Oasis
31 Eu preciso fazer isso agora
Notas iniciais
— Mia – Ouvi ele dizer em um tom repreensivo – O que o papai te disse hoje antes de sair?
E lá estava. Meu queixo no chão e meu cérebro escorrendo pelas minhas orelhas. Que merda de situação era essa?
— Pra não sair de casa? – Olhou pra o russo com uma expressão chorosa enquanto usava aquela vozinha de criança, embolando as letras e trocando os sons.
— E o que você fez? – Perguntou enquanto ajeitava a garotinha no seu colo.
Eu só estava lá, tão surpreso que se alguém passasse na minha frente falando que queria me dar eu nem ia dar atenção. Essa era a gravidade da situação.
— Mas, papai, quando acordei não tinha ninguém e a porta ‘tava aberta – Choramingou, comendo algumas letras e falando com uma voz manhosa.
— Você sabe que não pode sair sozinha. Ainda mais de noite...
— Mas a Mia ‘tava com saudade do papai – Interrompeu o “pai” e colocou as mãos pequenas e gordinhas no rosto dele enquanto fazia um bico.
Assistindo aquilo, eu quase derreti. Costumava ser um pouco indiferente com a fofura das crianças, mas aquela menina era algo fora do normal.
Com certeza fora do normal, já que Grey imediatamente ficou caladinho e abraçou o corpinho pequeno quando percebeu que ela ia chorar. Essa era uma cena que eu não esperava ver nem depois de morto.
E também foi a cena que me deu a deixa para apenas puxar seu corpo em direção ao carro.
— O que ‘tá fazendo? – Tentou se soltar, mas estava difícil de o fazer sem machucar a criança no seu colo.
— ‘Tava tão chapado que esqueceu que íamos pra casa?
Entrei no carro e empurrei seu corpo pra dentro. O russo não falou mais nada, principalmente quando percebeu o olhar confuso e indagador da minha mãe, que não entendia porra nenhuma daquela situação.
Nem eu, mãe. Nem eu.
Eu estava era confuso para caralho. Não entendia como ele, logo Grey Ivanovich, podia ter uma filha. Sem falar que ele havia dito que era virgem quando brincamos de eu nunca e que o moreno sempre tinha deixado claro que era gay.
E, depois disso, as coisas ficaram meio constrangedoras, num silêncio sufocante. Só saí dos meus pensamentos sobre como eles podiam ser pai e filha quando ouvi a vozinha fofa que aquela criança tinha soar pelo carro.
— Pai, quem é esse moço? – Perguntou enquanto se virava no colo de Grey para me encarar.
Pude ver pelo espelho que minha mãe arqueava a sobrancelha, sem entender aquela história toda. Enquanto isso, meu pai não prestava atenção em nada a não ser na estrada.
— Logan – Respondeu meio grosso.
Virou o rosto para a janela e abraçou o corpinho da moreninha que ainda continuava me olhando com aqueles olhinhos coloridos. Era super estranho ver logo aquele russo agindo todo carinhoso — ou tentando.
Era tipo fora do personagem. Me assustava.
Sendo como fosse, decidi empurrar Iris — para que se aconchegasse mais na janela ao invés de se apoiar em mim — e procurar algum doce sequer dentro daquele carro. Achei um pirulito por ali e mostrei para a Mia.
A menina me olhou com os olhos brilhantes. Soltei o doce na mãozinha pequena e logo ela estava pulando para o meu colo e se aconchegando com as costas no meu peito.
Mais esperta que o pai, ela era.
Olhei vitorioso para Grey, que me respondeu com uma careta feia de descontentamento e raiva. Logo o russo voltava a olhar pela janela e eu voltava minha atenção para a garotinha em cima de mim.
— Oi, princesinha – Sussurrei e ela olhou pra mim, rindo.
Me entregou o pirulito e entendi que ela queria que eu abrisse. Foi o que fiz. Quando ele estava sem a embalagem, ela tratou de colocar na boca e babá-lo todo. Nem queria admitir que era uma cena fofa.
Sinceramente, talvez, mas só talvez, eu gostasse bastante de crianças. Mesmo que elas me lembrassem um pouco algumas coisas.
— Oi, amigo do papai – Disse embolado pelo doce que ela chupava.
Quase ri pela parte do amigo.
— Quantos aninhos você tem?
Ela abriu a mão e ficou contando os dedos até me mostrar quatro deles. Sorri pra ela que me sorriu de volta e tirou o pirulito da boca.
— Quatro! E você?
— Muitos – Ri.
— Mais do que isso?
Colocou o pirulito de volta na boca e abriu as duas mãos.
— Bem mais.
— Você é velho – Zombou e ficou rindo sozinha.
— Ah, é? – Disse com humor e comecei a fazer cócegas nela.
Mia ria escandalosamente e se contorcia enquanto tentava fugir de mim e ir para o colo do pai, que me mandava uns olhares sinistros. Em resposta, sorri para ele e foi aí que o carro parou na porta de casa.
