Oasis
6 Charmes de Ruivo
Notas iniciais
Era segunda novamente e eu praguejava mentalmente por causa da baita dor de cabeça que sentia. Tudo por causa de uma ressaca desgraçada.
Havia passado o final de semana praticamente fora de casa. Apenas lembro-me de acordar no domingo de tarde, com a loira em cima de mim, totalmente nu. Mais tarde, fui perceber que estava na casa do dono da festa, que acabou se estendendo até o sábado de madrugada.
A menina teve a cara de pau de me deixar todo marcado. Suspirei. Tinha me engraçado com uma possessiva.
Alice levantou, arrumou-se e veio em minha direção, sentando-se em cima de mim e escrevendo com uma caneta seu número no meu peito desnudo enquanto eu só tentava entender o que estava fazendo ali ainda.
Nem me perguntem, era verdade que eu não tinha o número dela, porra! Pra quê? Nosso lance era ocasional e só. Apenas acontecia quando eu a via em alguma festa.
Porém, mesmo depois de tudo, ainda saí com meu amigo do futebol. Nem lembro pra onde fomos, sei que fiquei chapado e caí morto na minha cama macia.
Enquanto eu estou aqui, sentado na carteira da escola e mortinho pela ressaca, o idiota do Caio estava todo feliz e saltitante. Pelo amor de Deus, ele tinha saído comigo e feito as mesmas coisas que eu, como aguentava ficar todo enérgico logo pela manhã de segunda-feira?
Repousei minha cabeça na mesa, suspirando frustrado e meio dolorido. Ouvi a porta da sala abrindo mais uma vez.
– Hoje temos uma aluna nova – Disse o professor enquanto entrava na sala com uma morena dos olhos azuis em seu encalço.
Porra! Como eu esqueci de mencionar essa garota com um sorriso sacana e um olhar superior?
– Oi, eu sou a Iris, prazer em conhe... AH! – Foi interrompida e gritou animada quando seu olhar caiu sobre mim.
Só tive tempo de ver o professor rolar os olhos, pois já tinha passado por uma cena parecida alguns dias atrás (comigo, por sinal), antes de perceber que aquela doida corria na minha direção.
Suspirei quando ela parou ao lado do garoto de aparelho que sentava na minha frente e deu seu sorriso mais amável.
– O que foi? – Perguntou o garoto.
– Posso sentar aqui, querido? – Indagou com uma voz doce.
– Não.
Ela lhe mandou o seu olhar mais mortal e começou a estralar os dedos, como se estivesse pronta pra socar alguma coisa e eu sabia que ela era ótima nisso.
– Ou você sai daqui ou perde um dente – Ameaçou com um sorriso psicótico e uma voz amigável, que não era refletida na sua escolha de palavras.
E quem é essa doida? Simples, minha melhor amiga.
Calma, não é como se eu tivesse me esquecido dela, mas Iris havia passado um tempo sem nenhum tipo de contato com o mundo exterior desde que se enfurnou junto com os pais em uma fazenda que não tinha nem sinal de telefone! E isso desde dezembro!
O menino apenas abaixou sua cabeça, recolheu suas coisas e foi sentar em outro lugar. A morena sentou-se na minha frente e virou-se, sorrindo pra mim e ignorando o professor que queria começar a aula.
– Meu amor, que saudade! – Apertou minhas bochechas.
E isso porque ela sabe que eu odeio!
– Oi princesa – Era esse o meu apelido pra ela – O que você está fazendo aqui?
Afinal, ela iria continuar na outra escola, pelo menos eu achava.
Senti um calafrio e, pelo canto do olho, pude perceber que Grey me observava. Hum, esse era um ótimo momento pra Iris aparecer.
– Não teria graça sem você, na outra escola – Deu de ombros.
– Acredito em você sim – Ironizei com um sorriso no rosto.
Sentia falta dessa maluca.
– Ei! Você dois! Eu tenho que dar aula! Se quiserem conversar, vão fazer isso na sala do diretor – Esbravejou o professor.
