Oasis
37 Déjà-vu
Notas iniciais
Eu corria, corria e corria. Do meu rosto pingava gotas de suor que escorriam livremente pelas minhas bochechas. Esticava meu braço o máximo possível para tentar alcançar aquele corpo esguio. Sempre fugindo de mim. Nunca conseguia alcançar.
Até que eu o visse desaparecer no horizonte. Tudo começava a escurecer e eu me sentia sozinho, perdido. Meu coração apertava, ficava difícil respirar. Levava minha mão à boca e mordia a pele para tentar controlar a angústia.
De repente, comecei a ouvir alguém conversando. Olhei para todos os lados, mas não via ninguém. A voz foi se tornando mais alta, o que me acordou daquele pesadelo. Abri os olhos lentamente e acabei descobrindo que um dos motivos da falta de ar era Mia sentada em cima de mim.
Esfreguei os olhos, bocejei e sorri para aquela criança fofa que me olhava com uma animação gigantesca. O cabelo dela estava preso em um rabo de cavalo curtinho, pois seus fios não eram tão longos. Apertei aquelas bochechas gordinhas apenas para ver a expressão irritadinha dela.
— Tu é preguiçoso – Mia disse dando uma risadinha.
Olhei para os lados, percebendo Grey deitado de bruços ainda dormindo. Suas sobrancelhas estavam franzidas, como se estivesse tendo um pesadelo. Parando para pensar, caraca, ele estava bem pálido.
Estiquei meu braço para tocar seu rosto. O prego estava um pouco quente. Fiquei um pouco assustado com a possibilidade de ele estar doente. Levantei da cama com a menininha no colo e desci as escadas quase correndo.
— Mãe! – Gritei meio desesperado.
— Na cozinha – Ela me respondeu.
Fui em direção da cozinha e, quando cheguei ao cômodo, só estava a minha mãe cozinhando o almoço. Nada de Caio e Eric por ali. Cheguei perto da dona Carolina e dei um beijo na sua cabeça.
— Eu acho que o Grey está com febre.
Ela me olhou com uma expressão sugestiva, que não entendi muito bem o motivo. Depois começou a andar de um lado para o outro, tirando um termômetro, remédios e só Deus sabe mais o que mais de sinistro.
— O papai ‘tá bem? – Mia perguntou enquanto se agarrava no meu pescoço.
— Sim, é só uma parada que deixou ele um pouco doente, Mia.
Logo minha mãe apareceu do meu lado, me deu uma boa encarada e começou a rir. Fiquei bolado. Ela só encostou a mão no meu ombro e foi saindo dali em direção ao quarto. Fui atrás dela com Mia no meu encalço, já que ela tinha pedido pra descer do colo.
No meio do corredor, não aguentei.
— Por que você ‘tá rindo da minha cara?
— Nada, nada – E continuou rindo.
Fiquei irritado.
— Não fica de caô comigo – Fiz uma cara de cachorro abandonado.
Mas ela me ignorou e entrou no quarto. Fiz o mesmo e pude ver o prego deitado do mesmo jeito de quando saí. Ela colocou tudo que trazia em um dos móveis que ficava por ali e tentou acordar o prego. Até que se virou pra mim com uma expressão nada boa.
— Por que tu e ele estavam dormindo aqui nessa imundice?
Engoli em seco e sorri amarelo, o que não foi uma boa disfarçada.
— Ahn... Motivo nenhum – Comecei a dizer enquanto coçava a parte de trás da cabeça em um ato de nervosismo.
— Logan Weber, vamos dar um papo mais tarde – Me olhou com uma expressão perigosa e eu dei uma risadinha nervosa.
— Já é.
Ela, então, tirou os olhos de mim e voltou a atenção para o moreno, checando a sua temperatura. Dona Carolina chamou por ele algumas vezes e Mia já estava deitada ao lado dele na cama.
O prego só acordou depois de algumas chacoalhadas. Se sentou na cama meio desorientado e olhou ao redor, ainda com as sobrancelhas franzidas.
— Vai ficar com rugas se continuar assim – Ri enquanto me aproximava.