Saímos do carro. Eu com Mia no colo e minha mãe com Iris ‘mó chapada apoiada em si. Caio parou o carro na nossa garagem e, quando nos viu, fez uma cara de interrogação. Apenas sorri pra ele, que deu de ombros.
— Dá pra largar ela? – Escutei Grey falando atrás de mim antes de entrarmos.
— Relaxa a bunda aí.
— Não... – Ficou vermelho e respirou fundo – Não fala essas coisas na frente dela.
Tentei olhar para Mia, que já estava com a cabeça apoiada no meu ombro há um tempo.
— Ela já ‘tá no sétimo sono, prego.
— A gente precisa ir embora. Só...
— Não – Mamãe interrompeu – Já ‘tá tarde e fica perigoso demais. Todo mundo dorme aqui. Festa do pijama! – Quase gritou.
Olha o que o álcool faz com nossos pais.
E saiu empurrando Grey para dentro de casa juntamente com Iris. Essa que parecia mais sóbria em um momento desses. Entrei ali dentro e todo mundo começou a conversar, o que acordou a garotinha que começou a coçar os olhinhos.
— Papai? – Chamou.
Todo mundo se calou na hora, olhando sem entender para mim e para a menininha.
— Oi – O russo se manifestou pela primeira vez desde que pisou ali dentro.
— A gente vai ‘mimir aqui?
— Não... – Tentou negar.
— Você quer dormir aqui, princesinha? – Indaguei.
— Quero, quero – Começou a dar pulinhos no meu colo.
— A gente não pode, Mia – Tentou mais uma vez.
Ele nunca desistia.
— Claro que pode. Não liga ‘pro rabugento.
— Ah! – Gritou ela – Papai não é rabugento.
E fez um biquinho.
— Não? Ele é lindo, então – Ri e percebi, pelo canto do olho, que Grey desviava o olhar.
— É. E a Mia vai casar com ele.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, vi um furacão chamado Iris correr em nossa direção e tentar puxar a criança do meu colo. Todo mundo vigiando aquela cena cômica. Só faltava o Art ali, que não tinha vindo pela briga que havia tido com a morena.
— Oi, coisa linda. Vem cá no colo da titia? – Ela sorriu meio embriagada.
— Não!
E agarrou-se no meu pescoço.
— Mia, não seja mal educada – Ralhou Grey.
— Mas, papai, eu quero ficar aqui – E deitou a cabeça no meu ombro.
— Ai meu Deus – Gritou Iris – Pera. Fiquem quietinhos que eu vou tirar uma foto.
— Iris, acho que já ‘tá na hora de dormir – Ri da reação dela.
— ‘Tá bom – Suspirou – Boa noite.
E foi em direção a sala. Mamãe subiu as escadas junto com meu pai para pegar alguns colchões para aquela galera toda. Grey sentou em uma cadeira na cozinha e eu fiquei sentado na escada, brincando com Mia que sorria pra mim.
Quando meus pais voltaram, arrumaram os colchões na sala. Iris deitou no meio de Caio e Eric, esses que nem ligaram pela intromissão e se abraçaram com ela no meio. Foi uma cena hilária e fofa.
Se eu fosse ser sincero, foi algo que aqueceu meu peito. Era estranho me sentir verdadeiramente em casa depois de muito tempo. Eu tinha perdido muita coisa — até minha sanidade, se fosse parar pra pensar —, mas parecia que eu tinha ganhado uma família de verdade.
— Vamos dormir lá em cima – Disse para Grey e para Mia.
Subi as escadas só com a criança, já que minha mãe agarrou Grey para que eles fizessem algo para que a moreninha e ele mesmo comessem. Deitei-me com ela na minha cama e fiquei encarando o teto, pensando.
— Oi – Chamou, prolongando a última letra, enquanto balançava a mão rechonchudinha em frente ao meu rosto.
— Que foi, lindinha? – Sentei-me, me apoiando na cabeceira da cama com ela no meu colo.
— Eu e o pai podemos dormir aqui?
— Aqui aonde?
— Na sua cama! – Disse um tom mais alto em uma voz feliz.
Ri da sua animação, achando muito fofo.
— Não acho que ele vai querer – Passei a mão em seus cabelinhos negros – Mas... Ele é mesmo seu papai, princesa?
Aquilo estava me deixando louco. Queria muito uma explicação, no final de tudo.
— Hm – Fez uma expressão pensativa – Sim e não.
Quê? Não entendi.
— Como assim, amorzinho?
— Ele é meu irmãozão. Mas aí a... – Pareceu pensar novamente – Mamãe – Disse em um tom estranho e triste – Nunca ligou pra Mia. Então o papai cuidou de mim e ele é meu papai. Se falar que não é, a Mia vai ficar com raiva – Inflou as bochechas.