Paramos de conversar e a matéria nova começou a ser explicada. Porém, naquele momento, eu não estava com saco pra isso. Sabe, ainda estava com ressaca aqui!
Minha história com Iris não vinha de hoje. Éramos amigos desde os dez anos. Ela sabe de tudo sobre mim, tudo mesmo, até meus segredos e pensamentos mais profundos. Coisas que gostaria de guardar pra mim e esconder de todo mundo.
Tudo isso, ela sabe e entende.
Na época, todas as crianças da sala estavam fazendo brincadeiras de desafio ou algo assim, apenas me lembro que desafiaram que eu a beijasse e foi o que eu fiz. Continuamos com isso por um tempo.
Não mentiria se dissesse que perdi minha virgindade com ela e vice-versa.
Acontece que a garota sempre acreditou no amor, ao contrário de mim. E quando viu que não daríamos nada, que nossa relação era mais amizade do que tudo, viramos melhores amigos e nunca mais nos separamos desde então.
Ela era algo como uma irmã pra mim, acompanhou a maior parte da minha vida e todas as minhas burradas.
O sinal tocou, mas eu estava imerso em lembranças e pensamentos. Só percebi quando senti um peso em minhas pernas. Era ela. Tinha arredado a mesa pra frente e arrumado um jeito de sentar no meu colo, virada de frente pra mim.
– Que cara é essa? – Deu um beijo na minha bochecha – 'Tá apaixonado, ruivo?
Escorria ironia de suas palavras e eu sorri sarcástico.
– Eu amo só você, sabe... Não fica com ciúmes.
– Ah, tá bom sim... – Respondeu sorrindo e iria continuar tagarelando se algo não tivesse chamado sua atenção – Gato, me fala, quem é o gótico ali? Bem gostosinho, não acha?
Olhei para a direção aonde seu olhar estava pousado e sorri maldosamente. Era Grey, que nos fitou inexpressivo quando percebeu que tinha chamado nossa atenção.
Logo depois, pude ver uma lâmpada acender em cima de sua cabeça e o moreno me olhou com um sorriso sacana.
Eu sabia o que aquilo significava e arqueei as sobrancelhas, desafiando-o. Não tinha mais ninguém na sala. Isso era bom pra mim.
Apertei minha amiga contra meu corpo e levei meus lábios ao seu pescoço, raspando ali bem devagar, enquanto olhava pra ele. Vi que o garoto mexia na mochila, parecendo procurar algo. Era um pirulito.
Que droga era aquela?
Vi quando desembrulhou a embalagem devagar, com os dentes, e estendeu a língua pra fora. Ele tinha um piercing preto ali e isso já era sacanagem. Foi pior ainda quando via ele lamber aquilo devagar, fazendo movimentos ousados com a língua enquanto me encarava com um olhar que considerei muito safado.
Um arrepio passou pela minha espinha e eu fiquei tipo: "Merda". Por quê meu corpo estava reagindo aquilo? Sabe, eu não sou gay, mas acho que vou rever os meus conceitos sobre ser "greysexual".
Aquele piercing esbarrava no doce e tudo era muito sexy. Voltei ao que fazia, não podia ficar olhando. O desgraçado sabia como me provocar.
Virei-me para Iris, que me olhava totalmente curiosa. Apertei suas coxas roliças e bem gostosas. Aquela ali tinha um belo par de pernas, devo dizer. Fiquei acariciando ali enquanto ainda brincava com seu pescoço e ainda tinha meu olhar preso ao garoto.
Grey colocou as pernas na mesa, um pouco abertas e passou uma mão pelo cabelo enquanto ainda brincava com aquele pirulito vermelho. Pude ver que usava um All Star preto, meio rasgado e de cano longo.
Infelizmente, com esse movimento, um pouco da camisa dele subiu e pude ver um pedaço da pele branca da barriga, junto com um pedaço da cueca negra.
Não sei se conseguia aguentar. Meu corpo estava começando a esquentar e isso era confuso, até porque sabia o que aquilo significava e nunca senti esse tipo de coisa por homens.