— Vai se foder – Resmungou, mesmo que sua expressão demonstrasse dor – Puta que pariu, não dá pra ficar sentado – E me encarou com ódio.
Sorri amarelo e levantei as mãos em sinal de rendição antes de me sentar na ponta da cama.
— Grey, tu ‘tá um pouquinho quente – E deu o termômetro para que ele medisse a sua temperatura.
Ele colocou o aparelho debaixo de braço e continuou me encarando. E eu podia garantir que não era de um jeito bom. O prego estava super puto comigo. Só relaxou um pouco quando Mia veio pra cima dele e deitou a cabeça na sua barriga.
Quando o termômetro começou a apitar, minha mãe pegou e fez uma expressão estranha.
— 38°C. Parece que alguém vai ter que ficar de cama hoje.
— Não só por isso – Resmungou irritado e me chutou, logo depois enrugando a cara de dor.
Dona Carolina me encarou com uma cara nada boa e pegou um comprimido e deu para o moreno junto com um copo de água. Ela já ia se virar para sair do quarto, mas eu chamei seu nome, meio receoso.
— Mãe...
— Olha só, não me vem com essa voz – Apontou o dedo na minha cara – O que eu te disse sobre esse tipo de coisa?
E eu sabia do que ela estava falando. Era a regra de não transar com ninguém em casa, a não ser que estivesse sozinho e, claro, usar camisinha. ‘Mermão, ela que não sabia o quanto essa regra tinha sido quebrada e que, pelo amor, ficasse sem saber.
— Ahn... Foi mal? – Fiz uma carinha culpada para amansar a fera. Suspirou, me lançou um olhar cansado e já ia saindo do quarto novamente – Espera! Olha só, eu disse ‘pro Grey que ele e a Mia podiam ficar aqui por um tempo... Enquanto ele não arruma um emprego pra pagar o aluguel.
Ela me olhou meio surpresa e suspirou audivelmente de novo. Balançou a cabeça de um lado para o outro, como se não acreditasse nas ‘parada que eu aprontava. Depois de um tempo de silêncio, olhou pra mim e fez um sinal positivo com os dedos da mão direita.
— Você disse que não ia ter problema em ficarmos aqui, porra – O moreno reclamou depois que ela tinha saído do quarto.
— E, por acaso, ela disse não, prego? – Me joguei em cima da cama, agarrando Mia e enchendo sua barriga de cócegas.
— Será que dá pra vocês dois ficarem quietos um pouco? – Reclamou.
— Você ‘tá dodói, pai?
— Pode se dizer que sim – Resmungou, apontando pra mim em seguida – É culpa desse maldito.
— Tu tá com essa parada de febre porque ficou na chuva, maluco.
— Não fala comigo – Me ignorou – Fica quieto.
— Ah, para. Me dá um beijinho aqui, vai – E me estiquei todo para dar um selinho na sua boca, mas ele virou o rosto.
— Nunca mais encosta em mim. Eu ‘tô todo dolorido, porra.
Ri daquela reação, mas, obviamente, eu não iria parar de encostar naquele pedaço de mau caminho. Não adiantava mais ele me mandar ralar peito que eu já estava apaixonadão naquele prego.
O resto do dia passou muito rápido. Acabamos colocando dois colchões na sala e passamos o dia assistindo Netflix. Na parte de desenho, óbvio, uma vez que Mia insistia em ver “A Origem dos Guardiões” pelo menos umas cinco vezes por dia. E, olha só, tinha sido avisado que aquele era o filme favorito da criança.
Entretanto, como é conhecimento geral, tudo que é bom dura pouco e logo tivemos que voltar a nossa rotina de estudante, que, sinceramente, tinha sido deixada um pouco de lado nos últimos tempos. Eu realmente não estava estudando nada para tentar o vestibular da UFRJ.
Ao contrário de mim, Grey era muito mais maduro e dedicado. Mesmo morando na minha casa, eu quase não o via. De manhã, deixávamos Mia em um UMEI um pouco longe de casa, já que pagar uma escolinha particular estava fora de questão.
Logo depois, íamos para a escola. Quando chegávamos de tarde, o prego nem almoçava direito e já estava saindo de casa novamente para procurar um emprego. Pegava Mia exatamente no horário e voltava para onde estava morando comigo.