Dei uma risadinha e, sem querer, me senti um pouco aliviado. Quer dizer que ela não era realmente filha dele. Então ele realmente nunca tinha feito sexo com ninguém. E, mais estranho ainda, Grey tinha cuidado dela todo esse tempo.
Que tipo de pessoas seriam os pais deles?
Era estranho conhecer, mesmo que indiretamente, esse novo Ivanovich.
Era estranho que eu me sentia, de certa forma, aliviado.
Era estranho que eu me sentia cada vez mais curioso com toda essa história.
Abracei Mia e ela cochilou no meu peito enquanto esperávamos o moreno voltar. Acabei cochilando também e, em certo momento, fui acordado pelo russo tentando acordar a pequena.
Acordei-a suavemente, sentando-me na cama e vendo o prego entregar para Mia um pão com nutella e um copo de leite. Sabe-se lá porque ele demorou tanto para fazer só isso. A criança ficou toda animada, dizendo que era gostoso e que nunca tinha comido aquilo.
Levantei e fui lavar o rosto no banheiro, sentindo um pouco de dor de cabeça pela bebida que tinha tomado na festa. Escovei os dentes e voltei para o quarto de cueca mesmo, procurando um short pra vestir no guarda-roupa.
— Não fica pelado na frente dela – Ouvi-o resmungar.
— Não ‘tô pelado – Devolvi enquanto me vestia.
Joguei uma bermuda pra ele e uma blusa e me joguei na cama. Grey se levantou, levando Mia junto. Depois de um tempo, eles estavam de volta. O russo já estava vestido com minha roupa, que servia perfeitamente.
Vê-lo com coisas minhas era meio estranho.
Os dois deitaram em um colchão que estava estendido no chão e a menina enroscou-se completamente no irmão. Era algo bem fofo. Não que eu quisesse admitir, mas era. E foi quando estava quase dormindo que eu ouvi.
— Papaizinho? – Sussurrou baixinho.
— Oi, meu amor.
Arregalei os olhos. Quem é você e o que fez com o Grey Ivanovich? Meu amor? Sério?
— Você ‘ tá feliz, né? É por causa dele?
Meu estômago gelou e meus olhos continuaram arregalados.
— Não ‘tô feliz – Resmungou – Papai ‘tá normal.
— Não – Prolongou a última letra – Papai é um mentiroso.
E riu. E eu tive que me segurar pra não rir também.
E aquilo tinha me afetado. De alguma forma.
E, sem querer, acabei denunciando que estava acordado com uma risadinha. Tapei minha boca, mas Mia percebeu e veio deitar-se comigo, encostando a sua cabeleira negra no meu peito.
— Você vai ser a minha mamãe?
Eu fiquei sem reação por um tempo. Sem entender aquela pergunta. Depois comecei a rir baixinho. Como assim eu seria a mãe?
— O que você ‘tá falando, Mia? – Xingou Grey.
— Aí fica tudo bem, papai. Se eu tiver uma mamãe, o papai não precisa ficar tão cansado! – Apontou.
O russo não falou nada. Apenas percebi, pelo canto de olho, que ele tinha se virado para o lado contrário ao nosso. Isso tinha me deixado intrigado e um pouco balançado. ‘Tá. Tinha mexido comigo para caralho.
Eu sentia necessidade de contar. Eu não queria lembrar de nada, mas era aquele momento e tudo aquilo que eu nunca tinha sentido de novo e eu... Precisava, pela primeira vez, falar e desabafar. E isso, com certeza, me assustava de uma forma louca.
— Tá bom, lindinha – Sorri para ela – Agora vai dormir.
— Tá bom, mamãe – E me deu um beijinho na ponta do nariz.
Seria estranho dizer que me segurei para não chorar? Aquilo foi tão estranho. Eu não sabia o que fazer. Soube menos ainda quando ela deitou a cabeça no meu peito de novo e apenas dormiu depois de alguns segundos.
Fiquei pensando por um bom tempo. Completamente incomodado com tudo aquilo. E não era de um jeito ruim. Não tão ruim. Um monte de lembranças vinha na minha mente e eu não sabia como lidar com aquilo.
Decidi que tinha chegado a hora.
Mesmo que ele me odiasse, mesmo que ele não ligasse para mim, mesmo que não tivéssemos nada e mesmo que eu tivesse apenas dificultado nosso “relacionamento” com toda aquela tensão sexual, eu sentia que, se tivesse alguém no mundo que pudesse, realmente, me entender, esse alguém...
Seria ele.
— Ei, tu ‘tá acordado? – Perguntei com minha voz trêmula.
— Infelizmente – Respondeu e sua voz também não estava normal.
— Hoje eu ouvi algo sobre você – Disse e respirei fundo – E eu te disse, né? Se eu soubesse algo sobre você, eu te contaria uma coisa minha.
— Hm... – Resmungou.
— Eu preciso fazer isso agora.
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