Oasis
9 Acho que vou tirar sua primeira vez
Notas iniciais
Senti uma dor incômoda e nem precisei raciocinar direito para saber o que era. É claro que aquele idiota tinha feito o favor de me chutar da cama, pela segunda vez. Suspirei enquanto coçava os olhos pelo sono e encarava mortalmente aquele maldito que estava sentado na cama, agarrado ao cobertor como se estivesse nu ali.
– Não precisava disso – Resmunguei ainda meio adormecido.
– Claro que precisava. Não queria um puto que nem você na mesma cama que eu nem mais um segundo – Surtou com uma voz desgostosa – E fala mais baixo, caralho. Minha cabeça vai explodir.
O garoto segurava a cabeça nas mãos enquanto tinha os olhos semi-cerrados por causa da luz que entrava por uma fresta da cortina que estava entreaberta.
– Estou falando normalmente. A culpa é sua por ser tão fraco – Dei de ombros e sentei-me na beirada do colchão, espreguiçando-me.
– Tanto faz. Só vou embora desse lugar – Apesar de falar isso, deitou-se novamente e cobriu-se inteiramente com o lençol.
– Vai voltar a dormir? Posso fazer companhia? – Perguntei com um sorriso sacana.
– Se encostar em mim, eu te mato – Rosnou.
Só por isso, puxei o pano de cima dele e imobilizei-o embaixo de mim, olhando divertido para sua expressão furiosa, mas sonolenta.
– Tenta me matar agora – Inclinei minha cabeça, sussurrando provocantemente rouco em sua orelha.
Antes que pudesse tomar uma atitude, ouvi a porta ser aberta rapidamente, só pra logo depois Art, Iris e minha linda mãe entrarem no quarto, todos com um sorrisinho malicioso por causa da cena constrangedora (pro russo, não pra mim) que tinham flagrado.
– Pelo visto a coisa 'tá boa – Constatou Art.
Passei a mão pelo cabelo e saí debaixo do menor, sentando-me comportadamente enquanto sorria amarelo para a dona Carolina.
– Que bom que o casalzinho do ano acordou! Temos planos – Iris disse completamente animada.
Lá vinha merda.
– Estou de folga hoje, então resolvi chamar vocês pra sairmos – Disse minha genitora.
Ou não.
Ou sim. Não sei ao certo. Quando estamos com Carolina, qualquer coisa pode ser esperada.
– Eu já estou indo embora, então... – Grey levantou-se da cama, calçando os tênis que estavam jogados pelo quarto.
– Ah, mas não vai! Pelo que soube pelos vizinhos – Malditos fofoqueiros – Teve uma certa gritaria ontem a noite... Acho que vai ter que ficar para recompensar.
Tinha esquecido de quem eu tinha puxado meu lado chantagista. Era da minha mãe mesmo.
Vi quando o moreno fechou ainda mais a cara, insatisfeito com tudo isso. Porém, ele parou o que fazia na hora e veio se sentar na cama, bem longe de mim.
– Então, o que vamos fazer? – Indaguei desconfiado.
– Se arrumem aí e desçam. Vocês vão ver quando chegarmos – Ela foi saindo do quarto, mas parou na porta, como se tivesse se lembrado de algo – Logan, tudo bem em trazer seu namorado, mas não quero saber dos vizinhos reclamando por causa do barulho, ouviu?
A maldita estava falando com um olhar sério, mas tinha um diabo de um sorrisinho provocativo. Vejamos, acho que puxei muita coisa dessa mulher.
E da onde ela tirou essa história de namorado?
– Ele não é meu namorado – Falei com descaso.
– Então por que estavam dormindo juntos e sozinhos aqui?
– Ele 'tava bêbado e...
– Eu nunca namoraria esse daí, deixo claro – Interrompeu-me.
– 'Tá, 'tá bom – Ela deu um risinho e saiu dali juntamente com meus dois amigos.
Levantei-me e fui até o meu quarto, sendo seguido por um moreno contariado e irritado. Vasculhei meu guarda-roupa atrás de algo que fosse leve, peguei uma toalha e fui até o banheiro que havia no cômodo, não sem antes avisar Grey que poderia pegar qualquer roupa ali pra usar.