Quando eu achava que ele ia deitar e dormir, não. Ele já enfiava a cara nos livros, fazendo muitas anotações em diversos papéis nos seus cadernos de resumo. Eu, sem querer, acabava me sentindo um pouco irritado, mas até motivado pelo seu ritmo do dia-a-dia.
Apesar de sistemático, ele era bastante dedicado. Ajudava nas tarefas de casa no tempo livre que tinha e ainda cuidava da irmã. Nessa última tarefa, eu tinha me mostrado muito útil, já que havia tomado um grande chamego por ela.
Mia também havia criado um grande carinho por mim e sempre queria me acompanhar nas diversas coisas que eu fazia, inclusive na terapia. Sim, terapia. O que aconteceu foi que Grey contou nosso trato para minha mãe e no mesmo dia ela marcou as sessões com meu psicólogo.
Eu não queria admitir que tudo que estava acontecendo na minha vida não me dava tempo para surtar novamente e, sim, tinha me dado a chance de progredir e superar meus traumas. Eu nunca estaria 100%, era um trabalho constante de uma vida inteira, mas tudo isso me dava a possibilidade de viver do jeito certo e ser feliz.
No final de tudo, o fato de Grey e Mia morarem na minha casa fez com que nossa vida entrasse na linha. Todos nós, incluindo meus pais, conseguimos arrumar as pontas soltas das nossas vidas. E minha mãe, principalmente, ficava muito feliz com a presença de uma criança na casa.
Mas muitas coisas ainda me incomodavam. E nem era o fato de que, em uma semana e meia, tudo isso tinha acontecido. Eram as particularidades do dia-a-dia. Como quando alguns dias depois de termos feito sexo, Grey virou pra mim e me encarou sério.
— Olha só, meus pais não podem saber que estamos aqui. Então não quero que ninguém fique sabendo.
Era um aviso para que eu ficasse calado. Óbvio que eu não pretendia sair contando para todo mundo, mas ‘ninguém’ era um exagero. Eu ia, com certeza, contar para os meus amigos. Não que eu tivesse dito isso para ele, apenas respondi um ‘beleza, mermão, já é’.
E ele claramente não ficou muito feliz com as gírias.
E, nesse tempo que tinha passado, não tínhamos feito mais nada que envolvesse sexo. Apenas uns beijos aqui e ali, roubados por mim, claro. E eu tinha passado a reparar mais nele, na tatuagem de dragão nas pernas depiladas, no piercing preto na língua, na pele branquinha.
Ele conseguia ser bonito pra porra. Deus.
E era o que eu estava reparando no meio da aula de Matemática que tínhamos no meio da semana. Eu já sabia aquela matéria (Grey havia feito questão de me fazer estudar direitinho) e gastava aquele tempo para observar sua cara concentrada.
Levei uns tapas na cabeça de Art, que ainda sentava perto de mim.
— Achei que tivessem passado da fase do one-sided love, brother.
— Ah, porra, vai se foder.
E virei meu rosto para frente, me esforçando para prestar atenção na matéria. Quando o sinal do intervalo tocou, juntei minhas coisas que estavam espalhadas e procurei com os olhos o moreno. Ele não estava lá no lugar de costume.
Levantei depois de recusar o convite dos meninos de lanchar no refeitório e fui procurar o prego. Me senti em um déjà-vu quando não o encontrei em lugar nenhum. Tive a mesma ideia de ir procurar aquele nerd na parte de trás da escola, onde ficavam os banheiros e o galpão.
E ele estava lá, mas não estava sozinho.
Dênis, o maluco insuportável, falava alguma coisa com ele. E aí estava provado a minha teoria de que eles realmente se conheciam. Como eu não era um cara bobo nem nada, me escondi em um lugarzinho que desse para ouvir o que eles estavam conversando.
— Eu nunca vou te perdoar! Você, com essa sua opção sexual, é nojento. E eu vou repetir aquela parada do início do ano quantas vezes for preciso para me vingar de você e te fazer sofrer.
Fiquei estático. Que história era essa?
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