ORDO DEORUM - O Legado Divino
4 Capítulo IV - Fernando
Notas iniciais
Fernando estava tendo um dia bastante normal naquela sexta-feira fria. Ele havia tomado café da manhã com o pai, tinha passeado um pouco, ido ao hospital realizar alguns exames de rotina. Até tinha dado sorte de encontrar com um velho amigo do ensino fundamental, nada fora do normal.
Exceto o fato dele ter visto um monstro ser decapitado bem na sua frente e estar dirigindo a quase cem quilômetros por hora enquanto fugia da polícia com outros cinco adolescentes.
— Eles ainda estão na nossa cola? — Ele perguntou para Luciano, que estava virado para trás no banco.
— É, eles estão.
Fernando sentiu sua espinha gelar.
— Eu sou muito jovem pra ir pra cadeia. — O garoto choramingou. — Eu não quero ir preso por sua causa, Lu. Você é bonitinho, mas o preço é alto demais.
O garoto arriscou olhar para Luciano e o viu abrir e fechar a boca algumas vezes. Fernando sentiu o sangue subir para o rosto e voltou a prestar atenção na estrada com um sorriso tímido no rosto.
— É aqui, vira a direita. — Luciano falou e ele obedeceu.
Nos próximos cinquenta metros o asfalto começou a dar lugar à terra, e logo a picape passou a rodar sobre uma estrada de chão, cercada por árvores.
— Onde você tá levando a gente?
— Confia em mim. Segue reto depois vira na esquerda.
Fernando suspirou e continuou seguindo as instruções de Luciano. Olhando pelo retrovisor ele viu que a viatura da polícia ainda estava os seguindo, mas estavam ficando para trás uma vez que o carro deles não era feito para uma estrada como aquela.
Pela primeira vez Fernando ficou feliz de seu pai ter emprestado a picape, não o carro de passeio novo.
— Erin, como vocês estão aí atrás? — Luciano perguntou, se virando para trás no banco.
— Tudo certo, Lu! A ambrósia deu conta do recado, como sempre. — Fernando ouviu a voz da menina ruiva vindo da caçamba da caminhonete.
O garoto mais uma vez se sentiu aliviado por estar dirigindo a caminhonete, “nem a pau que ia caber essa gente toda no Gol do meu pai.”
Assim que encontrou uma bifurcação na estrada, Fernando seguiu pela esquerda, assim como Luciano havia dito, e percebeu que as árvores passaram a ficar escassas. Eles estavam chegando numa região rural da cidade.
— Lu, você tem certeza que a gente tá no lugar certo? — Ele falou e olhou rapidamente na direção de Luciano.
— Eu tenho, Fê, confia. Segue reto, a gente tá quase lá.
— E os policiais?
— Nem sinal deles.
Fernando suspirou aliviado. Ao menos as chances dele ser preso haviam caído significativamente.
— É ali na direita. — Luciano apontou para a frente e Fernando olhou naquela direção, levando o carro até lá.
O moreno ficou confuso.
Na direção onde Luciano apontava estava uma propriedade diminuta em comparação com as propriedades vizinhas, onde havia apenas uma casa e um tipo de restaurante ou bar próximo à entrada. Uma placa em frente ao lugar dizia “Suvaco Seco, cachaça caseira”.
Não havia como eles se esconderem dos policiais naquele lugar.
— Não faz essa cara, só dirige.
Fernando se virou para Luciano, que o encarava e assentiu.
O garoto dirigia a picape até a entrada, quando diminuiu de velocidade.
— O que eu disse sobre só dirigir? — Luciano reclamou e pulou para o banco do motorista, espremendo Fernando contra a porta.
— Ei, espera! O que é que você vai fa— Ele não teve tempo de terminar sua pergunta, pois no mesmo instante Luciano pisou sobre o acelerador e tomou o controle do volante.
Fernando ficou atônito, observando o mais novo dirigir pelo terreno acidentado da pequena propriedade em direção à uma grande árvore.
— Lu, você vai bater! — O garoto reclamou, mas Luciano não moveu um músculo.
Nesse ponto a árvore estava a apenas alguns metros deles, e se aproximava cada vez mais rápido.
— Luciano! Você vai matar a gente! — Ele gritou, enquanto olhava na direção da árvore que devia ter quase três metros de largura. Se batessem contra seu tronco, Fernando sabia que não conseguiriam sobreviver.
Enquanto olhava para o mais novo Fernando podia jurar que viu um pequeno sorriso surgir nos lábios de Luciano.
— Eu amo essa parte! — Erin gritou atrás deles. — Uhuuu!
Fernando fechou os olhos e esperou a dor do impacto.
Alguns segundos se passaram e ele não sentia nada, apenas o carro tremendo e o corpo de Luciano ao seu lado. Foi quando o motor desligou e Erin riu que ele abriu os olhos.
A primeira coisa que Fernando percebeu foi que ele, de fato, não estava morto.
O garoto olhou para Luciano sentado ao seu lado. O rapaz tinha um sorriso pomposo no rosto e Fernando o deu um soco no ombro com toda a força que tinha, fazendo-o rir e sua mão doer.
— Nunca. Mais. Faça. Isso.
— Fica tranquilo, você tá seguro agora. — Luciano respondeu, e se virou para trás. — Todos vocês estão. Anda, vamos sair do carro.
Fernando abriu a porta e desceu da picape, sentindo suas pernas bambas tremendo.
— Precisa de ajuda? — Luciano perguntou, mas Fernando balançou a cabeça.