Quando terminei minha higiene, saí dali já vestido com uma bermuda negra e sem camisa. Estava quente demais naquele dia. Vi os olhos do russo crescer quando viu meu corpo e sorri maliciosamente.
– Gosta do que vê? – Provoquei com as sobrancelhas arqueadas enquanto secava o cabelo.
– Nem fodendo – Pegou uma toalha em cima da cama juntamente com o resto que seria necessário e passou para o outro cômodo, esbarrando em mim com força propositalmente.
Ele era uma pessoa tão fácil de se lidar.
Vesti uma regata vermelha larga com algumas coisas escritas, não prestei atenção e desci para o andar inferior, querendo tomar um bom café da manhã. Podia não parecer, mas minha cabeça doía infernalmente naquele momento.
Enquanto me alimentava e trocava provocações com Art, um moreno emburrado entrou em cena. Usava uma bermuda jeans escura com um cinto, já que ficava um pouco larga na cintura, e uma camiseta branca com corte em v.
Dava uma sensação meio esquisita quando pensava que o idiota ali estava com minhas roupas. Deixando seu cheiro ali. Tocando sua pele...
Também tinha usado meu shampoo, meu sabonete... Ficando com minha marca, meu cheiro em si...
Voltei o olhar para o achocolado que tomava e coçei a parte de trás da cabeça, incomodado com aqueles pensamentos.
– Não me sinto bem em usar suas coisas – Resmungou o menino assim que se sentou na mesa.
– Se acostuma, querido – Frisei o apelido, sem ao menos fita-lo.
Assim que terminamos ali, trancamos a casa e entramos dentro do carro. Não fazia a mínima ideia de onde a maluca da minha mãe queria nos levar. Podia esperar qualquer coisa dela.
Conversamos o caminho inteiro. E quando eu digo "conversamos", quero dizer que eu, Art e Iris ficamos falando besteiras enquanto Grey olhava a paisagem que passava pela janela, completamente calado.
Não pensem que por ele estar aqui, que ficou mais sociável ou coisa assim, porque, definitivamente, isso NÃO é verdade.
Quando passou uns trinta ou quarenta minutos, o carro parou em um estacionamento gigante e eu já sabia onde estávamos. Sim, depois de 17 anos de vida, a minha mãe resolve nos trazer em um parque de diversões!
Voltamos a ter sete anos?
É claro que não é como se eu não gostasse daquele lugar. Mas, meu Deus, deveria ser umas onze horas da manhã, de um sábado, e era ali que a mulher nos levava?
Fiquei surpreso quando fitei o rosto do moreno, segundos depois de termos entrado. Estava com um brilho nos olhos que, inutilmente, tentava disfarçar. Não vai me dizer que nunca esteve em um parque?
– Quê isso... Aqui continua igualzinho, Logan – Iris estava com uma ponta de nostalgia na voz e sorria – A última vez que viemos aqui... Devíamos ter uns quatorze anos.
– Realmente – Concordei, mas ria internamente com as lembranças daquele dia.
Até brigar com uns dos carinhas fantasiados, ela brigou. Só não colocou fogo em nada porque eu impedi antes que acontecesse.
Iris e parque era uma combinação altamente explosiva.
– A última vez que vim... Devia ter uns oito anos e não foi nada legal – Riu o loiro.
– E você, gostosinho, quando veio pela última vez? – Perguntou a menina animada, mas foi ignorada – Vai começar com essa brincadeirinha de mudo de novo? – Choramingou.
O idiota deu de ombros e minha mãe sorriu ternamente para o menor. Queria entender como, em um dia apenas, ela tinha tomado um carinho tão grande por ele.
– Conta pra gente, Grey – Pediu Carolina.
– Eu nunca vim – Sempre inexpressivo.
Sabia.
– Não acredito! – Exclamou a minha melhor amiga surpresa.
O que será que era a vida desse garoto para NUNCA vir em um parque? Moramos em uma cidade grande, meu bom Jesus!
– Nunca vim, só isso. Não é grande coisa...
– Tudo bem, então! Vamos aproveitar, já que é sua primeira vez – Sorriu minha genitora.
Um pensamento me veio a cabeça e abri a minha expressão mais safada, chegando perto de Grey e colando meus lábios ao seu ouvido.
– Hm, então acho que vou tirar a sua primeira vez – Disse fazendo alusão ao sexo – Mas espero que não seja a única primeira vez que eu tire de você – Usei meu tom mais provocante.