Suspirei e desisti daquilo. Porra, como eu tinha perdido? Não admitia isso. Queria até continuar, mas não podia ficar excitado agora. Eu não tinha como me aliviar ali. Dei um beijinho na ponta da orelha da minha melhor amiga e abracei-a fortemente.
– Logan – Ela me afastou – Por quanto tempo 'tive fora?
– Oi? – Não entendi.
– Porra, não me venha com "oi" – Deu um tapinha na minha testa – Você e aquele ali estão se provocando!
– É... – Fui começar a falar, mas ela colocou seu dedo indicador nos meus lábios.
– Que eu saiba você não curte garotos – Sorriu meio irônica e provocadora – Apesar de ele parecer uma delícia – Lambeu os lábios.
– Aff. Que despudoramento é esse? – Fingi incredulidade.
– Eu sou assim – Deu de ombros – Mas você não sai por aí provocando garotinhos – Ficou séria, como se tivesse perdido uma parte muito importante da minha vida e isso a incomodasse.
– Não gosto de homens, 'tá? É só que ele me tirou do sério.
– Você é um puto mesmo – Deu um risinho – Mas não fica fazendo isso. Não é certo usar as pessoas pra provocar ele.
– Não estou te usando – Fiz um bico manhoso.
– É sério! Idiota. Nunca te vi se esforçar assim.
– Nada a ver – Balancei os ombros em descaso – Não sei o que está tentando sugerir.
– Talvez a paixão tenha batido na sua porta – Sussurrou irônica no meu ouvido – E você está perdendo a masculinidade, querido.
– Quer que eu te moste minha masculinidade? – Sorri malicioso e comecei a lamber e chupar a curva de seu pescoço enquanto a apertava contra meu corpo – Se bem que já um tempo que nós dois... Sabe – Brinquei e levei um soco no ombro.
– Seu idiota. Acha que vou ceder aos seus charmes de ruivo?
Dei uma risadinhas.
– Okay – Suspirei – Não acredito nessas coisas de amor, então isso é impossível. 'Tá bom pra você?
– Não sei não, ehm... Mas me conta tudo!
E lá fui eu, igual a uma tiazinha velha que faz fofoca sobre tudo do bairro. Contei pra Iris tudo, nos mínimos detalhes que eu me lembrava. Parei para observar o moreno algumas vezes, sentado lá no fundo enquanto lia algum livro qualquer.
Sua paixão pela leitura era evidente.
Mas nem ao menos recebi uma retribuição da minha atenção. Ele nem mesmo me olhava, mesmo sabendo que eu estava encarando-o vez ou outra. E fazer isso só chamava a atenção de Iris, o que eu menos queria nesse momento.
Tudo culpa de ser curioso demais. Ainda não conseguia esquecer o fato de que não sabia nada sobre o dia em que o levei para o hospital ou o quanto queria saber mais sobre aquela criatura. O que era estranho pra mim.
Nunca dei tanta atenção a alguém assim.
Logo vi o professor entrar na sala e começar a falar algumas coisas que eu não prestava a atenção, pois estava morrendo de sono. Minha cabeça ainda queimava e... Espera, ouvi meu nome?
– Logan! – Disse o professor em tom de impaciência.
– Sim senhor – Sorri.
– Preste atenção na aula! – Sério? Era só isso? – Como eu estava dizendo, vamos ter um trabalho em dupla com relação a matéria explicada nessa última semana.
– Pode ser três pessoas? – Alguém disse.
Caralho, sempre tinha alguém pra perguntar isso!
– A palavra "dupla" é necessário para responder a sua pergunta – Falou impaciente.
Sério, eu odiava esse professor tanto quanto ele me odiava.
Era um gordo, velho e barbudo com uma carranca como se tudo fosse ruim no mundo. Era o professor de biologia do terceiro ano. Porém, apesar de tudo, explicava a matéria muito bem.
– Podemos escolher? – Mais alguém perguntou.
– Será sorteio. Art, escreva os nomes dos alunos em pedaços de papel e traga aqui pra mim.
– Tudo bem.
