri a porta e ouvi conversas alteradas vindo do andar de baixo. Desci as escadas, até com medo do que veria e escutaria. Quando estava no andar de baixo, vi todo mundo na sala.
E, quando eu digo todo mundo, eu digo meu pai, minha mãe, Art, Iris, Eric, Caio e, sim, Grey estava ali. Não estava nem acreditando. Só podia ter feito uma merda muito grande dessa vez.
Foi muito desconfortável o olhar que o prego me mandava. Era uma mistura de coisas estranhas que eu não conseguia identificar. Mas logo ele virou o rosto e voltou a se concentrar na conversa que todos estavam tendo.
Tossi um pouco alto para chamar a atenção. Todos olharam pra mim de um jeito horrível, meio que com pena e indignação.
– Ahn... Oi? – Disse incerto, sem realmente saber o que falar – A gente ‘tá indo ‘pra um enterro? Pra vocês estarem com essa cara – Cocei minha nuca e sorri, tentando amenizar um pouco o clima.
Minha mãe me olhou com raiva e engoli em seco.
– Você, Logan, vai voltar ‘pra terapia! – Ela mandou. Na. Frente. De. Todo. Mundo.
Escondi meu rosto nas mãos.
– O que?! Não!
– Cara, eu não sei o que ‘tá rolando, mas o que aconteceu foi meio sério – Art interrompeu minha mãe antes que ela começasse com um discurso.
E lá estava eu, passando por aquela situação mais uma vez.
Quando que isso iria ter um fim?
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