A resposta que ele me deu, vocês já devem imaginar. Se pensaram "cotovelada nas costelas", acertaram e ganharam na roda do milhão. Parabéns.
Começamos a andar por aquele local tão colorido e cheio de vida. Tinha muitas crianças por ali, correndo de um lado para o outro com expressões carregadas de felicidade no rosto. Decidimos ir no carrinho bate-bate e toda a raiva que o Ivanovich sentia por mim foi descontada no meu carrinho.
A cada segundo ele fazia questão de me irritar, chocando-se contra mim. E era engraçado vê-lo ali, já que seus olhos brilhavam, mas sua expressão continuava fechada. Ou melhor, não tinha expressão nenhuma.
Até minha mãe juntou-se a nós nos brinquedos. A mulher mal parecia carregar a idade que tinha e eu me sentia bem em vê-la sempre feliz.
Mas tudo ficou ruim pro meu lado, simplesmente porque esse bando de idiotas inventou que queriam ir naquelas mansões do terror. Aquela coisa mal-assombrada que todo mundo curte não sei porque.
Recusei na hora. Fiz de tudo para esperar bonitinho do lado de fora enquanto eles se mijavam nas calças, mas quem disse que eu pude? Fui arrastado pra lá.
Se quer saber, machuca meu orgulho masculino dizer, mas... Gritei que nem uma louca, uma menininha assustada, e ainda tive que suportar os olhares superiores que Grey lançava-me.
Desgraçado.
Eu tenho um medo da porra dessas coisas! Eles só podiam estar planejando meu assassinato e alegarem que foi parada cardíaca. Não que eu fosse admitir que eu tinha medo em voz alta. Tenho meu orgulho como homem! Apesar de ter perdido parte dele com aqueles meus gritinhos histéricos.
Rídiculo.
Simplesmente rídiculo.
Assim que saímos daquela tortura psicológica, começamos a andar procurando por um brinquedo interessante. Quando estava perto de uma daquelas mini montanha-russa, que por acaso não diverte nem crianças de cinco anos, foi quando eu vi. Meus olhos brilharam e eu parei na hora.
– Mãe, passa a grana – Falei.
– Pra quê, filhote?
– Mãe! Vou chorar de felicidade! — Disse feliz da vida. Ela me olhou confusa, como se eu tivesse ficado doido — Algodão doce, mãe!
Qual o problema em ter um amor incondicional por algodão doce?
Paguei pelo doce logo que ela me estendeu o dinheiro.
– Que criança — Rebateu o moreno.
– Você quer também? —Estendi um pouco da minha nuvem rosa fofinha pra ele, que ficou com os olhos brilhando — Que pena porque não vou te dar! — Completei enquanto fazia cara de criança birrenta. Minha mãe me deu um tapa na cabeça, repreendendo-me.
– Logan Weber — Ui, o nome todo — Divide o doce com seu namorado.
– Seu namorado vai aguar, Lolo — Iris disse. Agora era "Lolo", não é vadia?
Respirei fundo algumas vezes antes de tentar responder.
Porque minha MÃE e MELHOR AMIGA ficavam me jogando em cima de um MACHO?
– Porra, eu sei que todo mundo naquela escola já sabe que sou gay, mas... Pelo amor de Deus. Não namoraria esse aí nem se fosse o último cara do universo e eu estivesse precisando muito de sexo — Rebateu o moreno.
Quando é pra me xingar, você vira mais soltinho, não é maldito?
– Se fosse gay, você nunca seria um opção pra mim também — Disse de mal-humor.
– Espera! Para tudo agora — Iris estava chocada — Tu é gay mesmo? Não acredito!
– Isso não me surpreendeu — Carolina deu de ombros.
– Eu já sabia, então... — O loiro falou desinteressado. Ele estava muito calado aquele dia.
– Quê que tem isso? — Voltei meu olhar a morena.
– Eu me joguei pra ele, porra! Achei que meu gaydar fosse infalível!
Grey iria responder, realmente ia responder na boa pela primeira vez, se não fosse por algo que aconteceu e interrompeu-o. Cheguei a pensar que ele estava ficando mais sociável realmente ou só mais conformado com o fato de que não vamos deixa-lo em paz, mas minha atenção foi desviada para outra coisa.