Logo o loirinho, que por acaso havia me trocado pra ficar com a tal da Jane (não que eu não fizesse isso muitas vezes quando havia uma gostosa dando sopa por aí), entregou o que havia sido pedido e o professor começou a tirar os nomes.
– Primeira dupla: Art e Iris – Ri bastante internamente. Esses dois seriam uma ótima dupla. O professor continuou tirando, até que restasse quatro papéis – Caio e Eric, Logan e Grey. O trabalho é pra semana que vem. Qualquer atraso ou erro e a nota será nula. Podem sair.
O QUE?
'Pera! Para tudo! Esse cara aí disse que eu tenho que fazer trabalho com esse cabeça dura? Imaginem ter que discutir como e o que fazer em algo assim com alguém que nem ele? Isso não daria certo. Suspirei. Porém... Até que parecia um pouco interessante.
Sorri maliciosamente com os pensamentos que me vieram a mente enquanto arrumava meus materiais para sair dali. Senti um toque no meu ombro e percebi que era Grey, com aquela inexpressão que era característica dele.
– Na sua casa, sexta-feira depois da aula.
– O que? – Indaguei sem entender.
– Você é surdo? – Repetiu a mesma frase que havia feito a ele há um tempo, seguido de um sorriso irônico e amargo.
– Ah, você é muito chato, cara – Dei um sorriso sem graça e amarelo.
– Olha, isso é novidade – Ironizou.
Sério, mesmo se eu acreditasse em amor, nunca me apaixonaria por esse cara! Sempre que estamos perto, provocamos um ao outro e só. Isso não é normal.
Apesar, de que gosto disso. Provoca-lo é ótimo e satisfatório.
Vi que Iris vinha em nossa direção, depois de voltar da mesa do professor. Senti que viria merda por aí. Não tive tempo de fazer nada antes dela parar ao lado do moreno com um sorriso muito malicioso.
– Oi gostosinho – Disse encarando Grey.
É sério que ela não ouviu nada que eu disse sobre ele? O cara fez o que sempre fazia, ignorou. Logo senti que minha amiga se abraçava fortemente a mim.
– O que eu te disse? – Cochichei em seu ouvido.
– Lolo – Droga de apelido! – Esse menino é muito gostoso mesmo. Você viu a bundinha dele? Meu Deus! Pena que é mal educado, mas acho que só alguém assim pra te domar, garanhão.
Merda, porque ela tinha que falar essas coisas tão alto? Vi o olhar mortal do menino em minha direção.
– Não entendo porque quer me jogar pra um macho – Resmunguei.
– Só não quero que fique aí se enganando – Deu de ombros enquanto soltava-se de mim e ia em direção a ele.
Rezei mentalmente. Não faz nada mulher! Lucifinho no inferno está te chamando de volta antes que faça algo que me custe os dentes!
Pena que com uma amiga como ela, nem simpatia e macumba adianta.
Vi quando Iris chegou perto, analisando-o. O moreno continuava com aquela postura de "foda-se vocês, meros humanos", até que minha amiga ficou quase colada ao corpo alheio e levou a mão até a bunda dele, dando uma apertada bem generosa, só pra logo depois dar um beijo na bochecha branquinha.
Viu? É isso que dá ter uma amiga que veio do inferno! Agora sou um homem morto, a julgar pelo modo como Grey está me olhando.
– Não disse? É uma delícia mesmo! Muito boa de apertar – Sorriu maliciosa, mais uma vez.
– Logan, vou te matar – Disse raivosamente.
Olha, é a primeira vez que ele chama meu nome. Nossa, que mágico.
– A mulher não é minha. Tchau, gostosinho – Ri enquanto mandava um beijinho provocador e saía correndo pra fora da sala, antes que ele tomasse alguma atitude e viesse pra cima de mim.
É impressão minha ou ele está sendo mais sociável?
Por que estou pensando nisso também? Droga! Falta de sexo mesmo! Acho que vou ligar para aquela loirinha hoje à noite.
O ruim era que tinha uma outra coisa que não saía da minha cabeça.
"Não quero que fique aí se enganando"
Até parece! Tudo que eu sinto por ele é curiosidade. Somente.
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