Erin desceu com um pulo ao seu lado e sorriu para ele.
— Legal, né? É quase um ritual nosso de iniciação com os novatos de fazer eles pensarem que vão bater na árvore. — Ela riu, depois revirou os olhos. — Como se fosse possível fazer isso, pra início de conversa.
— Que lugar é esse? — Uma outra voz feminina falou.
Fernando procurou pela dona da voz e encontrou uma menina que parecia ter a mesma idade de Erin, provavelmente algo entre quinze e quatorze anos. Seu cabelo era curto, na altura dos ombros, e ela carregava sobre o braço esquerdo um tipo de pássaro que Fernando nunca vira antes. Ela estava descendo da parte de trás da picape com a ajuda de um garoto com os braços cobertos de cicatrizes de queimadura.
— Essa é a base da Ordo. — Luciano respondeu.
— Ordo? — Fernando perguntou a ele.
— Ordo Deorum. Pô, Luciano, cê não falou nada pra ele? — O garoto com as queimaduras falou, e Fernando o viu ajudando outro rapaz a descer da picape.
— Eu tentei, mas vocês viram o que aconteceu lá no hospital, né? Acho que a distração justifica.
— O que você ia me dizer? — Ele perguntou para Luciano, que coçou a cabeça.
— É complicado, vamos devagar. Tristan, por que você não faz as apresentações? Afinal você é o melhor de nós três nisso mesmo.
Fernando se virou para o tal Tristan e o viu empinar o queixo e estufar o peito.
— Já que insiste, caro Luciano. — Tristan sorriu, confiante. — Bom, novatos, é o seguinte: Todos vocês viram aquelas criaturas que encontramos hoje, certo? Perceberam algum padrão entre elas?
— Pareciam ter saído de um livro. — Fernando ouviu uma voz nova, e se virou para o garoto loiro, que havia falado.
— Isso. Aquelas criaturas são o que chamamos de monstros, elas vivem com o único propósito de caçar. E é agora que vocês me perguntam o que elas caçam. — Tristan sorriu, gesticulando com as mãos.
— O que elas caçam? — A garota morena perguntou.
— Muito obrigado, Beatrice! Posso te chamar de Bea? Bom, vou chamar. Enfim. — Ele limpou a garganta e voltou a falar. — Aquelas criaturas caçam semideuses, que são os filhos dos deuses gregos e romanos com mortais, também conhecidos como humanos.
Fernando respirou fundo.
— Vamos dizer que eu acredite nisso, porque aquelas coisas pareciam que queriam caçar a gente? Você disse que elas só caçam esses semideuses, não humanos. — Ele perguntou.
— Não ficou óbvio? — Tristan perguntou. — Se eles estavam atrás de vocês, só pode significar que são semideuses, né!
Beatrice soltou uma risada fraca.
— Uhum, ok. — Ela riu, mas sua voz soou trêmula.
— É sério! — Erin afirmou. — Não acreditam na gente? Nós somos semideuses também, vocês viram que lutamos contra os monstros junto com vocês.
— Eu- eu acredito em vocês. — Fernando ouviu uma voz fraca falar ao seu lado, e se virou para o garoto de longos cabelos loiros.
— Sério? — Tristan perguntou, mas logo balançou a cabeça. — Quero dizer, ótimo!
— Isso não faz sentido nenhum. — Fernando balançou a cabeça.
— Nós acabamos de dirigir na direção de uma árvore a cem por hora e estamos vivos. E antes disso você ficou cara a cara com um ciclope, que virou uma gororoba de sangue dourado assim que eu o matei. Quer mesmo parar pra falar do que não faz sentido? — Luciano cruzou os braços com uma expressão séria no rosto.
Touché.
— Vamos, venham com a gente, vocês podem ir embora assim que quiserem, tá? — Erin perguntou com um sorriso.
Fernando ficou em silêncio enquanto pensava.
Aqueles adolescentes queriam que ele acreditasse que era filho de um deus? Que loucura. Fernando tinha uma mãe e um pai humanos, duas pessoas incríveis que o sempre o amaram e apoiaram. Ele havia tido uma infância feliz e normal, e sua vida nos últimos dezoito anos vinha sendo exatamente isso: normal.
Mas ele não podia ignorar o que tinha visto.
Aquele monstro, aquela coisa, parecia com um ciclope dos mitos antigos. Luciano havia matado a criatura apenas alguns metros de distância de Fernando, e logo o corpo do monstro se transformou em um tipo de gosma dourada. Ele havia visto Erin e Tristan comerem algo estranho que havia curado suas feridas, quase como se elas nunca tivessem existido.
Essas coisas eram estranhas demais para serem ignoradas.
— Fernando? — Ele ouviu seu nome ser chamado e se virou para Luciano, que o olhava. — Você me conhece, sabe que não gosto de pedir aos outros para fazerem algo por mim, mas dessa vez eu to pedindo. Fica pra conhecer o acampamento. Você pode ir embora depois e se achar que eu sou maluco pode nunca mais falar comigo, mas só dessa vez, faz isso por mim, pode ser?
Fernando sentiu borboletas no estômago.
— O que você não me pede sorrindo que eu faço chorando, Lu? — O mais velho riu. — Tudo bem, eu fico.
Ele observou enquanto Luciano abria um sorriso, algo raro, mesmo durante o ensino fundamental era difícil vê-lo sorrir daquele jeito. Fernando descobriu que gostava daquela visão.
Fale com o autor