Um cara da minha altura, moreno e forte tinha esbarrado no menor e jogado-o no chão. Estava acompanhado de mais dois meninos, um pouco menores do que ele, mas igualmente fortes.
Iria deixa-lo ir normalmente, mas tive a certeza de que tinha feito de propósito quando olhou de canto de olho para o garoto e sorriu sacana. Agarrei seu ombro antes que se afastasse.
– Você fez de propósito, não foi? — Rosnei irritado.
O cara me olhou com uma falsa inocência. Tinha olhos castanhos com um brilho maldoso e uma cicatriz esbranquiçada e já curada no supercílio.
– Do que você está falando? — Sorriu.
– Você jogou ele no chão de propósito, eu vi — Esbravejei.
Aquele idiota me irritava.
Todos por perto assistiam a cena com curiosidade, como bons urubus procurando por carne fresca. Grey havia se levantado com a ajuda de Art e estava postado em pé, ao meu lado. Não pude ver sua expressão.
– Olha cara, não fiz nada. Você não pode provar, então... Se fosse você, não compraria briga comigo — Seu sorriso superior me despertava ganas de esmurrar aquele rosto.
Olhou com um olhar estranho, que não soube identificar na hora, para o garoto ao meu lado e fui obrigado a fazer o mesmo.
Nem precisei ser um gênio pra saber que tinha alguma coisa muito estranha ali. Tinha algo errado.
O moreno estava bambo, parecia fraco demais naquele momento. Cambaleou e quase caiu, se não tivesse segurado no meu ombro. Sua mão suava muito e seus olhos pareciam estar cobertos por uma névoa enquanto encarava o cara da cicatriz e apertava com força a camisa no meio do peito.
Parecia sentir dor. Seu cabelo estava começando a grudar na testa pelo suor. Estava com o rosto mais vermelho, como eu jamais tinha visto. Os músculos do corpo contraídos e tensos.
Não aguentou ficar de pé e seu corpo cedeu, indo de encontro ao chão enquanto respirava muito rápido, como se precisasse de muito ar ou o mesmo não chegava aos seus pulmões.
Em um lapso, saquei o que estava acontecendo e fiquei preocupado.
Por que, droga, ele estava tendo um ataque de pânico naquele momento?
E hiperventilando!
Olhei de esguelha para o garoto que tinha esbarrado nele e senti raiva quando percebi que o mesmo ainda sorria. Queria ir lá e soca-lo até estar satisfeito, mesmo não sabendo se ele tinha culpa de alguma coisa, mas tinha outra prioridade naquele momento.
– Mãe! A chave do carro — Gritei e ela me entregou, meio trêmula.
Ajoelhei-me perto do russo e consegui, de alguma forma, pega-lo no colo. Sentia seu corpo tremer compulsivamente. Segundos depois, corria rapidamente para o veículo em que viemos, querendo o máximo possível de silêncio e privacidade.
Eu sabia o que fazer nesses casos. Amava medicina e psicologia. Lia muito sobre o assunto e aquilo estava sendo extramamente útil naquele momento.
Lembro de ver uma vez que o ataque de pânico podia ser causado por drogas, algumas doenças e histórico de trauma emocional, mas não o conhecia bem o suficiente para ter certeza de qual seria a opção certa.
O objetivo era parar o ataque e pra isso eu tinha que acalma-lo, restaurar seu estado emocional, diminuir a quantidade de oxigênio que ele estava ingerindo muito mais do que o normal e aumentar a quantidade de dióxido de carbono que tinha sido eliminado do corpo dele pela hiperventilação.
A questão é que a pessoa que está tendo um ataque de pânico sofre de uma ansiedade extrema. Além disso, eles tem medo de morrer, tem medo das próprias emoções e de enlouquecer.
Entrei dentro do carro, sentando-me na parte traseira com ele no meu colo, sentado de frente pra mim, com a cabeça apoiada no meu ombro.
Passei a brincar com seus cabelos enquanto fazia carinhos em suas costas, esfregando e fazendo movimentos circulares. Tudo bem devagar para não assusta-lo.
Era a primeira vez que eu fazia isso. Não só tratar de um ataque como ser tão carinhoso assim.
– 'Tá tudo bem, Grey — Sussurrava no ouvido dele — Estamos só eu e você aqui — Apertei-o mais contra meu corpo para mostrar que estava ali — Ninguém pode te machucar. Não tem mais ninguém aqui.
Beijei o topo da sua cabeça.
Não sei de onde me saiu tanto carinho e cuidado, como se ele fosse um boneco prestes a se quebrar. Como se fosse de vidro, então lá estava eu, até com medo de toca-lo muito bruscamente.
O garoto precisava. Não é como se fosse algo demais...
Não é como se ele fosse algo mais do que realmente era... Um amigo? Não sei.
Percebi que ele ainda respirava aceleradamente, apesar de ter se acalmado um pouco. Estendi o braço para um compartimento atrás do banco do motorista e procurei por um saco de papel que sempre ficava ali em casos de necessidade.
Afastei-o um pouco do meu corpo e mostrei-lhe o objeto.
– Respira aqui dentro — Pegou e começou a tentar regular a respiração — Você 'tá indo bem, muito bem — Fiz um carinho no cabelo macio.
O menino ainda respirava um pouco acelerado, mas tinha melhorado bastante. Puxei seu corpo mais para o meu, colocando a mão na sua nuca e trazendo sua cabeça para encostar-se no meu ombro.
Passei os braços pela sua cintura, abraçando-o. Sentia sua respiração em contato com minha pele, juntamente com o toque macio dos lábios. Seu cheiro natural misturado com o meu era tão bom. Senti um arrepio passando pela minha coluna e respirei fundo.
Mantenha a compostura. Parece uma cadela no cio.
Mexia em seu cabelo devagar quando vi que Art, Iris e Carolina estavam no lado de fora do carro. Usavam expressões ansiosas e preocupadas em suas faces.
Acabou que, mesmo esse cara sendo insuportável, todo mundo tinha se afeiçoado a ele.
Quando abri a porta, ainda com seu peso sobre mim, os três se aproximaram. Podia quase ver pontos de interrogação na testa de cada um. Apenas sorri.
– 'Tá tudo bem com meu filhote? — Perguntou minha mãe, aflita.
– Eu 'to bem — Tinha batido um cansaço.
– Estou falando dele — Apontei para o menino no meu colo, que tinha a respiração tão calma que denunciava seu estado adormecido.
Ah, então é assim, mãe? Está me trocando?
– Mãe! — Adverti, fazendo um biquinho contrariado. Todos riram e o clima ficou menos pesado.
– Lolo? — Chamou Iris com uma voz manhosa.
– Oi, Riri. O que foi? — Estendi uma mão e coloquei em seu ombro, como se a confortasse.
– O que aconteceu? Fiquei assustada.
– Mas primeiro! — Art exclamou — Ele 'tá bem, 'né?
– 'Tá tudo bem, só dormiu — Coçei a parte de trás da cabeça, hábito de quando estava nervoso, constrangido, ou algo assim. Fitei o moreno em cima de mim — Acho que ele teve um ataque de pânico.
Ficaram em silêncio por um tempo, como se pensassem sobre o assunto. Grey ressonava baixinho e mexia-se um pouco em seu sono.
– Tem certeza, cara? — Indagou o loiro — Porque isso é causado por traumas, não é? Que motivo teria pra acontecer justo agora?
Fiquei pensando nisso por um momento, até a face irritante daquele cara que eu nem sabia o nome vir na minha mente. Será que tinha algo a ver com ele? Acho que não.
– Não sei, mas foi isso que me pareceu.
– Ai, que tensão — Reclamou Iris, dependurando-se no pescoço do loiro aguado — Não adianta ficar aí, inventando motivos. Todo mundo sabe que ele não vai abrir a boca — Deu de ombros.
Era verdade. Maldita curiosidade.
Seria bom se tivesse um jeito de fazê-lo falar.
– Ele parece um gato — Resmunguei.
– Tudo bem que foi assustador, mas seria bom se vocês parassem de falar como se o garoto estivesse morto — Interveio minha mãe — Por agora só vamos voltar pra casa — Disse isso e empurrou os outros dois para entrarem dentro do carro.
Era incrível a capacidade da Carolina falar como se nossa casa fosse a casa dos meus amigos também. Fazer o que. Acho mesmo que ela deveria chamar era Joana.
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